{"id":182254,"date":"2022-07-09T07:44:21","date_gmt":"2022-07-09T10:44:21","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/vem-ca-julho-nao-mente\/"},"modified":"2022-07-09T07:44:21","modified_gmt":"2022-07-09T10:44:21","slug":"vem-ca-julho-nao-mente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/09\/vem-ca-julho-nao-mente\/","title":{"rendered":"Vem c\u00e1, julho, n\u00e3o mente"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Na \u00faltima semana de junho precisei voltar ao hospital onde minha m\u00e3e morreu, acompanhando um parente. V\u00e1rios gatilhos dispararam em sequ\u00eancia enquanto percorria outra vez os corredores amarelos e observava o movimento de m\u00e9dicos, enfermeiros e pacientes. N\u00e3o, a vida por aqui n\u00e3o se parece em nada com um epis\u00f3dio de &#8216;Grey&#8217;s Anatomy&#8217; ou de qualquer uma dessas s\u00e9ries.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para al\u00e9m das paredes amarelas, a espera por atendimento m\u00e9dico se expandia ao p\u00e1tio lateral externo, e em cadeiras verdes de pl\u00e1stico, gente com todo tipo de sintomas aguardava ouvir chamar um nome, um n\u00famero. Ao lado da emerg\u00eancia, uma unidade pedi\u00e1trica enchia de vida o t\u00e9rmino inesperado de junho. Uma chuvinha fina ca\u00eda sobre n\u00f3s, como se estiv\u00e9ssemos no set de algum filme.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A simples presen\u00e7a de crian\u00e7as em qualquer ambiente sacode tempo-espa\u00e7o como se faz com um tapete poeirento \u00e0 janela de um longa-metragem ambientado numa vila italiana. Na emerg\u00eancia, uma multid\u00e3o se revezava, rostos, corpos, dores diferentes. Engarrafamento de autom\u00f3veis no acesso, estacionamentos pagos lotados, ve\u00edculos improvisando vagas gratuitas, sobe e desce de ambul\u00e2ncias.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">De vez em quando, como se imitasse algu\u00e9m gritando muito alto, uma sirene interrompia as conversas daqueles que aguardavam do lado de fora do hospital, atados aos seus smartphones. A chegada das ambul\u00e2ncias soava bem solene, feito o momento no caf\u00e9 imortalizado no poema de Manuel Bandeira. Mas, em lugar de chap\u00e9us, erguiam-se maquinalmente v\u00e1rios aparelhos celulares.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Enquanto desciam as macas, por breves segundos, \u00a0ausentes de toda irrelev\u00e2ncia, os pacientes seguiam com os olhos cada urg\u00eancia, registravam com os olhos cada resgate, engatavam conversas com seus acompanhantes. A tal catarse. Escrevo esta cr\u00f4nica dentro do hospital onde a minha m\u00e3e morreu h\u00e1 quase sete anos. O ar-condicionado do posto 2 est\u00e1 excessivamente baixo. Sinto muito frio.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">N\u00e3o lembrei de pegar em casa um casaco, mas trouxe o livro sobre literatura e animalidade. \u00a0Postei uma foto melanc\u00f3lica do estacionamento do hospital \u00a0\u00e0 noite e, pela mil\u00e9sima vez, coloquei na trilha sonora uma can\u00e7\u00e3o de Nick Cave. Sinceramente, acreditei que envelhecer iria me deixar menos sens\u00edvel do que fui durante a juventude. Ah, essa mania de ca\u00e7ar sentido em tudo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Vem c\u00e1, julho, n\u00e3o mente. Eu esperei para te segurar pelos cabelos. Suavemente, como se faz com uma amante. Uma pilha de livros me aguarda. E, embora seja inverno em nosso hemisf\u00e9rio, quase posso sentir a maresia em seu perfume. Mesmo aqui dentro, onde tudo cheira a morte e a vida e a inf\u00e2ncia. Mesmo aqui dentro, onde tudo \u00e9 subst\u00e2ncia do futuro, e do passado e do presente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima semana de junho precisei voltar ao hospital onde minha m\u00e3e morreu, acompanhando um parente. 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