{"id":178694,"date":"2022-07-04T07:44:24","date_gmt":"2022-07-04T10:44:24","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/dizimando-criaturas-fascinantes\/"},"modified":"2022-07-04T07:44:24","modified_gmt":"2022-07-04T10:44:24","slug":"dizimando-criaturas-fascinantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/04\/dizimando-criaturas-fascinantes\/","title":{"rendered":"Dizimando criaturas fascinantes"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Certa vez, o escritor russo Anton Tch\u00e9khov saiu para ca\u00e7ar com um conhecido. Assim ele relata o epis\u00f3dio, numa carta escrita em 1892: ???O pintor Levitan est\u00e1 passando uns dias no meu s\u00edtio. Ontem, ao entardecer, eu e ele fomos \u00e0 zona de ca\u00e7a \u00e0s galinholas. Levitan disparou e uma ave, ferida na asa, caiu num charco. Eu a levantei. Tinha um bico comprido, olhos grandes e pretos e uma plumagem bonita. Olhava para n\u00f3s, espantada. O que pod\u00edamos fazer????<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Tch\u00e9khov prossegue: ???Levitan franziu a testa, fechou os olhos e me suplicou, com voz tr\u00eamula: ???Por favor, esmague a cabe\u00e7a dela com a coronha da espingarda???. Respondi que eu n\u00e3o era capaz. Os ombros dele n\u00e3o paravam de sacudir, estava nervoso, contra\u00eda o rosto e suplicava. A galinhola olhava para mim, espantada.Tive de obedecer a Levitan e mat\u00e1-la. E, enquanto dois imbecis voltavam para casa e sentavam-se para jantar, havia uma criatura fascinante a menos no mundo???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Esse trecho da carta de Tch\u00e9khov est\u00e1 inclu\u00eddo na excelente introdu\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a A Gaivota, publicada junto com outras obras c\u00e9lebres da dramaturgia do autor russo numa edi\u00e7\u00e3o da Penguin Companhia. Segundo o texto, Tch\u00e9khov usaria o epis\u00f3dio amargo da galinhola como fonte de inspira\u00e7\u00e3o, trocando apenas os animais e mantendo a banalidade da morte desnecess\u00e1ria de um belo animal.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Est\u00e1 l\u00e1, ao final do segundo ato, a seguinte fala do personagem Trig\u00f3rin, escritor, em conversa com a aspirante a atriz Nina: ????? que me veio uma ideia para um conto curto: uma jovem vive \u00e0s margens de um lago desde a inf\u00e2ncia, como a senhora; ama o lago, como uma gaivota, e \u00e9 feliz e livre, como uma gaivota. Mas de repente aparece um homem, ele a avista e, por pura falta do que fazer, ele a destr\u00f3i???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Tch\u00e9khov ao menos extraiu algo de sublime do ato terr\u00edvel que cometeu. A pequena galinhola assustada, esmagada com o cano da coronha, deu origem a um trabalho estupendo, que estou lendo com prazer, tentando me familiarizar com aqueles nomes ins\u00f3litos dos russos. Mas at\u00e9 que ponto a morte de um ser vivo vale uma obra? At\u00e9 que ponto a nossa capacidade de destruir coisas belas justifica que ergamos outras igualmente belas?<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Lembro do que escreveu Borges em Inferno, I, 32, aquela linda par\u00e1bola sobre Dante na qual descreve o desespero mudo de um leopardo enjaulado, que ouve de Deus, num sonho, o significado da sua sina: ???Vives e morrer\u00e1s nessa pris\u00e3o, para que um homem que conhe\u00e7o te olhe um n\u00famero determinado de vezes e n\u00e3o te esque\u00e7a e ponha tua figura e teu s\u00edmbolo num poema, que tem seu preciso lugar na trama do universo. Sofres o cativeiro, mas ter\u00e1s dado uma palavra ao poema.???<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Borges continua: ???Deus, no sonho, iluminou a rudeza do animal e este compreendeu as raz\u00f5es e aceitou esse destino, mas s\u00f3 houve nele, ao despertar, uma obscura resigna\u00e7\u00e3o, uma valorosa ignor\u00e2ncia, porque a m\u00e1quina do mundo \u00e9 complexa demais para a simplicidade de uma fera???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em sua genialidade, o mestre portenho confere grandeza a um ato de covardia: o encarceramento de uma criatura fascinante. Fazemos isso at\u00e9 hoje nos zool\u00f3gicos, nos circos e mesmo em gaiolas penduradas na parede. Por que h\u00e1 em n\u00f3s esse instinto primevo de predar pelo prazer de predar? H\u00e1 algo mais cretino que a ca\u00e7a esportiva? Imbecis fortemente armados arrancando a vida de seres raros.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Era isso o que faziam os viajantes de trem nos Estados Unidos do s\u00e9culo 19, ao atirar por divers\u00e3o em bis\u00f5es enormes que ocupavam pradarias a perder de vista no caminho do oeste, at\u00e9 ficarem quase extintos. ?? isso o que ainda fazem os ca\u00e7adores de gorilas no Qu\u00eania, dizimando popula\u00e7\u00f5es inteiras da esp\u00e9cie. ?? a nossa sina.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Dado todo esse hist\u00f3rico, por que ainda nos surpreendemos quando santu\u00e1rios riqu\u00edssimos em biodiversidade como o Pantanal e a Amaz\u00f4nia viram fogo ou pasto? ?? que talvez permane\u00e7a, pelo menos em alguns de n\u00f3s, um desconforto, uma inquieta\u00e7\u00e3o diante de tamanha estupidez. Uma nesga de humanismo que parece ter ficado para tr\u00e1s quando a p\u00f3lvora ganhou o mundo e nos trouxe at\u00e9 esta terra devastada. ?? esse humanismo incipiente que talvez nos redima um dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa vez, o escritor russo Anton Tch\u00e9khov saiu para ca\u00e7ar com um conhecido. Assim ele relata o epis\u00f3dio, numa carta escrita em 1892: ???O\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":178695,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-178694","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178694","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=178694"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178694\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=178694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=178694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=178694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}