{"id":172880,"date":"2022-06-24T08:42:08","date_gmt":"2022-06-24T11:42:08","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/medo-e-luta-para-sobreviver-as-historias-de-quem-vive-no-viaduto-do-politeama\/"},"modified":"2022-06-24T08:42:08","modified_gmt":"2022-06-24T11:42:08","slug":"medo-e-luta-para-sobreviver-as-historias-de-quem-vive-no-viaduto-do-politeama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/24\/medo-e-luta-para-sobreviver-as-historias-de-quem-vive-no-viaduto-do-politeama\/","title":{"rendered":"Medo e luta para sobreviver: as hist\u00f3rias de quem vive no Viaduto do Politeama"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Com dezenas de barracas, fog\u00e3o improvisado e torneira instalada para encher baldes de banho, o Viaduto S\u00e3o Raimundo ???\u00a0mais conhecido como Viaduto do Politeama ???, que j\u00e1 \u00e9 famoso por servir de abrigo para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua da regi\u00e3o, chama a aten\u00e7\u00e3o pela quantidade de estruturas instaladas no local. De caixas para guardar roupas e panos amontoados, que servem de cama, at\u00e9 baldes cheios de terra para plantas, o espa\u00e7o re\u00fane uma quantidade de itens que passa a impress\u00e3o de que mais gente vive por l\u00e1 agora.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Mas, segundo Andreia Tomaz, de 49 anos, \u00e9 s\u00f3 impress\u00e3o mesmo. Ela, que vive no local desde 2016, diz que o viaduto j\u00e1 esteve mais cheio e que apenas 20 pessoas usavam a \u00e1rea do bairro do Politeama, em Salvador, como moradia. ???Desde que eu estou na rua, fico aqui nesse viaduto com meus filhos. De um tempo para c\u00e1, diminuiu a quantidade de pessoas aqui, tinha muito mais gente. [&#8230;] Tem mais coisa que fomos improvisando para comer e beber, a\u00ed parece que est\u00e1 mais cheio???, conta ela, que trabalhava com vendas de salgados antes de ir para a rua.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Andreia \u00e9 m\u00e3e de cinco filhos, tr\u00eas meninas e dois meninos. Yasmin, de 15, Micaele, 7, e Valentina, 1, vivem com ela nas margens do trecho da Rua Direta da Piedade, que passa embaixo do viaduto. J\u00e1 os outros dois filhos est\u00e3o na casa da irm\u00e3. Ela passou a viver na rua ap\u00f3s sua m\u00e3e morrer e seus irm\u00e3os a colocarem para fora. ???Eles s\u00e3o usu\u00e1rios e se apossaram da casa. Desde ent\u00e3o, nem tive coragem de voltar e vivo aqui???, diz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Resid\u00eancia improvisada<\/strong><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Quando morava com a m\u00e3e, Andreia vivia dos doces e salgados que fazia para vender. Nas ruas, perdeu o material de confeitaria ap\u00f3s um antigo companheiro vender para comprar drogas. Hoje, o \u00fanico contato que tem com a cozinha \u00e9 na rua, no fog\u00e3o de pedras improvisado no viaduto. ???Compro um \u00e1lcool, cato uns caixotes para fazer fogo e cozinho o que eu ou Yasmin conseguirmos pedindo nas portas de mercados. A gente junta tudo que \u00e9 poss\u00edvel para fazer uma sopa, mas nem sempre d\u00e1. Por falta de ingrediente, de doa\u00e7\u00e3o ou alguma outra coisa, n\u00e3o s\u00e3o poucos os dias que ficamos com fome???, afirma.\u00a0<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/2\/1\/csm_fogao.improvisado_62dcec7e9b.jpeg\" width=\"999\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Andreia usa fog\u00e3o improvisado na rua (Foto: Marina Silva\/CORREIO)<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">De umas semanas para c\u00e1, nem quando ganha uma doa\u00e7\u00e3o Andreia consegue cozinhar. ?? que, enquanto ela estava dormindo, algu\u00e9m furtou as panelas que usava e, agora, s\u00f3 pode alimentar as meninas com alimentos prontos como biscoito, por exemplo. ???Aqui, infelizmente, \u00e9 cada um por si. Se voc\u00ea vacila, tiram tudo, levam embora. Inclusive, as panelas que a gente cozinha. E o mais complicado \u00e9 que a miss\u00e3o mais dif\u00edcil \u00e9 conseguir nos alimentar. Com isso, agora est\u00e1 quase imposs\u00edvel???, fala.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Al\u00e9m dos problemas para conseguir alimento, Andreia precisa resistir tamb\u00e9m aos repetidos casos de viol\u00eancia que sofreu ao longo do tempo que est\u00e1 nas ruas. Ela conta que j\u00e1 foi atingida por tiro, agredida com facas e, em outra oportunidade, com socos. ???J\u00e1 tomei facada, tiro e porrada aqui. No tiro, foi porque tentei defender meu filho, que n\u00e3o est\u00e1 mais aqui, e o cara atirou no meu peito. Quem me deu a facada foi meu pr\u00f3prio pai, quando tentou abusar da minha filha e eu fui pra cima dele. J\u00e1 os socos sempre acontecem quando me defendo de roubo ou qualquer outra situa\u00e7\u00e3o???, relembra Andreia.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Impacto na regi\u00e3o<\/strong><br \/> A viol\u00eancia que acomete Andreia e outras pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua que ficam por ali tamb\u00e9m preocupa as pessoas que moram em resid\u00eancias de ruas pr\u00f3ximas ao viaduto. Uma moradora, que prefere n\u00e3o se identificar, diz n\u00e3o passar por l\u00e1 sozinha. ???Eu tenho receio de passar ali porque a gente ouve falar de muitos roubos e epis\u00f3dios de viol\u00eancia na \u00e1rea em que as pessoas dormem. Sei que pode at\u00e9 que n\u00e3o seja ningu\u00e9m dali praticando essas coisas, mas mesmo assim me previno passando apenas com familiares ou vizinhos. Quando estou sozinha, n\u00e3o arrisco???, conta a moradora.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O estudante Tiago Paiva, 24, afirma que o viaduto serve de abrigo para a popula\u00e7\u00e3o de rua h\u00e1, pelo menos, uma d\u00e9cada e o lugar esvazia e enche entre as diversas a\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o promovidas na \u00e1rea ao longo dos anos. Sobre a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, ele admite que a via causa receio. ???Pessoalmente, nunca tive problemas com o pessoal, especialmente por ser morador do Politeama. Por\u00e9m, n\u00e3o d\u00e1 pra negar que rola uma tremenda preocupa\u00e7\u00e3o ao passar pelo viaduto, especialmente por conta dos in\u00fameros relatos de roubos, furtos e casos de viol\u00eancia ocorridos???, diz Tiago, que mora na regi\u00e3o desde quando crian\u00e7a.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"362\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/0\/3\/csm_receio.moradores_a8a5f0e1cb.jpeg\" width=\"1000\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Moradores t\u00eam receio de passar no viaduto (Foto: Marina Silva\/CORREIO)<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Um comerciante que trabalha na \u00e1rea tamb\u00e9m compartilha do medo que os moradores citam e se preocupa com o esvaziamento da \u00e1rea por conta da presen\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o de rua. ???N\u00e3o \u00e9 como se ali tivesse tiroteio todo dia, mas onde tem pessoas que moram na rua h\u00e1 um receio e muitos clientes deixam de passar por aqui pensando nisso. Acho que \u00e9 preciso a\u00e7\u00f5es para deixar lugares onde essas pessoas ficam mais seguros. Ainda mais agora que parece que as ruas se encheram???, diz ele, que pediu para ter a identidade preservada.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Aumento da popula\u00e7\u00e3o de rua<\/strong><\/p>\n<p class=\"bodytext\">A Secretaria de Promo\u00e7\u00e3o Social e Combate \u00e0 Pobreza (Sempre) de Salvador n\u00e3o tem um censo para quantificar as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua na capital baiana, mas relata que a cidade tem 249 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza e outra 39 mil que se enquadram na situa\u00e7\u00e3o de pobreza. No ano de 2017, um levantamento do Projeto Ax\u00e9, da UFBA e do Movimento Nacional da Popula\u00e7\u00e3o de Rua estimou a exist\u00eancia de \u00a014 a 17 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua na capital.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">De l\u00e1 para c\u00e1, n\u00e3o houve uma atualiza\u00e7\u00e3o concreta do dado. Por\u00e9m, para quem trabalha em contato di\u00e1rio com pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, \u00e9 n\u00edtido que houve um aumento do n\u00famero de pessoas nestas condi\u00e7\u00f5es em Salvador, principalmente, durante a pandemia. Pelo menos, \u00e9 o que fala Lucas Gon\u00e7alves, presidente do projeto Salvador Invis\u00edvel.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">&#8220;N\u00e3o h\u00e1 como quantificar, mas vemos com muita clareza esse aumento em cada ponto da cidade. [&#8230;] Quando a gente ia antes da pandemia no Largo de Roma, a gente via 20 pessoas. Hoje, s\u00e3o 50 pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Na Djalma Dutra, passou de 10 para 30. Visualmente falando, aumentou a popula\u00e7\u00e3o de rua, o n\u00famero de trabalhadores informais e tamb\u00e9m de pedintes no \u00f4nibus. Quem est\u00e1 na rua diariamente, percebe&#8221;, garante.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/d\/7\/csm_aumento.populacao_e2f37d7579.jpeg\" width=\"999\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Popula\u00e7\u00e3o de rua aumentou visualmente (Foto: Marina Silva\/CORREIO)<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Lucas ressalta ainda a import\u00e2ncia de um censo que quantifique quantas s\u00e3o as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua na cidade para que pol\u00edticas p\u00fablicas para esse p\u00fablico sejam viabilizadas. &#8220;N\u00e3o existe lutar por direito se a pessoa n\u00e3o existir, \u00e9 necess\u00e1rio dar visibilidade. E isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem o censo. N\u00e3o d\u00e1 para criar pol\u00edticas p\u00fablicas para a popula\u00e7\u00e3o de rua sem saber que elas existem e qual \u00e9 o n\u00famero total&#8221;, completa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Quem pode ajudar?<\/strong><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Segundo informa\u00e7\u00f5es da Secretaria de Promo\u00e7\u00e3o Social, Combate \u00e0 Pobreza, Esportes e Lazer (Sempre), \u00a0a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, que aceita os servi\u00e7os ofertados, de acordo com o perfil apresentado (homem, mulher, mulher com filhos, casal, casal com filhos, idoso), \u00e9 encaminhada para uma das 1.100 vagas, disponibilizadas nas 17 unidades de acolhimento institucional da gest\u00e3o municipal.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A Sempre realiza tamb\u00e9m a inscri\u00e7\u00e3o dos acolhidos em projetos e benef\u00edcios, como o Cadastro ??nico para Programas Sociais do Governo Federal, Aux\u00edlio Moradia, oferta aux\u00edlio passagem no caso de migrantes e encaminha para retirada de documenta\u00e7\u00e3o oficial, a exemplo da carteira de identidade. Os que s\u00e3o assistidos passam pelo acompanhamento de equipes dos Centros de Refer\u00eancia da Assist\u00eancia Social (CRAS) do territ\u00f3rio onde residem.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">*Com a orienta\u00e7\u00e3o da subchefe de reportagem Monique L\u00f4bo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com dezenas de barracas, fog\u00e3o improvisado e torneira instalada para encher baldes de banho, o Viaduto S\u00e3o Raimundo ???\u00a0mais conhecido como Viaduto do Politeama\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":172881,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[213],"tags":[],"class_list":["post-172880","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-esportes1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/172880","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=172880"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/172880\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=172880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=172880"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=172880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}