{"id":158773,"date":"2022-09-12T13:54:52","date_gmt":"2022-09-12T16:54:52","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/09\/lider-dos-usuarios-de-drogas-deixa-a-cracolandia-apos-39-anos-de-vicio\/"},"modified":"2022-09-12T13:54:52","modified_gmt":"2022-09-12T16:54:52","slug":"lider-dos-usuarios-de-drogas-deixa-a-cracolandia-apos-39-anos-de-vicio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/09\/12\/lider-dos-usuarios-de-drogas-deixa-a-cracolandia-apos-39-anos-de-vicio\/","title":{"rendered":"L\u00edder dos usu\u00e1rios de drogas deixa a cracol\u00e2ndia ap\u00f3s 39 anos de v\u00edcio"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>De camisa branca, cal\u00e7a e sapatos sociais, Reginaldo dos Santos, 57, \u00e9 categ\u00f3rico ao se referir ao apelido pelo qual foi conhecido por mais de 30 anos na cracol\u00e2ndia. &#8220;O Mafalda morreu, agora eu sou o &#8216;salveiro&#8217; de Jesus&#8221;, diz segurando uma b\u00edblia com a figura de um le\u00e3o na capa.<\/p>\n<\/div>\n<div>Na cracol\u00e2ndia, &#8220;salveiro&#8221; \u00e9 quem &#8220;d\u00e1 o salve&#8221;, o respons\u00e1vel por fazer a comunica\u00e7\u00e3o entre a pol\u00edcia, o crime organizado e o fluxo, como \u00e9 chamada a aglomera\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios de drogas no centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<\/div>\n<div>&#8220;Eu era o comunicador, o negociador&#8221;, diz ele sobre a fun\u00e7\u00e3o que exerceu nos \u00faltimos nove anos na cracol\u00e2ndia. &#8220;Chegava a GCM (Guarda Civil Metropolitana) [no fluxo] e n\u00e3o tinha ningu\u00e9m l\u00e1 para falar [com os guardas]. Eu, ent\u00e3o, perguntava o que eles queriam. N\u00e3o conseguia barrar a a\u00e7\u00e3o, mas dava tempo de organizar as pessoas. Eu mantinha a integridade f\u00edsica de todos com o di\u00e1logo&#8221;, lembra ele, que nega ter feito parte de qualquer organiza\u00e7\u00e3o criminosa.<\/p>\n<\/div>\n<div>Durante as a\u00e7\u00f5es policiais recentes para prender traficantes e dispersar o fluxo era ele quem repassava as ordens da GCM aos usu\u00e1rios de drogas para se manterem sentados no asfalto e formarem fila para serem revistados. Quase sempre usava cal\u00e7as largas de palha\u00e7o em alus\u00e3o \u00e0 sua carreira de 23 anos como artista circense que lhe rendeu o apelido da personagem que costumava interpretar no picadeiro, a Vov\u00f3 Mafalda.<\/p>\n<\/div>\n<div>Segundo as investiga\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Civil, Santos \u00e9 classificado como &#8220;lagarto&#8221;, nome dado aos usu\u00e1rios que gozam da confian\u00e7a dos traficantes da cracol\u00e2ndia e, geralmente, prestam servi\u00e7os para sustentar o v\u00edcio em crack. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de que ele traficava&#8221;, diz Roberto Monteiro, delegado da 1\u00aa Seccional do Centro.<\/p>\n<\/div>\n<div>Quando n\u00e3o estava no fluxo, ele ficava em um quarto de hotel pr\u00f3ximo onde era procurado com frequ\u00eancia para resolver conflitos entre usu\u00e1rios. &#8220;Eu n\u00e3o tinha sossego. Era [chamado] de dia e de noite&#8221;, diz.<\/p>\n<\/div>\n<div>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, a despedida de Mafalda foi definitiva. &#8220;Cansei. Eu ajudava todos, era padre, psic\u00f3logo, conselheiro sentimental, juiz, mas quando precisei de ajuda, fiquei deitado sozinho em um sof\u00e1 no meio do fluxo. N\u00e3o tinha for\u00e7as nem para buscar comida&#8221;, lembra sobre o per\u00edodo recente em que contraiu pneumonia e tuberculose.<\/p>\n<\/div>\n<div>&#8220;Nunca estive t\u00e3o mal a ponto de procurar ajuda&#8221;, diz sobre o momento em que tomou a decis\u00e3o de abandonar o v\u00edcio. Ele conta ter chegado a consumir 15 gramas de crack por dia. &#8220;Eu fumava [crack] todo dia, sem parar, era como fumar cigarro&#8221;, lembra.<\/p>\n<\/div>\n<div>Foi quando finalmente aceitou o convite para deixar a cracol\u00e2ndia e buscar tratamento na comunidade terap\u00eautica do projeto Da Pedra para a Rocha, que resgata usu\u00e1rios de drogas das ruas de S\u00e3o Paulo h\u00e1 dez anos. Era uma sexta-feira a tarde e integrantes do projeto distribu\u00edam refei\u00e7\u00f5es na cracol\u00e2ndia.<\/p>\n<\/div>\n<div>&#8220;Quando ele pediu ajuda, eu nem acreditei porque o via h\u00e1 anos na cracol\u00e2ndia. Tive que pedir a outro irm\u00e3o para busc\u00e1-lo porque sabia que n\u00e3o podia esperar [at\u00e9 o fim da distribui\u00e7\u00e3o]&#8221;, conta Jos\u00e9 Roberto Floriano, o Bet\u00e3o, ex-traficante que integra o projeto social dedicado a recuperar dependentes qu\u00edmicos mantido por Jos\u00e9 Ricardo Cypriano, 47, o pastor Rica.<\/p>\n<\/div>\n<div>Ex-usu\u00e1rio de drogas, o pastor da igreja Bola de Neve mant\u00e9m outras duas comunidades terap\u00eauticas em S\u00e3o Paulo. Nas unidades, todo o trabalho \u00e9 feito por ex-internos que tamb\u00e9m disp\u00f5em de um abrigo ap\u00f3s o tratamento at\u00e9 conseguirem retomar a vida em sociedade. Santos, por exemplo, trabalha na cozinha e ajuda no preparo das refei\u00e7\u00f5es dos internos.<\/p>\n<\/div>\n<div>O projeto mant\u00e9m parceria com empresas que se disponibilizam a empregar os ex-dependentes qu\u00edmicos. Segundo o pastor, 12 est\u00e3o trabalhando ap\u00f3s passarem pelo projeto. &#8220;Tem que trazer para junto, n\u00e3o adianta s\u00f3 oferecer tratamento e depois cada um que se vire&#8221;, diz o pastor.<\/p>\n<\/div>\n<div>Em tratamento, Santos conta n\u00e3o ter tido crises de abstin\u00eancia, apenas dificuldade em obedecer aos hor\u00e1rios das refei\u00e7\u00f5es, em vez de comer quando quer, como costumava ser sua rotina. &#8220;Eu tinha tudo na m\u00e3o na hora que queria, n\u00e3o pagava por nada&#8221;, conta sobre o sistema vigente entre os usu\u00e1rios em que pedras de crack s\u00e3o usadas como moeda de troca para quase tudo.<\/p>\n<\/div>\n<div>Os anos de v\u00edcio em drogas o distanciaram da fam\u00edlia e, h\u00e1 20 anos, n\u00e3o tem mais contato com nenhum parente. Ele calcula ter 19 filhos. &#8220;Eu era palha\u00e7o, ladr\u00e3o de mulher, como diz o ditado&#8221;, diz sobre a carreira como artista circense. &#8220;Tenho o teste de DNA de quatro filhos&#8221;, continua.<\/p>\n<\/div>\n<div>A vida itinerante entremeada pelo v\u00edcio em drogas come\u00e7ou aos 17 anos, quando que ele decidiu deixar a fam\u00edlia em Campinas, no interior de S\u00e3o Paulo, onde morava para seguir o circo. &#8220;Eu me apaixonei pela bailarina e fui embora&#8221;, lembra. &#8220;Fui artista circense por 23 anos, rodei quase o Brasil todo e tive dois circos&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div>Ele diz que o primeiro contato com a droga foi aos 13 anos, quando experimentou cola e maconha. Em um dia de folga das apresenta\u00e7\u00f5es no circo, no largo do Paissandu, no centro de S\u00e3o Paulo, Santos experimentou crack pela primeira vez, quando tinha 18 anos. &#8220;Na \u00e9poca, [a droga] se chamava casquinha. Foi o beijo da morte, nunca mais larguei&#8221;, lembra.<\/p>\n<\/div>\n<div>Entre os muitos n\u00fameros circenses que conta ter realizado ao longo de 23 anos, o papel de palha\u00e7o \u00e9 o que ele acredita fazer melhor. &#8220;Fazia o quadro da fam\u00edlia Buscap\u00e9 em que entram v\u00e1rios palha\u00e7os dentro de um t\u00e1xi maluco. Eu fazia a mulher idosa, a vov\u00f3&#8221;, lembra sobre o in\u00edcio das atra\u00e7\u00f5es como vov\u00f3 Mafalda.<\/p>\n<\/div>\n<div>Uma semana ap\u00f3s ter deixado a cracol\u00e2ndia, Reginaldo pediu para voltar ao fluxo de usu\u00e1rios &#8220;e sentir a emo\u00e7\u00e3o de ter deixado aquele lugar&#8221;, diz ele.<\/p>\n<\/div>\n<div>As visitas passaram a ser semanais, toda sexta-feira a noite, para distribuir pratos de sopa aos usu\u00e1rios de drogas. &#8220;Quando eu chego l\u00e1, grito &#8216;e a\u00ed, fam\u00edlia? Chegou a sopa de Jesus&#8221; conta. &#8220;As pessoas choram ao ver a minha transforma\u00e7\u00e3o. Se eu consegui [deixar o v\u00edcio], elas tamb\u00e9m podem. A mensagem \u00e9 essa&#8221;, diz o ex-frequentador da cracol\u00e2ndia que conta j\u00e1 ter convencido outros seis usu\u00e1rios a buscar tratamento em pouco mais de um m\u00eas.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De camisa branca, cal\u00e7a e sapatos sociais, Reginaldo dos Santos, 57, \u00e9 categ\u00f3rico ao se referir ao apelido pelo qual foi conhecido por mais\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":158774,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2799],"tags":[],"class_list":["post-158773","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=158773"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158773\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/158774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=158773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=158773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=158773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}