{"id":112835,"date":"2022-05-09T12:04:23","date_gmt":"2022-05-09T15:04:23","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/jovens-sem-religiao-superam-catolicos-e-evangelicos-em-sp-e-rio\/"},"modified":"2022-05-09T12:04:23","modified_gmt":"2022-05-09T15:04:23","slug":"jovens-sem-religiao-superam-catolicos-e-evangelicos-em-sp-e-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/09\/jovens-sem-religiao-superam-catolicos-e-evangelicos-em-sp-e-rio\/","title":{"rendered":"Jovens &#8216;sem religi\u00e3o&#8217; superam cat\u00f3licos e evang\u00e9licos em SP e Rio"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Eu n\u00e3o tenho religi\u00e3o, sempre fui totalmente pura a isso. Eu acredito em tudo, primeiramente em Jesus, o \u00fanico Deus todo poderoso. Tamb\u00e9m acredito em entidades, que me ajudaram muito e sempre que puderem v\u00e3o me ajudar&#8230; Acredito em energias, no universo&#8230;&#8221;  <\/p>\n<p>Assim Mariana Oliveira Viana, de 21 anos e moradora do Rio de Janeiro, definiu em uma rede social suas cren\u00e7as.   <\/p>\n<p>Manicure aut\u00f4noma e moradora do bairro de Iraj\u00e1, na Zona Norte do Rio, Mariana tem parte da fam\u00edlia evang\u00e9lica, uma m\u00e3e que frequenta a umbanda e um irm\u00e3o de 24 anos que, como ela, n\u00e3o segue uma religi\u00e3o, mas acredita em Deus.  <\/p>\n<ul>\n<li>Vis\u00e3o feminista de classe alta n\u00e3o v\u00ea que igreja evang\u00e9lica pode fortalecer mulher, diz autor de &#8216;O Povo de Deus&#8217;<\/li>\n<\/ul>\n<p>&#8220;Minha fam\u00edlia sempre deixou que o outro tenha total liberdade, ningu\u00e9m fica questionando nada a ningu\u00e9m&#8221;, conta Mariana \u00e0 BBC News Brasil.   <\/p>\n<p>N\u00e3o batizada em nenhuma religi\u00e3o, a jovem frequentou terreiros e igrejas, e diz ter se sentido bem em todos esses lugares. Assim, decidiu n\u00e3o escolher uma religi\u00e3o e acreditar em tudo.   <\/p>\n<p>&#8220;Fui abrindo a mente com isso com o tempo, fui amadurecendo, no sentido de ter respeito por todas as religi\u00f5es e ter a mente aberta com isso.&#8221;   <\/p>\n<h3>Os &#8216;sem relig\u00e3o&#8217; no Censo e no Datafolha <\/h3>\n<p>Mariana \u00e9 uma de milhares de jovens brasileiros que se auto definem como &#8220;sem religi\u00e3o&#8221;, grupo que j\u00e1 supera cat\u00f3licos e evang\u00e9licos entre a popula\u00e7\u00e3o de 16 a 24 anos no Rio e em S\u00e3o Paulo, segundo as primeiras pesquisas Datafolha do ciclo eleitoral de 2022.   <\/p>\n<p>No Censo de 2010, os sem religi\u00e3o eram 8% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, ou mais de 15 milh\u00f5es de pessoas. Esse percentual vem crescendo d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada: os sem religi\u00e3o eram 0,5% da popula\u00e7\u00e3o brasileira em 1960, 1,6% em 1980, 4,8% em 1991 e 7,3% em 2000.   <\/p>\n<p>Com o adiamento do Censo populacional de 2020 para este ano, devido \u00e0 pandemia, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber de forma definitiva o que aconteceu com a religiosidade brasileira na \u00faltima d\u00e9cada.  <\/p>\n<p>Mas as pesquisas eleitorais, cujas amostras s\u00e3o constru\u00eddas com objetivo de refletir a realidade da popula\u00e7\u00e3o brasileira, d\u00e3o pistas importantes neste sentido.   <\/p>\n<p>As primeiras pesquisas Datafolha de 2022, por exemplo, mostram que, em n\u00edvel nacional, 49% dos entrevistados se dizem cat\u00f3licos, 26% evang\u00e9licos e 14% sem religi\u00e3o ??? j\u00e1 acima dos 8% sem religi\u00e3o identificados no \u00faltimo Censo.  <\/p>\n<p>Entre os jovens de 16 a 24, o percentual dos sem religi\u00e3o chega a 25% em \u00e2mbito nacional.<\/p>\n<p>Nas pesquisas Datafolha para Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, o crescimento dos brasileiros que se dizem &#8220;sem religi\u00e3o&#8221; \u00e9 ainda mais marcante, particularmente entre os jovens.    <\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, os jovens de 16 a 24 anos que se dizem sem religi\u00e3o chegam a 30% dos entrevistados, superando evang\u00e9licos (27%), cat\u00f3licos (24%) e outras religi\u00f5es (19%).   <\/p>\n<p>No Rio, os sem religi\u00e3o nessa faixa et\u00e1ria chegam a 34%, tamb\u00e9m acima de evang\u00e9licos (32%), cat\u00f3licos (17%) e demais religi\u00f5es (17%).  <\/p>\n<p>Mas o que significa ser &#8220;sem religi\u00e3o&#8221; no Brasil? Por que esse grupo cresce, e como isso se relaciona com a diminui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e ascens\u00e3o das religi\u00f5es evang\u00e9licas no pa\u00eds? <\/p>\n<p>Por que esse fen\u00f4meno \u00e9 maior entre os jovens e nas grandes cidades? E que rela\u00e7\u00e3o tudo isso tem com o comportamento eleitoral da juventude brasileira?  <\/p>\n<p>A BBC News Brasil ouviu tr\u00eas cientistas sociais especialistas em religi\u00e3o para explicar o fen\u00f4meno.   <\/p>\n<h3>Quem s\u00e3o os brasileiros &#8216;sem religi\u00e3o&#8217;  <\/h3>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso ter clareza que apenas uma minoria dos &#8220;sem religi\u00e3o&#8221; no Brasil s\u00e3o ateus ou agn\u00f3sticos. Os ateus s\u00e3o pessoas que n\u00e3o acreditam na exist\u00eancia de Deus, j\u00e1 os agn\u00f3sticos avaliam que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar com certeza se Deus existe ou n\u00e3o.   <\/p>\n<ul>\n<li>Preconceito, agressividade e desconfian\u00e7a: como \u00e9 ser ateu no Brasil <\/li>\n<\/ul>\n<p>No Censo de 2010, por exemplo, dos 15,3 milh\u00f5es de brasileiros que se diziam sem religi\u00e3o, apenas 615 mil (4% dos sem religi\u00e3o) se consideravam ateus e 124 mil se afirmavam agn\u00f3sticos (0,8%).  <\/p>\n<p>&#8220;A maior parcela dos sem religi\u00e3o tem a ver com uma desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o, o que quer dizer que o sujeito est\u00e1 afastado das institui\u00e7\u00f5es religiosas, mas ele pode ter uma vis\u00e3o de mundo e at\u00e9 mesmo pr\u00e1ticas pessoais informadas por cren\u00e7as religiosas&#8221;, explica Silvia Fernandes, cientista social e professora da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).   <\/p>\n<p>Entre outros livros, ela \u00e9 autora de <i>Jovens religiosos e o catolicismo ??? escolhas, desafios e subjetividades<\/i> (Quartet\/FAPERJ, 2010), <i>Novas Formas de Crer ??? cat\u00f3licos, evang\u00e9licos e sem-religi\u00e3o nas cidades<\/i> (Promocat, 2009) e organizadora de <i>Mudan\u00e7a de religi\u00e3o no Brasil ??? desvendando sentidos e motiva\u00e7\u00f5es<\/i> (Palavra e Prece, 2006).  <\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o esse sujeito \u00e9 sem religi\u00e3o porque n\u00e3o est\u00e1 vinculado a uma igreja, porque n\u00e3o frequenta, mas pode ter cren\u00e7as relacionadas a alguma religi\u00e3o que j\u00e1 teve ou ter uma dimens\u00e3o mais pluralista da religiosidade&#8221;, diz a especialista.   <\/p>\n<p>&#8220;Ele incorpora elementos de uma espiritualidade mais fluida, pode fazer um sincretismo [misturar elementos de diferentes religi\u00f5es], pode ter cren\u00e7as muito associadas ao universo do cristianismo ??? acreditar em Deus, em Jesus, em Maria ??? mas seguir se declarando sem religi\u00e3o.&#8221;   <\/p>\n<p>Mariana, a carioca de Iraj\u00e1 que acredita em Deus, em Jesus, nas entidades da umbanda e em energias \u00e9 um exemplo t\u00edpico desses brasileiros sem religi\u00e3o, mas de forma alguma sem f\u00e9.   <\/p>\n<h3>Por que cada vez mais brasileiros se dizem &#8216;sem religi\u00e3o&#8217;<\/h3>\n<p>Regina Novaes, pesquisadora do ISER (Instituto Superior de Estudos da Religi\u00e3o), observa que a fase dos 16 aos 24 anos, onde os &#8220;sem religi\u00e3o&#8221; s\u00e3o mais presentes, \u00e9 uma fase de experimenta\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma trajet\u00f3ria de busca e experimenta\u00e7\u00e3o que foi colocada para as novas gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o era colocada para as antigas&#8221;, diz a pesquisadora.  <\/p>\n<p>Ela observa que, atualmente, muitos jovens crescem em fam\u00edlias plurirreligiosas, por exemplo, com av\u00f3 m\u00e3e de santo, pai cat\u00f3lico n\u00e3o praticante e m\u00e3e evang\u00e9lica. Esses jovens n\u00e3o sentem a obriga\u00e7\u00e3o de seguir uma religi\u00e3o de fam\u00edlia e tendem a buscar uma religiosidade pr\u00f3pria.   <\/p>\n<p>Essa fase de experimenta\u00e7\u00e3o pode seguir dois caminhos: uma busca que resulta mais tarde na escolha de uma religi\u00e3o; ou a constru\u00e7\u00e3o de uma s\u00edntese pessoal, em que a pessoa se diz &#8220;sem religi\u00e3o&#8221; por n\u00e3o pertencer a nenhuma igreja, mas combina diversos elementos de f\u00e9.  <\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 interessante, porque havia uma ideia de que, com o passar do tempo e o avan\u00e7o da seculariza\u00e7\u00e3o [processo atrav\u00e9s do qual a religi\u00e3o perde influ\u00eancia sobre as variadas esferas da vida], haveria um aumento das pessoas que se desvinculariam da f\u00e9, do sobrenatural. Mas isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo. O que est\u00e1 acontecendo s\u00e3o outros modos de ter f\u00e9&#8221;, diz Novaes.   <\/p>\n<p>A pesquisadora observa que esse \u00e9 um fen\u00f4meno que vem desde a d\u00e9cada de 1990, mas h\u00e1 outros dois processos mais recentes que t\u00eam contribu\u00eddo para o avan\u00e7o dos &#8220;sem religi\u00e3o&#8221;.  <\/p>\n<h3>Luta antirracista e &#8216;desigrejados&#8217;  <\/h3>\n<p>O primeiro deles \u00e9 a emerg\u00eancia das religi\u00f5es afro-brasileiras como uma op\u00e7\u00e3o cultural, diante do fortalecimento da luta antirracista no pa\u00eds.  <\/p>\n<p>&#8220;Junto \u00e0 quest\u00e3o racial, vem a quest\u00e3o da ancestralidade. Ent\u00e3o h\u00e1 muitos jovens que deixam de ser cat\u00f3licos, protestantes, evang\u00e9licos e se ligam a um terreiro, a uma m\u00e3e de santo ou pai de santo&#8221;, diz Novaes.   <\/p>\n<p>&#8220;Mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma parcela que n\u00e3o vai se ligar institucionalmente, mas vai se sentir parte de uma cultura. Ent\u00e3o eles podem se dizer sem religi\u00e3o, mas participar de festas, cultuar orix\u00e1s, usar signos como turbantes e colares, como parte de um processo identit\u00e1rio.&#8221;  <\/p>\n<p>Um segundo fen\u00f4meno s\u00e3o as novas gera\u00e7\u00f5es de evang\u00e9licos, criados na igreja, mas que passam a ter problemas com seus pastores, por quest\u00f5es morais, comportamentais, por cr\u00edticas pol\u00edticas ou com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira de conduzir a igreja.  <\/p>\n<p>Muitos desses jovens v\u00e3o para outras igrejas, como as alternativas ou inclusivas. Mas h\u00e1 um outro grupo que passa a se definir atrav\u00e9s de uma palavra nova: s\u00e3o os &#8220;desigrejados&#8221;, jovens que seguem partilhando do mundo evang\u00e9lico, mas que ficam sem igreja.   <\/p>\n<p>&#8220;Ao ficar sem igreja, muitos desses jovens podem passar a se definir como sem religi\u00e3o. Porque, diferentemente do catolicismo, em que o batizado cat\u00f3lico \u00e9, no mundo evang\u00e9lico, a frequ\u00eancia \u00e0 igreja \u00e9 fundamental para a pessoa se definir&#8221;, observa a especialista.   <\/p>\n<h3>Um fen\u00f4meno jovem e urbano <\/h3>\n<p>Para Ricardo Mariano, professor da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo) e autor do livro <i>Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil<\/i> (Loyola, 1999), a perda de for\u00e7a da igreja cat\u00f3lica \u00e9 um dos motivos que explicam o avan\u00e7o dos &#8220;sem religi\u00e3o&#8221;. <\/p>\n<p>Em 1950, quase 94% da popula\u00e7\u00e3o brasileira se dizia cat\u00f3lica, percentual que caiu a 65% no Censo demogr\u00e1fico de 2010 e est\u00e1 em 49% entre os entrevistados do Datafolha de 2022. <\/p>\n<p>&#8220;O forte decl\u00ednio dos cat\u00f3licos em idade de reprodu\u00e7\u00e3o contribui para a redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de crian\u00e7as educadas em fam\u00edlias cat\u00f3licas e consequentemente, dos jovens com forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica&#8221;, observa o soci\u00f3logo.  <\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, a igreja cat\u00f3lica tradicionalmente tem um enorme contingente de cat\u00f3licos ditos &#8216;nominais&#8217;, ou seja, que n\u00e3o frequentam os cultos, n\u00e3o est\u00e3o expostos \u00e0s autoridades eclesi\u00e1sticas e nem \u00e0s suas orienta\u00e7\u00f5es doutrinais, morais e comportamentais&#8221;, acrescenta.  <\/p>\n<p>&#8220;Isso tamb\u00e9m reduz a socializa\u00e7\u00e3o religiosa intrafamiliar, aquela que ocorre dentro da fam\u00edlia, o que torna menos prov\u00e1vel que os filhos de pais cat\u00f3licos permane\u00e7am na religi\u00e3o ou sejam por ela influenciados.&#8221; <\/p>\n<p>Para o pesquisador, outro fator que explica a maior parcela de jovens sem religi\u00e3o \u00e9 o fato de que esse grupo tem redes de sociabilidade mais diversas ??? diferentemente, por exemplo, dos idosos, cuja sociabilidade muitas vezes \u00e9 restrita \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 igreja ??? e est\u00e1 exposto a m\u00faltiplas fontes de informa\u00e7\u00e3o, como col\u00e9gios, universidades, redes sociais e ve\u00edculos midi\u00e1ticos.  <\/p>\n<p>&#8220;Os jovens ocupam seu tempo engajados em atividades de lazer e entretenimento ??? o funk, o hip hop, blocos e escolas de carnaval, e por a\u00ed vai ??? que muitas vezes entram em conflito com orienta\u00e7\u00f5es comportamentais e morais das igrejas crist\u00e3s mais conservadoras&#8221;, observa.  <\/p>\n<p>Para Silvia Fernandes, da UFRRJ, isso ajuda a explicar tamb\u00e9m por que os &#8220;sem religi\u00e3o&#8221; s\u00e3o em maior n\u00famero nos grandes centros urbanos, como Rio e S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>&#8220;?? preciso considerar que mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o brasileira hoje \u00e9 urbana. E, nas grandes cidades, h\u00e1 uma celeridade da vida e acesso a uma multiplicidade de informa\u00e7\u00f5es que colocam a religi\u00e3o como uma das esferas poss\u00edveis da exist\u00eancia, mas ela n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o determinante para a sociabilidade e o encontro como no mundo rural&#8221;, diz Fernandes.  <\/p>\n<h3>Escolhas eleitorais <\/h3>\n<p>H\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre o aumento do n\u00famero de jovens &#8220;sem religi\u00e3o&#8221; e o fato dessa parcela do eleitorado ser uma das que mais indica inten\u00e7\u00e3o de voto em Lula (PT) nas elei\u00e7\u00f5es de outubro, j\u00e1 que Jair Bolsonaro (PL) construiu sua imagem como um candidato da comunidade evang\u00e9lica? <\/p>\n<p>Aqui, os especialistas t\u00eam vis\u00f5es diversas.  <\/p>\n<p>Para Ricardo Mariano, da USP, isso \u00e9 sim um fator que contribui para a melhor performance da candidatura petista junto a esse segmento da popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8220;O governo Bolsonaro abra\u00e7ou pautas morais ultraconservadoras, as armas, homofobia, autoritarismo, pol\u00edticas antiecol\u00f3gicas e anticient\u00edficas, sobretudo na pandemia. Tudo isso afastou muito os jovens&#8221;, observa o professor.  <\/p>\n<p>&#8220;Eles [os jovens] t\u00eam acesso a muita informa\u00e7\u00e3o e tendem a ser menos conservadores em uma s\u00e9rie de pautas. Por isso a rejei\u00e7\u00e3o maior ao governo Bolsonaro&#8221;, avalia. <\/p>\n<p>J\u00e1 Regina Novaes, do ISER, destaca que \u00e9 preciso ter clareza que, assim como os sem religi\u00e3o s\u00e3o uma categoria fluida, os evang\u00e9licos n\u00e3o s\u00e3o um grupo est\u00e1tico.  <\/p>\n<p>&#8220;Sim, \u00e9 poss\u00edvel pensar que mais jovens longe das igrejas, fazendo suas escolhas, tamb\u00e9m possam fazer escolhas mais questionadoras e por isso se aproximar do Lula. Mas qual \u00e9 o perigo dessa pergunta?&#8221;, questiona a pesquisadora. <\/p>\n<p>&#8220;?? achar que os jovens evang\u00e9licos s\u00e3o est\u00e1ticos, e que eles s\u00e3o [eleitores de] Bolsonaro, enquanto os sem religi\u00e3o s\u00e3o [eleitores de] Lula. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Os evang\u00e9licos n\u00e3o s\u00e3o essa massa de manobra que o Bolsonaro pensa que s\u00e3o, eles t\u00eam cor, t\u00eam classe social, t\u00eam local de moradia. Esse \u00e9 um ponto bem importante e acredito que vamos conhecer melhor o mundo evang\u00e9lico nessas elei\u00e7\u00f5es&#8221;, avalia. <\/p>\n<ul>\n<li>Vis\u00e3o feminista de classe alta n\u00e3o v\u00ea que igreja evang\u00e9lica pode fortalecer mulher, diz autor de &#8216;O Povo de Deus&#8217;<\/li>\n<\/ul>\n<h3>Brasil pode nunca vir a ser pa\u00eds de maioria evang\u00e9lica? <\/h3>\n<p>O crescimento dos sem religi\u00e3o coloca uma d\u00favida para o futuro do Brasil: pode ser que o pa\u00eds nunca venha a ter uma maioria evang\u00e9lica, como chegaram a prever alguns analistas? <\/p>\n<p>Olhando para os dados, vemos que, do Censo de 2000 para o de 2010, o percentual de evang\u00e9licos no Brasil saltou de 15% para 22%, e os cat\u00f3licos diminu\u00edram de 74% para 65%.  <\/p>\n<p>J\u00e1 na pesquisa Datafolha desse in\u00edcio de ano para o Brasil como um todo, os cat\u00f3licos s\u00e3o 49% dos entrevistados, evang\u00e9licos 26% e os sem religi\u00e3o, 14%. <\/p>\n<p>Embora as pesquisas n\u00e3o sejam diretamente compar\u00e1veis, pela diferen\u00e7a de abrang\u00eancia, os n\u00fameros do Datafolha trazem algumas pistas do que esperar para o pr\u00f3ximo Censo. <\/p>\n<p>&#8220;O decl\u00ednio hist\u00f3rico do catolicismo continua, com a igreja cat\u00f3lica perdendo fi\u00e9is a cada d\u00e9cada. Mas, ao mesmo tempo, voc\u00ea n\u00e3o tem os evang\u00e9licos crescendo na mesma propor\u00e7\u00e3o e parte disso \u00e9 explicado por esse fen\u00f4meno dos sem religi\u00e3o&#8221;, diz Fernandes, da UFRRJ. <\/p>\n<p>Para a professora, alguns fatores explicam a perda de \u00edmpeto da expans\u00e3o evang\u00e9lica: em primeiro lugar, as igrejas pentecostais e neopentecostais deixaram de ser uma novidade.  <\/p>\n<p>Um segundo fator \u00e9 a diversifica\u00e7\u00e3o na oferta dessas igrejas, que faz com que elas disputem entre si pelos fi\u00e9is, contribuindo para esse processo de experimenta\u00e7\u00e3o caracter\u00edstico da experi\u00eancia religiosa mais fluida da contemporaneidade.  <\/p>\n<p>Por fim, com as igrejas evang\u00e9licas j\u00e1 em atividade h\u00e1 d\u00e9cadas no pa\u00eds, h\u00e1 uma parcela dos fi\u00e9is que se decepcionaram com promessas n\u00e3o cumpridas de cura, milagres e prosperidade, ou que n\u00e3o conseguem se integrar \u00e0s r\u00edgidas normas morais e comportamentais, engrossando as fileiras dos &#8220;sem religi\u00e3o&#8221;. <\/p>\n<p>Para Mariano, da USP, ainda assim \u00e9 de se esperar que os evang\u00e9licos sejam um dia maioria. <\/p>\n<p>&#8220;?? inevit\u00e1vel at\u00e9 por raz\u00f5es demogr\u00e1ficas, o perfil dos cat\u00f3licos no Brasil \u00e9 mais rural, mais velho do que os evang\u00e9licos. Os pentecostais t\u00eam um contingente enorme de pessoas em idade reprodutiva, mais do que os cat\u00f3licos, al\u00e9m disso, essas igrejas t\u00eam uma grande capacidade de recrutamento e manuten\u00e7\u00e3o de adeptos. Ent\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo&#8221;, afirma. <\/p>\n<p>Regina Novaes, do ISER, tem outra vis\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8220;?? dif\u00edcil fazer &#8216;profecia&#8217; sociol\u00f3gica, mas acredito que o Brasil n\u00e3o ser\u00e1 um pa\u00eds evang\u00e9lico. Por dois motivos: o catolicismo n\u00e3o \u00e9 mais &#8216;a religi\u00e3o dos brasileiros&#8217;, mas ainda \u00e9 da maioria dos brasileiros. Ateus e agn\u00f3sticos v\u00e3o continuar sendo minoria, mas a categoria dos sem religi\u00e3o passa a fazer parte das alternativas presentes do campo religioso&#8221;, observa. <\/p>\n<p>&#8220;Agora, a ideia \u00e9 n\u00e3o olhar para os sem religi\u00e3o como uma coisa est\u00e1tica, porque as ofertas [religiosas] continuam existindo. E o lugar que a religi\u00e3o tem na vida ??? de dar sentido a ela, de tornar o sofrimento &#8216;sofr\u00edvel&#8217; ??? continua existindo. Ent\u00e3o as religi\u00f5es continuam a ser recursos culturais para os sem religi\u00e3o&#8221;, acrescenta. <\/p>\n<p>&#8220;O Brasil continuar\u00e1 um pa\u00eds de maioria cat\u00f3lica, os evang\u00e9licos crescer\u00e3o ainda, mas os sem religi\u00e3o passam a ser uma possibilidade que tem de ser observada.&#8221;   <\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? Inscreva-se no nosso canal! <\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu n\u00e3o tenho religi\u00e3o, sempre fui totalmente pura a isso. Eu acredito em tudo, primeiramente em Jesus, o \u00fanico Deus todo poderoso. 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