{"id":166248,"date":"2022-06-13T22:50:39","date_gmt":"2022-06-14T01:50:39","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/bruno-pereira-superou-desconfianca-e-ganhou-respeito-de-indigenas\/"},"modified":"2022-06-13T22:50:39","modified_gmt":"2022-06-14T01:50:39","slug":"bruno-pereira-superou-desconfianca-e-ganhou-respeito-de-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/13\/bruno-pereira-superou-desconfianca-e-ganhou-respeito-de-indigenas\/","title":{"rendered":"Bruno Pereira superou desconfian\u00e7a e ganhou respeito de ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p>Quando Beto Marubo viu Bruno Ara\u00fajo Pereira em 2010, ent\u00e3o com 30 anos, o ind\u00edgena duvidou daquele jovem alto, branco e corpulento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Beto era o respons\u00e1vel por dar uma esp\u00e9cie de curso aos novatos que estavam tomando posse como indigenistas na Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As aulas inclu\u00edam incurs\u00f5es na selva ainda preservada da Terra Ind\u00edgena Vale do Javari, no Oeste do Amazonas, e testava at\u00e9 os mais resistentes. N\u00e3o demorou muito, por\u00e9m, para que a desconfian\u00e7a inicial se dissipasse.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Ele n\u00e3o parecia que ia aguentar o tranco. Era muito branco, muito alto, muito grande. Mas ele tinha uma resist\u00eancia f\u00edsica impressionante e se interessou muito pelo que a gente tinha a ensinar&#8221;, contou Marubo. &#8220;Ele chegou como aluno, mas depois virou um irm\u00e3o&#8221;,  completou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Doze anos depois, Beto Marubo e dezenas de ind\u00edgenas que conheciam de perto o trabalho de Bruno atuam nas buscas ao indigenista e ao jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips, que est\u00e3o desaparecidos desde o dia 5 de junho na mesma regi\u00e3o de floresta onde Bruno iniciou sua carreira na Funai.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Marubo \u00e9 coordenador da Uni\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Vale do Javari (Univaja), entidade para a qual Bruno estava atuando como consultor.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A \u00e1rea \u00e9 conhecida pela atua\u00e7\u00e3o de garimpeiros, pescadores ilegais e narcotraficantes, e tamb\u00e9m por abrigar a maior quantidade de ind\u00edcios de povos isolados do Brasil.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Bruno era considerado uns dos maiores especialistas em ind\u00edgenas que vivem em isolamento ou de recente contato do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ele viajava com o Dom Phillips pelo Vale do Javari quando a dupla desapareceu.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p> As pol\u00edcias Civil e Federal n\u00e3o descartam nenhuma hip\u00f3tese, mas, nos \u00faltimos dias, aumentaram os rumores de que a dupla poderia ter sido v\u00edtima de uma emboscada.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As suspeitas s\u00e3o de que eles poderiam ter sido v\u00edtimas de um atentado praticado por grupos afetados pela atua\u00e7\u00e3o de Bruno na regi\u00e3o, que visava a prote\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas contra a invas\u00e3o de garimpeiros e pescadores ilegais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos dias, um homem teve a pris\u00e3o preventiva decretada por suposta conex\u00e3o com o crime. A pol\u00edcia encontrou vest\u00edgios de sangue em seu barco.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A pol\u00edcia tamb\u00e9m localizou mat\u00e9ria org\u00e2nica aparentemente humana pr\u00f3ximo ao munic\u00edpio de Atalaia do Norte (a 1.136 quil\u00f4metros de Manaus). O material gen\u00e9tico est\u00e1 sendo periciado pela Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O desaparecimento da dupla gerou como\u00e7\u00e3o internacional e fez com que organismos estrangeiros como a o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos cobrasse uma resposta mais c\u00e9lere do governo brasileiro no trabalho de buscas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nesta segunda-feira (13\/06), ve\u00edculos de imprensa informaram que os corpos da dupla teriam sido encontrados, mas a Pol\u00edcia Federal emitiu uma nota desmentindo a informa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<h3>Amaz\u00f4nia, lideran\u00e7a e asma na floresta<\/h3>\n<p>Bruno Pereira entrou na Funai na turma de 2010, um dos \u00faltimos concursos p\u00fablicos feitos pelo \u00f3rg\u00e3o.  Criado em Pernambuco, deixou o nordeste em meados dos anos 2000 para realizar um sonho: trabalhar na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;O primeiro emprego dele na Amaz\u00f4nia foi numa empresa terceirizada que atuava pr\u00f3ximo \u00e0 hidrel\u00e9trica de Balbina, no Amazonas. N\u00e3o demorou muito e ele come\u00e7ou a prestar servi\u00e7os para a Funai. Quando veio o concurso, ele passou e, em 2010, come\u00e7ou a trabalhar para o \u00f3rg\u00e3o&#8221;, conta Beto Marubo. <\/p>\n<p>Para vencer completamente a desconfian\u00e7a, Bruno n\u00e3o contou apenas com a ajuda de ind\u00edgenas como Beto.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Pouco depois de tomar posse, ele passou uma temporada acompanhando o trabalho do indigenista Rieli Franciscato na Terra Ind\u00edgena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rond\u00f4nia. Franciscato morreu em 2020 atingido por uma flecha durante uma expedi\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio de ind\u00edgenas isolados.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Ele foi para Rond\u00f4nia e fez uma ou duas viagens. O Franciscato foi uma esp\u00e9cie de grande professor para todo mundo que queria aprender sobre os povos isolados e o Bruno aprendeu muito com ele. Quando ele sai de Rond\u00f4nia e volta para o Amazonas, ele j\u00e1 era um grande conhecedor do assunto&#8221;, disse Carlos Travassos, que chefiou a Coordena\u00e7\u00e3o-Geral de \u00cdndios Isolados e de Recente Contato da Funai entre 2011 e 2016.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A coordena\u00e7\u00e3o \u00e9 a respons\u00e1vel por implementar pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o e monitoramento aos povos isolados e foram contactados recentemente no Brasil. Essas popula\u00e7\u00f5es se encontram na Amaz\u00f4nia e s\u00e3o consideradas vulner\u00e1veis tanto ao avan\u00e7o de atividades ilegais quanto do agroneg\u00f3cio, que pressiona a fronteira agr\u00edcola do pa\u00eds cada vez mais ao norte.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>De acordo com a Funai, h\u00e1 114 registros de povos isolados no pa\u00eds. Oficialmente, a pol\u00edtica do governo brasileiro \u00e9 de evitar o contato com esses ind\u00edgenas e garantir a prote\u00e7\u00e3o \u00e0s terras onde eles vivem.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Bruno voltou (ao Amazonas) muito preparado e, depois de um tempo, passou a conhecer o Vale do Javari muito bem. Ele sabia se orientar tanto pelos dados cartogr\u00e1ficos quanto pelo conhecimento ind\u00edgena que tinha aprendido. A \u00fanica coisa que atrapalhava, um pouco, \u00e9 que ele tinha umas crises de asma de noite.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p> Mas ele tomava os rem\u00e9dios estava tudo bem&#8221;, relembrou Beto Marubo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Travassos contou que Bruno era conhecido entre os colegas como um profissional extremamente s\u00e9rio e qualificado e que conhecia bem o trabalho de campo e o funcionamento da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ele atuou como coordenador regional da Funai no Vale do Javari at\u00e9 2016, quando foi exonerado do cargo ap\u00f3s um conflito entre ind\u00edgenas de diferentes etnias terminar em morte. <\/p>\n<ul>\n<li>Regi\u00e3o onde rep\u00f3rter e servidor desapareceram sofre viol\u00eancia crescente e foi abandonada pelo governo, diz ex-chefe da Funai  <\/li>\n<li>La\u00e7os entre traficantes, ca\u00e7adores e pescadores acirram viol\u00eancia onde dupla desapareceu na Amaz\u00f4nia<\/li>\n<\/ul>\n<p>Em 2018, por\u00e9m, ele assumiu a coordena\u00e7\u00e3o geral de povos isolados, em Bras\u00edlia. Sob o seu comando, o \u00f3rg\u00e3o realizou a maior expedi\u00e7\u00e3o para contato de ind\u00edgenas em 20 anos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o tinha, justamente, o intuito de evitar novos conflitos entre o povo Matis, que j\u00e1 tem contato com os n\u00e3o-ind\u00edgenas, e o povo Korubo, que vive em isolamento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;A gente se aproximou muito porque temos a personalidade parecida. Ele \u00e9 bem s\u00e9rio e focado, mas ao mesmo tempo, \u00e9 uma pessoa extremamente bem-humorada e brincalhona&#8221;, contou Travassos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Bruno tinha a postura de um l\u00edder. No servi\u00e7o p\u00fablico, \u00e9 muito comum a gente encontrar pessoas com um perfil mais conciliador, que evita conflito. Ele n\u00e3o era assim. Ele se posicionava de forma bastante clara quando via alguma coisa errada&#8221;, lembrou o antrop\u00f3logo Fernando Vianna, que preside a organiza\u00e7\u00e3o Indigenistas Associados (INA), que re\u00fane servidores da Funai. <\/p>\n<h3>Sucesso e demiss\u00e3o<\/h3>\n<p>Entre o final de 2018 e in\u00edcio de 2019, Bruno procurou o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama) com um alerta: dragas de garimpeiros ilegais estavam se aproximando perigosamente da \u00e1rea onde havia registros de povos isolados no Vale do Javari.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O ent\u00e3o coordenador de opera\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o, Hugo Loss, passou a montar, junto com Bruno, uma opera\u00e7\u00e3o para conter o avan\u00e7o dos garimpeiros. O problema, no entanto, \u00e9 que como as dragas j\u00e1 estava muito dentro da terra ind\u00edgena, as aeronaves do Ibama n\u00e3o teriam autonomia de voo para chegar \u00e0s \u00e1reas onde elas estavam.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Foi o Bruno que resolveu todas as quest\u00f5es log\u00edsticas. Ele conhecia o territ\u00f3rio e nos ajudou a montar uma rota que permitiu a chegada dos nossos helic\u00f3pteros na regi\u00e3o&#8221;, lembrou Hugo Loss.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o aconteceu em setembro de 2019 e foi considerada um sucesso operacional. Pelo menos 60 balsas foram destru\u00eddas em uma<br \/>\na\u00e7\u00e3o conjunta da Funai, Ibama e Pol\u00edcia Federal. Mesmo assim, menos de um m\u00eas depois, em outubro, Bruno foi exonerado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Eu liguei para ele um tempo depois da opera\u00e7\u00e3o para falar sobre outras a\u00e7\u00f5es que a gente queria fazer na regi\u00e3o e ele me disse que tinha sido exonerado. Perguntei o que ele ia fazer e ele disse que ia se dedicar a uns projetos pessoais&#8221;, lembrou Hugo Loss.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em abril de 2020, foi a vez de Loss ser exonerado do cargo ap\u00f3s liderar outra opera\u00e7\u00e3o de combate a garimpos ilegais, daquela vez no Par\u00e1. <\/p>\n<h3>Segunda chance<\/h3>\n<p>Ap\u00f3s a exonera\u00e7\u00e3o, Bruno pediu uma licen\u00e7a para tratar de assuntos particulares e passou a atuar como consultor Univaja. Entre as suas atribui\u00e7\u00f5es estava a estrutura\u00e7\u00e3o de projetos voltados \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o contra a atua\u00e7\u00e3o de garimpeiros, pescadores ilegais e narcotraficantes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Foi nessa \u00e9poca que ele passou a ser amea\u00e7ado por seu trabalho na regi\u00e3o. Segundo o jornal O Globo, uma carta com amea\u00e7as de morte contra Beto Marubo e Bruno foi enviada \u00e0 Univaja.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Beto Marubo diz que as amea\u00e7as n\u00e3o paralisavam Bruno, mas que, nos \u00faltimos anos, os dois tomavam mais cuidado ao irem \u00e0 regi\u00e3o de Atalaia do Norte.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;O Bruno n\u00e3o parou por conta das amea\u00e7as, mas ele tomava muito cuidado. N\u00e3o dava mais pra gente ficar em Atalaia do Norte da mesma forma que a gente ficava antes. Eu moro em Bras\u00edlia e ele foi morar em Bel\u00e9m&#8221;, conta Marubo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A ida de Bruno a Bel\u00e9m coincidiu com um novo momento em sua vida pessoal. Beto Marubo conta que Bruno tem uma filha de 16 anos fruto de um relacionamento anterior e que, por conta do trabalho, n\u00e3o teve como se dedicar o suficiente. Agora, ele tentava fazer diferente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Ele teve duas crian\u00e7as com a Beatriz e, nos \u00faltimos tempos, ele falava muito sobre a saudade que tinha de estar com as crian\u00e7as e com a mulher. Todas as viagens eram muito planejadas para ele n\u00e3o ficar muito tempo longe da fam\u00edlia. Era como se fosse uma segunda chance pra ele&#8221;, contou Marubo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Hugo Loss diz que o desaparecimento de Bruno e Dom Phillips o fez pensar sobre os riscos que pessoas que, como Bruno e ele, atuam na defesa do meio ambiente e dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Quando as not\u00edcias sa\u00edram, minha m\u00e3e, meu pai, minha companheira, todo mundo me ligou preocupado. No final, eu comecei a pensar que poderia ter acontecido comigo ou com algum companheiro de trabalho. Muita gente j\u00e1 desapareceu e ainda vai desaparecer defendendo a Amaz\u00f4nia&#8221;, disse. <\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? 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