{"id":173423,"date":"2022-06-25T07:41:42","date_gmt":"2022-06-25T10:41:42","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/uma-caipira-compulsoria\/"},"modified":"2022-06-25T07:41:42","modified_gmt":"2022-06-25T10:41:42","slug":"uma-caipira-compulsoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/25\/uma-caipira-compulsoria\/","title":{"rendered":"Uma caipira compuls\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Confesso que nunca gostei de dan\u00e7ar a quadrilha. Na inf\u00e2ncia era uma severa imposi\u00e7\u00e3o. Diretores de escolas infantis pareciam pensar em junho o ano todo, tamanha a anima\u00e7\u00e3o e os detalhes dos preparativos. Mobilizavam com anteced\u00eancia os alunos, formalmente intimados a comparecer aos ensaios de dan\u00e7a na quadra de esportes, caprichavam na decora\u00e7\u00e3o, com bandeirolas coloridas de papel atravessando o teto das salas de aula, e convidavam os pais para assistirem ao espet\u00e1culo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Era dia de ver os ???tios???, pais de nossos coleguinhas. Fam\u00edlias inteiras compareciam ao grande evento, no qual vir\u00e1vamos pequenas estrelas obrigadas a acertar o passo (caminho da ro\u00e7a, caracol, t\u00fanel&#8230;), sob comando de um marcador exigente, geralmente um professor que trocava a sisudez di\u00e1ria pela estrid\u00eancia dos gritos. ???Olha a cobra!???. ????? mentira???. A m\u00fasica junina estalando nos ouvidos dava saudade da ro\u00e7a do Barro Vermelho, para onde eu queria fugir bem naquela hora.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Fot\u00f3grafos profissionais contratados pela escola, carregando m\u00e1quinas e flashes enormes, encarregavam-se do registro individuais das crian\u00e7as fantasiadas diante de fundos falsos que simulavam casas do interior, uns cen\u00e1rios forjados com esteiras de palha grampeadas nas paredes e vasos de flor. Tudo aquilo, ali\u00e1s, tudo que implica em simula\u00e7\u00e3o de alegria, envolve uma press\u00e3o que me p\u00f5e aflita. A esquisita da turma, eu s\u00f3 aceitava vestir a caipira depois de muita negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Quando revejo essas fotos antigas, noto como eu estava desconfort\u00e1vel. Uma maria chiquinha teimosa escorregando nos cabelos muito lisos, o batom vermelho nos l\u00e1bios fininhos meio borrado, cinco ou seis bolinhas pintadas com caneta hidrocor, nas bochechas, dentro de borr\u00f5es em c\u00edrculos de p\u00f3 compacto. Vestidinho de chita no capricho, que minha m\u00e3e costurava na m\u00e1quina com afinco dois meses antes da festa. Sapatinho de boneca apertando sem piedade os dedinhos dos p\u00e9s.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Era comum ver crian\u00e7as descal\u00e7as voltando pra casa, algumas no ombro dos pais, que s\u00f3 lamentavam mesmo a aus\u00eancia de licor. Na express\u00e3o da caipira compuls\u00f3ria que fui, uma inquieta\u00e7\u00e3o. Nada contra o S\u00e3o Jo\u00e3o. Celebra\u00e7\u00e3o das mais bonitas, explos\u00e3o de cores e sabores, al\u00e9m de ter se tornado no Brasil culturalmente afirmativa. O que me agoniava \u00e9 o que me agonia ainda hoje, a festa marcada no calend\u00e1rio, violando a timidez, a imposi\u00e7\u00e3o de um movimento que nos arranca de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confesso que nunca gostei de dan\u00e7ar a quadrilha. Na inf\u00e2ncia era uma severa imposi\u00e7\u00e3o. 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