{"id":177357,"date":"2022-07-01T13:55:34","date_gmt":"2022-07-01T16:55:34","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/nao-se-priorizou-o-combate-a-fome-no-brasil-diz-representante-da-fao-no-pais\/"},"modified":"2022-07-01T13:55:34","modified_gmt":"2022-07-01T16:55:34","slug":"nao-se-priorizou-o-combate-a-fome-no-brasil-diz-representante-da-fao-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/01\/nao-se-priorizou-o-combate-a-fome-no-brasil-diz-representante-da-fao-no-pais\/","title":{"rendered":"&#8216;N\u00e3o se priorizou o combate \u00e0 fome no Brasil&#8217;, diz representante da FAO no pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p>Para o representante da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO\/ONU) no Brasil, Rafael Zavala, o pa\u00eds deixou de priorizar o combate \u00e0 fome em n\u00edvel nacional nos \u00faltimos anos, levando a uma &#8220;cifra assustadora&#8221; de inseguran\u00e7a alimentar em todo seu territ\u00f3rio. <\/p>\n<p>Segundo o Inqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede PENSSAN e divulgado no in\u00edcio de junho, 33,1 milh\u00f5es de brasileiros vivem em situa\u00e7\u00e3o de fome no pa\u00eds. No fim de 2020, eram 19,1 milh\u00f5es. <\/p>\n<p>Em outra pesquisa, do Datafolha, feita na pen\u00faltima semana de junho, 1 em cada 4 entrevistados disse que a quantidade de comida dispon\u00edvel em casa era inferior ao necess\u00e1rio para alimentar sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o se priorizou o combate \u00e0 fome em n\u00edvel nacional&#8221;, disse Rafael Zavala em entrevista \u00e0 BBC News Brasil. <\/p>\n<ul>\n<li>&#8216;Posso continuar preso para jantar?&#8217;: o pedido que acendeu debate sobre Justi\u00e7a para pobres<\/li>\n<li>Os motivos que levaram infla\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o a ser a maior em quase 3 d\u00e9cadas e como isso afeta o consumidor <\/li>\n<\/ul>\n<p>Segundo o mexicano, que ocupa o posto m\u00e1ximo da FAO\/ONU no Brasil desde o final de 2018, o problema do Brasil n\u00e3o \u00e9 de escassez de alimentos como outras partes do mundo, mas sim de desigualdade. <\/p>\n<p>Zavala afirma que o pa\u00eds foi protagonista de uma das campanhas mais bem-sucedidas contra a inseguran\u00e7a alimentar do mundo, quando, em 2014, reduziu a propor\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os que passam fome para 1,7% da popula\u00e7\u00e3o, ou 3,4 milh\u00f5es de habitantes, e superou o problema da pobreza extrema.<\/p>\n<p>No entanto, abandonou nos \u00faltimos anos pr\u00e1ticas importantes que contribu\u00edram para esse cen\u00e1rio, como investimentos no sal\u00e1rio m\u00ednimo e na gera\u00e7\u00e3o de empregos. <\/p>\n<p>&#8220;O pa\u00eds sabe como fazer para mudar essa situa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o mexicano. <\/p>\n<p>Zavala concedeu entrevista \u00e0 BBC News Brasil por ocasi\u00e3o de sua participa\u00e7\u00e3o nesta quinta-feira (30\/06) na Confer\u00eancia de Seguran\u00e7a Internacional do Forte de Copacabana, evento da \u00e1rea de seguran\u00e7a internacional idealizado pela Funda\u00e7\u00e3o Konrad Adenaur, Delega\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e Centro Brasileiro de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. <\/p>\n<p>A seguir, os principais trechos da entrevista:<\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Diversas pesquisas recentes revelaram uma piora significativa na condi\u00e7\u00e3o da fome no Brasil. Uma delas fala em 33,1 milh\u00f5es de brasileiros em inseguran\u00e7a alimentar, ou 15,5% da popula\u00e7\u00e3o. Como o senhor avalia a atual situa\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>Rafael Zavala &#8211; <\/b>O estudo citado mediu o n\u00famero de pessoas entrevistadas que disseram que, em sua percep\u00e7\u00e3o, passaram fome em algum momento. Isso quer dizer que n\u00e3o existem atualmente 33 milh\u00f5es de pessoas passando fome ao mesmo tempo. Mas, de qualquer maneira, \u00e9 uma cifra assustadora.<\/p>\n<p>Podemos dizer que existem atualmente dois bols\u00f5es de pobreza no Brasil: as cidades grandes e as zonas rurais mais afastadas e incomunic\u00e1veis, em que uma interrup\u00e7\u00e3o do fluxo de abastecimento pode gerar condi\u00e7\u00f5es de inseguran\u00e7a alimentar grave. <\/p>\n<p>Por outro lado, fica muito claro que o Brasil teve uma das experi\u00eancias mais bem-sucedidas, n\u00e3o s\u00f3 na Am\u00e9rica Latina mas no mundo, de combate \u00e0 fome h\u00e1 cerca de 15 ou 20 anos. Ou seja, o pa\u00eds sabe como fazer para mudar essa situa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Qual foi a f\u00f3rmula utilizada que contribuiu para essa experi\u00eancia bem-sucedida? Como ela deve ser adaptada para o momento atual?<\/b><\/p>\n<p><b>Zavala &#8211;<\/b> Foram seguidas cinco grandes prioridades. A primeira delas foi de combate \u00e0 fome em todo o pa\u00eds. A segunda e terceira foram o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e o investimento na gera\u00e7\u00e3o de empregos. Em seguida, se fortaleceu os programas de merenda escolar, cozinhas e restaurantes comunit\u00e1rios. <\/p>\n<p>A quinta e \u00faltima prioridade foi de promo\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o da agricultura familiar nas compras p\u00fablicas, que implicou em estabilidade para muitas fam\u00edlias que de outra maneira teriam migrado para os centros urbanos. <\/p>\n<p>Desses cinco pontos, somente os dois \u00faltimos continuam est\u00e1veis atualmente. N\u00e3o se priorizou o combate \u00e0 fome em n\u00edvel nacional nos \u00faltimos anos. Manteve-se o investimento em programas de alimenta\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o de agricultura familiar, mas isso n\u00e3o foi suficiente, como ficou muito claro. <\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia para o pr\u00f3ximo governo, seja ele qual for, precisa ser na dire\u00e7\u00e3o de priorizar o combate \u00e0 fome em todo o pa\u00eds, al\u00e9m de continuar com o maior investimento para gera\u00e7\u00e3o de empregos e fortalecimento de programas de inclus\u00e3o social. <\/p>\n<p>O problema no Brasil e na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 de disponibilidade de alimentos, mas sim de desigualdade, pobreza e falta de renda. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; A pandemia de covid-19 piorou a situa\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>Zavala &#8211; <\/b>Sim, a pandemia deu uma grande sacudida em muitos setores. Quando se decretou o confinamento e as escolas foram fechadas, por exemplo, muitas crian\u00e7as ficaram sem seu alimento principal do dia.<\/p>\n<p>O aux\u00edlio emergencial foi um esfor\u00e7o not\u00e1vel, mas n\u00e3o foi suficiente e muitas pessoas passaram fome &#8211; calcula-se cerca de 20 milh\u00f5es no primeiro ano da pandemia. Mas a covid-19 tamb\u00e9m provocou infla\u00e7\u00e3o, que significou pre\u00e7os mais altos de praticamente tudo. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, boa parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira se ocupa na economia informal e viu seus ingressos para alimenta\u00e7\u00e3o diminu\u00edrem na pandemia. Elas ent\u00e3o passaram a comprar <\/p>\n<p>alimentos de menor qualidade, mais ultraprocessados e menos prote\u00edna, frutas, e verduras, levando a uma m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o. E esse problema se traduz em obesidade. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o um segundo desafio, al\u00e9m da fome, \u00e9 promover dietas mais saud\u00e1veis e ao mesmo tempo garantir que as fam\u00edlias tenham renda suficiente para poder adquirir uma dieta saud\u00e1vel. Esse \u00e9 um dos grandes desafios, n\u00e3o s\u00f3 do Brasil, mas da Am\u00e9rica Latina como um todo. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; O governo brasileiro poderia ter agido de forma diferente para evitar ou minimizar os impactos da pandemia na inseguran\u00e7a alimentar?<\/b><\/p>\n<p><b>Zavala &#8211;<\/b> Posso imaginar que, h\u00e1 cinco anos, o problema da fome estava mais concentrado no Norte e Nordeste do Brasil. Ent\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que tenha havido uma interpreta\u00e7\u00e3o de que tratava-se apenas de um problema regional. Mas essa realidade mudou e esse tema precisa ser uma prioridade nacional agora. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a fome n\u00e3o \u00e9 uma tarefa somente do governo, mas tamb\u00e9m da sociedade civil, dos governos estaduais e das prefeituras, sobretudo no caso do Brasil, que \u00e9 o pa\u00eds mais descentralizado da Am\u00e9rica Latina. <\/p>\n<p>O Rio de Janeiro, por exemplo, tem um plano municipal de seguran\u00e7a alimentar que gosto muito, com esquemas de cozinhas econ\u00f4micas e o Prato Feito, voltado para as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis. E esse exemplo n\u00e3o \u00e9 \u00fanico. <\/p>\n<p>Sou testemunha de programas de restaurantes comunit\u00e1rios e outros esquemas similares em Belo Horizonte, no Distrito Federal e outras cidades que precisam ser melhor promovidos. <\/p>\n<p>Mas a \u00fanica cifra aceit\u00e1vel de fome no Brasil \u00e9 zero. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Ao que mais o senhor atribuiria a piora nos dados?<\/b><\/p>\n<p><b>Zavala &#8211;<\/b> H\u00e1 um contexto global de crise. Dizemos que h\u00e1 geralmente quatro grandes causas por tr\u00e1s da fome: conflitos armados, crise econ\u00f4mica, choque clim\u00e1tico e epidemias. As quatro est\u00e3o acontecendo simultaneamente no mundo hoje. <\/p>\n<p>Nos \u00faltimos cinco anos, retrocedemos 10 anos em termos de dados de fome. Entre 2016 e 2021, o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar cresceu 80%. Desses, 72% est\u00e3o em pa\u00edses com conflito armado e 16% em pa\u00edses com conflito econ\u00f4mico severo. Os demais 12% s\u00e3o causados pelo choque clim\u00e1tico, especialmente pelos grandes per\u00edodos de secas registrados na \u00c1frica e \u00c1sia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante mencionar a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, que gerou uma distor\u00e7\u00e3o log\u00edstica global, aumento de pre\u00e7os e infla\u00e7\u00e3o. Neste exato momento, 350 navios cargueiros est\u00e3o atracados no porto de Odessa cheios de gr\u00e3os e fertilizantes, insumos estrat\u00e9gicos para produzir alimentos, que iriam para todo mundo, mas n\u00e3o est\u00e3o chegando. <\/p>\n<p>O pr\u00f3prio secret\u00e1rio-geral da ONU, Ant\u00f3nio Guterres, admitiu que pa\u00edses como I\u00eamen, Som\u00e1lia e Sud\u00e3o do Sul, que dependem da produ\u00e7\u00e3o de trigo da Ucr\u00e2nia, podem sofrer de &#8220;fome m\u00faltipla&#8221;.<\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Um estudo da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria, mostrou que o Brasil \u00e9 respons\u00e1vel pela alimenta\u00e7\u00e3o de cerca de 800 milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo com o seu agroneg\u00f3cio. Ao mesmo tempo, a inseguran\u00e7a alimentar n\u00e3o para de crescer. Ao que o senhor atribui essa contradi\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>Zavala &#8211; <\/b>Ao fato de que o pa\u00eds n\u00e3o tem um problema de disponibilidade de alimentos, mas sim de acesso econ\u00f4mico a eles. <\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 conhecido como &#8216;celeiro do mundo&#8217; ou &#8216;cesta de p\u00e3es&#8217; do mundo por sua produ\u00e7\u00e3o de alimentos, em especial de gr\u00e3os. Mas eu gosto de cham\u00e1-lo de &#8216;locomotiva alimentar mundial&#8217;. Ou seja, os alimentos j\u00e1 existem, est\u00e3o dispon\u00edveis, mas n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis para fam\u00edlias que t\u00eam rendas m\u00ednimas. <\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina tem 650 milh\u00f5es de habitantes e produz comida para alimentar o dobro da popula\u00e7\u00e3o, mas o grande desafio \u00e9 fazer com que esses alimentos cheguem aos lares. E \u00e9 por isso que temos que trabalhar pela gera\u00e7\u00e3o de renda. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Em termos de produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, quais s\u00e3o os desafios que o Brasil tem pela frente?<\/b><\/p>\n<p><b>Zavala &#8211;<\/b> S\u00e3o dois grandes desafios. O primeiro \u00e9 que o Brasil \u00e9 uma locomotiva alimentar mundial, mas que utiliza combust\u00edvel produzido a 12 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. A maior parte dos fertilizantes e dos insumos agr\u00edcolas utilizados no pa\u00eds vem da Bielorr\u00fassia, Ucr\u00e2nia, R\u00fassia e norte da \u00c1frica ?? preciso diminuir essa depend\u00eancia e investir em um movimento regional, pois pa\u00edses como Argentina e Chile sofrem do mesmo mal. <\/p>\n<p>O segundo grande desafio est\u00e1 no fato de que, diferentemente de outras locomotivas alimentares como Estados Unidos, Canad\u00e1, Argentina, \u00cdndia e China, o Brasil fica muito perto do cora\u00e7\u00e3o da biodiversidade planet\u00e1ria. Ou seja, o obst\u00e1culo \u00e9 gerar uma estrat\u00e9gia de agricultura verdadeiramente sustent\u00e1vel, com desmatamento zero, para alimentar uma popula\u00e7\u00e3o com fome zero.<\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Houve uma grande repercuss\u00e3o aqui no Brasil quando o pa\u00eds saiu do Mapa Mundial da Fome da ONU em 2014. Onde o pa\u00eds se encontra nesse momento?<\/b><\/p>\n<p><b>Zavala &#8211;<\/b> O Mapa da Fome da ONU n\u00e3o existe mais. Ele era baseado nos Objetivos de Desenvolvimento do Mil\u00eanio (ODMs), estabelecidos em 2000, que foram substitu\u00eddos pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel &#8211; e com a mudan\u00e7a mudamos a forma de comunicar os dados.<\/p>\n<p>Mas vale destacar que, se o Mapa ainda existisse, o Brasil estaria dentro no momento atual. Eram listados os pa\u00edses com mais de 5% da popula\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar &#8211; que \u00e9 o caso do Brasil hoje. <\/p>\n<p><i>&#8211; Este texto foi publicado em <\/i>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-62004074<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? 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