{"id":169501,"date":"2022-06-18T16:44:05","date_gmt":"2022-06-18T19:44:05","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/de-que-trama-voce-e-personagem-qual-e-o-seu-papel-nesse-caos\/"},"modified":"2022-06-18T16:44:05","modified_gmt":"2022-06-18T19:44:05","slug":"de-que-trama-voce-e-personagem-qual-e-o-seu-papel-nesse-caos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/18\/de-que-trama-voce-e-personagem-qual-e-o-seu-papel-nesse-caos\/","title":{"rendered":"De que trama voc\u00ea \u00e9 personagem, qual \u00e9 o seu papel nesse caos?"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Tenho tentado observar este momento sem pregui\u00e7a. Olhar as coisas como se fossem novidades, como se eu n\u00e3o estivesse imersa, como se eu n\u00e3o estivesse de saco cheio, como se eu n\u00e3o soubesse, como eu se nunca as tivesse visto, antes. Assim, desacostumada, consigo adjetivar o que vivemos com palavras como &#8220;interessante&#8221;, &#8220;curioso&#8221; e similares, deixando de lado o &#8220;pavoroso&#8221;, o &#8220;irritante&#8221;, o &#8220;deprimente&#8221;. Mesmo que s\u00f3 por instantes.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\u00a0Esse &#8220;p\u00f3s-pandemia&#8221; j\u00e1 come\u00e7a a ser incr\u00edvel por ser chamado com o prefixo &#8220;p\u00f3s&#8221;, quando a pandemia se prova em curso para qualquer pessoa que consiga olhar ao redor. Uma denomina\u00e7\u00e3o certamente sa\u00edda da mesa de algu\u00e9m do marketing, esses profissionais que t\u00eam, como premissa, a ideia de que &#8220;contra argumentos, n\u00e3o h\u00e1 fatos&#8221;. Quase Hegel. Como sabemos, n\u00e3o se acessa fatos sem media\u00e7\u00e3o. A isen\u00e7\u00e3o \u00e9 um ideal e, portanto, inalcan\u00e7\u00e1vel. Em eventos de grande porte como o que vivemos, s\u00e3o m\u00faltiplas e intensas as media\u00e7\u00f5es, inclusive a da subjetividade individual e\/ou coletiva.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ou seja, h\u00e1 muitas pandemias. Abundantes percep\u00e7\u00f5es do fato e diversas campanhas publicit\u00e1rias em curso, para convencimento do maior n\u00famero de pessoas, de determinadas percep\u00e7\u00f5es do fato. Percebe? ?? a primeira vez que vivemos algo dessa dimens\u00e3o, nessa intensidade, com a circula\u00e7\u00e3o de narrativas que temos hoje. Isso, no Brasil, com uma maioria da popula\u00e7\u00e3o de senso cr\u00edtico limitado, que n\u00e3o percebe, sequer, que a palavra escrita em letras garrafais na camiseta de marca lhe faz objeto e n\u00e3o sujeito naquele ato. A pessoa paga caro, veste aquilo e ainda se acha o m\u00e1ximo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\u00a0Tr\u00e1gico? ??. Mas, tamb\u00e9m, muit\u00edssimo interessante. Tenho me divertido na an\u00e1lise. Amadora, claro. Sou autodidata em generalidades. A tentativa me entret\u00e9m ao me colocar em busca do fio da meada, pensando, ao ouvir pessoas e setores: &#8220;de que trama voc\u00ea \u00e9 personagem, qual \u00e9 o seu papel nesse caos?&#8221;. Estado geral desordenado que precede e se intensifica na pandemia. Vazio primordial. N\u00e3o me sinto em outro lugar al\u00e9m desse, neste momento que vivemos, ainda com o agravante de uma doen\u00e7a que, entre outras sequelas, pode nos deixar sem mem\u00f3ria, meio lentos e abobados.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"> \u00a0(Mas que a tal campanha insiste: &#8220;\u00e9 s\u00f3 uma gripe, n\u00e3o tem problema, todo mundo vai pegar.&#8221;)\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"> \u00a0O que \u00e9 isso, na pr\u00e1tica, no miudinho, no dia a dia? Eu gosto de usar o exemplo do setor da educa\u00e7\u00e3o privada porque venho acompanhando cada passo. Vamos analisar? Logo no come\u00e7o, com o in\u00edcio das aulas online, a pandemia provou que &#8220;a escola&#8221;, como \u00e9, n\u00e3o presta mais. A insufici\u00eancia, que s\u00f3 era percebida pelos alunos &#8211; e demonstrada no t\u00e9dio deles, ao qual n\u00e3o se d\u00e1 import\u00e2ncia &#8211; entrou em todas as casas. O modelo vertical e conteudista faliu e todos pudemos ver os motivos pelos quais precisamos &#8220;estimular nossos filhos a estudar&#8221;. Porque estudar t\u00e1 um saco, desse jeito. Voc\u00ea prestou aten\u00e7\u00e3o? Salvo pessoas psiquicamete adoecidas, ningu\u00e9m precisa ser estimulado a sentir prazer e viver belezas, que \u00e9 o que aprendizagem deve ser. Inclusive a formal.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os empres\u00e1rios foram pegos de cal\u00e7as curtas, viram o modelo de neg\u00f3cio em perigo pela exposi\u00e7\u00e3o e subsequente questionamento. Ent\u00e3o, tomaram a decis\u00e3o de levar todo mundo de volta para as salas, custe o que custar. Salvar o neg\u00f3cio como \u00e9, esconder os problemas, em vez de reformular. N\u00e3o se pensou em educa\u00e7\u00e3o, mas em uma campanha publicit\u00e1ria. &#8220;Lugar de crian\u00e7a \u00e9 na escola&#8221;, como se &#8220;crian\u00e7a&#8221; e &#8220;escola&#8221; fossem personagens est\u00e1ticos. A campanha incluiu a conceitua\u00e7\u00e3o das escolas como &#8220;o lugar mais seguro para crian\u00e7as e adolescentes, inclusive durante a pandemia&#8221;, mesmo antes das vacinas.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"> A campanha \u00e9 desmentida na pr\u00e1tica, com o absurdo n\u00famero de infectados, tr\u00eas meses ap\u00f3s a retomada das aulas 100% presenciais. (?? &#8220;p\u00f3s&#8221; o que, mesmo?) Essa bomba seria suficiente para que fam\u00edlias apenas tirassem seus filhos e filhas das escolas e exigissem uma solu\u00e7\u00e3o coletiva dos empres\u00e1rios do setor. Mas se amofinam com medo da &#8220;reprova\u00e7\u00e3o&#8221;, levando em conta decis\u00e3o de &#8220;diretor&#8221;, esperando que o m\u00e9dico d\u00ea atestado pro filho de imunidade baixa, sem tomar para si o leg\u00edtimo poder de defender e decidir pela prole. Todo mundo &#8220;rezado&#8221;, como se diz em minha terra, pra definir quem t\u00e1 sendo tolo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"> \u00a0Nao estivessem, as fam\u00edlias, sugestionadas pela campanha, cobrariam que empres\u00e1rios repensem a seguran\u00e7a e efic\u00e1cia cont\u00ednuas da escola. N\u00e3o se contentariam com a gambiarra tempor\u00e1ria para a crise sanit\u00e1ria porque o problema \u00e9 anterior ao momento atual. Exigiriam, no espa\u00e7o digital, por exemplo, algo al\u00e9m da imita\u00e7\u00e3o do modelo presencial que, j\u00e1 antes da pandemia, n\u00e3o funcionava. A c\u00f3pia virtual do que n\u00e3o d\u00e1 mais certo, evidentemente, tamb\u00e9m n\u00e3o vai prestar. Da\u00ed, vem o argumento de que &#8220;ensino virtual n\u00e3o funciona&#8221;, util\u00edssimo para o setor que precisa voltar para o ponto &#8220;pac\u00edfico&#8221; onde estava. Quem n\u00e3o pensa come o reggae e la nave va.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\u00a0(A culpa \u00e9 do meio e n\u00e3o do m\u00e9todo? Ah, t\u00e1.)\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"> \u00a0Tiveram tempo para refletir. Bastante. N\u00e3o se propuseram a nada al\u00e9m de retomar o neg\u00f3cio como sempre foi. S\u00f3 que as fam\u00edlias est\u00e3o protegidas pelo poder familiar. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria prole, est\u00e3o acima de qualquer institui\u00e7\u00e3o, t\u00eam direito e obriga\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o. Mas nem pensam que, com uns tantos processos judiciais rolando, ao mesmo tempo, teriam chance de abrir jurisprud\u00eancia e mudar as bases de negocia\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\u00a0Em tese, nenhuma fam\u00edlia \u00e9 obrigada a mandar filhos para situa\u00e7\u00e3o de risco. Tamb\u00e9m em tese, todas t\u00eam direito de cobrar escola de qualidade e adequada ao novo tempo (e nem menciono que essa \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico). As que sabem disso, se irritam, mas n\u00e3o se juntam pra atuar. Outras fam\u00edlias, antes amant\u00edssimas, passaram a achar natural arriscar crian\u00e7as e adolescentes, em nome de uma palavra que a mim, nesse contexto, parece algo vaga e mal-empregada: &#8220;educa\u00e7\u00e3o&#8221;. Os interesses do setor, por ora, vencem. Sujei\u00e7\u00e3o do poder familiar ao mercado. Curioso isso, n\u00e3o?\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"> \u00a0?? s\u00f3 um exemplo. H\u00e1 muitos. O setor de entretenimento vive algo parecido e a campanha tamb\u00e9m trabalha com a mesma t\u00e1tica &#8211; pelo menos no Brasil muito bem-sucedida &#8211; de inverter os significados de &#8220;puls\u00e3o de vida&#8221; e &#8220;puls\u00e3o de morte&#8221;. S\u00f3 associando o conceito de &#8220;morte&#8221; aos comportamentos de preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie e reduzindo o sentido de &#8220;vida&#8221; a altas doses de dopamina, conseguem viabilizar, por exemplo, a financeiramente redentora &#8220;retomada do S\u00e3o Jo\u00e3o&#8221;. Isso, quando a ci\u00eancia nos mostra a &#8211; possivelmente definitiva &#8211; inviabilidade das multid\u00f5es. O setor tamb\u00e9m precisa manter o modelo. Assim como a educa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o trabalhou na reconstru\u00e7\u00e3o de si. Curios\u00edssimo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Que laborat\u00f3rio, senhoras e senhores! Que laborat\u00f3rio rico e perturbador! Sou grata por poder estar aqui e agora. Tamb\u00e9m por ter aprendido a perguntar &#8220;a quem interessa que eu pense assim?&#8221;, diante de qualquer &#8220;verdade&#8221; posta. ?? o primeiro ponto a refletir sobre todas as media\u00e7\u00f5es de fatos. Porque, sim, h\u00e1 os fatos. Ainda que seja ing\u00eanuo imaginar acesso direto a qualquer um deles, podemos trabalhar a media\u00e7\u00e3o interna, individual. Que pessoa quero ser? Atualmente, estou feliz sendo a que sofre gaslighting cotidianamente, mas n\u00e3o teme o rar\u00edssimo achado de trombose p\u00f3s-vacina, quando est\u00e1 provada a ocorr\u00eancia da mesma trombose em 2\/3 dos que tiveram covid. Por exemplo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Do mesmo modo, n\u00e3o consigo achar defeito no ato de algu\u00e9m descer e subir um rio da Amaz\u00f4nia, em um barco, pesquisando para escrever um livro. Trabalhando. Mesmo que fosse s\u00f3 uma aventura. ?? gostoso, d\u00e1 prazer, \u00e9 vida. A aberra\u00e7\u00e3o, o erro, o defeito \u00e9 que, naquele peda\u00e7o de rio, houvesse perigos n\u00e3o naturais esperando justamente por aquele barco. Que a viagem tenha terminado em morte e esquartejamento.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\u00a0Assisto ao v\u00eddeo de Bruno Ferreira cantando uma m\u00fasica ind\u00edgena, no meio da mata e s\u00f3 vejo beleza. Um outro, com Dom Phillips dando aulas de ingl\u00eas, numa comunidade, cantando e dan\u00e7ando Beatles, tamb\u00e9m me comove. Profundamente saud\u00e1veis e felizes, os dois me pareceram. Me vem \u00e0 cabe\u00e7a que, neste momento, o Brasil odeia pessoas saud\u00e1veis e felizes. Pessoas visceralmente conectadas \u00e0 vida s\u00e3o saud\u00e1veis e felizes. A media\u00e7\u00e3o oficial do fato, a narrativa do mais alto cargo do pa\u00eds, pretende convencer de que Bruno e Dom estavam &#8220;no lugar errado&#8221; ou, pelo menos, &#8220;do jeito errado&#8221;. Que nem a mulher estuprada que t\u00e1 sempre com a &#8220;roupa errada&#8221; ou &#8220;correu risco porque quis&#8221;. Hoje, eu s\u00f3 observo. Vomito outro dia.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"> P\u00f3s-verdade. &#8220;Circunst\u00e2ncias nas quais fatos objetivos t\u00eam menos influ\u00eancia para definir a opini\u00e3o p\u00fablica do que o apelo \u00e0 emo\u00e7\u00e3o ou cren\u00e7as pessoais&#8221;. Bolo doido. ?? tudo tr\u00e1gico e cansativo, por\u00e9m, de fato, um momento muito curioso sobre o qual pensar. Agora, me deixe que eu vou ali ver Cachoeira enfeitada pro S\u00e3o Jo\u00e3o, antes de a multid\u00e3o chegar. Tomar licor, s\u00f3 em casa, que \u00e9 onde eu posso tirar a m\u00e1scara. PFF2. Cuidado com o \u00e1lcool perto da fogueira. Cuidado com a var\u00edola do macaco. Cuidado com o\u00a0grande risco que \u00e9 n\u00e3o pensar. Ou viaje na dopamina, esque\u00e7a tudo isso e se deixe levar. Escolhas. En avant tout, pesso\u00e1! Eu prefiro dialogar com o caos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho tentado observar este momento sem pregui\u00e7a. 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