{"id":162107,"date":"2022-06-06T05:15:09","date_gmt":"2022-06-06T08:15:09","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/nos-so-precisamos-ir\/"},"modified":"2022-06-06T05:15:09","modified_gmt":"2022-06-06T08:15:09","slug":"nos-so-precisamos-ir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/06\/nos-so-precisamos-ir\/","title":{"rendered":"N\u00f3s s\u00f3 precisamos ir"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Eu tinha em torno de 10 anos quando escrevi um livrinho chamado A Ilha dos Bananais. Uma edi\u00e7\u00e3o de um volume s\u00f3, fruto de um trabalho coletivo: meu pai datilografou o texto escrito \u00e0 m\u00e3o por meu irm\u00e3o mais velho (j\u00e1 que minha caligrafia era indecifr\u00e1vel) e colocou uma capa verde com o t\u00edtulo e o meu primeiro nome de autor: P.H. Sales da Silva. A trama girava em torno de piratas que chegavam a uma ilha tropical no Alasca (sim, na minha mente de crian\u00e7a isso era poss\u00edvel) e acabavam fazendo amizade com os nativos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A Ilha dos Bananais nasceu provavelmente das minhas leituras de inf\u00e2ncia: aventuras de Tio Patinhas, hist\u00f3rias de piratas e principalmente o livro Viagem ao Mundo Desconhecido, sobre a primeira viagem de circunavega\u00e7\u00e3o pelo planeta, comandada pelo navegador Fern\u00e3o de Magalh\u00e3es. J\u00e1 naquele tempo eu almejava desbravar o mundo, perder pa\u00edses e ser outro constantemente, como nos versos de Pessoa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Um ano depois, movido por esse anseio ??? e pelo sucesso absoluto de A Ilha dos Bananais no restrit\u00edssimo c\u00edrculo familiar ???, decidi escrever outro livro. Desta vez, sobre dois amigos que se aventuravam em um Fusca numa viagem do Brasil aos Estados Unidos, passando no caminho por todos aqueles pa\u00edses das Am\u00e9ricas. Era uma empreitada muito mais dif\u00edcil e logo abandonada, pela total incapacidade de descrever cen\u00e1rios que eu nunca vira e sequer imaginara.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Mas o desejo de conhecer o pa\u00eds e o mundo permaneceu, da\u00ed continuar tentando ??? dentro de minhas limita\u00e7\u00f5es ??? obedecer \u00e0 necessidade imperiosa de ???ir em frente, ir a seguir \/ A aus\u00eancia de ter um fim, \/ E a \u00e2nsia de o conseguir!???. A mesma necessidade que enxerguei em Jesse Koz e seu companheiro insepar\u00e1vel Shurastey, que d\u00e9cadas mais tarde materializaram a hist\u00f3ria que apenas esbocei nos meus cadernos de escola naquele in\u00edcio dos anos 80. Pena que com um fim t\u00e3o tr\u00e1gico e imerecido.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A bordo de um Fusca 1978, Jesse Koz e seu simp\u00e1tico golden retriever sa\u00edram de Balne\u00e1rio Cambori\u00fa, em Santa Catarina, passaram por 17 pa\u00edses e queriam chegar at\u00e9 o Alasca. Foram impedidos por um acidente fatal ocorrido h\u00e1 duas semanas, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Portland, nos Estados Unidos. Jesse tinha 29 anos e pelas fotos parecia ser um cara legal, do bem, que amava a companhia do seu c\u00e3o e o chamado da estrada.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Jesse e Shurastey foram destemidos e se lan\u00e7aram ao desconhecido como eu gostaria de ter feito e que, por comodismo, grana curta e compromissos da idade adulta, n\u00e3o fiz. Pensando neles e em mim, eu me pergunto: por que a necessidade de desbravar o desconhecido, t\u00e3o frequente no nosso imagin\u00e1rio juvenil, se esvai com o passar dos anos at\u00e9 quase sumir, como se nossa consci\u00eancia fosse uma cobra que vai se desfazendo das peles antigas \u00e0 medida que cresce? O que nos leva (n\u00e3o a todos, evidentemente) a abdicar deliberadamente de anseios t\u00e3o caros nos nossos anos de forma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No meu caso, permanece o anseio de morar em um pa\u00eds europeu, de onde possa partir rumo aos extremos do continente e voltar para casa sem precisar enfrentar um voo de 12 horas por sobre o Atl\u00e2ntico. Morar mesmo: apreciar a descoberta de uma comida desconhecida, me comunicar diariamente em outra l\u00edngua, conhecer paisagens e pessoas estranhas, enfim, viver em constante estado de alumbramento e poder compartilh\u00e1-lo com minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">H\u00e1 em mim uma nostalgia. Sou, por mais que desconhe\u00e7a isso, parte do imigrante que deixou o velho continente h\u00e1 mais de 100 anos para se estabelecer no Brasil. N\u00e3o sei bem o seu nome (Jacinto, talvez), mas sei que veio de Portugal, a ponta peninsular da Europa, a pista de decolagem\u00a0para o novo mundo desconhecido. Como esse bisav\u00f4, carrego comigo uma esp\u00e9cie de saudade. E essa saudade n\u00e3o me abandona.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Se seria feliz l\u00e1? Quem sabe. Talvez fosse at\u00e9 acometido pelo velho banzo que minava as for\u00e7as dos escravos arrancados da \u00c1frica, pois \u00e9 bem prov\u00e1vel que tamb\u00e9m corra em meu sangue esse sangue dos deserdados.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em On The Road, Jack Kerouac ??? ou melhor, seu alter ego Sal Paradise ??? afirmou que ele e seus amigos de estrada desempenhavam a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o nobre da sua \u00e9poca: mover-se. N\u00e3o sei se essa \u00e9 a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o nobre de uma \u00e9poca, qualquer que seja, mas certamente \u00e9 uma delas. Porque, mesmo por vezes alquebrada, a necessidade de movimento permanece acesa em n\u00f3s. Tenhamos 10, 29 ou 52 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tinha em torno de 10 anos quando escrevi um livrinho chamado A Ilha dos Bananais. 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