{"id":161335,"date":"2022-06-04T12:15:21","date_gmt":"2022-06-04T15:15:21","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/e-como-se-tivessem-passado-uma-patrol-em-nossa-subjetividade\/"},"modified":"2022-06-04T12:15:21","modified_gmt":"2022-06-04T15:15:21","slug":"e-como-se-tivessem-passado-uma-patrol-em-nossa-subjetividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/04\/e-como-se-tivessem-passado-uma-patrol-em-nossa-subjetividade\/","title":{"rendered":"?? como se tivessem passado uma patrol em nossa subjetividade"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Esse &#8220;esc\u00e2ndalo dos sertanejos&#8221; n\u00e3o me surpreende em nada. Pelo contr\u00e1rio, reafirma a antipatia que nutro h\u00e1 anos. Nunca consegui, nem por um minuto, ir com a cara de nenhuma dupla dessas. N\u00e3o suporto o estilo. Esse breganejo ou sei l\u00e1 como \u00e9 que chama. Esse neg\u00f3cio que voc\u00ea sabe do que que eu t\u00f4 falando. Esse dos relatos de cornos, do &#8220;chifre no asfalto&#8221;, da adora\u00e7\u00e3o \u00e0 cacha\u00e7a e do p\u00fablico fanat\u00edssimo. Tenho horror absoluto. Ao ambiente, \u00e0s roupas, \u00e0s melodias, a tudo. Coisa delicada de dizer, atualmente. ?? que o pessoal gosta de rebater confundindo reserva est\u00e9tica com arrog\u00e2ncia intelectual e preconceito social. S\u00f3 que isso \u00e9 bem desonesto e n\u00e3o cola aqui.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Zeca Pagodinho \u00e9 de Xer\u00e9m. Carlinhos Brown \u00e9 do Candeal Pequeno. Elza Soares era do Planeta Fome. Criolo \u00e9 do Graja\u00fa. Luedji Luna nasceu no Cabula e cresceu em Brotas. N\u00e3o tem lugar dito &#8220;nobre&#8221; na lista, assim como nos endere\u00e7os de origem de tantos outros nomes divinos e maravilhosos. Ou seja, a relev\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o cultural e art\u00edstica em nossas periferias, cidades do interior, bairros menos abastados e comunidades \u00e9 a regra, na real.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Procure saber o que s\u00e3o as pe\u00e7as de cer\u00e2mica em Maragogipinho, o encantamento do samba de roda de Cachoeira, a beleza acachapante do maracatu rural na Zona da Mata pernambucana, s\u00f3 citando mais tr\u00eas coisas que s\u00e3o dos meus dengos e passaram aqui na cabe\u00e7a. Mas o rol \u00e9 imenso, nem sei se finito, e continua com os grafites de Castelo Branco, a leveza do &#8220;passinho&#8221; do sub\u00farbio carioca, a comida dos tabuleiros da Bahia, nossos blocos afro, Dona Onete e todo o Par\u00e1 dentro dela. Tudo lindo, nem tudo &#8220;intelectualmente sofisticado&#8221; e minha cabe\u00e7a nem tem essa &#8220;sofistica\u00e7\u00e3o&#8221; toda tamb\u00e9m.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Seguindo os pontos, se desenha um mapa mental de belezas vivas e nem o meu conhecimento limitado das entranhas do Brasil me impede de perceber o \u00f3bvio: se voc\u00ea quer produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica com riqueza , qualidade e pulsa\u00e7\u00e3o, vai achar bem mais f\u00e1cil em &#8220;rotas alternativas&#8221;, no real sentido de &#8220;popular&#8221;, do que no mainstream das classes m\u00e9dia e alta deste pa\u00eds. A arte relativa e pertencente ao povo \u00e9 isso a\u00ed. E linda.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 preconceito social, confere? Nem arrog\u00e2ncia intelectual. Pelo menos, n\u00e3o pra mim. ?? apenas a constata\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de que &#8220;a crise \u00e9 est\u00e9tica&#8221;, como cravou, se n\u00e3o me engano, o jornalista Bruno Torturra, h\u00e1 anos. Essa crise atinge a todos. Tudo come\u00e7ou quando um n\u00famero cada vez maior de brasileiros &#8211; de todas as classes sociais &#8211; passou a achar bonito dan\u00e7ar e cantar ao som de coisas como &#8220;a muri\u00e7oca pica, pica e soca, soca&#8221;. Cito isso, que n\u00e3o sei nem de quem \u00e9 (nem quero saber) porque foi meu marco zero. Foi nesse dia que pensei &#8220;tamos na merda&#8221;, ouvindo, acidentalmente, esse neg\u00f3cio, em volume alt\u00edssimo, enquanto andava nas ruas de certa cidade do interior da Bahia.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">N\u00e3o t\u00f4 reclamando de pic\u00e2ncias n\u00e3o, que puritanismo voc\u00ea n\u00e3o vai encontrar em mim. Tenho at\u00e9 minha playlist de MEB (M\u00fasica Er\u00f3tica Brasileira) que abre com Avassaladora. Gonzaguinha, conhece isso? Vou botar em QR code e link. Escute alto e suba pelas paredes. N\u00e3o \u00e9 moleza. Inclusive, em meus folguedos a dois, utilizada do jeito certo, nunca falhou. Dance isso com seu alvo, devagarinho, \u00e0 meia luz e d\u00ea s\u00f3 uma ro\u00e7adinha de rosto que voc\u00ea vai ver. Mas, dispersei. Crendeuspai. J\u00e1 tinha at\u00e9 largado o texto e tava escutando Simone cantando Paix\u00e3o, eu toda cheia de pensamentos que, agora, n\u00e3o vem ao caso. Voltemos.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Empobrecimento est\u00e9tico, esse \u00e9 o ponto. O que eu n\u00e3o sei \u00e9 se \u00e9 sintoma ou a pr\u00f3pria doen\u00e7a, mas que a bruma do mau gosto baixou sobre o territ\u00f3rio brasileiro \u00e9 fato incontestabil\u00edssimo. Passamos a construir &#8220;igrejas&#8221; que parecem delegacias, a fazer esses apartamentos s\u00f3 na cor bege e outras parecidas, a triplicar os tamanhos dos bei\u00e7os, a desenhar essas sobrancelhas da Nike e a &#8220;louvar&#8221; com uma cafonice jamais vista na hist\u00f3ria deste pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">At\u00e9 profanar, que era um neg\u00f3cio bonito e alegre, virou um depressivo &#8220;senta, senta, senta&#8221;, pra dizer o m\u00ednimo. Homogeneizamos nisso, que \u00e9 o que assusta, porque fei\u00faras e belezas sempre coexistiram e essa \u00e9 at\u00e9 parte divertida da vida. J\u00e1 escutaram as m\u00fasicas mais ouvidas, nas capitais brasileiras, nas listas do Spotify? Eu fiz esse exerc\u00edcio. D\u00e1 vontade de chorar pela constata\u00e7\u00e3o da idiotia predominante e coletiva.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Vive em mendic\u00e2ncia est\u00e9tica um povo que, predominantemente, consome aquilo. O que n\u00e3o seria t\u00e3o preocupante se a est\u00e9tica fosse uma dimens\u00e3o estanque do humano. Mas a gente sabe (voc\u00ea sabe, n\u00e9?) que n\u00e3o \u00e9 assim. A capacidade de se emocionar diante do belo, de buscar o original, de utilizar o pr\u00f3prio idioma de forma criativa, de manifestar conte\u00fados por meio da arte, tudo isso quer dizer humanidade. Tudo isso faz parte do conjunto de habilidades e caracter\u00edsticas que nos distanciam, em termos evolutivos, de uma ancylostoma duodenal. Por exemplo. Nesse pacote tamb\u00e9m est\u00e1, e em retroalimenta\u00e7\u00e3o, o bendito senso cr\u00edtico.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">(De acordo com o dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio, senso cr\u00edtico\u00a0\u00e9 a ???capacidade de analisar, refletir ou buscar informa\u00e7\u00f5es antes de tirar uma conclus\u00e3o. ?? a tend\u00eancia de quem n\u00e3o aceita automaticamente o que lhe \u00e9 dito ou imposto???.)\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">?? como se tivessem passado uma patrol em nossa subjetividade. T\u00e1 tudo nivelado. Por baixo. Na derrocada est\u00e9tica, vai embora, tamb\u00e9m, a no\u00e7\u00e3o do rid\u00edculo. Um dos poss\u00edveis resultados individuais \u00e9 a pessoa acabar vivendo num cen\u00e1rio de\u00a0\u00a0imita\u00e7\u00e3o do Texas (olhe que o original j\u00e1 n\u00e3o presta), entre chifres e gritos desafinados, achando tudo bonito. T\u00e3o grave quanto isso, imaginando que centenas de pessoas saem do nada, d\u00e3o dois gritos em dupla (um grita grosso e o outro grita fino), contam tr\u00eas cornos que tomaram e viram \u00eddolos milion\u00e1rios, de forma honest\u00edssima. Pra acreditar nos Cinderelos sertanejos, o vivente \u00e9 mal intencionado, ou n\u00e3o passa mesmo de um nematelminto.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Perdoados os nematelmintos por incapacidade estrutural, voc\u00ea, que ainda pensa nem que seja um tiquim, sabia sim. Tava foi seduzido e sonhando o mesmo pra voc\u00ea, achando bonito. Precisei s\u00f3 assistir a partes de umas duas lives pra entender que o ambiente desse tal &#8220;sertanejo&#8221; \u00e9 t\u00e3o id\u00f4neo quanto qualquer pir\u00e2mide financeira divulgada em perfil roubado do Instagram. Daquelas em que, pela mesma mendic\u00e2ncia est\u00e9tica\/cr\u00edtica &#8211; talvez turbinada por certa desonestidade intr\u00ednseca &#8211; voc\u00ea periga cair. Soft power do agroneg\u00f3cio, ocupa\u00e7\u00e3o paga de territ\u00f3rio simb\u00f3lico, populariza\u00e7\u00e3o de determinados modos e costumes. Ponto. ?? isso.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Dinheiro n\u00e3o jorra do nada, saiba. Nem vem (s\u00f3) de bilheteria. Trabalho honesto n\u00e3o deixa ningu\u00e9m milion\u00e1rio da noite pro dia. Um produto ruim (\u00e9 o caso, sem meias palavras) n\u00e3o domina o mercado por obra e gra\u00e7a do divino. Tente Belchior, em altas doses. Um pouco de Paco de Lucia. Elza Soares no talo, pra a vizinhan\u00e7a toda ouvir. Gilberto Gil, logo de manh\u00e3. Caetano, Gal, Beth\u00e2nia. Muito Chico Buarque de Holanda. Moraes Moreira, um pouquinho a cada dia. Tratamento de choque para c\u00e9rebros em UTI. Corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 cafona. A cafonice corrompe. Perceba de uma vez por todas: a crise \u00e9 est\u00e9tica, sim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse &#8220;esc\u00e2ndalo dos sertanejos&#8221; n\u00e3o me surpreende em nada. Pelo contr\u00e1rio, reafirma a antipatia que nutro h\u00e1 anos. 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