{"id":141716,"date":"2022-05-16T17:33:50","date_gmt":"2022-05-16T20:33:50","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/fibromialgia-e-o-lado-emocional-como-a-saude-mental-influencia-os-sintomas\/"},"modified":"2022-09-23T12:26:34","modified_gmt":"2022-09-23T15:26:34","slug":"fibromialgia-e-o-lado-emocional-como-a-saude-mental-influencia-os-sintomas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/16\/fibromialgia-e-o-lado-emocional-como-a-saude-mental-influencia-os-sintomas\/","title":{"rendered":"Fibromialgia e o lado emocional: como a sa\u00fade mental influencia os sintomas?"},"content":{"rendered":"<p>S\u00f4nia Regina Soares Maciel recebeu o diagn\u00f3stico de fibromialgia em 2017. Os sintomas eram basicamente muitas dores pelo corpo e nos pulm\u00f5es. Atualmente, ela tenta administrar as emo\u00e7\u00f5es diante do quadro de sa\u00fade. &#8220;Eu tenho dores principalmente quando est\u00e1 muito frio. Depende muito do dia. Tem vezes que n\u00e3o sinto quase nada, mas tem momentos que &#8216;s\u00f3 Deus&#8217;, a\u00ed, afeta meu cotidiano. ??s vezes, at\u00e9 pentear os cabelos se torna uma tarefa dif\u00edcil&#8221;, relata. <\/p>\n<p>Ao enfrentar problemas nas tarefas do dia a dia, S\u00f4nia se sente abalada emocionalmente. &#8220;Mexe muito com minhas emo\u00e7\u00f5es. Tem dia que estou muito nervosa, irritada, chorando, a\u00ed, sinto mais forte os sintomas. Hoje sigo um tratamento com uma reumatologista tomando medica\u00e7\u00e3o para amenizar as dores. Mas o que me ajuda \u00e9 o artesanato. Me sinto \u00f3tima e inclusive fa\u00e7o lives de vendas de material de arte&#8221;, conta.<\/p>\n<\/p>\n<p>A fibromialgia \u00e9 uma s\u00edndrome cl\u00ednica que se manifesta com dor no corpo todo, principalmente na musculatura. A influenciadora Layla Br\u00edgido sabe que tem fibromialgia h\u00e1 quatro anos. &#8220;Eu sentia muita dor, dormia mal, tinha bastante enrijecimento, enjoos, um pouco de tontura, s\u00edndrome do intestino irrit\u00e1vel e uma fadiga fora do normal&#8221;, lembra. <\/p>\n<\/p>\n<p>Hoje os sintomas seguem e aparecem, mas de forma mais pontual e menos intensa, segundo ela. &#8220;Com todos esses anos tratando e incluo nisso a terapia, as coisas s\u00e3o bem diferentes de 2018. Consegui me manter mais est\u00e1vel, as dores t\u00eam interferido menos no meu dia a dia e, por ter uma rotina flex\u00edvel, posso ajustar quando preciso. Antes, toda a minha rotina se baseava no meu n\u00edvel de dor, era tudo bem inst\u00e1vel e frustrante&#8221;, desabafa.<\/p>\n<\/p>\n<p>Sobre sa\u00fade mental e fibromialgia, Layla percebe que tem mais sensibilidade. &#8220;Inicialmente a dor me deixa um pouco chateada, mas chega um ponto que ela estressa, fico mais irritada, mais nervosa, porque \u00e9 um desgaste f\u00edsico e emocional enorme lidar com uma dor constante e forte! Acaba sendo um dilema porque a dor mexe com as emo\u00e7\u00f5es e as emo\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m podem afetar e interferir na dor&#8221;, explica.<\/p>\n<\/p>\n<p>Hoje, Layla, que faz psicoterapia, consegue lidar melhor com a situa\u00e7\u00e3o. &#8220;Aprendi a entender esse sentimento e a n\u00e3o invalidar a exist\u00eancia dele. Sou humana, preciso me permitir tamb\u00e9m sentir isso e n\u00e3o querer abafar, n\u00e9? Mas tento trazer tamb\u00e9m um pouco de leveza para que o foco n\u00e3o fique s\u00f3 na dor, o que n\u00e3o quer dizer que ela n\u00e3o exista, mas me faz enxergar possibilidades para lidar com ela&#8221;, conclui.<\/p>\n<\/p>\n<p>Causas e principais sintomas<\/p>\n<\/p>\n<p>As causas da doen\u00e7a s\u00e3o multifatoriais. O diagn\u00f3stico tem influ\u00eancia heredit\u00e1ria, emocional e ambiental. &#8220;Como principal hip\u00f3tese, baseada em estudos cient\u00edficos na \u00e1rea da neuroci\u00eancia, observa-se que o fator &#8216;estresse cr\u00f4nico di\u00e1rio&#8217; e, principalmente, a forma como reagimos ao estresse emocional desencadeia uma neuroplasticidade cerebral (mudan\u00e7a nas conex\u00f5es dos neur\u00f4nios)&#8221;, esclarece Levi Jales Neto, reumatologista da Rede de Hospitais S\u00e3o Camilo SP.<\/p>\n<\/p>\n<p>O quadro cl\u00ednico reduz neurotransmissores como a serotonina, noradrenalina e dopamina, o que causa uma queda no limiar de dor dessas pessoas, tornando-as mais sens\u00edveis aos est\u00edmulos dolorosos. <\/p>\n<\/p>\n<p>Os principais sintomas da fibromialgia s\u00e3o: dor muscular difusa cr\u00f4nica associada a fadiga, depress\u00e3o e dist\u00farbio do sono, mas outros sintomas podem vir associados, como a enxaqueca, s\u00edndrome do c\u00f3lon irrit\u00e1vel, parestesias, zumbido e vertigem. <\/p>\n<\/p>\n<p>Como n\u00e3o existem exames laboratoriais que complementam o diagn\u00f3stico, muitos pacientes sofrem com o preconceito. &#8220;?? muito exaustivo para a pessoa que passa por uma verdadeira maratona at\u00e9 ser diagnosticada. Al\u00e9m da humilha\u00e7\u00e3o de muitas vezes ser chamada de &#8216;Maria das Dores&#8217; e os familiares acharem que ela est\u00e1 inventando doen\u00e7as&#8221;, ressalta a doutora em Psicologia Magda Pearson.<\/p>\n<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico precoce \u00e9 dif\u00edcil pois, na avalia\u00e7\u00e3o do reumatologista Levi Jales Neto, esta \u00e9 uma doen\u00e7a que passa despercebida por falta de conhecimento. Para chegar a fibromialgia, os especialistas realizam uma avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, com a jun\u00e7\u00e3o de sintomas e exame f\u00edsico dos pontos dolorosos.<\/p>\n<\/p>\n<p>&#8220;Excluir doen\u00e7as associadas, como as reum\u00e1ticas autoimunes, \u00e9 essencial para um diagn\u00f3stico correto. Portanto, \u00e9 importante procurar atendimento m\u00e9dico quando esses sintomas forem persistentes por mais de 3 meses para que seja poss\u00edvel uma investiga\u00e7\u00e3o precoce&#8221;, conclui o reumatologista. <\/p>\n<\/p>\n<p>Lado emocional<\/p>\n<\/p>\n<p>Imagine sentir dores intensas pelo corpo durante 24h do seu dia? Assim \u00e9 a rotina dos pacientes que t\u00eam fibromialgia. E estar assim, como j\u00e1 contamos no in\u00edcio da reportagem, \u00e9 sentir-se, por vezes, incapacitado de realizar as tarefas mais b\u00e1sicas do cotidiano. <\/p>\n<\/p>\n<p>&#8220;Essa condi\u00e7\u00e3o pode levar \u00e0 depress\u00e3o e a transtornos de ansiedade. Isso decorre da cronicidade das dores e do dif\u00edcil diagn\u00f3stico que, a partir da cl\u00ednica m\u00e9dica, envolve sempre um aspecto psicol\u00f3gico. Ent\u00e3o, o paciente, \u00e0s vezes, se culpabiliza por ter a fibromialgia, como se algo ali fosse de sua responsabilidade&#8221;, analisa o neuropsic\u00f3logo F\u00e1bio Roesler. Para ele, al\u00e9m do m\u00e9dico especialista, \u00e9 preciso buscar o aux\u00edlio de um neurologista e psic\u00f3logo, pois trata-se de um tratamento multidisciplinar.<\/p>\n<\/p>\n<p>De acordo com Magda Pearson, cuidar da sa\u00fade mental ajuda a enfrentar os sintomas f\u00edsicos. &#8220;E eles geralmente aparecem depois que a pessoa passa por um trauma psicol\u00f3gico ou situa\u00e7\u00e3o de um estresse permanente. As intensas dores levam a pessoa a ter dist\u00farbios do sono, fadiga intensa e por vezes altera\u00e7\u00f5es cognitivas. Por ter consequ\u00eancias delet\u00e9rias na vida do indiv\u00edduo, a psicoterapia \u00e9 fundamental. N\u00e3o s\u00f3 trabalhar os traumas psicol\u00f3gicos, mas tamb\u00e9m para a aceita\u00e7\u00e3o e enfrentamento causado por essa s\u00edndrome&#8221;, diz. <\/p>\n<\/p>\n<p>Para falar mais sobre o lado emocional da fibromialgia, a reportagem do Estad\u00e3o entrevistou a psic\u00f3loga, coordenadora da Psicologia da Liga de Dor da Faculdade de Medicina da USP e colaboradora do Grupo de Dor do HC-FMUSP. Ela tamb\u00e9m \u00e9 autora do livro Psicologia da Dor. Confira:<\/p>\n<\/p>\n<p>Pacientes com fibromialgia sofrem com dores cr\u00f4nicas nas articula\u00e7\u00f5es. Como esse estado f\u00edsico pode mexer com o lado emocional das pessoas? <\/p>\n<\/p>\n<p>A falta de indicadores f\u00edsicos e informa\u00e7\u00f5es sobre a doen\u00e7a leva muitos a percorrerem uma verdadeira &#8220;via crucis&#8221; pelos consult\u00f3rios de diversos profissionais antes de obter diagn\u00f3stico e tratamento adequados. ?? medida que estes sintomas permanecem, come\u00e7am a interferir no trabalho, na conviv\u00eancia familiar e at\u00e9 mesmo com os momentos de lazer destas pessoas.<\/p>\n<\/p>\n<p>No in\u00edcio a situa\u00e7\u00e3o do paciente provoca sentimentos de preocupa\u00e7\u00e3o e solidariedade naqueles que o cercam, entretanto, \u00e0 medida que a condi\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m, resulta em descr\u00e9dito social por parte de amigos, parentes e at\u00e9 mesmo de alguns profissionais. A demora para obter um diagn\u00f3stico e\/ou terapia efetivos faz com que hor\u00e1rios antes eram dedicados a outras atividades comecem a ser usados para consultas, exames, sess\u00f5es terap\u00eauticas etc.; a preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade f\u00edsica passa a ocupar um espa\u00e7o cada vez maior; os projetos de vida de m\u00e9dio e longo prazo come\u00e7am a ser questionados e em alguns casos, paralisados.<\/p>\n<\/p>\n<p>A fibromialgia passa, lentamente, a fazer parte da vida e a interferir e a modificar a organiza\u00e7\u00e3o do cotidiano do paciente. Expectativas de cura constantemente frustradas resultam em ressentimentos e v\u00e3o tornando cada vez mais baixos os limiares de toler\u00e2ncia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e \u00e0 dor. Alguns pacientes se tornam agitados e agressivos, outros, passivos e alienados. Aparecem fantasias m\u00e1gicas de cura, ou o medo de estar sofrendo de alguma doen\u00e7a terr\u00edvel e incur\u00e1vel. Ansiedade e hostilidade s\u00e3o constantes, depress\u00e3o e desamparo tamb\u00e9m &#8211; e com isso surgem novos fatores que mant\u00e9m ou agravam o quadro da SFM. <\/p>\n<\/p>\n<p>Como o diagn\u00f3stico de uma pessoa com fibromialgia pode influenciar na din\u00e2mica familiar? E como as fam\u00edlias podem se envolver para ajudar esse paciente? <\/p>\n<\/p>\n<p>A incapacidade, a mudan\u00e7a de pap\u00e9is e poss\u00edveis problemas financeiros causados pela dor cr\u00f4nica em um dos membros da fam\u00edlia poder\u00e3o afetar adversamente os demais. Quando um dos elementos da fam\u00edlia se encontra limitado ou incapacitado pela dor, as tarefas e responsabilidades que antes lhe eram atribu\u00eddas precisar\u00e3o ser redistribu\u00eddas, o que poder\u00e1 resultar em sobrecarga para outros membros ou em conflitos diversos. Isso ir\u00e1 alterar o equil\u00edbrio da din\u00e2mica familiar em maior ou menor grau e poder\u00e1 resultar em estresse e enfermidades para outros indiv\u00edduos na fam\u00edlia.<\/p>\n<\/p>\n<p>Em algumas fam\u00edlias a condi\u00e7\u00e3o dolorosa de um de seus membros pode desempenhar um papel estabilizador na medida em que se torna um recurso \u00fatil para escapar ou evitar conflitos familiares. O tempo e a energia dedicados ao problema da dor s\u00e3o como \u00e1libis que justificam e legitimam o adiamento e a evita\u00e7\u00e3o do enfrentamento de outros aspectos da vida e das rela\u00e7\u00f5es humanas. Em muitas destas fam\u00edlias, cuidar da doen\u00e7a de um de seus membros pode ser a \u00fanica maneira de continuar funcionando. <\/p>\n<\/p>\n<p>Na sua opini\u00e3o, o sofrimento emocional poderia ser um dos agentes causadores da doen\u00e7a? <\/p>\n<\/p>\n<p>A etiologia da fibromialgia ainda n\u00e3o est\u00e1 esclarecida. Boa parte dos doentes n\u00e3o consegue identificar com seguran\u00e7a quaisquer eventos que possam ter iniciado seus sintomas; quando o fazem, referem-se a infec\u00e7\u00f5es virais, traumas f\u00edsicos e\/ou emocionais e mesmo a altera\u00e7\u00f5es no uso de certos medicamentos. Entretanto, nenhum destes fatores foi comprovado como causa respons\u00e1vel da fibromialgia. ?? mais prov\u00e1vel que as altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas sejam consequ\u00eancias da dor cr\u00f4nica e que a presen\u00e7a de uma situa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica anormal n\u00e3o seja requisito para o desenvolvimento da s\u00edndrome. <\/p>\n<\/p>\n<p>Qual a import\u00e2ncia do cuidado para a sa\u00fade mental nesse quadro cl\u00ednico? E onde procurar ajuda? <\/p>\n<\/p>\n<p>Pessoas com fibromialgia aparentam ser saud\u00e1veis, mas n\u00e3o o s\u00e3o, e tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o suficientemente &#8220;doentes&#8221; para convencer a si mesmas e aos outros de sua condi\u00e7\u00e3o. Psicologicamente se encontram presas a um passado sem dor, ao qual n\u00e3o podem mais retornar, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o desejam abandonar. Ao longo do tempo esta situa\u00e7\u00e3o de ambiguidade resulta em perdas, desgastes e tentativas frustradas de resgatar sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<\/p>\n<p>Os cuidados de sa\u00fade mental na SFM s\u00e3o essenciais porque o sofrimento ps\u00edquico destas pessoas \u00e9 solit\u00e1rio, profundo e tende a agravar-se ao longo do tempo. A ajuda pode ser obtida atrav\u00e9s de profissionais de sa\u00fade mental especializados em dor, atrav\u00e9s de programas espec\u00edficos realizados em hospitais escola e cl\u00ednicas psicol\u00f3gicas escola. Alguns grupos de apoio a pessoas com SFM tem surgido espontaneamente, geralmente por iniciativa dos pr\u00f3prios pacientes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f4nia Regina Soares Maciel recebeu o diagn\u00f3stico de fibromialgia em 2017. 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