{"id":183123,"date":"2022-07-11T04:55:09","date_gmt":"2022-07-11T07:55:09","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/o-caso-jorge-defensor-o-operario-que-escancarou-os-poroes-da-tortura-em-mg\/"},"modified":"2022-07-11T04:55:09","modified_gmt":"2022-07-11T07:55:09","slug":"o-caso-jorge-defensor-o-operario-que-escancarou-os-poroes-da-tortura-em-mg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/11\/o-caso-jorge-defensor-o-operario-que-escancarou-os-poroes-da-tortura-em-mg\/","title":{"rendered":"O caso Jorge Defensor: o oper\u00e1rio que escancarou os por\u00f5es da tortura em MG"},"content":{"rendered":"<div>Dois de setembro de 1977. Em pleno regime militar, os mineiros s\u00e3o surpreendidos por uma reportagem publicada na p\u00e1gina da editoria de Pol\u00edcia do Estado de Minas sobre crime cometido em uma delegacia da Cidade Industrial, Regi\u00e3o Oeste de Belo Horizonte. A v\u00edtima, um oper\u00e1rio. Jorge Defensor Vieira havia sido torturado. Como consequ\u00eancia, sofreu tr\u00eas fraturas na coluna, ficou paral\u00edtico e teve a sa\u00fade, a fam\u00edlia e a reputa\u00e7\u00e3o destro\u00e7adas. Era a primeira de uma s\u00e9rie de mat\u00e9rias que ganharia destaque nacional, revelaria os por\u00f5es da tortura na Pol\u00edcia Civil mineira e valeria \u00e0 equipe de jornalistas respons\u00e1vel por ela o reconhecimento do Pr\u00eamio Esso ??? o Oscar do jornalismo brasileiro na \u00e9poca.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa hist\u00f3ria de um preso desconhecido espancado em uma cadeia de periferia que mobilizaria a c\u00fapula do estado e abalaria a Pol\u00edcia Civil come\u00e7ou bem antes, quando os rep\u00f3rteres Tito Guimar\u00e3es e Alberto Sena receberam uma den\u00fancia da comunidade do Vale do Jatob\u00e1, mais precisamente da igreja do bairro. Uma fonte informava sobre o espancamento de um trabalhador, que teria sido preso sem ter cometido crime algum. A brutalidade das ???autoridades??? o teria deixado paral\u00edtico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O caso Jorge Defensor, como ficou conhecida a s\u00e9rie de mat\u00e9rias que nascia desse relato, levou a equipe do EM inicialmente ao Hospital S\u00e3o Francisco, no Bairro Conc\u00f3rdia, na Regi\u00e3o Nordeste de BH, onde o trabalhador estava internado. Os rep\u00f3rteres passaram v\u00e1rios dias tentando entrar na unidade para ouvi-lo, mas eram sempre barrados por ordem policial. Diziam m\u00e9dicos e atendentes: ???Ningu\u00e9m pode entrar!???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A frase, repetida por vezes, ainda ecoa na mente de Alberto Sena. Ela servia para estender outra cortina sobre o caso, que vinha de fontes oficiosas por tr\u00e1s de outro disfarce. ???Chegou at\u00e9 n\u00f3s, por meio de policiais, que um preso teria tentado fugir da cadeia na delegacia da Cidade Industrial. Que teria ca\u00eddo e fraturado a coluna, sendo internado no S\u00e3o Francisco???, relembra Tito Guimar\u00e3es.<\/div>\n<h2>O PADRE\u00a0<\/h2>\n<div>A entrada no hospital e o in\u00edcio da mobiliza\u00e7\u00e3o que daria a Defensor voz para revelar os abusos de que foi v\u00edtima s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as a um artif\u00edcio que contou com a ajuda de um padre da Igreja de S\u00e3o Dimas, no Vale do Jatob\u00e1. No dia em que houve a primeira oportunidade de acesso ao oper\u00e1rio, estavam l\u00e1 Tito e o rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico Sidney Lopes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???Quem nos passou a informa\u00e7\u00e3o sobre a tortura foi a igreja, por meio de um jornalista, Tilden Santiago, e o do hoje pol\u00edtico Nilm\u00e1rio Miranda. Ent\u00e3o, resolvemos levar o padre at\u00e9 o hospital. Ele foi entrando, e n\u00f3s, atr\u00e1s. Ningu\u00e9m barrou o religioso. Nem um policial que fazia a guarda interveio ou tentou impedir???, relembra o rep\u00f3rter Tito. ???O Sidney fez as fotos, com uma c\u00e2mera pequena, port\u00e1til, que levava escondida sob o blus\u00e3o. E eu e o padre conversamos com Defensor. N\u00e3o usei gravador, papel e caneta, para n\u00e3o despertar a aten\u00e7\u00e3o do policial. Guardei tudo na cabe\u00e7a. Depois de ouvir a hist\u00f3ria, sa\u00edmos???, completa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No dia seguinte, o resultado da entrevista feita de forma velada estampava a p\u00e1gina policial do Estado de Minas. Revolta e indigna\u00e7\u00e3o entre integrantes da Pol\u00edcia Civil. N\u00e3o pela tortura, mas pela den\u00fancia. Um dos delegados mais importantes da corpora\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, Prata Neto, ent\u00e3o superintendente da Metropol, grupo especializado em repress\u00e3o ao crime, declarava: ???Acertamos 99% do que fazemos e pagamos por causa de 1% de um suposto erro???.<\/div>\n<h2>O GOVERNADOR\u00a0<\/h2>\n<div>A repercuss\u00e3o n\u00e3o era sem motivo. A reportagem mexia com a c\u00fapula do estado. Alertado por seu assessor de imprensa, Mauro Santayana, o ent\u00e3o governador, Aureliano Chaves, que estava em viagem pelo Sul de Minas, resolveu, no retorno, ir direto ao hospital. Queria ouvir, da boca de Defensor, seu relato.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com a coluna fraturada, o oper\u00e1rio decidiu n\u00e3o se calar. Contou que tinha sido preso injustamente, acusado do furto de um r\u00e1dio a pilha e de um par de sapatos. Al\u00e9m da contus\u00e3o que lhe roubara os movimentos, sofria ainda as consequ\u00eancias de uma lacera\u00e7\u00e3o na bexiga e sentia muita dor na altura da cintura.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na conversa com o governador, Defensor revelou os nomes dos torturadores: Jo\u00e3o Bosco, Jurandir, Fiel e Adelmo. Contou que os policiais exigiram que ele assinasse um documento, mesmo sabendo que era analfabeto. O oper\u00e1rio se negou. Seria uma confiss\u00e3o.<\/div>\n<h2>A BARB\u00c1RIE<\/h2>\n<div>\u00a0O que mais chocou Aureliano Chaves foi o relato de detalhes das torturas. Defensor contou ter sido colocado no famigerado pau-de-arara (t\u00e9cnica de tortura em que o preso \u00e9 pendurado em uma barra estendida entre dois cavaletes ou suportes, com as m\u00e3os amarradas junto com os p\u00e9s). A barb\u00e1rie que se seguiu incluiu choques el\u00e9tricos, mangueira d&#8217;\u00e1gua enfiada no nariz para induzir a sensa\u00e7\u00e3o de afogamento e a introdu\u00e7\u00e3o de um cabo de vassoura no \u00e2nus do prisioneiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como consequ\u00eancia da sess\u00e3o de tortura, Defensor chegou ao hospital urinando e evacuando sangue, segundo um dos m\u00e9dicos. Uma per\u00edcia chegou a ser feita por legistas do Instituto M\u00e9dico-Legal (IML), a pedido da pr\u00f3pria pol\u00edcia, ou seja, potencialmente com resultado influenciado pelos torturadores.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Indignado com a viol\u00eancia, Aureliano Chaves determinou rigor nas apura\u00e7\u00f5es. E solicitou ao Minist\u00e9rio P\u00fablico a indica\u00e7\u00e3o de um procurador para acompanhar o caso. Alberto Pontes foi designado e logo no primeiro dia de investiga\u00e7\u00f5es, declarou, convicto: ???Defensor n\u00e3o tem ficha criminal???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Informou ainda que a pris\u00e3o ocorreu em 29 de abril de 1977 e que, desde ent\u00e3o, o oper\u00e1rio vinha sofrendo torturas. A interna\u00e7\u00e3o ocorreu em 6 de maio, ou seja, menos de duas semanas depois da deten\u00e7\u00e3o. Mas somente em setembro os rep\u00f3rteres do EM conseguiram falar com ele. O tempo de interna\u00e7\u00e3o d\u00e1 um ind\u00edcio do n\u00edvel da brutalidade a que o trabalhador fora submetido.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas a Pol\u00edcia Civil n\u00e3o parecia disposta a reconhecer a barbaridade cometida contra um preso sob a tutela do Estado e responsabilidade da corpora\u00e7\u00e3o. T\u00e3o logo o procurador fez a primeira declara\u00e7\u00e3o, o delegado Prata Neto voltou a se pronunciar e reafirmou: ???Defensor caiu do telhado ao tentar fugir da cadeia???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O caso foi considerado grav\u00edssimo e a Assembleia Legislativa de Minas Gerais instaurou uma Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito para acompanh\u00e1-lo. O ent\u00e3o deputado Nilton Lira, ao abrir os trabalhos da CPI, sentenciou: ???A tortura virou lugar-comum???.<\/div>\n<h2>Um agente dos EUA e a vers\u00e3o n\u00e3o oficial<\/h2>\n<div>Corria \u00e0 boca pequena, na \u00e9poca, que o ocorrido com Jorge Defensor estaria diretamente ligado \u00e0 chegada a Belo Horizonte de um agente do governo dos Estados Unidos, que seria encarregado de ensinar m\u00e9todos de tortura a policiais mineiros que atuavam nos por\u00f5es da repress\u00e3o a quem desafiava o regime militar, ou seja, aqueles considerados subversivos. O agente norte-americano se chamava Dan Mitrioni.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Segundo essa vers\u00e3o, para esse treinamento seria preciso haver cobaias, presos que seriam usados como alvo no ensino de ???t\u00e9cnicas??? de tortura. Para isso, se recorria a detentos com pouca ou nenhuma visibilidade, que ocupavam pris\u00f5es perif\u00e9ricas, acusados de pequenos roubos, j\u00e1 que presos pol\u00edticos, de camadas sociais mais altas, poderiam chamar a aten\u00e7\u00e3o. De acordo com essa corrente, foi assim que Jorge Defensor terminou paral\u00edtico e teve sua trajet\u00f3ria de oper\u00e1rio definitivamente interrompida.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Entre os delegados acusados, um, Miguel Bechara, apontado como principal respons\u00e1vel pela tortura, foi transferido de Belo Horizonte para o Norte de Minas. Dan Mitrioni permaneceu por meses em BH, percorrendo delegacias, supostamente com seus ???ensinamentos???. Mas nunca foram confirmadas suspeitas sobre atua\u00e7\u00e3o dele ou que tenha participado da viol\u00eancia contra Defensor.<\/div>\n<h2>A coincid\u00eancia que deu voz ao torturado<\/h2>\n<div>Uma testemunha identificada pelos jornalistas do EM que seguiam a trilha do caso Jorge Defensor foi fundamental para revelar como se deu a pris\u00e3o do oper\u00e1rio. Paulo foi localizado e contou o que sabia. ???Ele pediu que eu o ajudasse na venda de sua casa. Um dia, ele caminhava na beira da linha f\u00e9rrea, no Jatob\u00e1, depois de nos encontrarmos, e foi preso, acusado de ter furtado o r\u00e1dio e os sapatos. Os objetos nunca foram encontrados, nem na casa do Defensor, nem com ele???, relatou.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O primeiro alerta da arbitrariedade contra Defensor foi feito por parentes, que ficaram muitos dias sem informa\u00e7\u00f5es sobre ele. Uma amiga da fam\u00edlia, segundo uma das reportagens, contou que tinha visto Defensor no Hospital S\u00e3o Francisco, onde fora visitar um conhecido. E relatou que ele parecia em uma situa\u00e7\u00e3o muito ruim.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Perguntou a um enfermeiro o que tinha acontecido e recebeu como resposta que o paciente havia sido atropelado. Mas Defensor a reconhecera e a chamou. Contou o que havia acontecido, que tinha sido torturado. Ao tomar conhecimento, familiares do oper\u00e1rio procuraram a Igreja de S\u00e3o Dimas para pedir ajuda.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A mobiliza\u00e7\u00e3o de parentes levou ao fio da meada que resultaria na pris\u00e3o. Descobriram que Defensor era acusado tamb\u00e9m do furto de um fog\u00e3o. Sua irm\u00e3, Maria Vieira Pereira, contou que o eletrodom\u00e9stico pertencia \u00e0 fam\u00edlia e que n\u00e3o havia furto algum. Defensor teria feito uma transa\u00e7\u00e3o com um homem e teria trocado o equipamento de cozinha por um r\u00e1dio e um par de sapatos. A hist\u00f3ria voltava ao seu in\u00edcio, aos objetos que serviram de argumento para a pris\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>?? medida que a repercuss\u00e3o do caso aumentava, surgiram testemunhas forjadas pela pol\u00edcia contra Defensor. A primeira contou que ele seria um criminoso e que tentara arrombar uma casa. Depois, foi acusado de um homic\u00eddio, jamais provado. Por \u00faltimo, do estupro de um menor de 16 anos.<\/div>\n<h2>A JUSTI??A\u00a0<\/h2>\n<div>Diante da repercuss\u00e3o do caso, que ganhou o notici\u00e1rio nacional, o ent\u00e3o juiz da 9\u00aa Vara Criminal, Jo\u00e3o Batista da Costa e Silva, foi ao hospital ouvir Jorge Defensor. A v\u00edtima mais uma vez deu detalhes da viol\u00eancia e da humilha\u00e7\u00e3o: ???Amarraram-me como se fosse um cabrito e me bateram como se eu fosse um rato???. O magistrado determinou que a Corregedoria de Pol\u00edcia Civil investigasse a fundo a den\u00fancia e os policiais acusados.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O promotor Alberto Pontes responsabilizou tr\u00eas delegados pelo epis\u00f3dio: Miguel Bechara, Ant\u00f4nio Lucena e Jos\u00e9 Ribeiro. Na acusa\u00e7\u00e3o, as informa\u00e7\u00f5es dos m\u00e9dicos de que Defensor tinha tr\u00eas fraturas na coluna vertebral, os nervos da perna esquerda estavam destru\u00eddos, a bexiga, estourada, o reto, dilacerado e que les\u00f5es se espalhavam pelo corpo. Para sobreviver, o oper\u00e1rio havia ficado 45 dias no bal\u00e3o de oxig\u00eanio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Naquela fase da investiga\u00e7\u00e3o, o delegado Prata Neto decidiu fazer mais uma declara\u00e7\u00e3o constrangedora: ???Deveriam t\u00ea-lo matado e jogado no mato, mas foram humanos???. Entre os acusados, outro delegado, Ant\u00f4nio Lucena, fez tamb\u00e9m uma declara\u00e7\u00e3o que tentava manchar a imagem do oper\u00e1rio, como se isso justificasse a tortura: ???N\u00e3o \u00e9 nenhum excelente pai de fam\u00edlia, mas um bandido???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Defensor morava em uma favela. Sua filha havia nascido e ele ainda n\u00e3o conhecia a menina. O procurador Alberto Pontes declarou que a pris\u00e3o do homem n\u00e3o havia sido comunicadas \u00e0 Justi\u00e7a, conforme previa a lei.<\/div>\n<h2>O PR??MIO ESSO\u00a0<\/h2>\n<div>Tito Guimar\u00e3es lembra que o Caso Jorge Defensor foi o primeiro da ditadura que veio \u00e0 tona com ampla cobertura da imprensa. ???Foi a partir da not\u00edcia publicada no Estado de Minas que os demais ve\u00edculos voltaram as aten\u00e7\u00f5es para o caso.???<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foram cerca de oito meses de mat\u00e9rias, publicadas praticamente todos os dias nas edi\u00e7\u00f5es do EM. Em 1978, a equipe formada pelos rep\u00f3rteres Tito Guimar\u00e3es, Alberto Sena, Sidney Lopes, Geraldo El\u00edsio e Francisco Stheling ganhou o Pr\u00eamio Esso de Jornalismo pela cobertura.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois de setembro de 1977. 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