{"id":174671,"date":"2022-06-27T15:55:30","date_gmt":"2022-06-27T18:55:30","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/quase-50-dos-jovens-tem-interesse-em-ingressar-nas-forcas-armadas-revela-pesquisa-inedita\/"},"modified":"2022-06-27T15:55:30","modified_gmt":"2022-06-27T18:55:30","slug":"quase-50-dos-jovens-tem-interesse-em-ingressar-nas-forcas-armadas-revela-pesquisa-inedita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/27\/quase-50-dos-jovens-tem-interesse-em-ingressar-nas-forcas-armadas-revela-pesquisa-inedita\/","title":{"rendered":"Quase 50% dos jovens t\u00eam interesse em ingressar nas For\u00e7as Armadas, revela pesquisa in\u00e9dita"},"content":{"rendered":"<p>Igor Carvalh\u00e3es cresceu sem contato com o pai e perdeu a m\u00e3e, que era empregada dom\u00e9stica, aos 13 anos, por um acidente vascular cerebral (AVC). O menino, de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, foi morar com a av\u00f3 e assumiu para si a responsabilidade de sustentar os outros tr\u00eas irm\u00e3os. Come\u00e7ou a trabalhar como jovem aprendiz, enquanto tentava terminar os estudos. <\/p>\n<p>Assim que se formou no Ensino M\u00e9dio, tomou uma decis\u00e3o. &#8220;Fiz concurso para a Marinha. Vi que minha melhor chance de um futuro era seguir a carreira militar&#8221;. Carvalh\u00e3es \u00e9 pragm\u00e1tico ao citar os dois motivos que o levaram a se tornar fuzileiro naval ??? estabilidade e sal\u00e1rio certo no fim do m\u00eas. <\/p>\n<p>&#8220;A minha quest\u00e3o principal foi a financeira. Embora um soldado ou cabo n\u00e3o ganhe muito bem, \u00e9 um dinheiro certinho. Se eu tiver que financiar um carro ou casa, os bancos me d\u00e3o essa facilidade por eu ter um trabalho vital\u00edcio&#8221;, diz ele \u00e0 BBC News Brasil. <\/p>\n<p>Um n\u00famero surpreendentemente alto de jovens pretende atualmente seguir os mesmos passos de Carvalh\u00e3es, ingressando nas For\u00e7as Armadas ou Pol\u00edcia Militar. <\/p>\n<p>Uma pesquisa in\u00e9dita, a que a BBC News Brasil teve acesso, revela que 43,9% dos brasileiros entre 16 e 26 anos avaliam seguir uma carreira militar. As For\u00e7as Armadas s\u00e3o as que mais atraem interessados: 47,5%. <\/p>\n<p>Entre os homens, o percentual dos interessados em entrar para Marinha, Aeron\u00e1utica ou Ex\u00e9rcito chega a 50,5%. Entre mulheres, ele \u00e9 de 44,9%. <\/p>\n<p>A pesquisa ouviu 2.055 pessoas em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds e foi feita pela Universidade de Oxford (Inglaterra), o Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento, da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo), e as universidades federais de S\u00e3o Carlos (UFSCar), Minas Gerais (UFMG) e Pernambuco (UFPE). <\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, a antrop\u00f3loga Andreza de Souza Santos, professora da Universidade de Oxford, aponta tr\u00eas fatores para o grande interesse dos jovens nas carreiras militares: desejo de estabilidade, desilus\u00e3o generalizada com o mercado de trabalho e o elevado pragmatismo da nova gera\u00e7\u00e3o, que elenca alimenta\u00e7\u00e3o e sal\u00e1rio como prioridades em vez de &#8220;felicidade e realiza\u00e7\u00e3o pessoal&#8221;. <\/p>\n<p>Ou seja, o estudo mostra que os jovens n\u00e3o procuram carreiras militares para serem felizes profissionalmente, mas por enxergarem nessa escolha um caminho para fugir da pobreza, garantir o pr\u00f3prio sustento e ter um emprego vital\u00edcio, diante de um cen\u00e1rio de poucas oportunidades. <\/p>\n<p>Mas a grande presen\u00e7a militar no governo pode ter jogado maior holofote sobre essa carreira tamb\u00e9m. Atualmente, mais de 6 mil militares ocupam cargos de confian\u00e7a no Executivo, o que representa 18% do total dos postos dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>&#8220;No governo Jair Bolsonaro, houve um aumento da representa\u00e7\u00e3o dos militares em cargos comissionados e tamb\u00e9m um aumento do aporte financeiro \u00e0s For\u00e7as Armadas. Isso pode gerar a percep\u00e7\u00e3o de uma carreira em valoriza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de est\u00e1vel&#8221;, diz Santos, ressalvando, por\u00e9m, que os dados da pesquisa apontam que o maior motor do interesse dos jovens pelas carreiras militares \u00e9 financeiro, n\u00e3o ideol\u00f3gico ou vocacional.<\/p>\n<h3>Busca por estabilidade diante de crises e pandemia<\/h3>\n<p>A prolongada crise financeira no Brasil, iniciada em 2014, aliada \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus, parece ter tido impacto profundo nas prioridades da gera\u00e7\u00e3o atual de jovens. <\/p>\n<p>Com a alta taxa de desemprego e empresas fechando as portas durante a pandemia de covid-19, muitos jovens passam a colocar estabilidade \u00e0 frente de realiza\u00e7\u00e3o profissional, diz Andreza de Souza Santos. <\/p>\n<p>&#8220;Se na minha gera\u00e7\u00e3o, de nascidos nos anos 80, muitos de n\u00f3s fal\u00e1vamos em entrar para universidade, em carreiras na iniciativa privada e empreendedorismo, agora muitos procuram op\u00e7\u00f5es que garantam estabilidade. ?? a\u00ed que entram as carreiras militares&#8221;, explica Santos \u00e0 BBC News Brasil. <\/p>\n<p>&#8220;A informalidade e o empreendedorismo individual perderam um pouco de impulso durante a pandemia, porque voc\u00ea viu os riscos, a dificuldade que \u00e9 voc\u00ea n\u00e3o poder trabalhar e n\u00e3o ter um sal\u00e1rio fixo, n\u00e3o ter uma pens\u00e3o, n\u00e3o ter um plano de sa\u00fade atrelado. Procura por universidades tamb\u00e9m perdeu for\u00e7a e tivemos uma das menores taxas de inscritos no Enem (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio)&#8221;, completa. <\/p>\n<p>O cabo Carvalh\u00e3es faz coro a essa avalia\u00e7\u00e3o. Ele diz que a maioria de seus colegas militares ingressou na carreira de olho, inicialmente, em ter um emprego garantido, sal\u00e1rio todo fim de m\u00eas e aposentadoria. A pandemia, segundo ele, refor\u00e7ou a procura com essas motiva\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>&#8220;Creio que a grande maioria das pessoas se interessa primeiramente pela estabilidade financeira. O mundo pode estar caindo, mas o pagamento do militar chega todo dia primeiro de cada m\u00eas. ?? diferente de outros profissionais e at\u00e9 outros servidores p\u00fablicos.&#8221;<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou ganhando cerca de R$ 2 mil como soldado. Depois de virar cabo, passou a ganhar R$ 3 mil. Agora, sonha com a promo\u00e7\u00e3o a sargento, para ganhar R$ 5 mil e conseguir financiar uma casa pr\u00f3pria. <\/p>\n<p>&#8220;Meu interesse inicial foi a estabilidade, voc\u00ea tem uma certa moral, respeito. Consegui comprar meu carrinho, alugar minha casa. Agora, sinto tamb\u00e9m o orgulho de servir a p\u00e1tria e vestir a farda.&#8221;<\/p>\n<h3>Falta de perspectivas para o futuro<\/h3>\n<p>Essa grande busca por estabilidade se explica por uma sensa\u00e7\u00e3o generalizada de falta de oportunidades, explica Dalson Britto Figueiredo Filho, professor da UFPE e um dos autores do estudo. <\/p>\n<p>A pesquisa captou uma forte sensa\u00e7\u00e3o de desilus\u00e3o entre os jovens sobre suas possibilidades profissionais ??? 67,3% consideram a oferta de empregos em suas cidades baixa, muito baixa ou nenhuma. No Nordeste, essa percep\u00e7\u00e3o negativa quanto \u00e0s oportunidades de trabalho \u00e9 compartilhada por 75,9% dos jovens. <\/p>\n<p>&#8220;De acordo com nossos resultados, a falta de perspectiva econ\u00f4mica \u00e9 um dos principais fatores que explicam o interesse dos jovens brasileiros pelas carreiras militares. Quando questionados sobre a oferta de empregos, dois em cada tr\u00eas respondentes acreditam que a quantidade de empregos \u00e9 baixa ou muito baixa&#8221;, diz Figueiredo Filho \u00e0 BBC News Brasil. <\/p>\n<p>Igor Carvalh\u00e3es sempre foi bom aluno, apesar de ter que trabalhar e estudar ao mesmo tempo por causa das dificuldades financeiras da fam\u00edlia. Mas, ao concluir o Ensino M\u00e9dio, avaliou que as oportunidades de emprego eram escassas at\u00e9 para quem tinha curso superior. Por isso, diz ele, preferiu fazer cursinho para cabo na Marinha. <\/p>\n<p>&#8220;O mercado de trabalho est\u00e1 muito ruim. J\u00e1 estava ruim em 2015, quando eu terminei o Ensino M\u00e9dio. At\u00e9 para quem se forma na universidade est\u00e1 dif\u00edcil de achar emprego. Ent\u00e3o, decidi fazer concurso, em vez de vestibular.&#8221;<\/p>\n<h3>Pragmatismo<\/h3>\n<p>Outro fator que parece impulsionar a procura por carreiras militares \u00e9 o pragmatismo da gera\u00e7\u00e3o atual de jovens entre 16 e 26 anos. A pesquisa revela que eles n\u00e3o buscam &#8220;felicidade e realiza\u00e7\u00e3o pessoal&#8221; ao pensar nas For\u00e7as Armadas ou PM, mas sim &#8220;alimenta\u00e7\u00e3o, remunera\u00e7\u00e3o e estabilidade&#8221;. <\/p>\n<p>&#8220;Perguntamos a 2.055 jovens brasileiros quais as raz\u00f5es para ingressar na carreira militar. Para cada item, o respondente poderia atribuir valores de 1 (nada importante) at\u00e9 5 (muito importante). Alimenta\u00e7\u00e3o (4,1), Remunera\u00e7\u00e3o (3,99) e Emprego\/Estabiidade (3,96) lideram o ranking de prioridades&#8221;, diz Figueiredo Filho. <\/p>\n<p>&#8220;Por outro lado, a felicidade e realiza\u00e7\u00e3o profissional aparecem na \u00faltima posi\u00e7\u00e3o, com m\u00e9dia de 3,26.&#8221;<\/p>\n<p>Para o pesquisador, isso evidencia que &#8220;as motiva\u00e7\u00f5es para seguir a carreira militar no Brasil s\u00e3o predominantemente econ\u00f4micas.&#8221; <\/p>\n<p>&#8220;O jovem vai porque precisa e n\u00e3o porque espera se realizar profissionalmente nessa modalidade de trabalho. ??, antes de tudo, uma quest\u00e3o de subsist\u00eancia material e n\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o subjetiva pessoal&#8221;, avalia o professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da UFPE. <\/p>\n<h3>Pa\u00eds sem guerras no exterior<\/h3>\n<p>O cabo Igor Carvalh\u00e3es menciona outro aspecto importante qua<br \/>\nndo o jovem vai colocar na balan\u00e7a a decis\u00e3o de seguir carreira nas For\u00e7as Armadas ??? o fato de o Brasil n\u00e3o ter envolvimento em guerras e conflitos no exterior (com exce\u00e7\u00e3o de participa\u00e7\u00f5es recentes em miss\u00f5es de paz na ONU em pa\u00edses como Haiti e Congo). <\/p>\n<p>&#8220;O fato de o Brasil ser um pa\u00eds pacifico e n\u00e3o estar constantemente em guerra conta. Se fosse um pa\u00eds com militarismo muito ativo, como Estados Unidos, tenho certeza que essas pessoas pensariam duas vezes&#8221;, diz. <\/p>\n<p>De fato, a pesquisa sobre interesse militar revela uma grande diferen\u00e7a quando se compara Brasil com Estados Unidos. Enquanto no Brasil mais da metade dos homens cogitam entrar para as For\u00e7as Armadas, nos EUA esse percentual \u00e9 de 14%. <\/p>\n<p>&#8220;Os Estados Unidos t\u00eam uma for\u00e7a militar muito grande e uma carreira que tem um certo prest\u00edgio, tem uma hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma carreira que manda jovens para a guerra. A carreira militar no Brasil \u00e9 voltada para atividades dentro da fronteira, n\u00e3o para guerras externas&#8221;, destaca Andreza de Souza Santos, da Universidade de Oxford. <\/p>\n<p>&#8220;O jovem brasileiro quando pensa em ingressar na carreira militar n\u00e3o est\u00e1 vislumbrando a possibilidade de uma morte violenta, mas antes focado em suprir necessidades b\u00e1sicas de alimenta\u00e7\u00e3o e moradia&#8221;, completa Dalson Figueiredo Filho, da UFPE. <\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das hip\u00f3teses para o interesse menor em ingressar na Pol\u00edcia Militar, em compara\u00e7\u00e3o com as For\u00e7as Armadas. O trabalho da PM, especialmente em grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, \u00e9 tido como de alto risco. <\/p>\n<p>Segundo a pesquisa da Universidade de Oxford e universidades brasileiras, 36% dos jovens entre 16 e 26 anos t\u00eam interesse em virar policiais militares. A imagem das For\u00e7as Armadas tamb\u00e9m \u00e9 melhor entre a juventude brasileira que a imagem da PM. <\/p>\n<p>O estudo mostra que, entre os jovens, 5,7% t\u00eam uma avalia\u00e7\u00e3o negativa das For\u00e7as Armadas, enquanto esse percentual praticamente dobra para as pol\u00edcias militares ??? 11,2% dos entrevistados dizem ter &#8220;imagem negativa&#8221; da PM. <\/p>\n<p>&#8220;Uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para esse resultado passa pelos constantes eventos de trucul\u00eancia da PM que s\u00e3o reiteradamente veiculados na m\u00eddia. De acordo com as evid\u00eancias mais recentes, a pol\u00edcia brasileira \u00e9 uma das mais letais do mundo&#8221;, destaca o professor Dalson Figueiredo Filho. <\/p>\n<p>Segundo Andreza de Souza Santos, a letalidade da PM pode tamb\u00e9m estar por tr\u00e1s do perfil t\u00edpico dos interessados em carreiras militares. Embora, a maioria dos jovens que buscam essa op\u00e7\u00e3o seja de classe m\u00e9dia baixa e pardos, quem \u00e9 preto e muito pobre n\u00e3o costuma vislumbrar a op\u00e7\u00e3o de virar PM ou entrar para as For\u00e7as Armadas, diz a pesquisadora. <\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s levantamos o grau de escolaridade e renda dos pais dos jovens entrevistados. E tem mais propens\u00e3o a optar pela carreira militar os jovens pardos com pais de escolaridade m\u00e9dia ou baixa, e renda m\u00e9dia ou baixa. Os pretos muito pobres n\u00e3o est\u00e3o nesse perfil t\u00edpico&#8221;, diz Santos. <\/p>\n<p>&#8220;A\u00ed vem a quest\u00e3o de como as for\u00e7as de seguran\u00e7a de um Estado policial chegam nas periferias mais pobres: com viol\u00eancia e olhando jovens n\u00e3o como potenciais policiais, mas potenciais criminosos. Esse primeiro contato com a pol\u00edcia pode ter influ\u00eancia no fato de o jovem preto de baixa renda n\u00e3o ter as For\u00e7as Armadas e a pol\u00edcia como perfil de carreira na mesma medida que pardos de renda um pouco maior.&#8221;<\/p>\n<p><i>&#8216;Este texto foi originalmente publicado em <\/i>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-61710533<i>&#8216;<\/i><\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? 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