{"id":178983,"date":"2022-07-04T16:09:23","date_gmt":"2022-07-04T19:09:23","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/psiquiatra-sugere-jejum-de-gatilhos-de-prazer\/"},"modified":"2022-07-04T16:09:23","modified_gmt":"2022-07-04T19:09:23","slug":"psiquiatra-sugere-jejum-de-gatilhos-de-prazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/04\/psiquiatra-sugere-jejum-de-gatilhos-de-prazer\/","title":{"rendered":"Psiquiatra sugere jejum de &#8216;gatilhos&#8217; de prazer"},"content":{"rendered":"<p>A descoberta da dopamina como neurotransmissor independente no sistema nervoso central foi em 1957. Mas nem todos se atentam para uma das constata\u00e7\u00f5es neurocient\u00edficas mais extraordin\u00e1rias do s\u00e9culo 20: o c\u00e9rebro processa prazer e sofrimento no mesmo lugar. Assim a psiquiatra Anna Lembke, da Universidade Stanford, inicia o livro Na\u00e7\u00e3o Dopamina, lan\u00e7ado este ano. <\/p>\n<p>Ao <b>Estad\u00e3o<\/b>, Anna explica que a busca constante por realiza\u00e7\u00e3o plena tende a gerar frustra\u00e7\u00e3o. Isso porque o c\u00e9rebro, \u00e1vido por recompensas, entra em um c\u00edrculo vicioso de compuls\u00e3o. &#8220;A covid acelerou a tend\u00eancia j\u00e1 existente de consumo compulsivo&#8221;, diz ela, que define o smartphone como fornecedor de &#8216;dopamina digital para uma gera\u00e7\u00e3o plugada&#8221;.<\/p>\n<\/p>\n<p>Ela analisa a neuroci\u00eancia da recompensa no mundo de excesso &#8211; de redes sociais, games, drogas, comida, not\u00edcias, compras, jogos de azar e pornografia, chamados &#8220;est\u00edmulos altamente compensat\u00f3rios&#8221;. Contra a compuls\u00e3o, Anna sugere um &#8220;jejum de dopamina&#8221;. Leia trechos da entrevista: <\/p>\n<\/p>\n<p><b>Por que tratar desse tema?<\/b> <\/p>\n<\/p>\n<p>Comecei a escrever o livro v\u00e1rios anos antes da pandemia e terminei em 2020. Presumi que a covid eliminaria o interesse em temas n\u00e3o ligados \u00e0 pandemia. N\u00e3o poderia estar mais errada. A covid acelerou a tend\u00eancia j\u00e1 existente de consumo compulsivo. Grande parte da mis\u00e9ria moderna resulta da superabund\u00e2ncia. Nossa fia\u00e7\u00e3o primitiva, que evoluiu por milh\u00f5es de anos para nos aproximar do prazer e evitar a dor, \u00e9 altamente adapt\u00e1vel em um mundo de escassez e risco, mas incompat\u00edvel com nosso ecossistema moderno de f\u00e1cil acesso a prazeres potentes.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Por que nos viciamos nos &#8220;gatilhos&#8221; de prazer?<\/b> <\/p>\n<\/p>\n<p>Recebemos uma dose de dopamina n\u00e3o s\u00f3 da &#8220;droga&#8221; em si, mas tamb\u00e9m de lembretes da &#8220;droga&#8221;: passar por um bar onde bebemos, receber notifica\u00e7\u00e3o sobre uma nova s\u00e9rie da Netflix em nosso g\u00eanero favorito, um alerta nos dizendo que algu\u00e9m nos respondeu. At\u00e9 pensar em nossa droga de escolha &#8211; recorda\u00e7\u00e3o euf\u00f3rica &#8211; pode liberar dopamina.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>O quanto a digitaliza\u00e7\u00e3o e o consumo contribuem?<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Drogas digitais est\u00e3o em toda parte. Se tentamos fugir, n\u00e3o conseguimos. Somos obrigados pela vida moderna a interagir com dispositivos e a internet. A abstin\u00eancia dos dispositivos n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Quanto piorou em rela\u00e7\u00e3o a poucas d\u00e9cadas atr\u00e1s?<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Piorou progressivamente nos \u00faltimos 30 anos. Grupos demogr\u00e1ficos antes menos vulner\u00e1veis ao v\u00edcio est\u00e3o mostrando sinais de v\u00edcio. As taxas de depend\u00eancia de \u00e1lcool subiram 50% em idosos e 80% em mulheres, por exemplo. As pessoas se viciam em drogas que n\u00e3o existiam antes (m\u00eddias sociais, videogames, criptomoedas). E 70% das mortes globais s\u00e3o por doen\u00e7as causadas por fatores de risco modific\u00e1veis, como tabagismo, m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o e falta de exerc\u00edcio. Pela primeira vez, h\u00e1 mais obesos do que pessoas abaixo do peso.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Quais s\u00e3o os riscos dessa ca\u00e7a de dopamina?<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 o v\u00edcio e todos os males sociais e de sa\u00fade que acompanham o v\u00edcio, mas outros mais sutis incluem alta da depress\u00e3o, ansiedade, irritabilidade, ins\u00f4nia e preocupa\u00e7\u00e3o mental com nossa droga.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>A humanidade est\u00e1 mais deprimida? Se sim, por qu\u00ea?<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Tend\u00eancias epidemiol\u00f3gicas revelam que taxas de depress\u00e3o e suic\u00eddio t\u00eam subido, sobretudo em pa\u00edses ricos. Agora que temos tudo o que sempre precis\u00e1vamos e mais, e o tempo de lazer e a renda dispon\u00edvel para persegui-lo, temos nos excitado at\u00e9 a morte.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Quais sinais de que a &#8220;dopamina&#8221; est\u00e1 fazendo mal?<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Uso compulsivo e fora de controle. Mentir sobre o uso. Comportar-se de modo n\u00e3o consistente com seus valores. Sentir-se mais deprimido e ansioso. Um bom lugar para come\u00e7ar \u00e9 um jejum de dopamina de 30 dias com nossa droga de escolha para redefinir caminhos de recompensa e sair do v\u00f3rtice do consumo compulsivo. Se descobrir que n\u00e3o pode se abster por 30 dias, ou a usa compulsivamente imediatamente ao fim dos 30 dias, pode ser preciso buscar um m\u00e9dico.<\/p>\n<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o do jornal <b>O Estado de S. Paulo.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A descoberta da dopamina como neurotransmissor independente no sistema nervoso central foi em 1957. 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