{"id":151723,"date":"2022-05-22T06:10:06","date_gmt":"2022-05-22T09:10:06","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/que-frio-e-este-como-moradores-de-bh-encaram-maio-mais-gelado-da-historia\/"},"modified":"2022-05-22T06:10:06","modified_gmt":"2022-05-22T09:10:06","slug":"que-frio-e-este-como-moradores-de-bh-encaram-maio-mais-gelado-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/22\/que-frio-e-este-como-moradores-de-bh-encaram-maio-mais-gelado-da-historia\/","title":{"rendered":"Que frio \u00e9 este? Como moradores de BH encaram maio mais gelado da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A \u00faltima semana de recordes negativos de temperatura colocou \u00e0 prova em Belo Horizonte o ditado popular segundo o qual ???Deus manda o frio conforme o cobertor???. Com term\u00f4metros despencando, na quinta-feira a cidade registrou 4,4\u00b0C na Esta\u00e7\u00e3o Cercadinho, no Buritis, Regi\u00e3o Oeste, a menor marca entre todas as capitais brasileiras e o dia mais frio para um m\u00eas de maio na hist\u00f3ria belo-horizontina, segundo os registros do Instituto Nacional de Meteorologia. Motivo mais que suficiente para que moradores da capital procurassem formas de se proteger, seja nos bairros de classe m\u00e9dia ou alta, seja nas comunidades mais humildes, seja embaixo de viadutos, como os do Complexo da Lagoinha, na Regi\u00e3o Noroeste. Para mostrar essa realidade, o Estado de Minas foi para as ruas para mostrar lugares e situa\u00e7\u00f5es em que a coberta muitas vezes n\u00e3o \u00e9 o bastante para tanta friagem.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Que o diga o catador de material reciclado Thiago Pereira, de 33 anos, que n\u00e3o deixa Deus de lado, mas considerou prudente, diante do ambiente gelado, pedir ajuda terrena para suportar o frio. Ele vive em uma barraca no Complexo da Lagoinha. Em um dos pilares que o ajudam a se esconder do vento, pintou com tinta azul e com letras bem grandes o pedido: ???Precisamos de blusa de frio?????? Teve a ideia uma semana antes de a frente fria chegar, de forma que quando esfriou j\u00e1 havia recebido casacos e cobertores. Tantos que n\u00e3o soube precisar em n\u00fameros, mas que permitiram que ele pudesse ajudar outras pessoas que vivem embaixo dos viadutos da regi\u00e3o. ???As roupas que n\u00e3o servem para n\u00f3s, doamos para o pessoal. Recebemos e distribu\u00edmos???, contou.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um dos agasalhos que recebeu, um casaco esportivo preto, usava na manh\u00e3 de sexta-feira (20\/5) com um gorro na cabe\u00e7a, quando se preparava para sair para catar papel\u00e3o e outros materiais recicl\u00e1veis que serviriam para pagar a refei\u00e7\u00e3o do dia. No local em que mora com o irm\u00e3o e dois conhecidos, as cinzas s\u00e3o testemunhas das fogueiras acesas no dia anterior. No frio incomum do outono, a forma primordial de aquecimento \u00e9 das poucas op\u00e7\u00f5es que restam a quem vive ao relento. Ao lado de um dos restos de fogo, chama a aten\u00e7\u00e3o um jardim de pimenta que plantou, uma tentativa de tornar lar improvisado mais aconchegante.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Thiago \u00e9 muito grato a quem doou cobertores e agasalhos, mas confessa que ali, no relento, principalmente de madrugada, as pe\u00e7as amenizam o frio, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para impedir o sofrimento com a queda das temperaturas. ???O frio aqui \u00e9 demais. O jeito \u00e9 deitar e tentar se esquentar o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Mas, gra\u00e7as a Deus, estou aqui lutando???, conta ele, que veio de Governador Valadares h\u00e1 um ano e meio. Desde ent\u00e3o, vive na rua.<\/p>\n<\/div>\n<h3>MUDAN??A DE CLIMA\u00a0<\/h3>\n<div>O frio neste maio de madrugadas congelantes surpreendeu muita gente, mesmo que as prova\u00e7\u00f5es sejam infinitamente menores. A assistente social Adriana Muzzi, de 57, mesmo muito agasalhada na manh\u00e3 de sexta, admitiu que n\u00e3o esperava tanto frio no bairro para o qual acabou de se mudar ??? h\u00e1 tr\u00eas dias, ela trocou o Gutierrez pelo Buritis. ???Percebi muita diferen\u00e7a na temperatura. Moro no oitavo andar, ent\u00e3o venta muito, faz muito frio.???<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Hora, ent\u00e3o, de tirar todo o arsenal de agasalhos e cobertores do guarda-roupas. Cachecol, por exemplo, virou item indispens\u00e1vel. Para ajudar a enfrentar o frio, outra estrat\u00e9gia \u00e9 se recolher mais cedo. ???Dormia por volta das 23h e agora \u00e0s 21h30 j\u00e1 estou na cama???, conta. Para dar uma m\u00e3ozinha humana ao ditado do ???frio divino do tamanho do cobertor???, ela procura fazer a sua parte e, nestes dias gelados, doou itens como agasalhos e cobertores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Devido \u00e0 altitude, o Buritis \u00e9 um bairro em que as temperaturas costumam ser mais baixas do que em outros pontos da cidade. L\u00e1 da fachada do oitavo andar de um edif\u00edcio na Rua Jos\u00e9 Hemet\u00e9rio Andrade, Andr\u00e9 Soares da Silva, de 29, tinha vis\u00e3o panor\u00e2mica em uma das \u00e1reas mais altas. I\u00e7ado por cordas, limpava o revestimento externo do pr\u00e9dio com jatos d&#8217;\u00e1gua em momento em que os term\u00f4metros marcavam 9\u00b0C para quem estava no n\u00edvel do solo. Naquela altura, a sensa\u00e7\u00e3o era de tr\u00eas graus a menos, na avalia\u00e7\u00e3o dele. ???Para um servi\u00e7o como o nosso, o frio \u00e9 ruim. N\u00f3s trabalhamos em altura e atrapalha um pouco???, disse. Para aguentar, s\u00f3 usando tr\u00eas casacos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E se o agasalho n\u00e3o d\u00e1 conta sozinho da friagem, o jeito \u00e9 perseguir os raios de sol para ajudar. Robson Egita, de 44, recorreu a eles enquanto esperava o transporte que o levaria ao trabalho em um supermercado. Morador do Bairro das Ind\u00fastrias, \u00e0s margens do Anel Rodovi\u00e1rio e pr\u00f3ximo a um c\u00f3rrego e uma \u00e1rea de mata, para ir ao trabalho, \u00e0s 6h, o jeito \u00e9 se proteger como d\u00e1. ???Saio de cal\u00e7a, bota, procuro me agasalhar todo. Uso luvas e blusa de frio para ver se aguento.??? Em casa, ele tamb\u00e9m se socorre do fogo nos dias mais gelados. ???Tem que fazer fogueirinha???, confessa, sem abrir m\u00e3o de touca e luvas para dormir.<\/p>\n<p><\/p>\n<h2><i>BH perto de zero<\/i><\/h2>\n<div><i>De acordo com a meteorologia, este \u00e9 o maio com temperaturas mais baixas em BH. Contra os 4,4\u00b0C de quinta-feira, o recorde anterior do m\u00eas era de 7,5\u00b0C, em 1977, no dia 20. Mas a menor temperatura j\u00e1 registrada foi em junho: 3\u00b0C, em 1961. Para hoje, a previs\u00e3o \u00e9 de m\u00ednima de 10\u00b0C.<\/i><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<\/div>\n<h2>Pouca esperan\u00e7a sob<br \/>o viaduto e a bandeira<\/h2>\n<div>A Bandeira do Brasil fica hasteada em meio \u00e0s barracas que ocupam um dos espa\u00e7os embaixo do Viaduto Leste, um dos acessos \u00e0 \u00e1rea central de Belo Horizonte. Entre as moradias improvisadas, pessoas que vivem em situa\u00e7\u00e3o de rua acendem uma fogueira para espantar o frio do outono com temperaturas de inverno que se instalou na capital.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O fogo ajuda a vencer as madrugadas congelantes, mas Jason Carlos, de 43 anos, se queixa da falta de agasalhos e cobertores. Ele vive nas ruas da capital mineira h\u00e1 seis meses, desde que veio de Santos (SP) com o objetivo de ajudar uma prima. O lugar onde vive foi forrado com uma lona preta onde se l\u00ea pelo lado de fora a palavra ???brasileiro???, escrita incompleta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A prima, que enfrentava um relacionamento abusivo, conseguiu se separar, mas Jason acabou indo viver debaixo do Viaduto Leste. Em meio ao processo de mudan\u00e7a de estado, ele conta ter perdido todos os documentos. Por isso, afirma, n\u00e3o consegue voltar para a cidade natal, n\u00e3o tem acesso a programas assistenciais e n\u00e3o consegue arranjar emprego. ???Procuro me agasalhar e ficar dentro da barraca, mas est\u00e1 sempre faltando alguma coisa???, diz.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando o frio vem acompanhado de vento, a situa\u00e7\u00e3o para quem mora na rua fica ainda mais dram\u00e1tica, conta. Al\u00e9m da piora na sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica, h\u00e1 o risco de que a barraca seja desmanchada. Na rua, em meio \u00e0 poeira, ao p\u00f3 de asfalto e \u00e0 falta de \u00e1gua, as roupas acabam virando itens descart\u00e1veis. Por isso, Jason considera que as doa\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma ajuda indispens\u00e1vel.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???A prefeitura poderia arrumar uma barraca para n\u00f3s. Nesta \u00e9poca, bate o vento e a pessoa perde tudo. ?? s\u00f3 ver as barracas voando.??? A car\u00eancia de agasalhos, muitas vezes, \u00e9 tamb\u00e9m de comida. A realidade de Jason e de quem vive ali na Vila dos Cachorros ??? como identifica um letreiro em um dos pilares do viaduto, \u00e9 de apenas uma refei\u00e7\u00e3o ao dia. Os sem-teto recorrem ao Restaurante Popular mantido pela prefeitura ou dependem de doa\u00e7\u00f5es. Muitas vezes, eles ainda t\u00eam que decidir se v\u00e3o comer ou alimentar c\u00e3es e gatos que lhes servem de companhia fiel.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Enquanto olha para a Bandeira do Brasil, que \u00e9 de um colega, Jason diz que n\u00e3o tem muita esperan\u00e7a com o futuro do pa\u00eds. Sem documentos, inclusive sem t\u00edtulo de eleitor, ele diz que n\u00e3o sabe ainda se vai votar nas elei\u00e7\u00f5es de outubro. De toda forma, pede ao futuro comandante do pa\u00eds que olhe para as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Mas confessa que n\u00e3o espera muito.<\/p>\n<p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>???No Brasil, quem tem mais tira de quem tem menos???, reflete. Segundo ele, a l\u00f3gica se repete at\u00e9 na hora de ajudar. Jason acredita que algumas pessoas levam agasalhos ou alimentos aos moradores de rua para ???fazer marketing pessoal???. ????? gente que tem interesse em fazer propaganda da doa\u00e7\u00e3o. Um dia desses mesmo tinha um &#8216;tik toker&#8217; fazendo uma filmagem aqui para ganhar dinheiro em cima da gente, da nossa mis\u00e9ria???, diz.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E esse contingente vai crescendo, enquanto o frio aumenta. La\u00e9rcio Ant\u00f4nio Costa Marques, de 29, chegou esta semana de Jo\u00e3o Monlevade, na Regi\u00e3o Central de Minas. Sem ter para onde ir, juntou-se ao grupo que vive sob o Viaduto Leste. Chegou com a roupa do corpo: uma blusa de malha vermelha, uma cal\u00e7a preta e chinelos. ???Minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 arrumar servi\u00e7o como ajudante de pedreiro???, conta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No pesco\u00e7o, ele tem a palavra ???f\u00e9??? tatuada. Mas procura esconder. Teme que as escritas no corpo atrapalhem de conseguir trabalho. Ao futuro presidente do Brasil, ele pede que olhe para os moradores de rua. ???N\u00f3s tamb\u00e9m temos sonhos. Tamb\u00e9m somos dignos de oportunidades.??? Entre as oportunidades mais urgentes, ele pede um cobertor e um emprego. O rel\u00f3gio marcava 15h e La\u00e9rcio ainda n\u00e3o tinha almo\u00e7ado. Na verdade, n\u00e3o fazia ideia de como poderia conseguir a refei\u00e7\u00e3o do dia.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima semana de recordes negativos de temperatura colocou \u00e0 prova em Belo Horizonte o ditado popular segundo o qual ???Deus manda o frio\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":151724,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8648],"tags":[],"class_list":["post-151723","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=151723"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151723\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=151723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=151723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=151723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}