{"id":157334,"date":"2022-05-30T05:06:38","date_gmt":"2022-05-30T08:06:38","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/o-sono-da-razao-gera-monstros\/"},"modified":"2022-05-30T05:06:38","modified_gmt":"2022-05-30T08:06:38","slug":"o-sono-da-razao-gera-monstros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/30\/o-sono-da-razao-gera-monstros\/","title":{"rendered":"O sono da raz\u00e3o gera monstros"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Na semana passada, fui entrevistado por um amigo jornalista para o lan\u00e7amento do meu novo livro. Entre outros assuntos, ele me perguntou como fa\u00e7o para manter a f\u00e9 no homem, j\u00e1 que diariamente somos bombardeados por not\u00edcias tenebrosas, sobretudo neste Brasil em frangalhos. Ele sabe e compartilha da minha voca\u00e7\u00e3o humanista e da minha cren\u00e7a na for\u00e7a da arte e do conhecimento como armas contra a estupidez e a brutalidade.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Respondi que vejo uma evolu\u00e7\u00e3o, ainda que lenta e acompanhada por eventuais retrocessos, no curso da humanidade, mesmo que muitas vezes sejamos tomados pelo desencanto. Essa minha f\u00e9 no ser humano sofreu um forte abalo na \u00faltima quarta-feira, quando me deparei com as cenas de policiais rodovi\u00e1rios federais executando um homem inocente em Umba\u00faba, Sergipe. ?? vista de todos, durante o dia, sem qualquer escr\u00fapulo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Genivaldo de Jesus Santos, negro, 38 anos, com problemas mentais, foi morto no porta-malas de uma viatura, asfixiado por g\u00e1s, enquanto os policiais o impediam de sair. ?? uma cena aterradora, mas a sua banalidade torna tudo ainda mais revoltante. Estamos falando de um cidad\u00e3o assassinado numa c\u00e2mara de g\u00e1s por funcion\u00e1rios do Estado brasileiro. Imposs\u00edvel n\u00e3o tra\u00e7ar um paralelo com os campos de exterm\u00ednio nazistas. Auschwitz \u00e9 aqui.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Fico me perguntando o que falta para nos darmos conta de que uma linha crucial foi ultrapassada. Que um crime como esse n\u00e3o precisa apenas de puni\u00e7\u00e3o rigorosa e exemplar, mas tamb\u00e9m de indigna\u00e7\u00e3o coletiva. Por outro lado, quantos limites j\u00e1 n\u00e3o foram ultrapassados antes, sem que houvesse um grito de basta? Esse epis\u00f3dio est\u00e1 longe de ser um fato isolado. Ele faz parte de uma metodologia do terror, praticada por for\u00e7as policiais com o incentivo t\u00e1cito de um presidente que cultua um torturador e estimula chacinas contra civis.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em um artigo exemplar, o jornalista Reinaldo Azevedo lembrou, no seu blog no UOL, da frase de Pedro Aleixo, ent\u00e3o vice-presidente do pa\u00eds, quando Costa e Silva decidiu baixar o AI-5, no dia 13 de dezembro de 1968: ???Presidente, o problema de uma lei assim n\u00e3o \u00e9 o senhor, nem os que com o senhor governam o pa\u00eds. O problema \u00e9 o guarda da esquina???. Reinaldo acertou na mosca. ?? o exemplo que vem de cima e desemboca nas ruas, nas opera\u00e7\u00f5es policiais, na trucul\u00eancia como \u00fanica forma de abordagem, no aniquilamento sistem\u00e1tico de seres humanos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">At\u00e9 o momento em que escrevo, n\u00e3o se sabe o nome dos agentes criminosos. A Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal publicou uma nota indigna, que n\u00e3o reproduzo aqui para n\u00e3o reverberar manifesta\u00e7\u00f5es de cinismo. Provavelmente esses agentes v\u00e3o se beneficiar da impunidade reservada a praticamente todos os profissionais fardados que agem da mesma forma. Incluindo aqueles que matam crian\u00e7as e adolescentes em morros do Rio de Janeiro ou de Salvador.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em outra entrevista concedida na semana passada, esta para o pr\u00f3prio Correio (que voc\u00ea ler aqui), manifestei minha preocupa\u00e7\u00e3o diante do que enxergo como uma arquitetura da destrui\u00e7\u00e3o, express\u00e3o que n\u00e3o por acaso d\u00e1 nome a um document\u00e1rio sobre o nazismo. Vivemos hoje algo muito parecido com o que aconteceu nos anos 1930 na Europa, quando o ovo da serpente foi gerado sob os olhos do mundo. Deu no que deu.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em sua autobiografia O Mundo de Ontem, que estou lendo, o escritor austr\u00edaco Stefan Zweig definiu assim o resultado do avan\u00e7o fascista sobre o continente: ???Contra a minha vontade eu me tornei testemunha da mais terr\u00edvel derrota da raz\u00e3o e do mais selvagem triunfo da brutalidade dentro da cr\u00f4nica dos tempos; nunca ??? eu n\u00e3o registro isso de maneira alguma com orgulho, mas sim com\u00a0vergonha ??? uma gera\u00e7\u00e3o sofreu tamanho retrocesso moral, vindo de uma tal altura intelectual como a nossa.???<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Com exce\u00e7\u00e3o do fato de que n\u00e3o partimos de grande altura intelectual, o testemunho de Zweig poderia ser aplicado quase inteiramente ao Brasil militarizado e instrumentalizado dos \u00faltimos quatro anos. Verissimo certa vez escreveu: ???O sono da raz\u00e3o gera monstros, diz aquela frase numa gravura do Goya. O sono da raz\u00e3o parece ficar cada vez mais profundo, na noite atual???. A mim, resta apenas concordar com os mestres.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">*<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na pr\u00f3xima quinta, dia 2 de junho, \u00e0s 19h30, lan\u00e7o o livro Pegadas no Solo do Tempo, sele\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas publicadas aqui no CORREIO\u00a0todas as segundas. Os que me acompanham aqui neste espa\u00e7o est\u00e3o todos convidados. O lan\u00e7amento acontecer\u00e1 no espa\u00e7o cultural Oito Imagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada, fui entrevistado por um amigo jornalista para o lan\u00e7amento do meu novo livro. 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