{"id":173524,"date":"2022-06-25T11:43:37","date_gmt":"2022-06-25T14:43:37","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/meu-encontro-com-o-pastor-sargento-isidorio\/"},"modified":"2022-06-25T11:43:37","modified_gmt":"2022-06-25T14:43:37","slug":"meu-encontro-com-o-pastor-sargento-isidorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/25\/meu-encontro-com-o-pastor-sargento-isidorio\/","title":{"rendered":"Meu encontro com o Pastor Sargento Isid\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\"><\/p>\n<p class=\"bodytext\">H\u00e1 uns dez anos, por um acaso da vida, eu assumi o cargo de secret\u00e1ria de desenvolvimento social de um pequeno munic\u00edpio da Bahia. Isso mesmo. De longe, a experi\u00eancia profissional mais estranha que j\u00e1 tive. Fiz o melhor que pude, por intermin\u00e1veis quatro anos. Tanto que acabei sendo bem avaliada pelas consultorias contratadas pelo prefeito de ent\u00e3o. Posso provar. Uma delas, inclusive, sugeriu que eu fosse candidata a vereadora, pois era a secret\u00e1ria com menor \u00edndice de rejei\u00e7\u00e3o naquele mandato. Como dizem os pernambucanos, &#8220;j\u00e1 pensasse&#8221;? Eu mesma n\u00e3o. De consci\u00eancia limpa, agrade\u00e7o pelos aprendizados, ao tempo em que espero nunca mais ocupar qualquer cargo p\u00fablico e\/ou de gest\u00e3o. Muito menos ser chamada de &#8220;doutora&#8221; (no interior, qualquer coisa inspira esse tratamento) ou ser vista como &#8220;otoridade&#8221; em lugar algum. Definitivamente, n\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Foi tenso. Tens\u00edssimo. Mas mentiria se dissesse que n\u00e3o me diverti. Uma vez, ganhei um direito de resposta de 20 minutos, numa r\u00e1dio local, e a entrevista, que durou mais de duas horas, foi dos maiores flows da vida. Outra vez, um vereador disse que eu n\u00e3o trabalhava. Me retei. Vara curta na on\u00e7a que ainda amamentava, passava noites acordada com meu beb\u00ea e trabalhava pacaraio! Pois, levar a equipe inteira, na sess\u00e3o seguinte, para entediar a todos explicando cada detalhe das a\u00e7\u00f5es da secretaria &#8211; inclusive o destino de cada centavo das verbas &#8211; , foi \u00e9pico. Teve at\u00e9 DVD (com capa decorada) para que todos os &#8220;edis&#8221; pudessem levar pra casa e estudar direitinho. A r\u00e1dio, a c\u00e2mara, todos desistiram de mim e pude seguir com meu trabalho, em relativa paz. Um trabalho que inclu\u00eda encontros com pessoas &#8220;importantes&#8221; que eu n\u00e3o fazia ideia de quem fossem. Entre elas, belo dia, um tale Pastor Sargento Isid\u00f3rio.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Por mais esfor\u00e7o que eu fa\u00e7a, n\u00e3o consigo me lembrar dos nomes dos dois assessores dele que me esperavam e me conduziram at\u00e9 o gabinete do deputado estadual. Um homem e uma mulher. Antes, pessoas tinham me falado que o tale era &#8220;maluco&#8221;, o que muito me animou. Ser chamado de &#8220;maluco&#8221; nesse meio, pra mim, sempre foi elogio. Eu mesma era chamada de &#8220;maluca&#8221; na pequena cidade onde fui secret\u00e1ria. Adorava o adjetivo. Especialmente, por saber que vinha de coisas como o fato de eu me vestir de forma muito simples (&#8220;inadequada&#8221; para &#8220;uma secret\u00e1ria&#8221;), n\u00e3o usar senhas no computador a mim destinado (cargo p\u00fablico, n\u00e9?) e fazer quest\u00e3o de que meu &#8220;gabinete&#8221; vivesse de portas e janelas abertas para qualquer pessoa que chegasse (espa\u00e7o p\u00fablico, sim?). Se ele tamb\u00e9m era &#8220;maluco&#8221;, a conversa seria boa, pensei.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Sala de espera. Comecei a desconfiar de que o tale era &#8220;maluco&#8221; de uma enfermaria diferente da minha quando apareceu um oficial de justi\u00e7a procurando o deputado que n\u00e3o havia chegado ainda. Mas, n\u00e3o por isso. Problema \u00e9 que quando o oficial saiu (tinha outras entregas, voltaria mais tarde), a assessora disse que achava um absurdo que o oficial de justi\u00e7a se identificasse como oficial de justi\u00e7a diante de todos pois isso poderia sugerir a possibilidade impens\u00e1vel de que o pastor &#038; sargento &#038; isid\u00f3rio cometesse qualquer ato il\u00edcito o que era a mais absoluta e irrefut\u00e1vel mentira horrorosa. &#8220;Rum, ai, ai&#8221;, suspirei internamente. Apoiadores, tamb\u00e9m na espera, balan\u00e7aram a cabe\u00e7a &#8220;que sim&#8221; e eu j\u00e1 fui praquele lugar interno cor de caf\u00e9 com leite chamado &#8220;t\u00e9dio&#8221; de onde o tale me tiraria minutos depois.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Chegou. Agarrado na B\u00edblia. De terno escuro. Me passou na frente de todo mundo. Me botou sentada na cadeira dele. Na frente do computador dele. Sentou na cadeira destinada a visitantes. Mostrou a B\u00edblia. Disse coisas que eu n\u00e3o entendi. Mostrou a B\u00edblia de novo. Disse mais coisas que eu n\u00e3o entendi. N\u00e3o fixava o olhar. Eu tinha certeza de que ele n\u00e3o fazia a menor ideia de quem era aquela mulher sentada no lugar dele, no caso, eu. Muito menos sabia que munic\u00edpio eu deveria representar. Me falou pra esperar. Que eu ficasse \u00e0 vontade (isso, entendi). Foi embora agarrado na B\u00edblia, dizendo mais coisas desconexas.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Eu, realmente, n\u00e3o sabia o que era pra fazer ali, naquele dia, com aquela pessoa. Ele tamb\u00e9m, claramente, n\u00e3o sabia o que era pra fazer. Em nenhum lugar. Em nenhum dia. Com nenhuma pessoa. Eu queria ir embora. Eu tava chateada de ter desperdi\u00e7ado o combust\u00edvel do munic\u00edpio. E o tempo da equipe. Eu s\u00f3 queria que chegasse a hora do almo\u00e7o. Eu s\u00f3 pensava em comer muito e dar risada com &#8220;meu assessor&#8221; que tinha ficado do lado de fora e n\u00e3o ia acreditar na cena, quando eu contasse. Definitivamente, o pastor &#038; sargento &#038; isid\u00f3rio era &#8220;maluco&#8221; de uma outra categoria. N\u00e3o havia um canal de comunica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Num ato de desespero, minutos depois de ser convidada a esperar sentada no lugar do deputado, dei um pulo da cadeira e disse que precisava falar, urgentemente, com outro deputado. Sendo que eu n\u00e3o conhecia nenhum outro deputado. Peguei minha bolsa, sa\u00ed quase correndo, n\u00e3o achei &#8220;meu assessor&#8221;, e abracei uma amiga que, por milagre, encontrei no caminho. Lembrei que eu tinha uma amiga deputada, essa outra amiga trabalhava com ela. Quando eu disse que estava ali pra encontrar o pastor &#038; sargento &#038; isid\u00f3rio, a amiga deu uma gargalhada de perder o ar. N\u00e3o sei se pelo fato, pela minha cara, pelo jeito que falei do meu encontro ou se pela minha m\u00e3o beliscando o bra\u00e7o dela enquanto eu dizia baixinho &#8220;o que \u00e9 aquilo, pelamordedeus?&#8221;, com risadinhas hist\u00e9ricas.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ela ria cada vez mais e me contou da sess\u00e3o em que o tale defendeu a proibi\u00e7\u00e3o do exame de pr\u00f3stata. Eu achei que ela tava tirando onda com a minha cara. Ela jurou que era verdade, apontando pro lugar e me disse o dia da plen\u00e1ria na qual todos riram copiosamente, segundo ela. Eu devia estar em estado de choque porque n\u00e3o lembro de como me despedi dessa amiga e fui parar no restaurante, outra vez acompanhada pelos benditos assessores do pastor &#038; sargento &#038; isid\u00f3rio que me acharam de novo, n\u00e3o sei como. Um homem e uma mulher, dos quais n\u00e3o lembro nomes. Eu me sentia o pr\u00f3prio Mister Bean. Tenho esse sintoma de ficar muito, muito atrapalhada quando a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 estranha demais pra mim. Era o caso.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Enquanto eu tentava pegar alguma coisa pra comer na fila do &#8220;serve-serve&#8221;, a assessora, que estava na minha frente, me olha e diz: &#8220;voc\u00ea precisa conhecer o trabalho maravilhoso que ele faz com drogados, na cl\u00ednica&#8221;. Quase alcan\u00e7ando o peito de frango \u00e0 milanesa, ainda escutei &#8220;Doutor Jesus&#8221;. Dei risada &#8211; e achei que seria com ela &#8211; do fato de ela dizer &#8220;Doutor Jesus&#8221; que achei ser uma refer\u00eancia metaf\u00f3rica \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o do pastor &#038; sargento &#038; Isid\u00f3rio. A criatura, ser\u00edssima, me diz &#8220;\u00e9 o nome da cl\u00ednica&#8221;. Eu: &#8220;ahhhhh, t\u00e1&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">??quela altura, eu queria era uma boa cacha\u00e7a, pra falar a verdade. Mas tava trabalhando, por mais estranho que fosse associar a palavra &#8220;trabalho&#8221; aos fatos em curso. Portanto, a ideia era comer muito e ficar de boquinha calada. Devo ter misturado sushi com lingui\u00e7a e farinha pra preencher o vazio daquele momento e impossibilitar a mim mesma de dizer o que eu pensava. A assessora, por sua vez, deve ter comido pouco, pois falava bastante e animadamente sobre a tale cl\u00ednica para onde eu deveria enviar todos os &#8220;drogados&#8221; que, porventura, aparecessem l\u00e1 na secretaria do pequeno munic\u00edpio onde eu era secret\u00e1ria. E at\u00e9 algum que eu cruzasse, por acaso, no shopping, na farm\u00e1cia, no pet shop, no teatro, na fic\u00e7\u00e3o ou na vida real. Todos seriam curados. &#8220;Meu assessor&#8221; ria de canto de boca e me olhava, certamente imaginando as nossas conversas no trajeto de volta pra casa.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Foram duas horas de gargalhadas na estrada. &#8220;Meu assessor&#8221; me contando do neg\u00f3cio do botij\u00e3o de g\u00e1s, do neg\u00f3cio de ser &#8220;ex-viado&#8221;, que foi &#8220;curado&#8221; por Jesus. Das &#8220;palestras&#8221; que o tale dava na &#8220;cl\u00ednica&#8221; segurando um cacetete (ou era um peda\u00e7o de pau) que tinha at\u00e9 nome. A gente ria muito ao associar a palavra &#8220;cura&#8221; ao tale. Sobre a &#8220;cl\u00ednica&#8221;, eu pensava que n\u00e3o ia dar em nada. Eu contei da tentativa de proibi\u00e7\u00e3o do exame de pr\u00f3stata e a gente ria mais, mais e mais. Conclu\u00ed que foi uma pegadinha do prefeito me mandar para a tal &#8220;reuni\u00e3o&#8221; imposs\u00edvel, porque ele n\u00e3o ia perder o tempo dele l\u00e1. Secret\u00e1rio tamb\u00e9m serve pra isso, mas dext\u00e1. Achei que ele ia rir comigo assim que eu chegasse e que o pastor &#038; sargento &#038; Isid\u00f3rio era um desses personagens que aparecem na pol\u00edtica porque o povo vota no mais absurdo que tem, s\u00f3 pra protestar.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Depois \u00e9 que eu fui estudar e entender quem era o tale deputado. E a trajet\u00f3ria. E a &#8220;cl\u00ednica&#8221; que, evidentemente, nunca indiquei para nenhum usu\u00e1rio, at\u00e9 porque n\u00e3o sou psiquiatra e h\u00e1 encaminhamentos internos, dentro de um munic\u00edpio, at\u00e9 que profissional habilitado chegue \u00e0 conclus\u00e3o de que se deve sugerir &#8211; ao enfermo e \u00e0 fam\u00edlia &#8211; internar. Muito depois fui apresentada aos &#8220;m\u00e9todos&#8221; da Doutor Jesus com mais profundidade. Isso, que o Fant\u00e1stico denunciou com detalhes, estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem quisesse ver, no YouTube, h\u00e1 anos.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Naquela \u00e9poca, n\u00e3o imaginei que aquele cara conseguisse avan\u00e7ar na pol\u00edtica, nem por voto de protesto. Ao longo do tempo, percebi que iguais a ele h\u00e1 aos montes e eleitos para v\u00e1rios mandatos. Chegam at\u00e9 aos mais altos cargos. E ele t\u00e1 a\u00ed, \u00e9 o fato. H\u00e1 quase dez anos, eu ri pra caramba daquele circo todo. Agora, vendo as provas dos maus tratos aos internos da tale cl\u00ednica e assistindo \u00e0 mat\u00e9ria do Fant\u00e1stico &#8211; que, entre outras coisas, denuncia 84 milh\u00f5es de verba do Governo da Bahia enterrados nesse lugar &#8211;\u00a0\u00a0fico pensando, aqui comigo: em que momento isso, realmente, teve gra\u00e7a?<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em><strong>*Flavia Azevedo \u00e9 articulista do Correio, editora e m\u00e3e de Leo<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uns dez anos, por um acaso da vida, eu assumi o cargo de secret\u00e1ria de desenvolvimento social de um pequeno munic\u00edpio da Bahia.\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":173525,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-173524","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-policia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=173524"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173524\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=173524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=173524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=173524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}