{"id":174018,"date":"2022-06-26T12:57:32","date_gmt":"2022-06-26T15:57:32","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/historico-de-mortes-na-defesa-da-amazonia-vai-alem-de-dom-e-bruno\/"},"modified":"2022-06-26T12:57:32","modified_gmt":"2022-06-26T15:57:32","slug":"historico-de-mortes-na-defesa-da-amazonia-vai-alem-de-dom-e-bruno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/26\/historico-de-mortes-na-defesa-da-amazonia-vai-alem-de-dom-e-bruno\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rico de mortes na defesa da Amaz\u00f4nia vai al\u00e9m de Dom e Bruno"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Est\u00e1 todo mundo muito triste.&#8221; O sentimento de um dos \u00edndios que ajudaram nas buscas do indigenista Bruno Pereira e do jornalista ingl\u00eas Dom Phillips sintetiza a como\u00e7\u00e3o que tomou conta de todos que ajudaram, ao longo de 10 dias, os trabalhos de localiza\u00e7\u00e3o dos corpos no Vale do Javari. O assassinato dos dois repercutiu no mundo todo, e ampliou a lista de ambientalistas, ind\u00edgenas e ativistas mortos na Amaz\u00f4nia por lutar pela preserva\u00e7\u00e3o da floresta e de seus povos tradicionais.<\/p>\n<p>Em 1988, o ambientalista Chico Mendes foi assassinado com tiros de escopeta no peito, na porta dos fundos da casa dele, no munic\u00edpio acriano de Xapuri, quando sa\u00eda para tomar banho. Nascido 44 anos antes, na mesma Xapuri onde morava, Chico Mendes era seringueiro, sindicalista e um dos mais conhecidos ativistas da causa ambiental do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o crime, Mendes tornou-se s\u00edmbolo da luta pela prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia e de seus moradores, em especial, os seringueiros, que sobrevivem, at\u00e9 hoje, da extra\u00e7\u00e3o do l\u00e1tex.<\/p>\n<p>Chico Mendes foi assassinado por Darcy Alves da Silva, a mando do pai dele, o fazendeiro Darly Alves da Silva. Em dezembro de 1990, depois de um julgamento que durou quatro dias, os assassinos foram condenados a 19 anos de pris\u00e3o. Em 1992, Darly Alves chegou a ter seu julgamento anulado pela C\u00e2mara Criminal do Tribunal de Justi\u00e7a do Acre, mas, um ano depois, o Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) reformou a decis\u00e3o da corte acriana e manteve a condena\u00e7\u00e3o pelo assassinato de Chico Mendes.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos mais tarde, Darly Alves ganhou o direito de passar os dias fora da cadeia. Ap\u00f3s o cumprimento das penas, os dois voltaram a viver em Xapuri.<\/p>\n<p>A execu\u00e7\u00e3o de Mendes foi manchete dos jornais do mundo inteiro. Ap\u00f3s o crime, o governo brasileiro sofreu press\u00e3o internacional para coibir o desmatamento e as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho na Amaz\u00f4nia e para preservar terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Diante das repercuss\u00f5es, o Brasil criou as reservas extrativistas. Em 1990, a primeira foi homologada, justamente a Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex), em Xapuri.<\/p>\n<p>&#8220;A hist\u00f3ria de Chico Mendes \u00e9 uma hist\u00f3ria muito bonita. Ele foi uma pessoa que percebeu a import\u00e2ncia de alian\u00e7as com a \u00e1rea ambiental, j\u00e1 que todos precisavam da floresta em p\u00e9. O legado \u00e9 important\u00edssimo. Foi a partir de sua atua\u00e7\u00e3o que surgiram as reservas extrativistas. Foi uma proposta muito revolucion\u00e1ria, de ter conserva\u00e7\u00e3o junto \u00e0s atividades de comunidades tradicionais&#8221;, disse um servidor do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), que preferiu n\u00e3o ser identificado.<\/p>\n<p>O ICMBio foi criado em agosto de 2007, resultado do desmembramento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), na gest\u00e3o da ministra do Meio Ambiente Marina Silva, no governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. O instituto passou a cuidar da gest\u00e3o das unidades de conserva\u00e7\u00e3o em \u00e2mbito federal, inclusive com papel de pol\u00edcia.<\/p>\n<p><strong><br \/>Mission\u00e1ria e ativista<\/strong><\/p>\n<p>O assassinato da mission\u00e1ria dos Estados Unidos naturalizada brasileira Dorothy Stang tamb\u00e9m teve repercuss\u00e3o mundial. Ela chegou ao Brasil em 1966 e passou a militar nos movimentos de prote\u00e7\u00e3o ambiental e de defesa dos direitos de trabalhadores rurais envolvidos em conflitos por terra.<\/p>\n<p>Stang foi violentamente morta aos 73 anos, com seis tiros, em fevereiro de 2005, em uma emboscada armada em uma estrada de terra, a 53km de Anapu, cidade paraense em que vivia. Ela fora respons\u00e1vel pela instala\u00e7\u00e3o do Projeto de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (PDS) em um assentamento de trabalhadores sem-terra que exploravam recursos florestais sem agress\u00e3o ao meio ambiente. O projeto era vinculado ao Incra (Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria). No entanto, a \u00e1rea era disputada por madeireiros, grileiros e latifundi\u00e1rios da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Membro da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), ligada \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, desde 1996, o advogado Jos\u00e9 Batista Afonso conheceu a mission\u00e1ria e ativista, chegando a atuar em processos judiciais abertos por ela. &#8220;Na \u00e9poca, eu estava na coordena\u00e7\u00e3o nacional da CPT em Goi\u00e2nia. Nem imagin\u00e1vamos que algu\u00e9m pudesse atentar contra uma pessoa como Dorothy ??? idosa, religiosa e que defendia as causas dela. Foi um choque muito grande&#8221;, relembrou ele.<\/p>\n<p>&#8220;Para a Comiss\u00e3o e para os movimentos sociais, foi uma perda enorme. Dorothy era uma incans\u00e1vel defensora dos direitos \u00e0 terra e ambientais. Ela tentava conciliar coisas que sempre foram muito conflitantes no Brasil: um projeto de assentamento que fosse sustent\u00e1vel para a floresta.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Press\u00e3o internacional<\/strong><\/p>\n<p>Dorothy pediu a fazendeiros vizinhos que n\u00e3o plantassem capim nas terras do projeto, pois atrapalhava a ro\u00e7a dos assentados. Uma semana depois do crime, ap\u00f3s relato de uma testemunha, a pol\u00edcia prendeu os pistoleiros Rayfran e Clodoaldo, que confessaram ter matado a mission\u00e1ria e apontaram os fazendeiros Vitalmiro de Bastos de Moura (Bida) e Regivaldo Galv\u00e3o (Tarad\u00e3o), como mandantes. Tamb\u00e9m apontaram a participa\u00e7\u00e3o de um intermedi\u00e1rio, Amair Feijoli da Cunha (Tato).<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o do crime abalou o governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que recebeu cr\u00edticas internacionais e press\u00f5es para que enfrentasse o avan\u00e7o desenfreado do desmatamento na Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica e a viol\u00eancia contra popula\u00e7\u00f5es tradicionais e movimentos sociais. ?? \u00e9poca, Lula afirmou que &#8220;n\u00e3o descansaria&#8221; enquanto os respons\u00e1veis pelo assassinato fossem presos.<\/p>\n<p><strong>Justi\u00e7a distante<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de separadas pelo tempo, as mortes de Chico Mendes, Dorothy Stang, Bruno Pereira e Dom Phillips apontam para uma realidade que n\u00e3o mudou. Quem enfrenta os poderosos interesses dos exploradores da floresta corre perigo, s\u00e3o pessoas marcadas pelo medo de morrer.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rio preliminar da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (Cedoc-CPT) aponta que, at\u00e9 maio deste ano, 19 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo, sem contar os casos de Bruno e Dom.<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00f5es do CPT apontam que apenas alguns crimes s\u00e3o julgados, e nem todos os envolvidos acabam presos ou cumprem pena. A impunidade e os tr\u00e2mites jur\u00eddicos da justi\u00e7a brasileira est\u00e3o inclu\u00eddos entre as principais causas da viol\u00eancia no campo.<\/p>\n<p>&#8220;Um dos problemas que sempre tivemos em rela\u00e7\u00e3o a assassinatos de ambientalistas \u00e9 a puni\u00e7\u00e3o de todos os envolvidos no crime. Na \u00faltima d\u00e9cada, s\u00f3 no Par\u00e1, foram centenas de assassinatos e, na maioria dos casos, n\u00e3o se apurou a responsabilidade completa pelo crime&#8221;, avaliou Jos\u00e9 Batista Afonso.<\/p>\n<p>Para o advogado da CPT, ativistas e ambientalistas sempre foram negligenciados: &#8220;A CPT, h\u00e1 mais de 40 anos, faz o registro de defensores amea\u00e7ados e sempre cobrou, n\u00e3o s\u00f3 a prote\u00e7\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, mudan\u00e7as na quest\u00e3o do acesso \u00e0 terra no campo. O Estado brasileiro sempre deu as costas para ativistas que defendem a quest\u00e3o ambiental&#8221;.<\/p>\n<p>Entre as medidas citadas pelos entrevistados que precisam ser adotadas para diminuir a viol\u00eancia no campo est\u00e3o julgar os processos criminais; punir pessoas que cometem os crimes; regularizar terras ind\u00edgenas; fiscalizar, por meio dos \u00f3rg\u00e3os ambientais, o avan\u00e7o do desmatamentos; e agilizar o andamento dos inqu\u00e9ritos policiais.<\/p>\n<p>Segundo a assessora pol\u00edtica e de direito ambiental do Instituto Socioambiental ISA, Adriana Ramos, o governo brasileiro &#8220;precisa decidir&#8221; se vai assumir um posicionamento que proteja os ativistas no pa\u00eds ou se a impunidade continuar\u00e1 acontecendo na maioria dos casos.<\/p>\n<p>&#8220;?? preciso mudar a postura do governo e fortalecer os mecanismos de controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o e acabar com a impunidade. Os crimes precisam ser investigados e julgados&#8221;, argumentou ela.<\/p>\n<p>*Estagi\u00e1rias sob a supervis\u00e3o de Vinicius Doria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Est\u00e1 todo mundo muito triste.&#8221; O sentimento de um dos \u00edndios que ajudaram nas buscas do indigenista Bruno Pereira e do jornalista ingl\u00eas Dom\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":174019,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2799],"tags":[],"class_list":["post-174018","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174018","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=174018"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174018\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=174018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=174018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=174018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}