{"id":178286,"date":"2022-07-03T06:44:59","date_gmt":"2022-07-03T09:44:59","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/festa-revolta-e-amor-a-bahia-a-volta-do-desfile-da-independencia-as-ruas\/"},"modified":"2022-07-03T06:44:59","modified_gmt":"2022-07-03T09:44:59","slug":"festa-revolta-e-amor-a-bahia-a-volta-do-desfile-da-independencia-as-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/03\/festa-revolta-e-amor-a-bahia-a-volta-do-desfile-da-independencia-as-ruas\/","title":{"rendered":"Festa, revolta e amor \u00e0 Bahia: a volta do desfile da Independ\u00eancia \u00e0s ruas"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Os dois carros que levam a cabocla e o caboclo acabam de passar pelo Barbalho, e Marise Oliveira, 63, chorou de novo. S\u00e3o 20 anos derramada pela mesma cena ??? a celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 Independ\u00eancia da Bahia, no 2 de julho\u00a0de 1823. ???Quando voc\u00ea tem amor pelas coisas \u00e9 assim???, diz. Quase em frente a ela, um cartaz em outro sobrado dizia: ???Independ\u00eancia \u00e9 uma ova, voltamos \u00e0 escravid\u00e3o???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Depois de dois anos sem a festa popular, anos de perdas e mudan\u00e7as provocadas pela pandemia da covid-19, baianos voltaram \u00e0s ruas no dia em que a independ\u00eancia completou 199 anos. Cada um, como costuma ser, experienciou um retorno: uns se emocionaram, como Marise, alguns perguntaram ???Que independ\u00eancia \u00e9 essa????, outros acompanharam os pol\u00edticos e os mais festeiros seguiram as fanfarras.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>????? um dia especial, mas falta muita coisa para sermos independentes, principalmente o respeito???<\/strong>, disse Fabr\u00edcio Gomes, 38, que iniciava o filho de dois anos, Maur\u00edcio, na tradi\u00e7\u00e3o naquela manh\u00e3 de s\u00e1bado.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Sob chuva no in\u00edcio do trajeto, a cabocla e caboclo foram guiados da Lapinha \u00e0 Pra\u00e7a Thom\u00e9 de Souza por 100 funcion\u00e1rios da Prefeitura de Salvador, organizados no Batalh\u00e3o Quebra-Ferro.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">ACOMPANHE AQUI A COBERTURA COMPLETA DO DOIS DE JULHO<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Parte da fam\u00edlia Alves ??? Iracema, Douglas e Dami\u00e3o ??? fez o percurso ao lado das cordas. Cosme, pai de Iracema e irm\u00e3o de Dami\u00e3o, empurrava a cabocla desde os anos 70. Em mar\u00e7o, faleceu.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Hoje seria o anivers\u00e1rio dele. Tive a ideia de a gente vir para c\u00e1 festejar onde ele sempre festejava???<\/strong>, contou a filha.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Em 730 dias sem o cortejo do 2 de julho, outros dois integrantes ??? Lourival e Geraldo &#8211; \u00a0que participavam do Batalh\u00e3o por tr\u00eas d\u00e9cadas faleceram. Os antigos colegas rememoraram a dupla. Pelas ruas, havia\u00a0novatos e os veteranos. ???Eu nasci nesse clima de desfile, desde cedo estou aqui???, disse L\u00e9lia Marques, 92, guiada em uma cadeira de rodas pela neta, Samantha, 37.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na sacada de uma casa, Marina Borba, seis meses, apareceu com vestes ind\u00edgenas. Os caboclos s\u00e3o s\u00edmbolos da guerra pela independ\u00eancia\u00a0 e n\u00e3o s\u00f3 v\u00e3o em cima dos carros, na frente do cortejo, como s\u00e3o reverenciados em fantasias. H\u00e1 45 anos, Romilda Anuncia\u00e7\u00e3o, 52, veste-se de Maria Quit\u00e9ria, outra hero\u00edna da independ\u00eancia.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Para mim essa data representa tamb\u00e9m a minha liberdade. Eu, como Maria Quit\u00e9ria, fugi de casa, lutei, criei minhas filhas sozinha???<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Como Marise, Romilda \u00e9 do grupo dos emocionados. ????? por amor. Amor \u00e0 liberdade, a Maria Quit\u00e9ria. ?? uma data muito linda???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><b>Pela tradi\u00e7\u00e3o, o esfor\u00e7o<\/b><\/p>\n<p> Descal\u00e7o, Marcelo Rocha, 32, chegou \u00e0 Lapinha 6h30. Acompanhado de outros 19 homens, faz parte dos Guaranis, grupo criado em 1939, em Itaparica. Com arco e flecha, caba\u00e7as e o atabaque, eles simbolizam o caboclo. &#8220;Um orgulho. Venho de baixo de chuva, de sol&#8221;, contou ele, que tomou o <em>ferry-boat <\/em>vir a Salvador. Outros 15 integrantes\u00a0foram para S\u00e3o F\u00e9lix, no Rec\u00f4ncavo Baiano, outro territ\u00f3rio que lutou pela emancipa\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os guaranis acompanham de perto o trajeto percorrido pelo caboclo e a cabocla, que neste ano foram vestidos, respectivamente, das cores do Brasil e da Bahia. Atr\u00e1s vinham os pol\u00edticos e grupos sindicais e partid\u00e1rios. Na descida da Lapinha para o Barbalho, duas mulheres se estranharam.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Uma trazia um adesivo de Lula (PT), candidato \u00e0 presid\u00eancia que compareceu no cortejo, pregado na blusa. A outra era eleitora do presidente\u00a0Bolsonaro (PL), que reuniu eleitores em uma motociata que seguiu do Farol da Barra para a Boca do Rio. &#8220;Gasolina t\u00e1 7,30&#8221;, disse a primeira e saiu andando. Os presidenci\u00e1veis Ciro Gomes (PDT),\u00a0\u00a0Simone Tebet (MDB) e Sofia Manzano (PCB) tamb\u00e9m apareceram.<\/p>\n<p> O clima foi de paz. Os moradores dos bairros pelos quais o desfile passa colocavam o papo em dia, entre a passagem do caboclo e da cabocla e a vinda dos pol\u00edticos. J\u00e1 os comerciantes aproveitavam para lucrar. ??s 9h17, a tenda da &#8220;Feijoada do Chuco&#8221; estava lotada. Emanoel Farias, 42, o &#8220;Chuco&#8221; em quest\u00e3o, pretendia vender 70 pratos da refei\u00e7\u00e3o. O valor, para duas pessoas, era R$ 45.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Os pleitos: &#8216;A carne mais barata do mercado \u00e9 a negra&#8217;<\/strong><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Cada um fez pr\u00f3prio trajeto do desfile. A Ladeira do Boqueir\u00e3o, por exemplo, \u00e9 tida como um ponto estrat\u00e9gico para quem vai em protesto. &#8220;Aqui estamos de frente para o cortejo&#8221;, explicou Suely Santos, 58, funcion\u00e1ria p\u00fablica que integra a rede Mulheres Negras da Bahia. No cartaz que levou, a frase: &#8220;A carne mais barata do mercado \u00e9 a negra&#8221;.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para ela, o 2 de julho teve ainda mais significado neste ano: &#8220;?? a retomada da democracia que \u00e9 uma crian\u00e7a ainda. Estamos em um retrocesso violento. Desde crian\u00e7a, trazida pela fam\u00edlia, e depois com as pr\u00f3prias pernas, entendi o 2 de julho como espa\u00e7o de luta e insurg\u00eancia&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">&#8220;Sei que n\u00e3o adianta em nada, mas eu ia fazer aqui um cartaz para colocar&#8221;, Marcelina Brito, 81. Depois de perder o acesso a uma das aposentadorias, vive com um sal\u00e1rio-m\u00ednimo (R$ 1,2 mil). &#8220;Vim porque gosto de me divertir e venho sempre pela tradi\u00e7\u00e3o. Mas vim com raiva&#8221;. A vizinha Edna da Encarna\u00e7\u00e3o, 80, que a acompanhava, &#8220;estava feliz, porque sempre vinha e por rever amigos&#8221;.<\/p>\n<p> Depois dos 10 minutos de atraso para a sa\u00edda, o caboclo e a cabocla chegaram 30 minutos antes do programado, 10h30, ao caramanch\u00e3o montado na\u00a0Pra\u00e7a Thom\u00e9 de Souza, de onde seguiram para a Pra\u00e7a do Campo Grande. Em frente \u00e0 C\u00e2mara Municipal, pessoas fizeram fila para tocar nos caboclos e, algumas delas, para rezar para eles.\u00a0<\/p>\n<p> Quietinha, com flores na m\u00e3o, Alice dos Santos, 72, se aproximou do caramanch\u00e3o. &#8220;Pe\u00e7o a eles que venham ben\u00e7\u00f5es e sa\u00fade, n\u00e3o estou muito bem&#8221;, disse. Logo em seguida, os Guaranis cantaram seu hino:\u00a0???Por ele eu lutarei pela defesa do Brasil???.<\/p>\n<p> Em 2023, estar\u00e3o de volta para celebrar os 200 anos da Independ\u00eancia da Bahia.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dois carros que levam a cabocla e o caboclo acabam de passar pelo Barbalho, e Marise Oliveira, 63, chorou de novo. 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