{"id":109402,"date":"2022-05-08T05:06:06","date_gmt":"2022-05-08T08:06:06","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/dia-das-maes-ex-detentas-relatam-desafios-da-maternidade-apos-prisao\/"},"modified":"2022-05-08T05:06:06","modified_gmt":"2022-05-08T08:06:06","slug":"dia-das-maes-ex-detentas-relatam-desafios-da-maternidade-apos-prisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/08\/dia-das-maes-ex-detentas-relatam-desafios-da-maternidade-apos-prisao\/","title":{"rendered":"Dia das M\u00e3es: ex-detentas relatam desafios da maternidade ap\u00f3s pris\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Este ser\u00e1 o primeiro Dia das M\u00e3es que Dandara da Silva Sousa Matos, 35 anos, passar\u00e1 longe dos cinco filhos. Ap\u00f3s ser presa no ano passado, ela est\u00e1 atualmente em uma casa de acolhimento para reabilita\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da dificuldade da ressocializa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 \u00e9 comum para ex-detentas, m\u00e3es como Dandara ainda precisam lidar diariamente com os desafios da maternidade que surgem ap\u00f3s deixarem o c\u00e1rcere.<\/p>\n<p> Dandara relembra que em outubro de 2021 foi presa por tr\u00e1fico interestadual de drogas. ?? \u00e9poca, ela chegou a ser solta, em audi\u00eancia de cust\u00f3dia, ap\u00f3s passar cinco dias detida. ???Mas j\u00e1 afetou toda a minha vida, porque meu nome est\u00e1 sujo. Agora, consta que eu passei por um pres\u00eddio, ent\u00e3o qual a confian\u00e7a que algu\u00e9m vai ter em mim para me dar um emprego????, diz.<\/p>\n<p>  ???Eu fiz aquilo num momento de desespero [financeiro], mas como sou r\u00e9 prim\u00e1ria e colaborei com a pol\u00edcia, fui liberada na audi\u00eancia de cust\u00f3dia. Mas, eu sou uma mulher negra, uso o cabelo curto, ent\u00e3o j\u00e1 existe um estigma, j\u00e1 n\u00e3o me contratam pelo f\u00edsico. Agora, \u00e9 ainda mais dif\u00edcil. Eu gostaria de ter uma nova oportunidade, porque se n\u00e3o tivermos novas chances, vamos ter o qu\u00ea????, acrescenta ela.<\/p>\n<p> Ela est\u00e1 h\u00e1 duas semanas na Casa Maria de Magdala, unidade da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental (ONG)\u00a0Salve a Si, que acolhe mulheres com depend\u00eancia qu\u00edmica. A ch\u00e1cara fica no N\u00facleo Rural Nova Bet\u00e2nia, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>  \t \t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDandara, ex-presidi\u00e1ria (1) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDandara, ex-presidi\u00e1ria (2) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDandara, ex-presidi\u00e1ria (3) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDandara, ex-presidi\u00e1ria (4) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t \t\t \t\t\t \t\t\t \t\t \t\t0 \t Uma vez que as mulheres podem receber visitas apenas no \u00faltimo domingo do m\u00eas, Dandara passar\u00e1 o Dia das M\u00e3es longe dos filhos ??? um adolescente de 16 anos, uma menina, de 10, dois g\u00eameos, de 7, e um menino de 3.<\/p>\n<p> ???Eles agora est\u00e3o com meus pais, em Samambaia Norte. Ser\u00e1 meu primeiro Dia das M\u00e3es longe deles, mas eles sabem que a m\u00e3e precisa ser cuidada, que precisa se amar primeiro para a gente ter uma fam\u00edlia unida de volta. L\u00f3gico que bate a saudade, o desespero, voc\u00ea se sente sozinha e desolada, mas \u00e9 parte do processo???, comenta.<\/p>\n<p> O processo de reabilita\u00e7\u00e3o na ONG pode durar de seis meses a um ano. Mesmo tendo ingressado na Casa Maria de Magdala h\u00e1 pouco tempo, Dandara j\u00e1 sabe o que quer fazer ao sair. ???Eu gostaria de ser jornalista. Quero terminar o EJA [Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos] e estudar jornalismo???, deseja.<\/p>\n<p> For\u00e7a dos filhos Na mesma unidade de acolhimento, outra mulher compartilha uma realidade parecida. H\u00e1 cerca de 10 anos, Denise Maria Diogo dos Reis (foto em destaque), 42, foi presa acusada de ter participado de um roubo de carro, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, e de um assalto a uma farm\u00e1cia, na Asa Sul. ???Eu estava nas drogas e sa\u00ed com tr\u00eas pessoas que tinham cometido esses crimes. Eu n\u00e3o participei, mas fui presa quando a pol\u00edcia nos pegou???, afirma.<\/p>\n<p> ???Est\u00e1vamos no carro quando a pol\u00edcia pediu para a gente parar e o motorista n\u00e3o parou. Nisso, a pol\u00edcia come\u00e7ou a atirar e eu levei um tiro nas costas. Os dois rapazes abandonaram o carro e ficou s\u00f3 eu e uma mo\u00e7a. Uma viatura que nos parou na BR me levou ao hospital. Eu fui atendida, me deram uma medica\u00e7\u00e3o, mas depois os policiais me jogaram na viatura e levaram para a delegacia. Fiquei com a bala alojada at\u00e9 hoje???, narra Denise.<\/p>\n<p> Denise diz que passou 21 dias detida. ???No dia seguinte, desci para a Colmeia [Penitenci\u00e1ria Feminina do DF]. Levou todo esse tempo para o processo chegar ao juiz. Quando chegou, fui colocada frente \u00e0 frente com as v\u00edtimas e elas falaram que eu n\u00e3o estava no crime, e eu realmente n\u00e3o participei. Acabou que, mesmo sem ter passagem, estando baleada e n\u00e3o tendo cometido o assalto, eu fui presa???, acrescenta.<\/p>\n<p> Alguns anos ap\u00f3s deixar o pres\u00eddio, Denise tornou-se m\u00e3e. Convivendo com a dificuldade de aceita\u00e7\u00e3o social por ser ex-presidi\u00e1ria e ainda tendo que criar as crian\u00e7as, ela buscou se reerguer para cuidar dos filhos ??? uma menina de 4 anos e um menino de 6 ??? e foi quando conseguiu emprego como auxiliar de cozinha.<\/p>\n<p> ???S\u00f3 que eu tive uma reca\u00edda. Eu deixava meus filhos com a minha m\u00e3e no in\u00edcio da noite e sa\u00eda para usar drogas. Chegava de madrugada, 4h, 5h da manh\u00e3. Eu n\u00e3o estava em paz com aquilo, pensava muito nos meus filhos e foi quando decidi procurar ajuda, pois vi que eles sofriam com a minha aus\u00eancia???, comenta.<\/p>\n<p> Ap\u00f3s seis meses de tratamento na Casa Maria de Magdala, Denise sente que venceu. ???Eu terminei a reabilita\u00e7\u00e3o e depois, voltei para a ONG como monitora e estou aqui h\u00e1 um ano no cargo???, comemora.<\/p>\n<p> ???O que me fez voltar para a realidade da vida foi o amor dos meus filhos por mim???, completa.<\/p>\n<p>  \t \t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDenise, ex-presidi\u00e1ria (1) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDenise, ex-presidi\u00e1ria (2) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDenise, ex-presidi\u00e1ria (3) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDenise, ex-presidi\u00e1ria (4) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tDenise, ex-presidi\u00e1ria (5) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t \t\t \t\t\t \t\t\t \t\t \t\t0 \t De acordo com a Secretaria de Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria (Seape), os pres\u00eddios do DF somam, atualmente, 520 mulheres detidas. Deste total, 322 s\u00e3o m\u00e3es, o que representa 62%. H\u00e1 ainda quatro internas gr\u00e1vidas e tr\u00eas lactantes.<\/p>\n<p> Uma dessas presas \u00e9 Deuzilene Ribeiro, 39, que usa uma tornozeleira eletr\u00f4nica. A Justi\u00e7a deixou a mulher ir para casa justamente para cuidar dos filhos que ainda n\u00e3o s\u00e3o independentes.<\/p>\n<p> A interna teve seis crian\u00e7as, quatro delas, hoje, s\u00e3o maiores de idade, com 18, 19, 24 e 25 anos; al\u00e9m disso, tem um filho com 5 anos e outro com 12. A mulher ainda assumiu a guarda de um sobrinho, tamb\u00e9m de 12 anos. Apesar de a Justi\u00e7a deix\u00e1-la ficar em casa, a mulher relata uma rotina de desafios, especialmente os psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p> ???A rotina aqui fora chega a ser pior que no pres\u00eddio. L\u00e1 dentro, sou obrigada a me adequar. Aqui fora, as crian\u00e7as me veem com a tornozeleira eletr\u00f4nica, as pessoas ficam sabendo e pensam qualquer coisa. O sofrimento \u00e9 dobrado???, narra.<\/p>\n<p> Segundo a m\u00e3e, a maior parte das mulheres presas cometeu crimes justamente para conseguir sustentar os filhos. ???Quando se fala de mulheres presas, as pessoas pensam em vagabundas. A maior parte das mulheres presas est\u00e1 l\u00e1 porque n\u00e3o teve alternativa???, resume.<\/p>\n<p> Esse foi o caso da pr\u00f3pria Deuzilene, que entrou no crime depois que o ex-companheiro foi preso e ela n\u00e3o tinha como sustentar a fam\u00edlia. Assim, ela se associou ao marido dentro da pris\u00e3o e atuou no tr\u00e1fico de drogas, mas foi detida em 2019 e cumpriu oito meses na penitenci\u00e1ria feminina, at\u00e9 ser autorizada a ficar em casa. Agora, a detenta afirma que permanecer\u00e1 nos limites da lei.<\/p>\n<p> ???Hoje, pro mundo do crime eu n\u00e3o voltaria. N\u00e3o tenho essa vontade, estou tentando uma faculdade de psicologia para minha filha, tenho meu filho evang\u00e9lico, n\u00e3o ganha bem mas est\u00e1 trabalhando e quero bolsa para o meu filho adolescente virar jovem aprendiz. Estou correndo para que ningu\u00e9m diga que meus filhos foram pro crime por minha causa???, afirmou a m\u00e3e.<\/p>\n<p> Deuzilene trabalha como auxiliar em uma escola de Ceil\u00e2ndia pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap), institui\u00e7\u00e3o que visa contribuir para a reintegra\u00e7\u00e3o de pessoas presas na sociedade. Apesar de ter esperan\u00e7as no futuro, a auxiliar n\u00e3o vai comemorar o Dia das M\u00e3es.<\/p>\n<p> ???Desde que perdi minha m\u00e3e, h\u00e1 5 anos, n\u00e3o comemoro. Essa era a data mais importante para ela, e todo mundo aqui em casa j\u00e1 sabe que \u00e9 assim, comemoramos em outro dia???, afirmou.<\/p>\n<p> O post Dia das M\u00e3es: ex-detentas relatam desafios da maternidade ap\u00f3s pris\u00e3o apareceu primeiro em Metr\u00f3poles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ser\u00e1 o primeiro Dia das M\u00e3es que Dandara da Silva Sousa Matos, 35 anos, passar\u00e1 longe dos cinco filhos. 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