{"id":109250,"date":"2022-05-08T04:05:24","date_gmt":"2022-05-08T07:05:24","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/serra-do-curral-a-historia-do-simbolo-de-bh\/"},"modified":"2022-05-08T04:05:24","modified_gmt":"2022-05-08T07:05:24","slug":"serra-do-curral-a-historia-do-simbolo-de-bh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/08\/serra-do-curral-a-historia-do-simbolo-de-bh\/","title":{"rendered":"Serra do Curral: a hist\u00f3ria do s\u00edmbolo de BH"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>E agora, Drummond? O que voc\u00ea diria? Como traduziria em palavras, sentimentos do mundo, paix\u00e3o, espanto a mais nova amea\u00e7a a pairar sobre a Serra do Curral? Uma das respostas, com a volta no tempo, pode estar no poema ???Triste horizonte???, aquele em que o mineiro de Itabira Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu, em 1976: ???Esta serra n\u00e3o tem dono. N\u00e3o mais a natureza a governa. Desfaz-se, com o min\u00e9rio, uma antiga alian\u00e7a, um rito da cidade???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Certamente, seria com olhos de tristeza e ouvidos atentos que a ex-primeira dama da Fran\u00e7a Danielle Miterrand (1924-2001) tomaria conhecimento da situa\u00e7\u00e3o que hoje horroriza os mineiros, temerosos da degrada\u00e7\u00e3o ainda maior do s\u00edmbolo de Belo Horizonte pela Taquaril Minera\u00e7\u00e3o S\/A (Tamisa), j\u00e1 com licenciamento do Conselho de Pol\u00edtica Ambiental (Copam).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Ambientalista e presidente da Funda\u00e7\u00e3o France Libert\u00e9s, madame Miterrand, que visitou BH, era defensora da Serra do Espinha\u00e7o, a cordilheira reconhecida como Reserva da Biosfera pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco) e da qual faz parte a Serra do Curral. <\/p>\n<p>???Danielle Miterrand nos ajudou a montar o dossi\u00ea com os estudos que fundamentaram o projeto enviado ao Itamaraty e, na sequ\u00eancia, \u00e0 Unesco, sendo aprovado com louvor???, revela o bi\u00f3logo S\u00e9rgio Augusto Domingues, presidente da Funda\u00e7\u00e3o de Parques Municipais e Zoobot\u00e2nica de Belo Horizonte.<\/p>\n<p><b>LEIA TAMB??M: <\/b><\/p>\n<ul>\n<li><b>Fuad sobre a Serra do Curral: &#8216;O que querem fazer \u00e9 uma monstruosidade&#8217;<\/b><\/li>\n<li><b>\u00c1rea vizinha \u00e0 da &#8220;minera\u00e7\u00e3o da disc\u00f3rdia&#8221; na Serra do Curral j\u00e1 \u00e9 escavada<\/b><\/li>\n<li><b>Secret\u00e1ria de Estado de Meio Ambiente defende explora\u00e7\u00e3o da Serra do Curral<\/b><\/li>\n<li><b>Serra do Curral \u00e9 parte da Serra do Espinha\u00e7o, patrim\u00f4nio mundial <\/b><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Todos esses cap\u00edtulos ??? e tantos outros de uma hist\u00f3ria escrita com sensibilidade, coragem, emo\u00e7\u00e3o ??? fazem parte da Serra do Curral, denominada nos prim\u00f3rdios Serra das Congonhas, tombada como paisagem cultural pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan) e conjunto paisag\u00edstico pelo Conselho Deliberativo do Patrim\u00f4nio Cultural do Munic\u00edpio de Belo Horizonte. <\/p>\n<p>???Imposs\u00edvel dissociar a Serra do Curral da capital e dos belo-horizontinos. ?? a moldura da cidade, est\u00e1 no bras\u00e3o de BH, integrada \u00e0 nossa vida por tudo o que representa como paisagem natural. De import\u00e2ncia t\u00e3o grande que, na \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o de BH, a comiss\u00e3o chefiada pelo engenheiro Aar\u00e3o Reis (1853-1936) fez estudos minuciosos sobre os aspectos biof\u00edsicos do maci\u00e7o para nortear o projeto???, diz o historiador Yuri Mello Mesquita, doutorando em hist\u00f3ria ambiental na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/p><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\n<h3>Humanidade e natureza nas origens de BH<br \/><\/h3>\n<\/div>\n<div>Nos estudos, os integrantes da Comiss\u00e3o Construtora da Nova Capital detalharam informa\u00e7\u00f5es sobre solo, nascentes, qualidade das \u00e1guas, dire\u00e7\u00e3o dos ventos, regime de chuvas, temperatura e outros fatores que interferiam no antigo Curral del-Rei, que saiu de cena para dar lugar \u00e0 capital, inaugurada em 12 de dezembro de 1897. <\/p>\n<p>???A ideia de conquista da natureza na constru\u00e7\u00e3o da nova capital de Minas incluiu o singelo arraial anterior a Belo Horizonte. Essa concep\u00e7\u00e3o esteve presente nos textos do arquiteto Alfredo Camarate (1840-1904), membro da comiss\u00e3o construtora da nova capital, que registrou suas impress\u00f5es em cr\u00f4nicas???, conta Yuri Mesquita.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;Em texto de dia 18 de julho de 1894, Camarate descreveu o pequeno arraial como ???algo pitoresco, incivilizado, com casas pobres???. Na vis\u00e3o dele, o lugarejo com ???toda esta mis\u00e9ria, que prov\u00e9m mais do abandono do que da pobreza, \u00e9 emoldurado numa vegeta\u00e7\u00e3o opulenta???.<\/div>\n<p><\/p>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0\u00a0<\/div>\n<div>Apesar dessa descri\u00e7\u00e3o, explica o historiador, as cr\u00f4nicas narram a beleza da paisagem natural da regi\u00e3o, ???que merecia ser preservada nos arquivos da municipalidade futura ou nos da Secretaria da Agricultura; n\u00e3o em fotografias em tons de cinza, mas sim em pinturas feitas por artista conhecido???. <\/p>\n<p>Caso contr\u00e1rio, ???estas belezas deixar\u00e3o de ficar arquivadas, embora deixando em seu lugar as belezas que prov\u00eam das futuras conquistas da civiliza\u00e7\u00e3o???. <\/p>\n<p>Em resumo, ???a paisagem antiga deveria ser preservada em telas art\u00edsticas que fizessem jus a suas cores e formosuras, pois, em seu lugar, outro tipo de beleza se instalaria, a civiliza\u00e7\u00e3o que conquistaria a natureza da regi\u00e3o do antigo arraial Belo Horizonte???.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<h3>Explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio na Serra do Curral come\u00e7ou a partir de 1960 <\/h3>\n<div>A Serra do Curral, dona de destaques como o Pico Belo Horizonte, n\u00e3o sofreu impactos at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960 ??? isso at\u00e9 ser criada, em 1961, a Ferro Belo Horizonte S\/A (Ferrobel), empresa criada pela lei 898\/61 para explorar min\u00e9rio de ferro na mina das Mangabeiras. <\/p>\n<p>???A Ferrobel, que deu origem \u00e0 atual Urbel, com objetivo totalmente diferente, existiu at\u00e9 1979, tr\u00eas anos antes da inaugura\u00e7\u00e3o do Parque Municipal das Mangabeiras???, diz o historiador.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na d\u00e9cada de 1970, quando Carlos Drummond de Andrade, residente no Rio de Janeiro (RJ), escreveu, em ???Triste horizonte???, que ???n\u00e3o voltarei para ver o que n\u00e3o merece ser visto???, os ventos come\u00e7avam a virar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de preserva\u00e7\u00e3o, embora sem a consci\u00eancia ambiental existente hoje. <\/p>\n<p>???Houve uma mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade contra a empresa estrangeira que atuava na serra. Era uma \u00e9poca desenvolvimentista muito forte, tempos do governo militar (1964-1985). Havia mais um desejo de explora\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio de ferro por um grupo mineiro do que por estrangeiros???, explica.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas os belo-horizontinos sentiam na pr\u00e1tica os efeitos da minera\u00e7\u00e3o. Com as detona\u00e7\u00f5es na serra, o solo tremia, apareciam rachaduras nos pr\u00e9dios e muitas eram as reclama\u00e7\u00f5es de moradores do Bairro Mangabeiras, na Regi\u00e3o Centro-Sul de BH. <\/p>\n<p>Realmente, a minera\u00e7\u00e3o afetava o cotidiano das pessoas, o que leva o historiador a refletir sobre as a\u00e7\u00f5es da Tamisa, mesmo sendo no munic\u00edpio vizinho de Nova Lima.<\/p><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???A minera\u00e7\u00e3o na Serra do Curral sempre provoca traumas na regi\u00e3o do entorno, que cresceu muito ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, com adensamento populacional e surgimento de novos bairros???, observa Yuri Mesquita, certo de que \u00e9 vital lembrar a frase ???Olhe bem as montanhas???, nome de uma exposi\u00e7\u00e3o do artista mineiro Manfredo de Souzanetto denunciando a degrada\u00e7\u00e3o do maci\u00e7o. <\/p>\n<p>???A principal avenida da capital, a Afonso Pena, termina aos p\u00e9s da Serra do Curral, come\u00e7ando no Ribeir\u00e3o Arrudas. Nossas \u00e1guas v\u00eam l\u00e1 do alto, ent\u00e3o precisamos conservar, e n\u00e3o destruir. Do contr\u00e1rio, pode ocorrer o mesmo que na Itabira de Carlos Drummond, que ficou sem o Pico do Cau\u00ea???, ressalta.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<h3>Campanha SOS Serra do Curral<br \/><\/h3>\n<div><i>Em 1996, o Estado de Minas fez uma grande campanha para mobilizar a sociedade em torno da preserva\u00e7\u00e3o do maci\u00e7o. Com o nome de ???Serra do Curral, serra viva???, o jornal publicou uma s\u00e9rie de reportagens mostrando a situa\u00e7\u00e3o do &#8220;marco geogr\u00e1fico mais importante da Regi\u00e3o Metropolitana de BH&#8221; e alertando para as consequ\u00eancias da remo\u00e7\u00e3o da cobertura vegetal da serra, da terraplenagem e dos cortes e aterros e do desmonte das rochas, os quais eram vis\u00edveis tanto do lado de Nova Lima como de Belo Horizonte, nas \u00e1reas abandonadas pela minera\u00e7\u00e3o.<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<h3><b>Lan\u00e7amento de livro<\/b><\/h3>\n<div><i>Nesta quarta-feira (11\/5), \u00e0s 19h30, o acad\u00eamico Lu\u00eds Giffoni far\u00e1 noite de aut\u00f3grafos na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1466) para o novo lan\u00e7amento do livro ???Serra do Curral??? (Cole\u00e7\u00e3o ???BH: a cidade de cada um???, da Conceito Editorial).\u00a0<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E agora, Drummond? O que voc\u00ea diria? 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