{"id":161665,"date":"2022-06-05T01:12:59","date_gmt":"2022-06-05T04:12:59","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/restauracao-florestal-da-ilha-de-trindade-busca-salvar-fragatas-raras\/"},"modified":"2022-06-05T01:12:59","modified_gmt":"2022-06-05T04:12:59","slug":"restauracao-florestal-da-ilha-de-trindade-busca-salvar-fragatas-raras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/05\/restauracao-florestal-da-ilha-de-trindade-busca-salvar-fragatas-raras\/","title":{"rendered":"Restaura\u00e7\u00e3o florestal da Ilha de Trindade busca salvar fragatas raras"},"content":{"rendered":"<p>Duas popula\u00e7\u00f5es de fragatas criticamente amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o vivem hoje no long\u00ednquo arquip\u00e9lago de Trindade e Martin Vaz, localizado no meio do Oceano Atl\u00e2ntico, a 1.100 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia da costa continental brasileira. Para salvar essas aves,\u00a0um projeto de restaura\u00e7\u00e3o vegetal vem sendo desenvolvido na ilha principal (Trindade) desde 2018.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1463567&#038;o=rss\" style=\"width:1px;height:1px;display:inline\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1463567&#038;o=rss\" style=\"width:1px;height:1px;display:inline\" \/><\/p>\n<p>Essa parte distante do territ\u00f3rio brasileiro, no litoral da Regi\u00e3o Sudeste,\u00a0\u00e9 ref\u00fagio de algumas esp\u00e9cies de aves, entre elas, a fragata-de-Trindade (<em>Fregata trinitatis<\/em>), esp\u00e9cie end\u00eamica da ilha, ou seja, s\u00f3 existe ali.<\/p>\n<p>A ilha tamb\u00e9m \u00e9 lar da fragata-grande (<em>Fregata minor nicolli<\/em>), subesp\u00e9cie que s\u00f3 \u00e9 encontrada em Trindade. As duas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o compostas por poucas dezenas de indiv\u00edduos e, como n\u00e3o vivem em nenhum outro lugar do mundo, esses animais s\u00e3o os \u00faltimos representantes de sua linhagem.<\/p>\n<p>Preservar esp\u00e9cies que vivem num lugar t\u00e3o restrito quanto Trindade, que tem apenas 10 km2 (120 vezes menor que a cidade do Rio de Janeiro), j\u00e1 seria um desafio. A dificuldade \u00e9 ainda maior quando se descobre que essas aves fazem seus ninhos em \u00e1rvores e que, na ilha, a principal esp\u00e9cie arb\u00f3rea, <em>Colubrina glandulosa<\/em>, foi extinta na d\u00e9cada de 1960, tendo sido reintroduzida apenas 30 anos depois.<\/p>\n<h2>Devasta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Descoberta no in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, por Jo\u00e3o da Nova, a ilha era\u00a0coberta\u00a0por uma densa floresta tropical em mais de 80% do territ\u00f3rio. Mas depois de 500 anos de tentativas de coloniza\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o de animais ex\u00f3ticos (ou seja, trazidos de fora), como cabras e porcos, a vegeta\u00e7\u00e3o original de Trindade foi amplamente destru\u00edda.<\/p>\n<p>Atualmente, com exce\u00e7\u00e3o de uma floresta de samambaias-gigantes, da esp\u00e9cie <em>Cyathea delgadii<\/em>, e de pequenas popula\u00e7\u00f5es arb\u00f3reas, Trindade \u00e9 coberta principalmente por gram\u00edneas e vegeta\u00e7\u00e3o de pequeno porte. Sem as \u00e1rvores para nidificar, as fragatas passaram a improvisar e come\u00e7aram a colocar seus ovos no pr\u00f3prio ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso, \u00e9 claro, provocou impacto na reprodu\u00e7\u00e3o das aves e, consequentemente, no tamanho das popula\u00e7\u00f5es. A ideia, portanto, \u00e9 tentar restaurar a vegeta\u00e7\u00e3o nativa, para que o ambiente original de nidifica\u00e7\u00e3o seja reconstitu\u00eddo e as aves possam se sentir mais \u00e0 vontade para se reproduzir a aumentar sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Reflorestamento<\/h2>\n<p>Essa \u00e9 a proposta do Programa Reter-Trindade, projeto de recomposi\u00e7\u00e3o do ecossistema da ilha oce\u00e2nica, em uma parceria do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio) com a Funda\u00e7\u00e3o Grupo Botic\u00e1rio, a Marinha, o Programa de Pesquisas Cient\u00edficas na Ilha da Trindade (Protrindade) e diversas universidades.<\/p>\n<p>A iniciativa come\u00e7ou em 2018, mas teve que ser praticamente paralisada por dois anos por causa da pandemia de covid-19.<\/p>\n<p>O programa s\u00f3 p\u00f4de ser retomado em mar\u00e7o deste ano, j\u00e1 que a pandemia provocou a suspens\u00e3o do envio de cientistas para Trindade. O primeiro pesquisador do Reter-Trindade enviado \u00e0 ilha depois desse per\u00edodo, Bruno Linhares, passou algumas semanas no arquip\u00e9lago e retornou ao continente no \u00faltimo fim de semana.<\/p>\n<p>???A not\u00edcia [<em>repassada por Linhares<\/em>] \u00e9 que as fragatas ainda n\u00e3o foram extintas. Temos fotos recentes delas???, comemora o coordenador do Reter-Trindade, Leandro Bugoni, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande (Furg).<\/p>\n<h2>Desafios<\/h2>\n<p>Reflorestar a ilha, no entanto, \u00e9 um processo bem complexo. Sem a vegeta\u00e7\u00e3o natural, grande parte do solo f\u00e9rtil foi perdido em processos de eros\u00e3o. A dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao continente tamb\u00e9m dificulta o transporte de mudas. Al\u00e9m disso, a transposi\u00e7\u00e3o de plantas de outras \u00e1reas para a ilha tem o potencial de gerar ainda mais desequil\u00edbrio, com a inser\u00e7\u00e3o, por exemplo, de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas.<\/p>\n<p>???A gente tem l\u00e1 uma esp\u00e9cie de lagartixa, dessas que a gente v\u00ea nas nossas casas (<em>Hemidactylus mabouia<\/em>) que foi introduzida\u00a0junto com as mudas. Ela, provavelmente, estava nas caixas ou tinha algum ovo enterrado no solo das mudas e a\u00ed foi introduzida l\u00e1. Hoje \u00e9 quase imposs\u00edvel a gente remover esse lagartinho???, conta Bugoni.<\/p>\n<p>A ideia de criar um viveiro de mudas na ilha tamb\u00e9m esbarra em outro problema. Com uma pequena popula\u00e7\u00e3o flutuante de cientistas e militares, n\u00e3o existe ningu\u00e9m espec\u00edfico para cuidar das plantas em crescimento.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9 tentar se aproveitar das pequenas popula\u00e7\u00f5es nativas remanescentes e transplantar indiv\u00edduos dessas esp\u00e9cies em pontos chave da ilha, criando bols\u00f5es de vegeta\u00e7\u00e3o que facilitar\u00e3o a regenera\u00e7\u00e3o natural da mata.<\/p>\n<p>Segundo Bugoni, a elimina\u00e7\u00e3o, cerca de 20 anos atr\u00e1s, das cabras que viviam h\u00e1 d\u00e9cadas na ilha j\u00e1 provocou efeitos positivos com a recomposi\u00e7\u00e3o natural da vegeta\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios pontos de Trindade.<\/p>\n<p>???Se a gente der um empurr\u00e3ozinho, isso pode ser muito \u00fatil. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 remover plantas onde elas est\u00e3o muito densas e criar n\u00facleos de \u00e1rvores e arbustos em outras \u00e1reas da ilha, como se fosse um aux\u00edlio na recomposi\u00e7\u00e3o da ilha, usando as pr\u00f3prias pl\u00e2ntulas que ocorrem l\u00e1???, afirma.<\/p>\n<p>Mas mesmo isso se mostra dif\u00edcil, uma vez que um caranguejo quase onipresente na ilha, o <em>Johngarthia langostoma<\/em>,\u00a0se alimenta das sementes e esp\u00e9cimes vegetais juvenis.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da dispers\u00e3o de esp\u00e9cies nativas pela ilha, os pesquisadores tamb\u00e9m trabalham na elimina\u00e7\u00e3o de plantas ex\u00f3ticas, que prejudicam o desenvolvimento da vegeta\u00e7\u00e3o local, como a <em>Guilandina bonduc<\/em>.<\/p>\n<p>???Ela [a <em>Guilandina<\/em>] est\u00e1 causando um estrago muito grande l\u00e1 e est\u00e1 se espalhando. Ela resseca toda a terra ao redor e impede que outras plantas se estabele\u00e7am. Ela foi introduzida de alguma maneira e est\u00e1 tomando conta de algumas \u00e1reas???.<\/p>\n<h2>Longo caminho<\/h2>\n<p>Enquanto as \u00e1rvores n\u00e3o se espalham pela ilha, processo que pode levar anos mesmo com a ajuda humana, os pesquisadores buscam atrair as fragatas com ninhos artificiais em postes que imitam \u00e1rvores, para evitar que se repita o que aconteceu com o atob\u00e1-de-p\u00e9-vermelho (<em>Sula sula<\/em>), que parou de se reproduzir na ilha.<\/p>\n<p>Para garantir um maior grau de sucesso, os pesquisadores tamb\u00e9m planejam instalar aparelhos sonoros que emitem a vocaliza\u00e7\u00e3o de aves nos locais de ninhos e at\u00e9 recorrer a simula\u00e7\u00f5es de atividades pesqueiras nas \u00e1guas do entorno, que costumam atrair fragatas em busca de alimento. ???Seria um teatrinho para elas serem atra\u00eddas e a distribui\u00e7\u00e3o dos peixes, para que elas tenham um est\u00edmulo adicional para chegarem nos locais dos ninhos???.<\/p>\n<p>Segundo Bugoni, o Reter-Trindade, que terminaria em 2022, foi prorrogado por mais um ano, devido \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o ocorrida na pandemia.<\/p>\n<p>???A gente n\u00e3o vai conseguir recuperar o tempo perdido na sua totalidade. A meta, de curto prazo, \u00e9 que a gente tenha o estabelecimento da col\u00f4nia artificial das fragatas. Mas a gente deve ter uma continuidade [<em>das a\u00e7\u00f5es<\/em>] e, pensando em longo prazo, o que a gente quer \u00e9 que o n\u00famero de fragatas aumente para que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja extinta. Mas a sustentabilidade da reprodu\u00e7\u00e3o s\u00f3 vai acontecer quando a gente tiver \u00e1rvores e que elas passem a utilizar as \u00e1rvores nativas???, explica.<\/p>\n<p>Ele destaca, entretanto, que n\u00e3o \u00e9 da noite para o dia que se reconstitui uma floresta, ainda mais na ilha de Trindade, onde v\u00e1rios fatores dificultam esse trabalho. ???A gente tem um longo caminho para ter uma sustentabilidade das popula\u00e7\u00f5es de fragata associada \u00e0 recomposi\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o na ilha???, finaliza o pesquisador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas popula\u00e7\u00f5es de fragatas criticamente amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o vivem hoje no long\u00ednquo arquip\u00e9lago de Trindade e Martin Vaz, localizado no meio do Oceano Atl\u00e2ntico,\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":161666,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2799],"tags":[],"class_list":["post-161665","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/161665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=161665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/161665\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=161665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=161665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=161665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}