{"id":152177,"date":"2022-05-23T05:10:59","date_gmt":"2022-05-23T08:10:59","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/mulheres-denunciam-medico-por-violencia-obstetrica-no-df-me-rasgou\/"},"modified":"2022-05-23T05:10:59","modified_gmt":"2022-05-23T08:10:59","slug":"mulheres-denunciam-medico-por-violencia-obstetrica-no-df-me-rasgou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/23\/mulheres-denunciam-medico-por-violencia-obstetrica-no-df-me-rasgou\/","title":{"rendered":"Mulheres denunciam m\u00e9dico por viol\u00eancia obst\u00e9trica no DF: ???Me rasgou???"},"content":{"rendered":"<p>Desde muito nova, a comerciante Claudete Rodrigues Gomes, 32 anos, sonhava com um parto normal, tranquilo e humanizado. Quando a moradora do Cruzeiro sentiu as primeiras dores na madrugada daquele dia 4 de setembro de 2017, logo pensou que J\u00falia* chegaria ao mundo do jeito que ela havia planejado. A mulher tinha uma s\u00e9rie de expectativas sobre o nascimento de sua segunda filha, mas as cicatrizes deixadas entre a vagina e o \u00e2nus a fazem lembrar dos traumas vividos.<\/p>\n<p> Claudete entrou em trabalho de parto no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), mas foi informada de que s\u00f3 poderia ser atendida no Hospital Regional do Gama (HRG), j\u00e1 que ela morava no Novo Gama, munic\u00edpio goiano situado no Entorno do Distrito Federal. Na institui\u00e7\u00e3o, a mulher recebeu soro na veia e esperou pelo menos seis horas at\u00e9 a chegada do m\u00e9dico Jo\u00e3o Luiz Vinhal J\u00fanior, ginecologista respons\u00e1vel pelos partos no dia.<\/p>\n<p> Parto anormal: viol\u00eancia obst\u00e9trica fere mulheres e mata beb\u00eas no DF<\/p>\n<p>  ???Ele disse que do jeito que eu estava s\u00f3 ganharia nen\u00e9m depois de uns dois ou tr\u00eas dias e eu acreditei. Naquele momento voc\u00ea acredita muito no m\u00e9dico, porque ele foi a pessoa que estudou para estar ali, ent\u00e3o, eu confiei. Depois disso, ele come\u00e7ou a apoiar na minha barriga para fazer o toque e disse que teria de romper a minha bolsa. A\u00ed come\u00e7ou o circo???, relembrou Claudete.<\/p>\n<p>  \t \t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tViol\u00eancia-obest\u00e9trica-DF9 (1) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tViol\u00eancia-obest\u00e9trica-DF10 (1) \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tViol\u00eancia-obest\u00e9trica-DF2 \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tViol\u00eancia-obest\u00e9trica-DF3 \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tViol\u00eancia-obest\u00e9trica-DF5 \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t\tMulher \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancia obst\u00e9trica \t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t \t\t \t\t \t\t\t \t\t\t \t\t \t\t0 \t A mulher conta que o m\u00e9dico rompeu a bolsa com uma aparelho parecido com uma ???agulha grande??? e, depois, come\u00e7ou a gritar afirmando que a gr\u00e1vida ???j\u00e1 estava no ponto???. Claudete contou ao Metr\u00f3poles que mais de 15 estudantes de medicina entraram na sala para assistir ao parto sem sua permiss\u00e3o.<\/p>\n<p> Ap\u00f3s perceber que a dilata\u00e7\u00e3o de Claudete caminhava a passos lentos, Jo\u00e3o Luiz fez press\u00e3o na barriga da gestante a fim de tentar ???expulsar??? a crian\u00e7a. A pr\u00e1tica chama-se manobra de Kristeller, t\u00e9cnica considerada obsoleta e proibida pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) por ser agressiva e poder causar les\u00f5es graves.<\/p>\n<p> ???O m\u00e9dico era o tempo todo gritando comigo e com as outras pessoas da sala. Estava muito nervoso e me deixando muito assustada. Ele botou a m\u00e3o na minha vagina e me rasgou com os pr\u00f3prios dedos. Depois colocava o cotovelo no meio da minha barriga e apertava empurrando a nen\u00e9m, sempre gritando comigo com muita grosseria???, disse Claudete.<\/p>\n<p> J\u00e1 sem for\u00e7as, a mulher lembra que em determinado momento, o m\u00e9dico fez tanta press\u00e3o na barriga que ela perdeu o f\u00f4lego e achou que iria desmaiar. ???A\u00ed veio o primeiro insulto. Eu comentei que me faltava f\u00f4lego e ele perguntou se depois disso tudo eu ainda tinha f\u00f4lego e come\u00e7ou a rir de mim???. Na terceira contra\u00e7\u00e3o, Claudete diz ter agarrado o jaleco de Jo\u00e3o Luiz e implorou para que ele parasse de colocar peso em sua barriga. ???Meu medo era dele estar machucando a minha filha. Fiquei apavorada, mas fui mandada calar a boca, sen\u00e3o a beb\u00ea n\u00e3o nasceria???, relata. \t \t<\/p>\n<p> Ap\u00f3s horas na sala de parto, J\u00falia* nasceu com um problema na perna que o m\u00e9dico n\u00e3o explicou se foi motivado pela manobra durante o parto. Ainda hoje a crian\u00e7a sente dores e tem problemas para andar, j\u00e1 que tem uma perna maior do que a outra. ???Ela nasceu e eu n\u00e3o pude nem chorar, porque ele mandou eu parar. Perguntou qual era o motivo do choro e eu disse que era felicidade, mas acho que era mais al\u00edvio por ver que ela nasceu???.<\/p>\n<p> ???Se eu costurar feio, seu marido n\u00e3o vai mais te querer??? Claudete diz ter pedido para que sua sogra, Zilvanir Lima Costa, 57 anos, que tamb\u00e9m estava na sala de parto, acompanhasse a rec\u00e9m-nascida com a equipe de pediatria. A v\u00edtima relata que, nesse momento, come\u00e7ou a levar pontos na vagina por uma assistente do m\u00e9dico, identificada como Gabriela Petrocchi Corassa.<\/p>\n<p> A comerciante precisou ser costurada, pois passou por uma episiotomia lacerante, pr\u00e1tica em que o m\u00e9dico faz corte entre a vagina e o \u00e2nus a fim de facilitar o nascimento do beb\u00ea. A t\u00e9cnica tamb\u00e9m \u00e9 considerada viol\u00eancia obst\u00e9trica quando n\u00e3o justificada.<\/p>\n<p> ???Falei para ela que estava doendo muito e que estava sentindo ela me costurar, que n\u00e3o aguentaria de dor. A m\u00e9dica virou para mim e falou: ???voc\u00ea tem que deixar eu te costurar direitinho, sen\u00e3o vou fazer feio e seu marido n\u00e3o vai te querer mais e vai colocar um nome bem feio na sua crian\u00e7a&#8217;???, ironizou.<\/p>\n<p> Ap\u00f3s ser liberada para o quarto do hospital, Claudete conta que a lacera\u00e7\u00e3o da vagina evoluiu para uma f\u00edstula retovaginal, complica\u00e7\u00e3o que fez com que os gases e fezes sa\u00edssem pela vagina. Mesmo avaliada pela equipe m\u00e9dica do hospital, a v\u00edtima recebeu alta e procurou atendimento com outros ginecologistas.<\/p>\n<p> Hoje, cinco anos depois, Claudete ainda sente dores durante rela\u00e7\u00f5es sexuais e tem dificuldades para sentar ou abaixar. A m\u00e3e se refere \u00e0 experi\u00eancia como ???um parto anormal??? e luta contra sequelas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas.<\/p>\n<p> Outra v\u00edtima, mesmo m\u00e9dico A moradora de Cristalina (GO), Katarina M\u00e1ximo, 22 anos, tamb\u00e9m lida com os traumas ap\u00f3s ter sofrido viol\u00eancia obst\u00e9trica durante atendimento com o mesmo m\u00e9dico: Jo\u00e3o Luiz Vinhal J\u00fanior. A jovem entrou em trabalho de parto e procurou atendimento no Hospital Maternidade de Cristalina, mas foi informada de que deveria voltar para casa e s\u00f3 procurar a emerg\u00eancia quando estivesse dilatando.<\/p>\n<p> Uma semana depois, em 9 de setembro de 2020, Katarina voltou ao hospital com sangramento. A mulher j\u00e1 tinha ido diversas vezes na emerg\u00eancia, mas n\u00e3o teria sido atendida.<\/p>\n<p> ???Cheguei sangrando e gritando de dor. Me informaram que o m\u00e9dico Jo\u00e3o Luiz estava no hospital, mas estava jantando e s\u00f3 me atenderia quando terminasse. Quando ele p\u00f4de me avaliar, j\u00e1 n\u00e3o conseguia mais escutar o cora\u00e7\u00e3o da beb\u00ea. Minha filha j\u00e1 tinha morrido dentro de mim???, comenta.<\/p>\n<p> Katarina conta que seu desejo era de fazer cesariana, mas n\u00e3o foi respeitada. A v\u00edtima relata que teve de passar por parto normal e que a beb\u00ea foi colocada em uma bacia e n\u00e3o foi mostrada \u00e0 ela. ???Nunca pude conhecer o rostinho da minha filha. Eles n\u00e3o me mostraram e eu n\u00e3o tinha for\u00e7as para lutar contra isso???, lamenta. A operadora de caixa teve hemorragia interna e chegou a desmaiar pelo menos duas vezes durante o parto. Katarina ainda perdeu um rim, devido a uma hemorragia, e precisou fazer hemodi\u00e1lise.<\/p>\n<p> Para continuar o tratamento, Katarina foi transferida para o Hospital Regional do Gama, onde Jo\u00e3o Luiz tamb\u00e9m fazia atendimentos como ginecologista. ???Foi horr\u00edvel. Me colocaram em uma sala com outras m\u00e3es que tinham acabado de ganhar nen\u00e9m. Eu tinha acabado de perder uma filha e n\u00e3o recebi suporte nenhum???, diz revoltada.<\/p>\n<p> Viol\u00eancia obst\u00e9trica no DF Jo\u00e3o Luiz Vinhal J\u00fanior e Gabriela Petrocchi Corassa foram condenados, em primeira inst\u00e2ncia, pelo Tribunal de Justi\u00e7a do Gama. Os m\u00e9dicos s\u00e3o acusados por ???ofender a integridade corporal e a sa\u00fade da v\u00edtima, praticando a acelera\u00e7\u00e3o de parto???. O juiz decidiu que cada um deve pagar R$ 20o mil para Claudete por danos morais. A defesa dos acusados dever\u00e1 recorrer da senten\u00e7a.<\/p>\n<p> J\u00e1 no caso de Katarina, apenas o m\u00e9dico Jo\u00e3o Luiz figura como acusado. Segundo o advogado de Katarina, a Justi\u00e7a n\u00e3o localizou o profissional para intim\u00e1-lo.<\/p>\n<p> Claudete e Katarina s\u00e3o duas entre as milhares de mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia obst\u00e9trica em hospitais do DF. A pesquisa Dimens\u00f5es da Viol\u00eancia Obst\u00e9trica no Distrito Federal, realizada pela Procuradoria Especial da Mulher da C\u00e2mara Legislativa, apontou que a maioria das m\u00e3es sofreu algum tipo de viol\u00eancia no momento do parto.<\/p>\n<p> As v\u00edtimas representaram 203 dos 338 formul\u00e1rios on-line preenchidos entre 11 de mar\u00e7o e 14 de abril de 2020, o que equivale a 60% das entrevistadas. No total, 25% sofreram alguma viol\u00eancia psicol\u00f3gica; 15% passaram pela manobra de Kristeller; 17% receberam ocitocina (horm\u00f4nio utilizado para acelerar as contra\u00e7\u00f5es); 18% foram proibidas de terem acompanhantes e 25% relataram atendimento com grosseria ou impaci\u00eancia dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p> De acordo com a epidemiologista Daphne Rattner, presidente da Rede Pela Humaniza\u00e7\u00e3o do Parto e Nascimento (Rehuna), a viol\u00eancia obst\u00e9trica mais comum \u00e9 quando o m\u00e9dico impede a mulher de participar das decis\u00f5es do parto e das a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o feitas no corpo dela. ???A mulher \u00e9 tratada como um objeto. A nossa luta \u00e9 que as m\u00e3es possam ser protagonistas dos partos delas???, comenta a m\u00e9dica.<\/p>\n<p> Daphne ressalta que os obstetras t\u00eam resistido a se atualizarem com base em evid\u00eancias cient\u00edficas. ???S\u00e3o muitas pesquisas que ressaltam como a manobra de Kristeller \u00e9 danosa e deve ser abandonada e, mesmo assim, vemos muitos relatos de gestantes que sofreram a viol\u00eancia. ?? o mesmo caso da episiotomia, que faz parte de uma cultura que considera o corpo da mulher incompetente para parir. A\u00ed o m\u00e9dico rompe a bolsa para acelerar o parto, sobe na barriga e corta a vagina. O ideal \u00e9 esperar pela dilata\u00e7\u00e3o normal???, finaliza.<\/p>\n<p> O outro lado O Metr\u00f3poles tentou contato com o m\u00e9dico ginecologista obstetra Jo\u00e3o Luiz Vinhal J\u00fanior, mas o profissional n\u00e3o disponibiliza contato de telefone ou e-mail na internet. Ele consta com CRM ativo e seu endere\u00e7o comercial aparece vinculado aos Hospitais Regionais do Gama e de Santa Maria. A reportagem procurou a Secretaria de Sa\u00fade do Distrito Federal, mas a pasta respondeu que n\u00e3o comenta casos que correm em segredo de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p> A advogada Lecienne Vinhal, que aparece como representante legal de Jo\u00e3o Luiz em um dos processos aos quais o Metr\u00f3poles teve acesso, disse que n\u00e3o iria comentar o caso.<\/p>\n<p> A reportagem tamb\u00e9m procurou a m\u00e9dica Gabriela Petrocchi Corassa. Questionada sobre a acusa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia obst\u00e9trica em 2017, ela respondeu que ???estava no meu primeiro ano de resid\u00eancia m\u00e9dica em 2017???.<\/p>\n<p> O advogado Asdrubal Neto, que aparece como representante legal de Gabriela, comentou que a defesa respeita, mas lamenta decis\u00e3o da senten\u00e7a e dever\u00e1 recorrer. ???A doutora Gabriela realizou todos os procedimentos necess\u00e1rios previstos na literatura m\u00e9dica para salvar a vida da paciente e da crian\u00e7a, procurando sempre minimizar os efeitos colaterais da cirurgia???, finalizou.<\/p>\n<p> Em janeiro de 2021, Katarina M\u00e1ximo tamb\u00e9m entrou com processo contra Jo\u00e3o Luiz Vinhal J\u00fanior por neglig\u00eancia m\u00e9dica, mas, neste caso, ele ainda n\u00e3o foi intimado.<\/p>\n<p> Quer ficar ligado em tudo o que rola no quadradinho? 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