{"id":108726,"date":"2022-05-08T00:05:24","date_gmt":"2022-05-08T03:05:24","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/conheca-as-historias-de-3-mulheres-migrantes-que-se-tornaram-maes-em-bh\/"},"modified":"2022-05-08T00:05:24","modified_gmt":"2022-05-08T03:05:24","slug":"conheca-as-historias-de-3-mulheres-migrantes-que-se-tornaram-maes-em-bh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/08\/conheca-as-historias-de-3-mulheres-migrantes-que-se-tornaram-maes-em-bh\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a as hist\u00f3rias de 3 mulheres migrantes que se tornaram m\u00e3es em BH"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p><em>A voz suave de Lynda acalanta o sono de Anna Linsay, de quase dois meses, aninhada no colo materno. Com um sorriso aberto, radioso, Cristina brinca com\u00a0 Luc\u00eda, de 2 anos, protegida do sol forte por um chapeuzinho caribenho. Mary, dona de olhos grandes e luminosos, observa Yasmin, de 7, e Clarissa, de 3, ambas se divertindo com desenhos no papel.<\/p>\n<p>Moradoras da capital e vindas de cantos diferentes do mundo por motivos diversos, as tr\u00eas mulheres migrantes encontraram aqui paz para viver, fortaleceram esperan\u00e7as, formaram fam\u00edlia. Ainda como tra\u00e7o em comum, todas deram \u00e0 luz filhas brasileiras, mais exatamente belo-horizontinas.<\/p>\n<p>Neste Dia das M\u00e3es, a haitiana Lynda Nerat, a venezuelana Cristina Carolina La Rosa Requena e a s\u00edria Mary Ghattas Thome contam sua travessia at\u00e9 Minas e agradecem pela acolhida, fator fundamental para tornar a vida menos estrangeira e mais pr\u00f3xima de uma ???p\u00e1tria m\u00e3e???.<\/p>\n<p>Tr\u00eas hist\u00f3rias, muitas culturas, longos caminhos, sotaques mesclados ao mineir\u00eas e a sobreviv\u00eancia como guia-mestra. Seria o melhor presente, no Dia das M\u00e3es, poder se sentar \u00e0 mesa, em fam\u00edlia, numa casa sem barulho de bombas, sem falta de comida e fazendo planos? A seguir, respostas, lembran\u00e7as e sentimentos. <\/p>\n<p><\/em><em><br \/><\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3>CANTO DE AGRADECIMENTO<\/h3>\n<p>???Encontrei em Belo Horizonte muita paz, alegria, amor e trabalho.??? As palavras s\u00e3o da haitiana Lynda Nerat, de 29 anos, minutos ap\u00f3s se despedir do marido e conterr\u00e2neo Wilnes Nerozil, de 34, que deixa o apartamento no Bairro Juliana, na Regi\u00e3o Norte, em dire\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o. <\/p>\n<p>???Vim para o Brasil com a vontade de estudar enfermagem. Ainda n\u00e3o foi poss\u00edvel, mas vou conseguir???, diz a mulher com determina\u00e7\u00e3o e todo carinho ao colocar, no ber\u00e7o, a filha Anna Linsay. ???Ela nasceu no dia do nosso quarto anivers\u00e1rio de casamento, 24 de mar\u00e7o.???<\/p>\n<p>Natural de Porto Pr\u00edncipe e tendo o franc\u00eas e o crioulo como idiomas, Lynda chegou h\u00e1 quatro anos e se encontra como residente com base em acolhida humanit\u00e1ria ??? desde a ocorr\u00eancia do terremoto que destruiu parte do Haiti, em 2010, o Brasil passou a receber grande n\u00famero de migrantes do pa\u00eds da Am\u00e9rica Central, inicialmente na condi\u00e7\u00e3o de refugiados. <\/p>\n<p>Um ano e cinco meses depois da chegada de Lynda, veio o marido, agora trabalhando como auxiliar de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cuidadora de idosos e desempenhando a fun\u00e7\u00e3o em servi\u00e7os gerais, Lynda gosta de cantar, e, com esse talento, participa das missas no Santu\u00e1rio Arquidiocesano S\u00e3o Jos\u00e9, mais conhecido como Igreja S\u00e3o Jos\u00e9, no Centro de BH. <\/p>\n<p>Em 20 de junho do ano passado, Dia Mundial do Refugiado, ela soltou a voz num festival on-line. Quando est\u00e1 com a filhinha no colo, como ocorreu diante da reportagem do <strong>Estado de Minas<\/strong>, na tarde de ter\u00e7a-feira, cantou uma m\u00fasica, que se resume em agradecimento, na ???l\u00edngua materna, o crioulo???.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o-agradecimento parece ecoar pela cidade, traduzindo o sentimento de Lynda Nerat: ???Vim em busca de uma vida melhor e sou muito grata a todos aqui. Nunca pensei que teria uma filha brasileirinha???. <\/p>\n<p>Em seguida, revela que o plano de viajar foi favorecido pela presen\u00e7a de parentes residentes na capital mineira e a ajuda do Servi\u00e7o Jesu\u00edta a Migrantes e Refugiados (SJMR), obra da Companhia de Jesus presente em sete estados brasileiros e 56 pa\u00edses para acompanhamento das pessoas, incluindo regulariza\u00e7\u00e3o de documentos, inclus\u00e3o na sociedade, busca de trabalho, seguran\u00e7a alimentar, aprendizagem da l\u00edngua portuguesa e outros aspectos.<\/p>\n<p>Lynda trabalhou em casa de uma fam\u00edlia no SJMR e depois no Col\u00e9gio Loyola. Ao engravidar, o que ainda n\u00e3o estava nos planos do casal, diz ter ficado impressionada com o cuidado e a aten\u00e7\u00e3o recebidos. <\/p>\n<p>???Fiquei surpresa, pois encontrei pessoas extraordin\u00e1rias. Me senti muito amada. Tenho muita sorte no Brasil. Tudo isso me deixa animada.???<\/p>\n<p>Hoje, ela pretende fazer pratos populares no seu pa\u00eds, onde se comemora o Dia das M\u00e3es no \u00faltimo domingo de maio. <\/p>\n<p>???Ent\u00e3o, posso festejar duas vezes???, brinca citando o card\u00e1pio: macarr\u00e3o ao forno, banana-da-terra frita e um refogado de chuchu com cenoura temperado com pimenta. Para a filha, ainda n\u00e3o tem planos, embora certa de que ela vai aprender ???franc\u00eas, o crioulo, ingl\u00eas e todas as outras l\u00ednguas que quiser???.<\/p>\n<p><\/p>\n<h3>A LONGA JORNADA <\/h3>\n<p>Para compreender a jornada dos migrantes (emigrantes na partida do seu pa\u00eds; imigrante na chegada \u00e0 nova terra), s\u00f3 mesmo tentando se colocar no lugar de cada um deles. <\/p>\n<p>A melhor forma de entendimento, sem d\u00favida, est\u00e1 em ouvir com aten\u00e7\u00e3o os relatos, visualizando situa\u00e7\u00f5es, mergulhando nas hist\u00f3rias. A venezuelana Cristina Carolina La Rosa Requena, de 33, percorreu uma longa rota at\u00e9 Belo Horizonte, incluindo seis dias pelo Rio Amazonas.<\/p>\n<p>Professora de inform\u00e1tica na Venezuela, analista j\u00fanior no Brasil, Cristina e o marido, Pedro Luis Salazar, deixaram a cidade de Matur\u00edn, capital do estado de Monagas, em dire\u00e7\u00e3o a Pacaraima, em Roraima, na fronteira dos dois pa\u00edses. <\/p>\n<p>Depois seguiram de Manaus (AM) a Bel\u00e9m (PA), onde ficaram por tr\u00eas meses. ???Sobrevivemos vendendo artesanato nas ruas, pulseiras principalmente. Alugamos uma casa e dorm\u00edamos num colch\u00e3o t\u00e3o cheio de \u00e1caros que tivemos problemas de pele. Foi a\u00ed que conhecemos a acolhida brasileira. Um senhor que comprava as pulseiras nos ajudou, comprou rem\u00e9dios durante dois meses???, conta a simp\u00e1tica Cristina, moradora de um apartamento no Bairro Jardim Vit\u00f3ria, na Regi\u00e3o Norte de BH, com o marido, a filha Luc\u00eda e a m\u00e3e, Renata Carolina Requena<br \/>.<br \/>???N\u00e3o est\u00e1vamos sendo perseguidos politicamente, n\u00e3o???, esclarece Carolina. ???O motivo maior foi a inseguran\u00e7a&#8230; falta de comida mesmo. Acordava \u00e0s 3h e ficava cinco horas na fila esperando o supermercado abrir. E n\u00e3o tinha quase nada l\u00e1.??? <\/p>\n<p>Ao lado, a m\u00e3e, Renata, compara dois tempos do pa\u00eds rico em petr\u00f3leo e lamenta a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica catastr\u00f3fica dos \u00faltimos anos. <\/p>\n<p>Devido \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas no pa\u00eds vizinho, ao fluxo migrat\u00f3rio crescente na dire\u00e7\u00e3o de Pacaraima (RR) e \u00e0 grave crise social, econ\u00f4mica e humanit\u00e1ria, o governo brasileiro criou uma resid\u00eancia para pa\u00edses fronteiri\u00e7os (Venezuela, Guiana e Suriname). <\/p>\n<p>O visto tem validade inicial de dois anos, com renova\u00e7\u00e3o e possibilidade de se tornar permanente.<\/p>\n<p>???Aqui encontramos tranquilidade para viver???, conta a venezuelana, cuja ideia inicial era voltar ao seu pa\u00eds ou se encontrar com familiares no Peru. <\/p>\n<p>Em Bel\u00e9m, o casal se informou sobre uma unidade do SJMR e chegou a BH h\u00e1 quatro anos ap\u00f3s outra viagem atribulada, fazendo baldea\u00e7\u00f5es, atravessando regi\u00f5es desconhecidas e ainda com as dificuldades do idioma, hoje barreira superada. <\/p>\n<p>???Se voc\u00ea est\u00e1 nessa situa\u00e7\u00e3o, precisa aprender quatro frases: obrigado; onde \u00e9 o banheiro?; tenho fome; e um copo d???\u00e1gua, por favor???, ensina, sem perder o bom humor.<\/p>\n<p>Depois de trilhar vias tortuosas e encarar incertezas, Cristina revela que, no Brasil, e especialmente em Minas, encontrou acolhimento. <\/p>\n<p>????? algo diferente, incr\u00edvel mesmo. Tudo o que vivemos, cada momento, foi um ato de Deus. E confesso que, se algu\u00e9m quiser conhecer Deus, deve viajar para o Brasil.??? <\/p>\n<p>A exemplo da haitiana Lynda, que tamb\u00e9m teve beb\u00ea no Hospital Maternidade Sofia Feldman, ela tamb\u00e9m n\u00e3o imaginava ser m\u00e3e de uma brasileirinha. <\/p>\n<p>???Minha neta adora feij\u00e3o. E n\u00e3o pode ser o que fa\u00e7o, n\u00e3o. Gosta mesmo \u00e9 do mineiro, que compramos na marmita???, diz a vov\u00f3 Renata.}<\/p>\n<p><\/p>\n<h3>DE OUTRAS TERRAS <\/h3>\n<p>No Centro da capital, moram Khaled Thome e Mary Ghattas com as filhas Yasmin, de 7, e Clarissa, de 3, ambas nascidas na Santa Casa, na regi\u00e3o hospitalar. <\/p>\n<p>H\u00e1 oito anos em BH, desde que deixou a S\u00edria, no Oriente M\u00e9dio, pa\u00eds destro\u00e7ado pela guerra civil, o casal refez a vida e j\u00e1 se naturalizou brasileiro, o que enche de alegria a mam\u00e3e, de 33 anos, nascida em Damasco, considerada a cidade mais antiga do mundo.<\/p>\n<p>???Sou mineira, uai!???, brinca Mary, que trabalhava como contabilista numa empresa grande e hoje divide o tempo, ao lado do marido, no comando das duas lojas de comida \u00e1rabe abertas no Bairro S\u00e3o Pedro e no Mercado Central. <\/p>\n<p>???Cresci no mercado de Damasco, conhecia tudo por ali. Nunca havia pensado em sair da minha terra, no m\u00e1ximo o L\u00edbano, que \u00e9 bem perto???, conta Mary, que sonha estudar gastronomia.<\/p>\n<p> Mas tudo no tempo certo, avisa. Formado em engenharia de agricultura e engenharia de alimentos na S\u00edria, Khaled, de 38, descobriu, ao chegar ao Brasil, que os certificados n\u00e3o eram v\u00e1lidos no pa\u00eds, sendo necess\u00e1rio recome\u00e7ar os estudos para se reestabelecer ??? assim, graduou-se em ci\u00eancias biol\u00f3gicas na PUC Minas.<\/p>\n<p>Na sala do apartamento, Mary conta que aprende muito com Yasmin, especialmente sobre a cultura mineira, express\u00f5es, palavras novas em portugu\u00eas.\u00a0 <\/p>\n<p>???Meu marido e eu somos fluentes em ingl\u00eas, o que ajudou na nossa chegada. Mas, no in\u00edcio, principalmente na gravidez da primeira filha, quando n\u00e3o sabia nada de portugu\u00eas, tive ajuda de muitas pessoas. Sentia vergonha, \u00e0s vezes solid\u00e3o, mas ningu\u00e9m nunca desistiu de mim.???<\/p>\n<p>Em 2017, o casal voltou \u00e0 S\u00edria para apresentar Yasmin aos av\u00f3s, tios e outros parentes: ???Ficamos l\u00e1 40 dias, mas me senti estrangeira em meu pa\u00eds. Estava tudo diferente. Em Belo Horizonte, nunca me senti assim&#8230; nem nunca me fizeram sentir estrangeira.???\u00a0 <\/p>\n<p>Embora a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o estivesse t\u00e3o desesperadora como quando emigraram, o quadro desanimava. ???J\u00e1 pensou n\u00e3o ter \u00e1gua na torneira????, pergunta, para, logo em seguida, se mostrar bem tranquila e feliz. Afinal, ainda este m\u00eas, a m\u00e3e dela, Thanaa, de 58, vai se juntar \u00e0 fam\u00edlia, em BH.<\/p>\n<p>A palavra fam\u00edlia \u00e9 pronunciada em tom de ora\u00e7\u00e3o, com entusiasmo e delicadeza, enquanto a mam\u00e3e abra\u00e7a as meninas. ???Estar nesta cidade \u00e9 um al\u00edvio, d\u00e1 tranquilidade. Somos muito gratos ao Brasil???, diz Mary. Em BH, moram os pais de Khaled, Waled e Maria, professora de l\u00edngua \u00e1rabe, e o irm\u00e3o dele, George, arquiteto e tradutor de l\u00edngua \u00e1rabe para o ingl\u00eas.<\/p>\n<p>A exemplo da fam\u00edlia Thome, migrantes e refugiados de outros pa\u00edses, como Haiti e Venezuela, recebem apoio da PUC Minas, por meio da C\u00e1tedra S\u00e9rgio Vieira de Melo, entidade da Ag\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (Acnur). O objetivo \u00e9 garantir que pessoas refugiadas e solicitantes de ref\u00fagio tenham acesso a direitos e servi\u00e7os no Brasil, oferecendo apoio ao processo de integra\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A voz suave de Lynda acalanta o sono de Anna Linsay, de quase dois meses, aninhada no colo materno. 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