{"id":152952,"date":"2022-05-24T01:08:34","date_gmt":"2022-05-24T04:08:34","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/sem-ter-para-onde-ir-grades-marginalizam-ainda-mais-populacao-de-rua-em-bh\/"},"modified":"2022-05-24T01:08:34","modified_gmt":"2022-05-24T04:08:34","slug":"sem-ter-para-onde-ir-grades-marginalizam-ainda-mais-populacao-de-rua-em-bh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/24\/sem-ter-para-onde-ir-grades-marginalizam-ainda-mais-populacao-de-rua-em-bh\/","title":{"rendered":"Sem ter para onde ir: grades marginalizam ainda mais popula\u00e7\u00e3o de rua em BH"},"content":{"rendered":"<div>???S\u00f3 se colocarem a gente na lua, porque morador de rua tem em todo lugar???. A frase \u00e9 uma das muitas reclama\u00e7\u00f5es proferidas por quem vive o desafio di\u00e1rio de tentar se abrigar nas ruas de Belo Horizonte. Grades, pedras e outras interven\u00e7\u00f5es acrescentam um obst\u00e1culo para quem tenta escapar da chuva e do frio na capital, onde lojas e edif\u00edcios residenciais tentam alternativas para evitar a concentra\u00e7\u00e3o de pessoas ao seu redor.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De acordo com registros do Cad??nico, Belo Horizonte tinha mais de 9 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua em dezembro do ano passado. Em mar\u00e7o deste ano, o Observat\u00f3rio Brasileiro de Pol\u00edticas P\u00fablicas com a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, plataforma de direitos humanos do Programa Polos de Cidadania da UFMG, calculou que h\u00e1 uma subnotifica\u00e7\u00e3o de 45% a 50% nos dados, o que indica que, na realidade, o cen\u00e1rio da vulnerabilidade extrema na capital mineira \u00e9 ainda mais grave.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A chegada repentina do frio na \u00faltima semana levantou a discuss\u00e3o sobre os riscos para a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua. Com\u00a0albergues e casas de acolhimento lotados, a situa\u00e7\u00e3o de quem teve de passar as madrugadas g\u00e9lidas sem um teto \u00e9 agravada pelas interven\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o urbano consideradas indevidas pelo professor e coordenador do programa Polos de Cidadania da UFMG, Andr\u00e9 Luiz Freitas Dias.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???Comerciantes, assim como pr\u00e9dios domiciliares colocarem grade embaixo de marquises tem um nome s\u00f3: apropria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o p\u00fablico, indevida, obviamente. N\u00e3o deveria ser tolerado e permitido. Se algu\u00e9m fizer isso, a prefeitura tem que intervir imediatamente, porque \u00e9 algo irregular. Agora a pr\u00f3pria prefeitura colocar pedras, estacas, bancos para evitar deitar \u00e9 uma pr\u00e1tica higienista, discriminat\u00f3ria, excludente e que s\u00f3 sinaliza para uma cidade que \u00e9 produzida para quem pode consumi-la???, avalia o especialista.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para o professor, a exist\u00eancia dessas estruturas que limitam o acesso ao espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 reflexo de uma pol\u00edtica de aproveitamento das cidades baseada na exclus\u00e3o e fere preceitos constitucionais do pa\u00eds.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???Pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal e pelo pr\u00f3prio estatuto da cidade, a l\u00f3gica deveria ser outra, dever\u00edamos estar construindo uma cidade para o bem comum e para o uso compartilhado.<\/div>\n<div>Se eu estou em situa\u00e7\u00e3o de rua, qual op\u00e7\u00e3o eu tenho? N\u00e3o existe op\u00e7\u00e3o de moradia. Nem a marquise, nem a pra\u00e7a, nem debaixo do viaduto. Onde eu posso ficar nessa cidade????, questiona.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A an\u00e1lise de Andr\u00e9 Luiz encontra eco na rea\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de rua. Ponto onde muitas pessoas se concentram para passar a noite, as ruas do bairro Barro Preto pr\u00f3ximas \u00e0 Avenida do Contorno t\u00eam recebido grades nos \u00faltimos meses. Na Rua dos Tamoios h\u00e1 um quarteir\u00e3o com grades de ambos os lados: uma instalada h\u00e1 sete meses, outra h\u00e1 duas semanas; uma em frente a um estabelecimento comercial e outra na entrada de um pr\u00e9dio residencial.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No local, a reportagem conversou com quem costuma passar a noite na regi\u00e3o e ouviu as queixas. ???Eles pensam que s\u00e3o donos da rua, isso \u00e9 para expulsar o morador de rua, pra gente n\u00e3o ter lugar de ficar???, disse um homem que costumava se abrigar embaixo de uma das marquises, agora gradeada, para se proteger durante \u00e0 noite.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O estoquista Wilson Duarte trabalha em um dos estabelecimentos da regi\u00e3o que instalou grades na cal\u00e7ada. Ele conta que n\u00e3o se sente bem com a situa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m reclamou da sujeira no ambiente quando chegava para a labuta durante a manh\u00e3:\u00a0 ???colocaram essa grade aqui de fora a fora e o pessoal saiu. O ruim \u00e9 que ficava muito sujo aqui na porta, a gente fica com d\u00f3, mas fazer o qu\u00ea????.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<h3><b>Pol\u00edtica p\u00fablica de moradia<\/b><\/h3>\n<div><\/div>\n<div>Sancionada no in\u00edcio deste m\u00eas, a lei estadual 24.082 estabelece que a\u00e7\u00f5es de moradia devem ser a primeira etapa na pol\u00edtica de atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua em Minas. Para o coordenador do Polos de Cidadania, a lei \u00e9 importante, pois estabelece corretamente as prioridades no atendimento a quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???As principais alternativas efetivas para a garantia de direitos da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua s\u00e3o um investimento massivo em pol\u00edticas p\u00fablicas estruturantes para moradia e o combate sistem\u00e1tico do racismo estrutural nas cidades, institui\u00e7\u00f5es e sociedade. Nesse sentido, a lei estadual est\u00e1 no caminho correto, cert\u00edssimo???, afirma.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ainda assim, o professor da UFMG ressalta que medidas emergenciais s\u00e3o necess\u00e1rias para assistir \u00e0 popula\u00e7\u00e3o nas ruas. Durante dias de muito frio, por exemplo, os abrigos s\u00e3o fundamentais para oferecer uma op\u00e7\u00e3o de fuga das baixas temperaturas. Para o especialista, BH falha na oferta de vagas em casas de acolhimento.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???Existem 2.200 vagas em acolhimentos provis\u00f3rios na cidade. Dessas 2.200 vagas, somente 600 est\u00e3o no que a gente chama de modalidade ???casa de passagem???, que \u00e9 o equipamento p\u00fablico que a pessoa entra de maneira espont\u00e2nea. As outras 1.600 vagas a pessoa tem que entrar em um fluxo de encaminhamento que pode ser restritivo. E Belo Horizonte tem mais de 9 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua???, critica.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<h3><b>Uma discuss\u00e3o racial<\/b><\/h3>\n<div><\/div>\n<div>???A pol\u00edtica de moradia para popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua deve ser vista como uma medida de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para a popula\u00e7\u00e3o negra. 84% da popula\u00e7\u00e3o de rua que se declara negra em BH. Estamos falando de um fen\u00f4meno social complexo marcado por um racismo estrutural que historicamente deixou e deixa marcas em determinadas exist\u00eancias em nossas cidades???, aponta Andr\u00e9 Luiz Freitas Dias.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para o especialista, n\u00e3o existe coincid\u00eancia na estat\u00edstica que aponta esmagadora maioria de negros dentre os mais vulner\u00e1veis. O professor defende a racializa\u00e7\u00e3o da discuss\u00e3o para enfatizar que a discrimina\u00e7\u00e3o sistematizada durante s\u00e9culos est\u00e1 na raiz da desigualdade social e na forma\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os urbanos excludentes, como pedras, estacas e grades tornam vis\u00edvel aos olhos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???A popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua \u00e9 um fen\u00f4meno complexo e mundial, mas que no Brasil especificamente est\u00e1 muito marcado pelo racismo estrutural. A popula\u00e7\u00e3o negra nas cidades ou est\u00e1 nas ruas, ou nas vilas e favelas, ou nas cadeias ou em hospitais psiqui\u00e1tricos???, conclui.<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>???S\u00f3 se colocarem a gente na lua, porque morador de rua tem em todo lugar???. 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