{"id":165843,"date":"2022-06-13T07:46:38","date_gmt":"2022-06-13T10:46:38","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/breve-jornada-noite-adentro\/"},"modified":"2022-06-13T07:46:38","modified_gmt":"2022-06-13T10:46:38","slug":"breve-jornada-noite-adentro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/13\/breve-jornada-noite-adentro\/","title":{"rendered":"Breve jornada noite adentro"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"749\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/9\/d\/csm_amor_a_flor_da_pele_22fc5f7374.jpg\" width=\"1000\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Amor \u00e0 Flor da Pele (2000), filme de Wong Kar-Wai<\/strong> (divulga\u00e7\u00e3o)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">N\u00e3o consegui me concentrar na leitura. O universo de Stefan Zweig, no qual imergia, me soava distante e opaco, talvez pelo fato de minha mente estar inquieta como um mar revolto, longe do estado ideal de abstra\u00e7\u00e3o e alheamento que nos permite apreender o que est\u00e1 escrito. Agora estou na varanda, nesta noite silenciosa de ter\u00e7a-feira, acompanhado de uma ta\u00e7a de pinot e de Pudim, meu pequeno filho peludo, que dormita na cadeira ao lado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Escuto um \u00e1lbum de Erik Satie e me transporto para um mundo antigo. Aquele conjunto et\u00e9reo de Gymnop\u00e9dies, Gnossiennes e Sarabandes me comove a cada audi\u00e7\u00e3o, como se cada nota de piano fosse um convite a ligeiros saltos no tempo. Percebo como foi importante interromper a leitura para me permitir o prazer sensorial da m\u00fasica e do vinho, produzindo um hiato de calmaria e candura.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">E curiosamente volto a pensar em Zweig, que viu seu mundo desmoronar n\u00e3o uma, mas duas vezes, a segunda de forma definitiva. Um humanista e antibelicista que viveu o ocaso da raz\u00e3o e o despertar do bestialismo. Um grande homem de letras, que conheceu outros grandes homens de letras, com quem compartilhou suas impress\u00f5es, indaga\u00e7\u00f5es e temores, como n\u00f3s, reles mortais, fazemos hoje em rela\u00e7\u00e3o ao nosso tempo tamb\u00e9m sombrio. Suas mem\u00f3rias em O Mundo de Ontem me lembram as que Elias Canetti compartilhou em Uma Luz em Meu Ouvido, ambientado em per\u00edodo semelhante.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Zweig perdeu seu pa\u00eds, seu continente, sua morada, suas cartas, seus livros, seus amigos. Assistiu \u00e0 ru\u00edna da sua ess\u00eancia, \u00e0 derrocada do tempo em que viveu. N\u00e3o h\u00e1 desterro mais terr\u00edvel do que ver-se apartado de quem se foi. Ningu\u00e9m sai imune de uma guerra, quanto mais de duas. Logo as mais brutais, as mais devastadoras. Destitu\u00eddo da identidade europeia, veio parar no Brasil, onde deu cabo da pr\u00f3pria vida, ao lado da esposa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Suas reflex\u00f5es s\u00e3o forjadas em desencanto e perplexidade:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Aos poucos fomos acostumados a viver sem ch\u00e3o sob nossos p\u00e9s, sem direitos, sem liberdade, sem seguran\u00e7a. H\u00e1 muito j\u00e1 renunciamos \u00e0 religi\u00e3o dos nossos pais, \u00e0 sua cren\u00e7a numa ascens\u00e3o r\u00e1pida e constante da humanidade. A n\u00f3s, que ganhamos experi\u00eancia com a crueldade, aquele otimismo a\u00e7odado parece banal ante uma cat\u00e1strofe que nos fez retroceder mil anos de um s\u00f3 golpe em nossos esfor\u00e7os humanos.???<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Zweig prossegue:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???No entanto, ainda que tenha sido apenas uma ilus\u00e3o \u00e0 qual serviam os nossos pais, foi uma ilus\u00e3o maravilhosa e nobre, mais humana e f\u00e9rtil do que as atuais palavras de ordem. E, misteriosamente, algo dentro de mim n\u00e3o consegue se libertar daquilo, apesar de todo o conhecimento e de toda a decep\u00e7\u00e3o. Aquilo que uma pessoa, durante sua inf\u00e2ncia, absorveu da atmosfera de sua \u00e9poca n\u00e3o pode ser simplesmente descartado.???<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">No som, Satie se recolhe por uns minutos e o Spotify, que parece ter vida pr\u00f3pria, reproduz Yumeji&#8217;s Theme, do compositor japon\u00eas Shigeru Umebayashi. ?? o tema de Amor \u00e0 Flor da Pele, o lindo filme de Wong Kar-Wai. Paro de pensar em Zweig e no aniquilamento da humanidade e me deixo levar pela melodia. Como \u00e9 poss\u00edvel tamanha beleza? Como \u00e9 poss\u00edvel que sejamos capazes de atingir o cume e ao mesmo tempo o fundo do po\u00e7o?<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Lembro de quando assisti pela primeira vez ao longa de Kar-Wai, num festival de cinema em Bras\u00edlia. E de como senti um prazer quase sensorial, como se pudesse absorver os aromas da comida, o cheiro de fuma\u00e7a e de chuva, o perfume que emanava do corpo de Maggie Cheung. At\u00e9 mesmo o desalento do personagem de Tony Leung, por saber que vivia um amor fadado ao fracasso, me era palp\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A noite avan\u00e7a. Termino a \u00faltima ta\u00e7a do pinot e me preparo para ir dormir levando Pudim comigo. Levo tamb\u00e9m a valorosa sensa\u00e7\u00e3o de ter empreendido uma breve jornada no tempo e no espa\u00e7o, em pouco mais de uma hora de m\u00fasica e contempla\u00e7\u00e3o silenciosa. Amanh\u00e3 a rotina voltar\u00e1, os dias de trabalho v\u00e3o se suceder e provavelmente vou esquecer deste fugaz momento de enlevo. Mas ele permanecer\u00e1 de alguma forma. Nem que seja em forma de cr\u00f4nica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amor \u00e0 Flor da Pele (2000), filme de Wong Kar-Wai (divulga\u00e7\u00e3o) N\u00e3o consegui me concentrar na leitura. 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