{"id":174139,"date":"2022-06-26T18:44:34","date_gmt":"2022-06-26T21:44:34","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/gil-nao-conta\/"},"modified":"2022-06-26T18:44:34","modified_gmt":"2022-06-26T21:44:34","slug":"gil-nao-conta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/26\/gil-nao-conta\/","title":{"rendered":"Gil n\u00e3o conta"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Chico Buarque foi, desde que surgiu, o menino prod\u00edgio, das letras incr\u00edveis, cronista de nosso amor, pol\u00edtica e cultura, ao ponto de ter seu lado m\u00fasico sombreado pela incr\u00edvel habilidade de suas palavras.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Caetano Veloso era uma esp\u00e9cie de outra face de Chico, muitas vezes seu oposto e outras seu complemento. Experimentando, provocando, usando do discurso direto, expondo-se em sua autobiografia e nos riscos de uma obra propositalmente desigual, falou e fala de tudo, se mete em tudo, e leva as palavras na frente, ao ponto de at\u00e9 n\u00e3o parecer t\u00e3o popular em suas can\u00e7\u00f5es como ele \u00e9. Sua pouca destreza com o viol\u00e3o, que ele mesmo sempre faz quest\u00e3o de pontuar, faz que seu lado m\u00fasico tamb\u00e9m seja sombreado pela incr\u00edvel habilidade de suas palavras.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Desde pequeno, me incomodava a pol\u00eamica sobre quem era melhor: Chico ou Caetano. Gilberto Gil sempre era deixado de lado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Com o tempo, percebi que em conversa de m\u00fasicos, sempre que se falava em revolu\u00e7\u00f5es, inova\u00e7\u00f5es, rupturas, ao se citar Gil, que havia feito praticamente tudo antes de todos, vinha sempre a frase: ???Gil n\u00e3o conta???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O estranhamento de muitos com Gil ter sido o primeiro compositor popular a entrar para a Academia Brasileira de Letras, num pa\u00eds que temos Chico e Caetano, traz um fato curioso. Ao contr\u00e1rio dos dois, Gil sempre foi visto como o m\u00fasico. O que toca muito e revolucionou o viol\u00e3o. O que se meteu com todos os ritmos poss\u00edveis e dominou do roquenrou ao reggae, do xote ao samba. O que faz firulas com a voz. O mais musical de todos os tr\u00eas, sem d\u00favida.<br \/> Todos sabem o quanto admiro Chico e Caetano, ent\u00e3o posso escrever o que vou escrever sem parecer estar pondo em disputa ou dizendo quem \u00e9 melhor que quem; at\u00e9 porque essa discuss\u00e3o \u00e9 oca e tola.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A quest\u00e3o de Gil \u00e9 que sua m\u00fasica e sua letra saem f\u00e1cil. Escorrem por nossos ouvidos. Parecem n\u00e3o ser rebuscadas e racionais como a dos outros dois, e mais \u00e0 servi\u00e7o da can\u00e7\u00e3o, descompromissadamente. Jo\u00e3o Cabral falava que quanto a catar palavras, ao contr\u00e1rio de catar feij\u00e3o, deveria haver sempre uma pedra que incomodasse, a\u00e7ulando a aten\u00e7\u00e3o e iscando-a com o risco.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Aparentemente, Gil parece catar o feij\u00e3o e cozinhar ele num tempero t\u00e3o conhecido que, de t\u00e3o exato, sequer chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 receita, de t\u00e3o feij\u00e3o ideal que ele faz. Ao contr\u00e1rio de outros letristas, que esfregam sua po\u00e9tica em nossa cara, a poesia dele geralmente flutua com as notas e parece se dissipar na can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Eis a\u00ed o engano. Basta buscar nas redes aquelas postagens pedindo qual seu verso preferido de Gil, como fazem com qualquer um, e come\u00e7am a surgir uma beleza profunda de imagens, ideias, formas, alegorias, met\u00e1foras, delicadezas. Por tr\u00e1s de letra de Realce, ou Toda menina baiana, ou Esot\u00e9rico, can\u00e7\u00f5es ???f\u00e1ceis??? e animadas, escondem-se versos de extrema poesia e for\u00e7a, den\u00fancia, reflex\u00e3o existencial e\/ou filos\u00f3fica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Tudo j\u00e1 foi dito sobre Gil j\u00e1 em seu disco de 1967. Impressionante como o que Torquato, Capinan, Caetano e Chico escrevem sobre ele \u00e9 ainda atual. Ou o texto de Caetano para o songbook de Gil. Ou a contracapa do mesmo livro, escrita por Caymmi.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os maiores j\u00e1 falaram tudo. E Elis abre o programa Ensaio falando que talvez ele seja o mais completo compositor.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Eu precisaria de centenas de p\u00e1ginas para falar sobre a import\u00e2ncia not\u00f3ria (como disse Caymmi) de Gil para a nossa m\u00fasica. E para mim. Da minha rela\u00e7\u00e3o com ele, com a m\u00fasica e a palavra que brotam dele, e de todas as especula\u00e7\u00f5es que tenho sobre uma maior dimens\u00e3o de sua import\u00e2ncia para o Brasil.<br \/> Mas na pol\u00eamica de quem \u00e9 o melhor isso ou aquilo, essa bobagem comparativa que excita os tolos, eu apenas tenho a dizer, nestes 80 anos completos, e na dimens\u00e3o c\u00f3smica que isso toma, o que sempre ouvi nas conversas de m\u00fasicos:<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Gil n\u00e3o conta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Texto originalmente publicado no Facebook e replicado aqui com autoriza\u00e7\u00e3o do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chico Buarque foi, desde que surgiu, o menino prod\u00edgio, das letras incr\u00edveis, cronista de nosso amor, pol\u00edtica e cultura, ao ponto de ter seu\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":174140,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-174139","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=174139"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174139\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=174139"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=174139"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=174139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}