{"id":163177,"date":"2022-06-07T16:21:03","date_gmt":"2022-06-07T19:21:03","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/regiao-onde-jornalista-e-servidor-desapareceram-sofre-com-cacadores-e-ataques-armados\/"},"modified":"2022-06-07T16:21:03","modified_gmt":"2022-06-07T19:21:03","slug":"regiao-onde-jornalista-e-servidor-desapareceram-sofre-com-cacadores-e-ataques-armados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/07\/regiao-onde-jornalista-e-servidor-desapareceram-sofre-com-cacadores-e-ataques-armados\/","title":{"rendered":"Regi\u00e3o onde jornalista e servidor desapareceram sofre com ca\u00e7adores e ataques armados"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p>A Terra Ind\u00edgena Vale do Javari, onde o jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips e o servidor da Funai Bruno Ara\u00fajo Pereira estiveram antes de desaparecerem no domingo (05\/06), sofre h\u00e1 anos com ataques armados a postos de controle da Funai e invas\u00f5es de ca\u00e7adores ilegais.<\/p>\n<p>Phillips e Pereira passaram alguns dias na regi\u00e3o, onde Phillips entrevistou ind\u00edgenas sobre as invas\u00f5es ao territ\u00f3rio. Eles desapareceu quando estavam fora da terra ind\u00edgena e voltavam de barco pelo rio Itaqua\u00ed at\u00e9 a cidade de Atalaia do Norte (AM).<\/p>\n<p>Ind\u00edgenas dizem que a dupla sofreu amea\u00e7as durante os trabalhos. Autoridades federais afirmaram que v\u00e3o realizar buscas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A Terra Ind\u00edgena Vale do Javari, que abriga o maior n\u00famero de etnias em isolamento volunt\u00e1rio no Brasil, vive h\u00e1 v\u00e1rios anos um conflito entre ca\u00e7adores ilegais e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Entre novembro de 2018 e setembro de 2019, um posto da Funai que busca controlar o acesso ao territ\u00f3rio foi alvo de oito ataques armados.<\/p>\n<p>As agress\u00f5es s\u00e3o atribu\u00eddas a pescadores e ca\u00e7adores ilegais, que teriam alvejado o posto ap\u00f3s terem entrado no territ\u00f3rio ind\u00edgena sem autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a BBC entrevistou servidores e colaboradores locais da Funai, que amea\u00e7aram paralisar os trabalhos por falta de seguran\u00e7a e cobraram \u00f3rg\u00e3os federais a agir.<\/p>\n<p>A base atacada \u00e9 principal porta de entrada para o Vale do Javari, \u00e1rea procurada pelos ca\u00e7adores ilegais por causa de sua rica fauna.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, servidores e colaboradores da Funai enviaram of\u00edcios \u00e0 entidade pedindo o apoio permanente da Pol\u00edcia Federal, do Ex\u00e9rcito ou For\u00e7a Nacional para manter as atividades.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 2019, um pescador foi baleado pr\u00f3ximo de uma das aldeias do povo Korubo, dentro da terra ind\u00edgena. O revide veio duas semanas depois, quando dois adolescentes dessa etnia foram atacados por pescadores.<\/p>\n<h2>Ataques a tiros<\/h2>\n<p>Em novembro de 2019, oito homens em um cano\u00e3o (canoa de 12 metros usada pelos pescadores e ca\u00e7adores) dispararam na base da Funai quando um colaborador ind\u00edgena apontou o holofote para a embarca\u00e7\u00e3o, procedimento usado para iniciar a averigua\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Dois dias depois, outros tr\u00eas homens usaram o mesmo <i>modus operandi<\/i>: atirar contra a base ao menor sinal de rea\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m ficou ferido.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os ataques, o ent\u00e3o presidente substituto da Funai Alcir Teixeira esteve na regi\u00e3o e conversou com os funcion\u00e1rios.<\/p>\n<h2><b>As suspeitas<\/b><\/h2>\n<p><b><br \/><\/b>Investiga\u00e7\u00f5es \u00e0s quais a BBC teve acesso na \u00e9poca apontavam que os ataques partiam de pescadores e ca\u00e7adores ilegais de Atalaia do Norte (AM) financiados sobretudo por grupos de contrabandistas de animais de Tabatinga (AM) e Benjamin Constant (AM), as duas maiores cidades da regi\u00e3o, a 1.100 quil\u00f4metros de Manaus. Os animais s\u00e3o vendidos para compradores brasileiros, peruanos e colombianos.<\/p>\n<p>Atalaia do Norte, com 15 mil habitantes e terceiro menor IDH do Brasil, \u00e9 o munic\u00edpio mais pr\u00f3ximo da conflu\u00eancia entre rios Itu\u00ed e Itaqua\u00ed, na entrada do Vale do Javari.  A jun\u00e7\u00e3o dos dois rios foi a primeira a receber uma base de prote\u00e7\u00e3o por sua localiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, ainda em 1996, no processo de estabelecimento de contato com o povo Korubo.<\/p>\n<p>Os conflitos na regi\u00e3o s\u00e3o antigos. Em 2000, um grupo de cerca de 300 pescadores autodenominados de Movimento dos Sem Rio, de Atalaia do Norte e Benjamin Constant, atacou a base do Itu\u00ed-Itaqua\u00ed e a sede da Funai em Atalaia do Norte com coquet\u00e9is molotov.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Houve confronto e troca tiros com servidores do \u00f3rg\u00e3o indigenista e fiscais do Ibama, conforme noticiou na \u00e9poca o jornal amazonense A Cr\u00edtica. A homologa\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena em 2001 resultou na retirada, mediante indeniza\u00e7\u00e3o, da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o ind\u00edgena do Vale do Javari ??? pessoas que chegaram \u00e0 regi\u00e3o no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, durante o primeiro ciclo da borracha.<\/p>\n<p>Uma parte delas se estabeleceu em Atalaia do Norte depois da homologa\u00e7\u00e3o e, a partir da\u00ed, o confronto entre ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas, antes frequentes, tornaram-se espor\u00e1dicos. No fim de 2018, as disputas voltaram a ocorrer.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o l\u00edder ind\u00edgena Cl\u00f3vis Marubo afirmou que as atividades ilegais no territ\u00f3rio aumentaram ap\u00f3s o in\u00edcio do governo de Jair Bolsonaro. Segundo ele, cortes de servidores e o contingenciamento de recursos tinham &#8220;empoderado os invasores&#8221;.<\/p>\n<p>A Terra Ind\u00edgena Vale do Javari abriga os povos Marubo, Mat\u00eds, Mayoruna, Kanamari, Kulina e os de recente contato Tyohom Djap\u00e1 e Korubo.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outros dez subgrupos isolados confirmados e mais quatro em estudo, num territ\u00f3rio do tamanho de Portugal.<\/p>\n<h2>Confrontos<\/h2>\n<p>Em outubro de 2019, um pescador foi baleado e deu entrada no hospital de Atalaia do Norte. A vers\u00e3o corrente no povoado \u00e9 que ele foi ferido quando pescava perto de uma das aldeias do povo Korubo. Duas semanas depois, houve o ataque aos dois adolescentes Korubos, atacados por pescadores enquanto pescavam em uma lagoa.<\/p>\n<p>A primeira das quatro aldeias Korubo est\u00e1 a 30 minutos de barco da base do Itu\u00ed-Itaqua\u00ed.<\/p>\n<p>Pirarucu, tracaj\u00e1, queixada e anta s\u00e3o os animais mais procurados pelos pescadores e ca\u00e7adores. Enquanto um tracaj\u00e1 \u00e9 vendido por pelo menos R$ 100, um pirarucu ainda jovem n\u00e3o \u00e9 vendido por menos de R$ 1 mil na regi\u00e3o. Pela extens\u00e3o e dificuldade de navega\u00e7\u00e3o nos rios do Vale do Javari, cada expedi\u00e7\u00e3o, que costuma contar com entre 6 e 8 homens, precisa toda a capacidade de carga da canoa para ser lucrativa.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Associa\u00e7\u00e3o dos Pescadores de Atalaia do Norte afirmou \u00e0 BBC em 2019 que tentava organizar os pescadores que praticam o manejo legal &#8211; algumas fam\u00edlias ribeirinhas &#8211; nos lagos em volta da terra ind\u00edgena.<\/p>\n<p>No entanto, esses lugares j\u00e1 foram muito explorados e n\u00e3o s\u00e3o suficientes para a demanda externa, sobretudo peruana e colombiana. Por isso, segundo colaboradores da Funai, parte dos ribeirinhos que sa\u00edram do territ\u00f3rio ind\u00edgena na \u00e9poca da demarca\u00e7\u00e3o ficaram sem o sustento e passaram a recorrer a atividades ilegais.<\/p>\n<p>Documentos de investiga\u00e7\u00f5es \u00e0 que a BBC teve acesso em 2019 apontaram que o assassinato do colaborador da Funai Maxciel dos Santos Pereira, naquele mesmo ano, teve rela\u00e7\u00e3o com essa economia ilegal. Maxciel passeava com a fam\u00edlia na principal avenida de Tabatinga quando foi baleado. Meses antes, ele havia organizado uma opera\u00e7\u00e3o que apreendeu grande quantidade de pesca e ca\u00e7a ilegal.<\/p>\n<p>Outro fator que aumenta a press\u00e3o no Vale do Javari \u00e9 o fato de que muitos dos pescadores e ca\u00e7adores viviam na terra ind\u00edgena antes da demarca\u00e7\u00e3o. &#8220;Eles sabem onde est\u00e1 a fartura e \u00e9 justamente pr\u00f3ximo das nossas aldeias, porque n\u00e3o fazemos uso comercial da selva. Mas tem sido tanta a ca\u00e7a e a pesca que j\u00e1 est\u00e1 afetando a nossa comida&#8221;, afirmou, em 2019, Varney Thoda Kanamari, ent\u00e3o vice-coordenador da Uni\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Vale do Javari (Univaja).<\/p>\n<p><i>* Com reportagem de Rodrigo Pedroso<\/i><\/p>\n<p><b><br \/>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b><br \/>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? 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