{"id":183149,"date":"2022-07-11T06:42:26","date_gmt":"2022-07-11T09:42:26","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/confissoes-de-um-animal-sorrateiro\/"},"modified":"2022-07-11T06:42:26","modified_gmt":"2022-07-11T09:42:26","slug":"confissoes-de-um-animal-sorrateiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/11\/confissoes-de-um-animal-sorrateiro\/","title":{"rendered":"Confiss\u00f5es de um animal sorrateiro"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Tenho me sentido mentalmente exaurido. Como se a seiva que produz a cria\u00e7\u00e3o em mim, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito f\u00e9rtil, tivesse escorrido al\u00e9m da conta, deixando apenas um oco despido de ideias e indaga\u00e7\u00f5es. Logo as indaga\u00e7\u00f5es, esses sucessivos pontos de interroga\u00e7\u00e3o que costumam se espalhar como magma nos textos que escrevo. Leio as pe\u00e7as de Tch\u00e9khov, ou\u00e7o o piano de Oscar Peterson e vejo os jogos do Flamengo. S\u00e3o meu alento, minha abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Como muitos de n\u00f3s, preciso de f\u00e9rias. Mas o certo seria dizer f\u00e9rias da realidade cotidiana. Da nossa brutalidade, do excesso de informa\u00e7\u00e3o, do clima pr\u00e9-eleitoral, da tela do computador incinerando lentamente as minhas retinas. Queria poder passear mais pelo parque com Pudim, meu cachorrinho, vendo as aves enormes que, creio, sejam ja\u00e7an\u00e3s. Parecem miniaturas de dinossauros. H\u00e1 outras igualmente belas, como a gar\u00e7a que passa a maior parte do tempo est\u00e1tica, olhando fixamente a \u00e1gua em busca de alimento.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Hoje vi uma tartaruguinha na lagoa. Ela p\u00f4s a cabe\u00e7a para fora da \u00e1gua, como se quisesse me saudar, e imergiu novamente. Gosto de observar a vida que transcorre para al\u00e9m das preocupa\u00e7\u00f5es financeiras e dos compromissos de trabalho. A vida em sua ess\u00eancia, pl\u00e1cida, modesta e teimosa em sua busca por perman\u00eancia. As plantas rasteiras que invadem a pista de caminhada, os animais rasteiros, os outros c\u00e3es, muitos dos quais j\u00e1 sei o nome. Vidas que pedem passagem sem gritos, sem bravatas, sem palavras de ordem.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os pensamentos se expandem. Recordo as f\u00e9rias da inf\u00e2ncia, infinitas em sua extens\u00e3o. Dias inteiros na praia, nas casas de veraneio, no Sesc de Piat\u00e3. Jogando bola na areia, olhando espantado a noite, tentando entender a mim mesmo, de onde vinham aqueles sentimentos desnorteados como uma ave cega, que pareciam alheios a mim, mas ao mesmo tempo me pertenciam, como se eu os houvesse herdado. Quem fui, quem sou, quem serei.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Somos uma somat\u00f3ria de genes, frutos do del\u00edrio e do caos, ref\u00e9ns da hist\u00f3ria, envoltos em afeto e solid\u00e3o. Vem agora \u00e0 mente uma frase de Sartre, do seu livro de mem\u00f3rias As Palavras: ???Quanto a mim, eu era o come\u00e7o, o meio e o fim juntados num menino muito novo e j\u00e1 velho, j\u00e1 morto (&#8230;) Reunido, apertado, tocando com uma m\u00e3o meu t\u00famulo e com a outra meu ber\u00e7o, sentia-me breve e espl\u00eandido, um raio terr\u00edvel eclipsado pelas trevas???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Outro dia, a poeta K\u00e1tia Borges relembrou, em uma bonita cr\u00f4nica aqui no Correio, da ang\u00fastia que cercava sua participa\u00e7\u00e3o em quadrilhas juninas. A timidez de encarar colegas, coreografias e o p\u00fablico de pais e parentes que iam ver essas exibi\u00e7\u00f5es. Eu sentia a mesma coisa. Garoto gordinho e t\u00edmido como o diabo, queria me ocultar, tornar-me invis\u00edvel, n\u00e3o precisar me relacionar com tanta gente. As garotas que eu amava secretamente me eram inacess\u00edveis, inclusive na hora da escolha dos pares.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Essa timidez desastrosa, que at\u00e9 hoje me acompanha e que j\u00e1 me fez perder oportunidades profissionais e amorosas. Um jeito meio esquisito de animal sorrateiro, fugidio, que prefere a penumbra aos holofotes. Como meu av\u00f4 materno, que n\u00e3o conheci, tenho predile\u00e7\u00e3o pelas sombras, pelo admirar da lua cheia na escurid\u00e3o. Mas a introspec\u00e7\u00e3o \u00e9 um legado de meu pai, que deve t\u00ea-la herdado de outros tantos seres ensimesmados que viviam na terrinha lusitana ou a abandonaram para desbravar o novo mundo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">N\u00e3o sei por que discorro sobre essas coisas aqui. Provavelmente por falta de assunto ??? afinal, essas cr\u00f4nicas que lan\u00e7o a cada semana nada mais s\u00e3o que pura conversa fiada envolta em um inv\u00f3lucro de sabedoria posti\u00e7a. Mas tamb\u00e9m pelo fato de que pensar no mundo de outrora me traz certo conforto. Como se regressasse a um lugar aconchegante, onde, se n\u00e3o cheguei a ser feliz, ao menos<\/p>\n<p class=\"bodytext\">me sentia acolhido, seguro dentro de uma redoma de calor humano. Mas n\u00e3o totalmente imune ao som e \u00e0 f\u00faria do mundo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Volto \u00e0s palavras de Sartre: ???Gastos, obliterados, humilhados, encantoados, passados em sil\u00eancio, todos os tra\u00e7os da crian\u00e7a remanesceram no quinquagen\u00e1rio???. Eu subsisto, arremedo de quem fui, no homem que vislumbra parte do seu rosto na tela do computador. Exausto, enfastiado, olhando a noite e me dissipando no sil\u00eancio.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">*<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nas pr\u00f3ximas semanas entro de f\u00e9rias e deixo os meus poucos leitores em paz. A coluna estar\u00e1 de volta em 1\u00ba de agosto. At\u00e9 l\u00e1!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho me sentido mentalmente exaurido. 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