{"id":156838,"date":"2022-05-29T07:03:54","date_gmt":"2022-05-29T10:03:54","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/os-passaros-quando-morrem-caem-no-ceu\/"},"modified":"2022-05-29T07:03:54","modified_gmt":"2022-05-29T10:03:54","slug":"os-passaros-quando-morrem-caem-no-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/29\/os-passaros-quando-morrem-caem-no-ceu\/","title":{"rendered":"Os p\u00e1ssaros quando morrem caem no c\u00e9u"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Tenho uma d\u00edvida antiga com passarinhos. Da\u00ed essa mania de viver de olho nas aves em todo lugar. A passarada sempre prende a minha aten\u00e7\u00e3o, seja voando, cantarolando, mergulhando de rasp\u00e3o na \u00e1gua, ciscando no ch\u00e3o, ca\u00e7ando o de comer nas flores ou em revoadas inesperadas no tr\u00e2nsito. Costumo at\u00e9 conversar com as cambacicas, sempre que elas pousam distra\u00eddas na varanda do apartamento.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Alguns p\u00e1ssaros falam mais que muita gente. Notei que as cambacicas sumiram no in\u00edcio da pandemia, s\u00f3 para voltar do susto ainda mais cheias de assunto. Entre as asas e os p\u00e9s, tem essa conta que n\u00e3o fecha. ?? que, na inf\u00e2ncia, andei ca\u00e7ando com badogue no Barro Vermelho, a fazenda do meu tio em Baixa Grande, um dos meus lugares prediletos. Nos currais da mem\u00f3ria, ton\u00e9is de licuri, banhos de rio.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Badogue \u00e9 o mesmo que estilingue, arma artesanal feita com pau e tira de borracha. Simples de fabricar: cava a madeira at\u00e9 moldar, isso se uma \u00e1rvore j\u00e1 n\u00e3o der o arco feito. Amarra a borracha de um lado a outro. P\u00f5e uma pedra no meio, estica at\u00e9 cansar e, ent\u00e3o, atira para o alto. Se atingida, a ave interrompe o voo e cai morta. Passatempo cruel, desses que confirmam a voca\u00e7\u00e3o da humanidade para a viol\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Dia desses, assisti a um v\u00eddeo impressionante, gravado por c\u00e2meras de seguran\u00e7a em Cuauht\u00e9moc, no M\u00e9xico, no qual dezenas de melros de cabe\u00e7a amarela, uma ave canadense em migra\u00e7\u00e3o de inverno, despencam em bando no ch\u00e3o. ?? como se um invis\u00edvel canh\u00e3o-atiradeira disparasse para o alto centenas de pedras a esmo . N\u00e3o se sabe ainda a raz\u00e3o, alguns consideram sinal do fim dos tempos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para o poeta portugu\u00eas Jos\u00e9 Gomes Ferreira (1900-1985), os p\u00e1ssaros quando morrem n\u00e3o desabam no ch\u00e3o, antes caem no c\u00e9u. E isso ele concluiu, numa licen\u00e7a po\u00e9tica espetacular, ao andar em v\u00e3o toda a manh\u00e3 ???a procurar entre as \u00e1rvores um cad\u00e1ver pequenino que desse o sangue \u00e0s flores e as asas \u00e0s folhas secas?????? e n\u00e3o encontrar, ao menos no poema, vest\u00edgio algum de aves mortas na floresta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em um planeta no qual a poesia parece secar gradativamente, como um rio que mant\u00e9m o fluxo vivo apenas nos subterr\u00e2neos, s\u00e3o os fios el\u00e9tricos dos postes e os pesticidas que costumam abater as aves. Isso quando elas n\u00e3o colidem com as h\u00e9lices das turbinas de avi\u00f5es ou contra os para-brisas de autom\u00f3veis. ?? que os p\u00e1ssaros n\u00e3o foram feitos para os c\u00e9us do nosso mundo, de luzes artificiais e pr\u00e9dios gigantes.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Dizem que os gregos praticavam a ornitomancia, um tipo de adivinha\u00e7\u00e3o oracular que consistia em observar o movimento dos p\u00e1ssaros. A altura dos voos, as cores e as esp\u00e9cies, at\u00e9 mesmo as mudan\u00e7as de rumo, guardavam mensagens. A sabedoria popular dita que ver um passarinho morto significa que a dor vai acabar. Mas, se um passarinho vivo vier em sua dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 a felicidade que est\u00e1 a caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho uma d\u00edvida antiga com passarinhos. Da\u00ed essa mania de viver de olho nas aves em todo lugar. 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