{"id":156698,"date":"2022-05-28T18:09:37","date_gmt":"2022-05-28T21:09:37","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/arqueologia-no-centro-de-bh-grupo-buscara-artefatos-negros-na-rua-da-bahia\/"},"modified":"2022-05-28T18:09:37","modified_gmt":"2022-05-28T21:09:37","slug":"arqueologia-no-centro-de-bh-grupo-buscara-artefatos-negros-na-rua-da-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/28\/arqueologia-no-centro-de-bh-grupo-buscara-artefatos-negros-na-rua-da-bahia\/","title":{"rendered":"Arqueologia no Centro de BH: grupo buscar\u00e1 artefatos negros na Rua da Bahia"},"content":{"rendered":"<p> A Rainha Conga do Estado Maior de Minas Gerais, Isabel Casimira Gasparino, prestou uma homenagem aos antepassados negros e negras, que podem estar enterrados na Rua da Bahia no Centro de Belo Horizonte. Marcado pelo toque da caixa (um tambor usado nas cerim\u00f4nias dos Reinados), foi evocada a mem\u00f3ria de homens e mulheres negras que viveram na regi\u00e3o, antes mesmo da constru\u00e7\u00e3o da capital conduzida pelo engenheiro Aar\u00e3o Reis.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A homenagem foi um dos momentos da Expedi\u00e7\u00e3o\u00a0 &#8220;Largo do Ros\u00e1rio: uma expedi\u00e7\u00e3o pelo territ\u00f3rio negro em Belo Horizonte&#8221; realizada neste s\u00e1bado (28\/05). Durante o evento, foi anunciada que a pr\u00f3xima etapa de resgate hist\u00f3rico do Largo do Ros\u00e1rio ser\u00e1 a realiza\u00e7\u00e3o de uma sondagem arqueol\u00f3gica para buscar evid\u00eancias da presen\u00e7a da Igreja Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos e do cemit\u00e9rio da irmandade negra.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A rainha Belinha, como \u00e9 conhecida, conduziu uma ora\u00e7\u00e3o de b\u00ean\u00e7\u00e3o e entoou toadas da tradi\u00e7\u00e3o dos festejos de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio. Depois, cerca de 100 pessoas deram um abra\u00e7o simb\u00f3lico demarcando o territ\u00f3rio negro na capital. A expedi\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio na Pra\u00e7a Afonso Arinos e seguiu pela rua da Bahia at\u00e9 a altura do n\u00famero 1.360, local onde os pesquisadores acreditam que ficava a capela e o cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Vice-presidente da Guarda de Mo\u00e7ambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, a rainha Belinha acompanhou o padre Mauro Luiz da Silva, um dos respons\u00e1veis pela pesquisa hist\u00f3rica e trabalho de reconhecimento do Largo do Ros\u00e1rio. A a\u00e7\u00e3o destaca que as irmandades tiveram papel fundamental para a popula\u00e7\u00e3o negra que vivia no Curral Del Rei antes da transfer\u00eancia da capital de Minas de Ouro Preto para Belo Horizonte.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0&#8220;Ali podem estar irm\u00e3os e irm\u00e3s do ros\u00e1rio. n\u00e3o tem documento que faz a traslado para o Cemit\u00e9rio do Bonfim&#8221;, afirma o sacerdote, que realizou pesquisa de doutorado resgatando a hist\u00f3ria de comunidades negras que foram retiradas de onde viviam para a constru\u00e7\u00e3o da capital de Minas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Padre Mauro integra o grupo de pesquisadores, com o arquiteto Thiago Fialho e com o arque\u00f3logo Fernando Costa, que prop\u00f5e a sondagem arqueol\u00f3gica em busca de artefatos do s\u00e9culos XVIII e XIX. O sacerdote explica que, no primeiro momento, ser\u00e1 feita uma sondagem sem que haja perfura\u00e7\u00e3o, &#8220;uma esp\u00e9cie de ultrassom&#8221; do solo, e, de acordo com os achados, o grupo poder\u00e1 solicitar ao\u00a0Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan) autoriza\u00e7\u00e3o para perfurar o solo para dar sequ\u00eancia \u00e0 pesquisa arqueol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nessa sondagem, os pesquisadores esperam encontrar o alicerce da capela, a muralha que cercava o espa\u00e7o cemiterial e at\u00e9 mesmo identificar as sepulturas. &#8220;A expectativa \u00e9 pequena. Mas o que sabemos \u00e9 que, no local, foi colocada terra e n\u00e3o retirada&#8221;, diz, aspecto que refor\u00e7a a esperan\u00e7a de encontrar algo.\u00a0 Ele destaca que o Largo do Ros\u00e1rio recebeu a popula\u00e7\u00e3o negra por cerca de 90 anos at\u00e9 a demoli\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0 <\/p>\n<h3><b>Lei do Padroado<\/b><\/h3>\n<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A Lei do Padroado (que organizava a rela\u00e7\u00e3o entre a Santa S\u00e9 e o Reino de Portugal no per\u00edodo colonial) previa que o sepultamento, nas col\u00f4nias, era uma prerrogativa da Igreja Cat\u00f3lica. Mas, em muitos locais, os negros estavam vinculados \u00e0s estruturas cat\u00f3licas por meio das irmandades. Portanto, para que os negros pudessem ser sepultados com dignidade, as irmandades erguiam as igrejas pr\u00f3prias. Como h\u00e1 ind\u00edcios da constru\u00e7\u00e3o da igreja no local,\u00a0 muito provavelmente havia um cemit\u00e9rio onde os negros eram enterrados.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre igreja e Estado, representado pelo rei de Portugal, s\u00f3 foi superada com a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. O primeiro cemit\u00e9rio laico em Belo Horizonte, o Cemit\u00e9rio do Bonfim, foi planejado pela comiss\u00e3o construtora da capital e inaugurado em 1897. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 documentos que apontem que os corpos do cemit\u00e9rio do Largo do Ros\u00e1rio tenham sido levados para o Cemit\u00e9rio do Bonfim.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;As irmandades queriam ter um templo, porque queriam ter um cemit\u00e9rio que pudessem administrar&#8221;, diz Padre Mauro. Somente assim, poderiam fazer enterros dignos de pessoas negras, com os ritos que eram enterradas pessoas brancas. A igreja cat\u00f3lica tinha direito aos sepultamentos, fora da jurisdi\u00e7\u00e3o dos templos, os sepultamentos eram considerados informais.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Padre Mauro lembra que a hip\u00f3tese de que &#8220;irm\u00e3os e irm\u00e3s do Ros\u00e1rio&#8221; estejam sepultados embaixo do asfalto foi levantada durante a atividade de ocupa\u00e7\u00e3o &#8220;NegriCidade&#8221;, realizada em 2019, que contou com a participa\u00e7\u00e3o da rainha Belinha. &#8220;Nossos ancestrais est\u00e3o plantados debaixo dos edif\u00edcios. Por que plantados? Eles n\u00e3o foram retirados daqui. A minha surpresa, quando fiquei sabendo dessa hist\u00f3ria, \u00e9 pensar quantas vezes passamos por cima dos nossos antepassados. ??s vezes, sent\u00edamos uma tristeza ou um arrepio e pergunt\u00e1vamos: &#8216;o que est\u00e1 havendo?'&#8221;, afirma a rainha Belinha. Ela lembra que desde a constru\u00e7\u00e3o da capital havia um movimento para expulsar a popula\u00e7\u00e3o negra do per\u00edmetro da Avenida do Contorno.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As irmandades negras foram proibidas pela Igreja Cat\u00f3lica em 1923 e, desde ent\u00e3o, foram empurradas para as favelas e periferias para al\u00e9m da Avenida do Contorno. &#8220;Cerca de 53 guardas de reinado resistem e sobrevivem nas periferias e favelas, formando um ros\u00e1rio no entorno da Avenida do Contorno&#8221;, pontua Padre Mauro. <\/p>\n<h3>Largo do Ros\u00e1rio \u00e9 patrim\u00f4nio imaterial<\/h3>\n<p>O registro do Largo do Ros\u00e1rio como patrim\u00f4nio imaterial de Belo Horizonte,foi aprovada em 27 de abril. A primeira ocupa\u00e7\u00e3o desse territ\u00f3rio depois desse reconhecimento, com atividade presencial, foi realizada no dia 13 de maio com o projeto &#8220;Caminhos do Ros\u00e1rio&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Durante a expedi\u00e7\u00e3o, a segunda atividade presencial realizada, foi apresentada aos participantes a carta que a Irmandade na Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos do Arraial do Curral Del Rei, Freguesia de Nossa Senhora da Boa Viagem, enviou para Dom Jo\u00e3o VI em 1807.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A irmandade solicitava a constru\u00e7\u00e3o de um templo religioso onde &#8220;sant\u00edssima senhora&#8221; pudesse ser louvada. A resposta de Dom Jo\u00e3o Vl, em 23 de outubro de 1807, reconheceu que o templo estava em constru\u00e7\u00e3o. De acordo com a pesquisa de Padre Mauro, a irmandade estava no Curral Del Rei desde meados do s\u00e9culo XVIII.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Padre Mauro destaca que, antes da constru\u00e7\u00e3o da Igreja do Ros\u00e1rio, a irmandade se reunia na Igreja Matriz da Boa Viagem &#8211;\u00a0 ainda n\u00e3o havia refer\u00eancia \u00e0 catedral. &#8220;A igreja matriz tem ali a espiritualidade do povo do Ros\u00e1rio. H\u00e1 documentos de Ab\u00edlio Barreto que apontam que, em um dos altares laterais, havia a imagem de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio&#8221;, conta. A Igreja Matriz foi erguida em homenagem \u00e0 Nossa Senhora da Boa Viagem. &#8220;A imagem mais importante ficava no altar central. Nos altares laterais, t\u00ednhamos a imagem de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, indicando a presen\u00e7a de devotos de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio na Igreja Matriz&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A irmandade enviou a carta e um livro de compromisso para Dom Jo\u00e3o VI, documentos que est\u00e3o no Arquivo Hist\u00f3rico Ultramarino em Lisboa, Portugal. A capela foi inaugurada em 8 de outubro 1819 e uma foto feita pelo Departamento de Registro da Comiss\u00e3o Construtora, datada de 1895, est\u00e1 guardada no Museu Hist\u00f3rico Ab\u00edlio Barreto.\u00a0 Essa primeira capela do Ros\u00e1rio foi demolida em 1894 para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova capital &#8220;republicana, moderna e organizada&#8221;. Tempos depois, a Capela do Ros\u00e1rio foi transferida para a Rua S\u00e3o Paulo, onde permanece at\u00e9 os dias de hoje.\u00a0<\/p>\n<h3>Igreja est\u00e1 sinalizada em cadernetas da comiss\u00e3o construtora<\/h3>\n<p>O pesquisador Thiago Fialho pesquisa 672 cadernetas da comiss\u00e3o construtora. Em duas das cadernetas, n\u00famero 6 e 466, o pesquisador encontrou a localiza\u00e7\u00e3o da capela. A fachada ficava virada para o Sol nascente. &#8220;A inclina\u00e7\u00e3o para o Sol nascente \u00e9 uma perspectiva afro-diasp\u00f3rica. Colocar o templo para o Sol nascente \u00e9 uma experi\u00eancia pr\u00e9-crist\u00e3&#8221;, diz Padre Mauro.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O arquiteto informa que na caderneta 6, datada de 1894, foi realizado pela comiss\u00e3o construtora o registro do Largo do Ros\u00e1rio antes da constru\u00e7\u00e3o da capital mineira. No documento tamb\u00e9m h\u00e1 a indica\u00e7\u00e3o de quem morava naquela regi\u00e3o.\u00a0 A estimativa \u00e9 que cera de 4 mil pessoas viviam no Curral Del Rei na \u00e9poca e uma centena na regi\u00e3o do largo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A caderneta\u00a0 466, datada de 1898, aponta a localiza\u00e7\u00e3o da Igreja do Ros\u00e1rio entre as estacas 4 e 5. As estacas s\u00e3o usadas no trabalho topogr\u00e1fico para medir o nivelamento do terreno. As estacas est\u00e3o na Rua 26, o primeiro nome da Rua da Bahia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Rainha Conga do Estado Maior de Minas Gerais, Isabel Casimira Gasparino, prestou uma homenagem aos antepassados negros e negras, que podem estar enterrados\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":156699,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8648],"tags":[],"class_list":["post-156698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=156698"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156698\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=156698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=156698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=156698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}