{"id":178374,"date":"2022-07-03T12:42:20","date_gmt":"2022-07-03T15:42:20","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/agaguk-ou-o-resgate-do-mundo-perdido\/"},"modified":"2022-07-03T12:42:20","modified_gmt":"2022-07-03T15:42:20","slug":"agaguk-ou-o-resgate-do-mundo-perdido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/03\/agaguk-ou-o-resgate-do-mundo-perdido\/","title":{"rendered":"Agaguk ou o resgate do mundo perdido"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">No \u00e2mbito da literatura da l\u00edngua francesa, uma das mais importantes obras publicadas no s\u00e9culo XX \u00e9 &#8220;Agaguk&#8221; (1958), do canadense Yves Th\u00e9riault. Infelizmente essa \u00e9 tamb\u00e9m uma das maiores falhas editoriais brasileiras. Passados mais de 60 anos desde sua publica\u00e7\u00e3o, Agaguk segue sem edi\u00e7\u00e3o no Brasil, talvez nem mesmo em portugu\u00eas, se o hiato permanece tanto em Portugal quanto nos demais pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Um dos maiores m\u00e9ritos do &#8220;Agaguk&#8221; reside no fato de que, sob uma camada t\u00eanue de relato de aventuras num territ\u00f3rio in\u00f3spito e gelado, constr\u00f3i-se o retrato de um lugar e seus habitantes, com um acr\u00e9scimo de ruptura e um sinal de novos tempos. Se no final de &#8220;Mar morto&#8221;, de Jorge Amado, L\u00edvia, ao ocupar o espa\u00e7o de Guma na embarca\u00e7\u00e3o, aponta para a entrada definitiva da mulher no trabalho antes exclusivamente destinado aos homens, o mesmo, por assim dizer, ocorre em Agaguk, quando a esposa do personagem hom\u00f4nimo estabelece novas regras de conviv\u00eancia, que culminam com a reorganiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e tamb\u00e9m da ca\u00e7a, a principal atividade do seu povo, os inu\u00edtes, antes equivocamente designados &#8220;esquim\u00f3s&#8221;.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"621\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/Fotos_perfil\/Agakuk_capa_em_frances.jpg\" width=\"400\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"text-center\"><strong>Edi\u00e7\u00e3o em franc\u00eas de Agaguk<\/strong><\/p>\n<p class=\"text-center\">(Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Outro aspecto muito interessante do relato \u00e9 a presen\u00e7a dos aut\u00f3ctones canadenses, os inu\u00edtes, como protagonistas. N\u00e3o mais a supremacia dos europeus brancos em contato com os nativos, a mud\u00e1-los e depen\u00e1-los. Os nativos est\u00e3o por si mesmos, numa crise interna, em que seus costumes e h\u00e1bitos come\u00e7am a sofrer s\u00e9rios desgastes. Se ainda assim o colonizador comparece, \u00e9 na posi\u00e7\u00e3o de vil\u00f5es, de interventores, ligeiramente ridicularizados.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A suposta aventura come\u00e7a com a partida de Agaguk, o inuk filho do chefe da tribo, em busca de um lugar afastado onde ele possa, com a pretendida Iriook, constituir sua pr\u00f3pria fam\u00edlia. Ele parte porque pretende voltar aos prim\u00f3rdios de seu povo, viver longe e come\u00e7ar do elementar, o est\u00e1gio primordial, de acasalamento do primeiro homem com a primeira mulher. Nisso est\u00e1 a ruptura. Embora de uma gera\u00e7\u00e3o nova, Agaguk rejeita o estabelecido em favor de uma tradi\u00e7\u00e3o perdida que \u00e9 preciso recome\u00e7ar. Da\u00ed por diante a narrativa se divide em dois n\u00facleos: a tribo original, que se degrada, e a fam\u00edlia de Agaguk, funda\u00e7\u00e3o a um s\u00f3 tempo do novo e do velho, este resgatado e aquele a lhe oferecer nova ess\u00eancia. O que vir\u00e1 desse choque \u00e9 o que sua leitura h\u00e1 de oferecer, caro leitor!<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"637\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/Fotos_perfil\/Agakuk_capa_do_quadrinho_em_portugues.jpg\" width=\"463\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"text-center\"><strong>Edi\u00e7\u00e3o em quadrinhos de 2014, em portugu\u00eas, pela Del Prado<\/strong><\/p>\n<p class=\"text-center\">(Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Uma l\u00e1stima que o romance n\u00e3o esteja publicado em portugu\u00eas. O m\u00e1ximo que se encontra \u00e9 a vers\u00e3o quadrinizada do mesmo, que saiu por aqui pela Del Prado, que, infelizmente, encerrou as suas atividades em fins do ano passado. Mas \u00e9 o que resta ao leitor brasileiro. O gibi \u00e9 de origem francesa, pela editora Adonis (2010), escrito por Djian e ilustrado Yvon Roy. ?? uma bel\u00edssima adapta\u00e7\u00e3o, em que o entrecho se preserva e a arte, clara e refinada, ilustra perfeitamente o elemento que rege os personagens e a regi\u00e3o: o frio terr\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Muito al\u00e9m do seu tempo, o romance &#8220;Agaguk&#8221; ainda pede passagem e leitura. Que algum editor brasileiro se d\u00ea conta disso e corrija essa f<em><strong>alha!<\/strong><\/em><\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em><strong>*Mayrant Gallo \u00e9 escritor e professor. Autor de O in\u00e9dito de Kafka (COSACNAIFY, 2003) e Tr\u00eas Inf\u00e2ncias (Casar\u00e3o do Verbo, 2011).<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00e2mbito da literatura da l\u00edngua francesa, uma das mais importantes obras publicadas no s\u00e9culo XX \u00e9 &#8220;Agaguk&#8221; (1958), do canadense Yves Th\u00e9riault. Infelizmente\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":178375,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-178374","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-policia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=178374"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178374\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=178374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=178374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=178374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}