{"id":168138,"date":"2022-06-16T09:44:14","date_gmt":"2022-06-16T12:44:14","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/a-fogueira-ta-queimando\/"},"modified":"2022-06-16T09:44:14","modified_gmt":"2022-06-16T12:44:14","slug":"a-fogueira-ta-queimando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/16\/a-fogueira-ta-queimando\/","title":{"rendered":"A fogueira t\u00e1 queimando&#8230;"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">As festas de S\u00e3o Jo\u00e3o, no Brasil, nasceram em volta de uma fogueira, bem antes das tradi\u00e7\u00f5es ib\u00e9ricas serem repaginadas em nosso meio, aculturadas atrav\u00e9s das comidas t\u00edpicas, das cantigas dos trovadores e poetas, das ladainhas das rezadeiras, das simpatias, dos bal\u00f5es no c\u00e9u, das quadrilhas de origem francesa e do forr\u00f3 p\u00e9 de serra como foi rebatizado o forr\u00f3 de raiz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os jesu\u00edtas introduziram entre n\u00f3s o Carnaval e as festas juninas nas aldeias ind\u00edgenas, numa estrat\u00e9gia de aproxima\u00e7\u00e3o para facilitar a catequese. Festejar era uma linguagem que os \u00edndios habituados a celebrar os grandes eventos, correspondia a qualquer manifesta\u00e7\u00e3o que inclu\u00edsse dan\u00e7a e m\u00fasica e a fogueira era o elemento agregador. O padre Fernando Cardim, em 1583, assim descreveu: ???Tr\u00eas festas celebram estes \u00edndios com grande alegria, aplauso e gosto particular. A primeira \u00e9 as fogueiras de S. Jo\u00e3o, porque suas aldeias ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras n\u00e3o os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro&#8230;???<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Anos depois, em 1625, quando a esquadra de Fradique de Toledo Os\u00f3rio retomou a Bahia dos holandeses invasores, os espanh\u00f3is celebraram as festas juninas a bordo de tr\u00eas navios: ???Colocaram nesta noite lampi\u00f5es acesos, tanto nos mastros, nas g\u00e1veas, como em todos os pontos, de todas as vergas, o que deu a impress\u00e3o de muitas estrelas??? narrou o soldado Johann Gregor Aldenburgk. ???No pr\u00f3prio dia de S\u00e3o Jo\u00e3o enfeitaram estes tr\u00eas gale\u00f5es com bandeiras e bandeirolas???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os historiadores brasileiros, baianos inclu\u00eddos, mesmo os estudiosos do que se chamava folclore, influenciados pelas narrativas da igreja Cat\u00f3lica em torno da festa de S\u00e3o Jo\u00e3o, descuidaram do lado mundano da celebra\u00e7\u00e3o, da participa\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia do povo, de modo que pouco se conhece desta festa. Sua hist\u00f3ria entre n\u00f3s. Mesmo no s\u00e9culo XIX, com o surgimento da imprensa, a narrativa da fogueira das primas Isabel (m\u00e3e de S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista) e Maria (m\u00e3e de Jesus) se sobrep\u00f4s a qualquer outro elemento factual. Constru\u00edmos um imagin\u00e1rio de festa popular com retrovisor de quase dois mil anos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Se a festa de S\u00e3o Jo\u00e3o nasceu em volta da fogueira, nem sempre a fogueira foi unanimidade. O governo e a m\u00eddia, volta e meia, investiam contra a fogueira, setores conservadores enxergavam na tradi\u00e7\u00e3o resqu\u00edcios de civiliza\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras. Foram proibidas, mas o povo continuou a acend\u00ea-las. Em 1855, durante a epidemia de C\u00f3lera Morbus, proibidas de novo, ???E os que viam as autoridades mandarem queimar barricas com alcatr\u00e3o para purificar os ares diziam que aquilo era castigo. N\u00e3o se bole impunemente com S\u00e3o Jo\u00e3o???, contou Hildegardes Vianna em \u00a0cr\u00f4nica. Proibidas outra vez, em 1884, como noticiou o Jornal de Not\u00edcias, o povo n\u00e3o tomou conhecimento e nem as autoridades tiveram o topete de reprimir, de fato.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Bem antes, em 1846, O Guaycuru, via nas fogueiras uma amea\u00e7a p\u00fablica: ???N\u00e3o nos lembra que houvesse jamais um presidente que n\u00e3o empregasse os meios para coibir as desenvolturas e excessos dessa escandalosa, brutal e feroz licen\u00e7a, que durante uma noite inteira, p\u00f5em a propriedade, a seguran\u00e7a e a vida de toda uma cidade, a merc\u00ea de vulgachos desalmados que se apossam das ruas e das pra\u00e7as p\u00fablicas&#8230; De todos os legados que nos transmitiram os s\u00e9culos de barbaridade, nenhum chegou a nossos dias&#8230; em todo o horror de suas fei\u00e7\u00f5es, como s\u00e3o esses folguedos canibalescos de nossa noite de S\u00e3o Jo\u00e3o.???<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A despeito da barb\u00e1rie midi\u00e1tica, a fogueira continua queimando, na cidade e na ro\u00e7a, para alegria dos baianos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em>Nelson Cadena \u00e9 publicit\u00e1rio e jornalista, escreve \u00e0s quintas-feiras<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As festas de S\u00e3o Jo\u00e3o, no Brasil, nasceram em volta de uma fogueira, bem antes das tradi\u00e7\u00f5es ib\u00e9ricas serem repaginadas em nosso meio, aculturadas\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":168139,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-168138","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/168138","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=168138"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/168138\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=168138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=168138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=168138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}