{"id":151428,"date":"2022-05-21T14:03:09","date_gmt":"2022-05-21T17:03:09","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/essa-tragedia-seria-evitada-se-josicleia-nao-precisasse-de-um-homem-do-lado\/"},"modified":"2022-05-21T14:03:09","modified_gmt":"2022-05-21T17:03:09","slug":"essa-tragedia-seria-evitada-se-josicleia-nao-precisasse-de-um-homem-do-lado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/21\/essa-tragedia-seria-evitada-se-josicleia-nao-precisasse-de-um-homem-do-lado\/","title":{"rendered":"Essa trag\u00e9dia seria evitada se Josicleia n\u00e3o precisasse de um homem do lado"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Nessa quinta, na televis\u00e3o, uma mulher bem articulada, chamada Josicleia, contou que matou um homem, acidentalmente, com uma faca, em Salvador. Ela est\u00e1 gr\u00e1vida. O morto \u00e9 Lucas, marido de Josicleia, pai do beb\u00ea que ainda est\u00e1 na barriga. Numa fala longa e bastante organizada, ela passeia por diferentes emo\u00e7\u00f5es, explica &#8211; detalhadamente &#8211; o contexto daquela rela\u00e7\u00e3o e descreve as \u00faltimas horas com o homem agora morto.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O que ela diz \u00e9 que feriu Lucas ao tentar se defender, enquanto era agredida por ele, na cozinha do casal. Gr\u00e1vida. De acordo com ela, uma situa\u00e7\u00e3o recorrente que, desta vez, resultou em morte. Antes de fazer a importante pergunta &#8220;eu ia esperar ele me matar?&#8221;, Josicleia fala sobre a viol\u00eancia crescente no casamento. Mostra hematomas no bra\u00e7o. Da\u00ed, atribui essa viol\u00eancia ao abuso &#8211; por parte do marido &#8211; de bebida alco\u00f3lica dizendo que &#8220;quando ele bebia, ficava transtornado&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Eu n\u00e3o sei se Josicleia fala a verdade, nem tenho o poder de condenar ou absolver algu\u00e9m. Mas eu acredito nela. Veja, n\u00e3o tenho nenhuma outra informa\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o conhe\u00e7o detalhes do caso. Acredito, apenas, por uma quest\u00e3o de probabilidade. Porque \u00e9 isso que acontece todos os dias, s\u00f3 que, em quase todas as vezes, somos n\u00f3s que morremos no final. Se a vers\u00e3o dela se confirmar, a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que Josicleia n\u00e3o &#8220;esperou&#8221; que aquele homem a matasse. Talvez por isso tenha sido aplaudida na sa\u00edda da audi\u00eancia de cust\u00f3dia. Entendo perfeitamente.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Do indiv\u00edduo Josicleia e do indiv\u00edduo Lucas eu n\u00e3o sei mais nada. Ent\u00e3o, me retiro do caso, mas sigo no enredo cl\u00e1ssico. Um neg\u00f3cio complicado que envolve press\u00e3o social, al\u00e9m de vulnerabilidades financeiras, psicol\u00f3gicas e emocionais. N\u00e3o posso julgar mulheres que permanecem em rela\u00e7\u00f5es de abuso e viol\u00eancia. Lamento demais, mas julgar seria sacanagem. Escrevo aqui da minha casa confort\u00e1vel, empregada, bem alfabetizada, dona do meu nariz e com anos de terapia nas costas. Muita coisa me garante &#8220;n\u00e3o precisar de um homem do lado&#8221;, poder mandar qualquer um se lascar. Mas nem sempre foi assim pra mim. E n\u00e3o \u00e9 assim pra toda mulher. Ainda.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Sair de um relacionamento violento, para muitas, \u00e9 um desafio de v\u00e1rias etapas. Talvez, a mais importante e dif\u00edcil seja a primeira: perceber a viol\u00eancia do parceiro (ou pretendente) e, depois disso, n\u00e3o minimiz\u00e1-la. Nem justific\u00e1-la, como Josicleia faz ao atribuir ao consumo de \u00e1lcool a personalidade agressiva de Lucas. Assim, ela isenta o humano de culpa. ?? essa percep\u00e7\u00e3o &#8211; de que mesmo sendo agressor, homem ainda \u00e9 &#8220;coitado&#8221; &#8211; que faz com que muitas esposas e namoradas fiquem &#8211; at\u00e9 empenhadas num &#8220;cuidar&#8221; ing\u00eanuo e improdutivo &#8211; em situa\u00e7\u00f5es perversas. &#8220;Salvar o homem&#8221; \u00e9 o nome da miss\u00e3o encarada por muitas de n\u00f3s, mesmo quando a &#8220;doen\u00e7a&#8221; dele \u00e9 algo que nos coloca em risco.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Lembro de uma amiga psic\u00f3loga, que trabalhava num CREAS, e um dia me disse que eu devia ter algum &#8220;trauma&#8221;, depois de eu ter contado que terminei um relacionamento por causa de um grito do homem que estava comigo. Al\u00e9m de, a partir dali, achar que ela n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es &#8211; t\u00e9cnicas e ps\u00edquicas &#8211; de exercer a fun\u00e7\u00e3o que assumia (acolhimento a mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia), fiquei pensando no trauma coletivo que faz com que muitas de n\u00f3s fa\u00e7am exatamente o contr\u00e1rio do que fiz. Que fiquem e se achem merecedoras de desacatos, descuidos e viol\u00eancias de todo tipo. Por que n\u00e3o v\u00e3o embora?\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Entre outras coisas, sim, porque traumatizadas. Historicamente mal amadas. Se sou capaz de entender (e sentir no meu corpo) que ningu\u00e9m tem o direito de me destratar, \u00e9 rota do indiv\u00edduo, m\u00e9rito meu em minhas privilegiadas circunst\u00e2ncias, inclusive amores, por sorte, bem-sucedidos. Sempre um susto para os antagonistas que ainda esperam de qualquer mulher o papel de acolher, compreender, baixar o tom, deixar pra l\u00e1. Ficar, apesar de. Esperar. Cuidar. Insistir. A autoestima feminina ainda \u00e9 constru\u00edda muito nas academias, cl\u00ednicas de est\u00e9tica e lojas de roupas. Raramente, no olhar pra dentro de reflex\u00f5es e s\u00e9rios processos terap\u00eauticos. Essa autoestima de purpurina \u00e9, em geral, superficial, insuficiente, toda cheia de buracos e n\u00e3o protege de nada.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ainda nos devemos amor por n\u00f3s mesmas. Do tipo real, cuidadoso, profundo, desse que derramamos, abundante, sobre nossos homens e filhos\/as. Mulheres s\u00e3o capazes de matar e morrer pra defender as crias. Tamb\u00e9m de cuidar, por toda a vida, do parceiro amado que adoeceu. Observe nos hospitais e at\u00e9 pres\u00eddios. Quem \u00e9 que fica? N\u00e3o precisamos que estejam lindos e bem vestidos. Quando amamos, \u00e9 tamb\u00e9m na fei\u00fara, no erro, na doen\u00e7a. De dentro pra fora. De amor que sabe amar. Mas n\u00e3o conseguimos entregar autoestima dessa qualidade, nem quando, claramente, \u00e9 isso que pode salvar nossas vidas.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Enquanto constru\u00edmos esse amor real por n\u00f3s mesmas, toda hora surge um aspecto sobre o qual pensar. Nesse caso, h\u00e1 pelo menos, duas coisas a aprender, que podiam ter ajudado Josicleia a n\u00e3o morrer, mas tamb\u00e9m a n\u00e3o se tornar uma assassina. A primeira \u00e9 que pessoas violentas n\u00e3o s\u00e3o coitadas. E d\u00e3o sinais. Quebram objetos, formulam frases invasivas, t\u00eam acessos de \u00f3dio e v\u00e3o num crescendo at\u00e9 que ultrapassam aquela barreira: dizem\/fazem coisas que temos vergonha de contar. Depois disso \u00e9 s\u00f3 desgra\u00e7a. Ent\u00e3o, \u00e9 importante parar nos primeiros sinais, nos primeir\u00edssimos. ?? abandonar. Antecipar o fim, antes que ele chegue, ao mesmo tempo em que aumenta os n\u00fameros das estat\u00edsticas.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A outra coisa a aprender \u00e9 que alcoolismo significa ser viciado\/a em bebida alco\u00f3lica e n\u00e3o, necessariamente, agredir algu\u00e9m. Se agride \u00e9 que naquela pessoa h\u00e1 uma natureza violenta que se liberta quando o ambiente externo \u00e9 prop\u00edcio e a qu\u00edmica ajuda a exacerbar. Se essa natureza violenta se manifesta em insultos direcionados \u00e0 mulher, se materializa em murros na mesa do casal, \u00e9 que esse \u00e9 o espa\u00e7o no qual aquele homem se sente autorizado a despejar o pr\u00f3prio inferno. Quer testar? Pergunte a um &#8220;s\u00f3 fica violento s\u00f3 quando bebe&#8221; se, quando ele bebe, tem vontade de bater no chefe. Ou na pol\u00edcia. Tem nada. Se tiver, n\u00e3o bate. Duvideo-d\u00f3. ?? s\u00f3 em mulher mesmo. E em crian\u00e7as, claro. Porque &#8220;podem&#8221;, n\u00e9?\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Culpado \u00e9 quem agride. Sempre. Do mesmo modo, culpado \u00e9 o ladr\u00e3o e n\u00e3o quem foi roubado. Mesmo assim, a gente guarda bem a carteira e n\u00e3o leva o celular pro Carnaval. Mulher tem que se armar, portanto. Bem antes de precisar de uma arma real pra se defender do inimigo que dorme ao lado. Fosse dona de si, Josicleia n\u00e3o teria suportado a rotina de agress\u00f5es que relata. Fosse senhora dela mesma, fosse emancipada, de fato, se libertaria bem antes de dar aquela facada. Compreendo toda a circunst\u00e2ncia e repito: n\u00e3o julgo. Mas me entristece a certeza de que essa trag\u00e9dia seria evitada se Josicleia &#8211; por tantos motivos ainda t\u00e3o nossos &#8211; n\u00e3o precisasse de um homem do lado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em><strong>*Flavia Azevedo \u00e9 articulista do Correio, editora e m\u00e3e de Leo<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa quinta, na televis\u00e3o, uma mulher bem articulada, chamada Josicleia, contou que matou um homem, acidentalmente, com uma faca, em Salvador. 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