{"id":176445,"date":"2022-06-30T06:45:32","date_gmt":"2022-06-30T09:45:32","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/06\/a-pele-que-desabito-quando-sou-sub-cidada-em-meu-proprio-pais\/"},"modified":"2022-06-30T06:45:32","modified_gmt":"2022-06-30T09:45:32","slug":"a-pele-que-desabito-quando-sou-sub-cidada-em-meu-proprio-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/06\/30\/a-pele-que-desabito-quando-sou-sub-cidada-em-meu-proprio-pais\/","title":{"rendered":"A pele que desabito: quando sou sub-cidad\u00e3 em meu pr\u00f3prio pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Recentemente contei para um amigo sobre minhas viv\u00eancias de sub-cidad\u00e3 no estado de S\u00e3o Paulo, onde vivi a maior parte da minha vida, e no Rio Grande do Sul, onde morei por quatro anos e meio. Em determinado momento, esse amigo me perguntou: ???Voc\u00ea j\u00e1 escreveu sobre isso????. Eu n\u00e3o havia escrito ainda de modo expl\u00edcito, mas me senti desafiada a faz\u00ea-lo imediatamente. Falar sobre essas viv\u00eancias me convoca a &#8220;lugar&#8221; muito delicado, pois o pensamento dualista com o qual estamos acostumados s\u00f3 rotula as viv\u00eancias enquanto polarizadas: positivo ou negativo, bom ou ruim, certo ou errado. E o que eu tenho para contar n\u00e3o transita nesses polos, mas os integra em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es, inclusive naquelas que eu sequer consigo nomear. Pois bem&#8230; eu sou baiana, solteropolitana, vivi a primeira inf\u00e2ncia em uma cidade do sert\u00e3o baiano chamada Carinhanha, e depois parti com minha fam\u00edlia para morar em diversas cidades do interior paulista, ent\u00e3o fomos mais uma fam\u00edlia de nordestinos a migrar para o sudeste brasileiro. L\u00e1 tive muitas alegrias, \u00a0afetos, aprendizados, mas tamb\u00e9m foi onde experimentei pela primeira vez a xenofobia. Afinal de contas, ser nordestina, baiana, em S\u00e3o Paulo, significa ter que ouvir continuamente piadas sobre ???baianos serem pregui\u00e7osos, falarem lento e gostarem de coisas bregas??? (como roupas coloridas, estampadas, com cores vivas, vistas como cafonas pelo olhar de quem parece n\u00e3o gostar tanto assim da diversidade de cores). Pois bem&#8230; Eu vivi desde muito pequena a exclus\u00e3o atrav\u00e9s de falas como: ???Minha m\u00e3e disse que voc\u00eas baianos v\u00eam pra c\u00e1 vender maconha, cocada, e para roubar nossos empregos???, ou ???Voc\u00ea ganha bolsa pra estudar aqui nessa escola????, ou ???Essa roupa voc\u00ea n\u00e3o tem dinheiro para comprar???, ao questionar o pre\u00e7o de uma roupa na loja do shopping, ou ???Mas Salvador tem Pakalolo (marca de roupa de adolescentes dos anos 90)? Pensei que l\u00e1 fosse uma fazenda???. Enfim, ser nordestina no sudeste significou, para mim, muitas experi\u00eancias felizes, mas tamb\u00e9m muita dor e a percep\u00e7\u00e3o de ser um grande erro no meu pr\u00f3prio pa\u00eds. N\u00e3o se pode cobrar de uma crian\u00e7a e adolescente ter consci\u00eancia do que \u00e9 a xenofobia, de criar recursos de enfrentamento para lidar com isso de modo saud\u00e1vel. Meus pais me apoiavam, mas tamb\u00e9m passavam pelos mesmos processos de exclus\u00e3o, s\u00f3 que no mundo dos adultos, mais requintado em nuances de crueldade. Apesar dos pesares, eu e minha fam\u00edlia sobrevivemos, e encontrei recursos internos para aprender a viver em um lugar que me dizia o tempo todo que h\u00e1 brasileiros, ???sudestinos???, supostamente mais dignos de respeito e orgulho pelo estado onde vivem. Com isso, cresci sem me sentir conectada a lugar nenhum, pois n\u00e3o pertencia a S\u00e3o Paulo, tampouco me sentia conectada \u00e0 Bahia, terra que, naquele momento, n\u00e3o conseguia estar pr\u00f3xima pra me nutrir de for\u00e7as e me ajudar a me defender de algum modo da exclus\u00e3o. A Bahia, pelo contr\u00e1rio, significava o motivo pelo qual eu n\u00e3o era inclu\u00edda em nada no contexto em que vivia, por isso, por muito tempo, eu detestei ser baiana. Por vezes, vejo essa experi\u00eancia em brasileiros que imigram e passam a falar mal do Brasil, a terem vergonha de serem brasileiros, quase como um modo de negar o motivo pelo qual sofrem in\u00fameras viol\u00eancias ao serem sub-cidad\u00e3os em pa\u00edses do Global Norte. Ao conversar com amigos imigrantes no exterior, passei a reconhecer que vivi mais da metade da minha vida como uma estranha em meu pr\u00f3prio pa\u00eds. Essa viv\u00eancia se tornou mais intensa ao me mudar para o Rio Grande do Sul para cursar o doutorado. L\u00e1, pela primeira vez, entendi que o recorte da minha exclus\u00e3o n\u00e3o era apenas ser nordestina, mas tamb\u00e9m minha face ???ex\u00f3tica??? aos olhos de um povo branco, de descend\u00eancia alem\u00e3 e italiana, em sua maioria. Meu rosto revela olhos da minha descend\u00eancia ind\u00edgena, nariz da descend\u00eancia negra, pele menos retinta da descend\u00eancia branca. Essa mistura toda que faz muitos dizerem: ???Voc\u00ea \u00e9 bem brasileira, bem tupiniquim, miscigenada???, em nenhum momento da minha vida me trouxe uma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento e, at\u00e9 hoje, eu sequer sei responder qual cor tenho nos question\u00e1rios s\u00f3cio-econ\u00f4micos. Parda? O que \u00e9 isso? Parece que ainda n\u00e3o surgiu a categoria que abarque o fato de ser ???bem brasileira, tupiniquim, miscigenada???, para que eu possa finalmente entender qual a minha cor. Por fim, a leitura que alguns fizeram de mim no sul do Brasil era de que eu era venezuelana. Cabe lembrar que, com a crise na Venezuela, muitos venezuelanos imigraram para o sul do Brasil, e l\u00e1 passaram a receber um incentivo financeiro do governo rio grandense, o que gerou um conflito entre o povo nativo vulner\u00e1vel \u00a0s\u00f3cio-economicamente que n\u00e3o se via recebendo o mesmo incentivo e ???perdendo??? dinheiro para imigrantes, al\u00e9m do conflito xenof\u00f3bico em si. \u00a0O fato \u00e9 que eu percebi, atrav\u00e9s de um alerta de um amigo, que eu era seguida no mercado que frequentei por 4 anos e meio. O seguran\u00e7a me seguia a uns dois metros de dist\u00e2ncia e s\u00f3 parava quando eu chegava no caixa e pagava minhas compras. Certa vez, falei pra ele ???N\u00e3o vou roubar, senhor, pode ficar a uma dist\u00e2ncia maior de mim, por favor????. A resposta foi: ???Estou fazendo meu trabalho, senhora???. Nesse dia, liguei para a ouvidoria do supermercado e fiz uma queixa do ocorrido, mas jamais tive resposta al\u00e9m de: ???Vamos avaliar sua reclama\u00e7\u00e3o e daremos um retorno via e-mail???. Esse e-mail, por raz\u00f5es quase \u00f3bvias, jamais recebi. No Uber, sempre ouvia, todos os dias, ???tu n\u00e3o \u00e9 daqui, n\u00e9????, ???ah, tu \u00e9 da Bahia? ?? verdade que as mulheres baianas s\u00e3o quentes????. Tamb\u00e9m ouvi dentro do meio acad\u00eamico, uma pessoa pr\u00f3xima de mim e de mais dois nordestinos, comentar que ???acima de S\u00e3o Paulo os brasileiros parecem ter d\u00e9ficit cognitivo???. Naquele estado, tamb\u00e9m compreendi que eu n\u00e3o era mais a ???baiana??? caricata dos paulistas, mas a ???brasileirinha???, por ser de fora do Rio Grande do Sul. E rapidamente entendi que esse termo n\u00e3o era um elogio, mas uma associa\u00e7\u00e3o ao famoso ???jeitinho brasileiro???, corrupto. Foi bastante confuso ouvir pela primeira vez: ???Olha o brasileirinho ali furando a fila, mo\u00e7a!???, ???Isso \u00e9 coisa de brasileirinho corrupto???. Pois bem&#8230; n\u00e3o foi sem dor que vivi tantas experi\u00eancias de desrespeito, racismo e xenofobia em meu pr\u00f3prio pa\u00eds, me fazendo sentir que era sub-cidad\u00e3 o tempo todo. Se refletirmos sobre o que Milton Santos, ge\u00f3grafo baiano brilhante, diz sobre o territ\u00f3rio ser fruto de rela\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e raciais travadas nele, quem nesse pa\u00eds \u00e9 de fato tratado como cidad\u00e3o? Certamente poucos&#8230; uma gigantesca maioria de pessoas que, como eu, n\u00e3o sabem sua cor, os negros, os ind\u00edgenas, as pessoas em vulnerabilidade s\u00f3cio-econ\u00f4mica, os LGBTQIA+, as pessoas com defici\u00eancia, \u00a0os \u00a0vistos como &#8220;loucos&#8221;, \u00e9 muita gente que n\u00e3o \u00e9 tratada como cidad\u00e3 em sua pr\u00f3pria terra. Pessoas que n\u00e3o tem direitos civis m\u00ednimos resguardados. E d\u00f3i ainda mais saber que muitos vivem isso em quaisquer estados brasileiros. Se eu tenho in\u00fameros privil\u00e9gios em v\u00e1rios estados por ser lida como ???branca??? em alguns deles, uma maioria do meu povo n\u00e3o tem privil\u00e9gios em lugar nenhum. Ou seja, muitas pessoas t\u00eam na cor da pele, na etnia, no g\u00eanero, na classe social, na identidade de g\u00eanero, na \u00a0orienta\u00e7\u00e3o sexual, as marcas da interdi\u00e7\u00e3o de habitar e viver em seu territ\u00f3rio de modo digno. Quando falei sobre isso para algumas pessoas, comumente ouvi que estava exagerando ou tendo percep\u00e7\u00f5es equivocadas, marcadas por algo muito ???subjetivo???. Felizmente tive meu o\u00e1sis, alguns poucos amigos rio grandenses e de outros estados, tamb\u00e9m vistos como ???brasileirinhos???, gente que tamb\u00e9m sentiu na pele a experi\u00eancia de habitar sem habitar uma parte do territ\u00f3rio brasileiro. Lamento que muitos n\u00e3o se conscientizem, dado o lugar de privil\u00e9gio que ocupam, que reproduzem a experi\u00eancia excludente da coloniza\u00e7\u00e3o com os povos daqui de dentro mesmo. Com<br \/>\no diz Paulo Freire: ???Quando a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 libertadora, o sonho do oprimido \u00e9 ser o opressor???. E assim se travam lutas por poder e reprodu\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o dentro do nosso pa\u00eds, com muitos se sentindo mais ???parecidinhos??? com norte americanos e europeus, como se isso fosse um marcador de aceita\u00e7\u00e3o e valida\u00e7\u00e3o muito nobre e digno. Penso que \u00e9 urgente conhecermos a nossa hist\u00f3ria de pa\u00eds at\u00e9 hoje ???colonizado??? de diversas formas, para desconstruirmos os processos colonizadores que seguimos reproduzindo todos os dias entre n\u00f3s mesmos. Hoje acredito que isso \u00e9 uma utopia, mas o que seria de n\u00f3s sem as utopias? Isso me lembra de uma fala do filme Bacurau: ???Quem nasce em Bacurau \u00e9 o que? ??? ?? gente???. Eu poderia fazer uma defesa calorosa de que quero ser vista como gente apenas, pois isso \u00e9 o ideal. No entanto, como estamos bem distantes do ideal, desejo ser respeitada como gente nordestina, baiana e soteropolitana. Hoje, para minha alegria, tenho um orgulho ???da porra??? de ter nascido nessa terra linda que se chama Salva(dor), e de ter vivido meus primeiros anos de vida no sert\u00e3o baiano, onde passei pelas experi\u00eancias mais ricas da minha vida. \u00a0No fim das contas, a maior das minhas utopias ainda \u00e9 viver em uma sociedade que valide, promova e integre o reconhecimento tolerante das diferen\u00e7as com o amor por toda forma de vida, n\u00e3o apenas a humana. Como diz meu conterr\u00e2neo Jorge Amado: ???Na vida s\u00f3 vale o amor e a amizade. O resto \u00e9 tudo pin\u00f3ia, \u00e9 tudo presun\u00e7\u00e3o, n\u00e3o paga a pena&#8230;???<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Texto originalmente publicado no <\/strong><strong>Facebook<\/strong> e replicado com autoriza\u00e7\u00e3o da autora<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente contei para um amigo sobre minhas viv\u00eancias de sub-cidad\u00e3 no estado de S\u00e3o Paulo, onde vivi a maior parte da minha vida, e\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":176446,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[130],"tags":[],"class_list":["post-176445","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=176445"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176445\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=176445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=176445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=176445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}