{"id":183587,"date":"2022-07-11T20:53:36","date_gmt":"2022-07-11T23:53:36","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/a-classe-media-esta-fugindo-do-brasil-afirma-economista\/"},"modified":"2022-07-11T20:53:36","modified_gmt":"2022-07-11T23:53:36","slug":"a-classe-media-esta-fugindo-do-brasil-afirma-economista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/11\/a-classe-media-esta-fugindo-do-brasil-afirma-economista\/","title":{"rendered":"&#8216;A classe m\u00e9dia est\u00e1 fugindo do Brasil&#8217;, afirma economista"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><b>Lisboa, Portugal<\/b>\u00a0??? Radicada h\u00e1 16 anos em terras lusitanas, a economista brasileira Sandra Utsumi, diretora executiva do Banco Haitong, \u00e9 hoje uma das refer\u00eancias no mercado portugu\u00eas. Com uma vis\u00e3o sem paix\u00f5es, pragm\u00e1tica, da realidade, ela diz ver com tristeza o fato de o Brasil estar se transformando em um grande exportador de m\u00e3o de obra qualificada por n\u00e3o oferecer condi\u00e7\u00f5es de vida adequadas, sobretudo, aos mais jovens.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;Muitas empresas da Europa est\u00e3o contratando jovens brasileiros que n\u00e3o t\u00eam boas perspectivas em seu pa\u00eds. O Brasil est\u00e1 exportando capital humano, sua melhor m\u00e3o de obra. Vejo muitos professores universit\u00e1rios, jovens rec\u00e9m-formados, vindo trabalhar em Portugal, abrindo pequenas empresas, atuando no setor de tecnologia&#8221;, diz a executiva.\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>E acrescenta: &#8220;H\u00e1 uma fuga da classe m\u00e9dia do Brasil, que cada vez menos v\u00ea perspectivas de crescimento econ\u00f4mico, se depara com qualidade de vida que n\u00e3o avan\u00e7a. Por isso, prefere arriscar uma vida em outros pa\u00edses, mesmo que mais modesta&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pelas proje\u00e7\u00f5es do Banco Haitong, o Brasil crescer\u00e1 apenas 0,8%, neste ano, e 0,3%, em 2023, nada muito diferente do que se viu na \u00faltima d\u00e9cada, quando o Produto Interno Bruto (PIB) avan\u00e7ou, em m\u00e9dia, 0,3% anualmente.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;?? muito pouco para uma economia com o potencial da brasileira&#8221;, diz Sandra. Ela acredita que o pa\u00eds n\u00e3o conseguir\u00e1 se livrar da recess\u00e3o que o mundo j\u00e1 contratou, que deve se estender entre o \u00faltimo trimestre de 2022 e o primeiro de 2023. A contra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ser\u00e1 combinada com infla\u00e7\u00e3o ainda alta e juros subindo. A conta, enfatiza a executiva, ser\u00e1 paga pelos consumidores, que ver\u00e3o o desemprego aumentar e a renda, cair.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Num momento em que o Congresso est\u00e1 prestes a sancionar mais uma farra fiscal a favor do governo, com a PEC Eleitoral, a diretora executiva do Haitong diz que o desarranjo das contas p\u00fablicas no Brasil tira toda a efetividade de reformas importantes como a trabalhista e a da Previd\u00eancia Social. Para ela, \u00e9 preciso reduzir o tamanho do Estado na economia e melhorar os indicadores de produtividade. Esse \u00e9 o caminho para que os investidores elejam o pa\u00eds como porto priorit\u00e1rio para seus neg\u00f3cios e o crescimento da atividade seja sustentado. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista ao <b>Correio<\/b>:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Em menos de um m\u00eas come\u00e7am, efetivamente, as campanhas eleitorais no Brasil, que est\u00e1 totalmente polarizado. Como os investidores estrangeiros est\u00e3o vendo o pa\u00eds?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os investidores estrangeiros olham o Brasil como olham para toda a Am\u00e9rica Latina. Sofrem com um problema de crescimento inst\u00e1vel e, institucionalmente, com as mudan\u00e7as. H\u00e1 uma onda um pouco \u00e0 esquerda na regi\u00e3o. N\u00e3o se sabe o que vai ocorrer no Brasil, e eu me abstenho de comentar quest\u00f5es pol\u00edticas. Mas a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 de que, neste momento, independentemente da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos e a imin\u00eancia de recess\u00e3o global, uma boa parte dos pa\u00edses emergentes deixa de ser atrativa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Como se diferenciar neste momento?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sempre h\u00e1 necessidade de uma seguran\u00e7a institucional, um pa\u00eds que promova reformas e siga toda aquela cartilha macroprudencial que n\u00f3s ouvimos falar h\u00e1 d\u00e9cadas no Brasil. Sem esse tipo de agenda, \u00e9 dif\u00edcil se sobrepor a outros competidores. O Brasil tem uma grande vantagem, num momento em que as commodities (agr\u00edcolas e minerais) s\u00e3o necess\u00e1rias, em que o custo de energia afeta a todos. O pa\u00eds tem uma capacidade de gera\u00e7\u00e3o de energia pr\u00f3pria bastante vantajosa, comparado \u00e0s na\u00e7\u00f5es desenvolvidas, e uma das maiores plataformas de agribusiness do mundo. Portanto, tem possibilidade de atrair capital nos segmentos que v\u00e3o crescer nesta fase que o mundo vive.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Nos \u00faltimos 10 anos, a m\u00e9dia de crescimento do Brasil foi de 0,3% ao ano. Isso n\u00e3o \u00e9 muito pouco?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Realmente, \u00e9 uma taxa de crescimento muito baixa. O Brasil deveria crescer, em termos reais, acima de 2% ou 3% ao ano. O avan\u00e7o que o pa\u00eds viveu no boom do in\u00edcio dos anos de 1970 e na \u00e9poca do Plano Real \u00e9 algo pouco esperado. Mas, estruturalmente, o Brasil deveria, para competir com outros pa\u00edses emergentes, crescer consistentemente.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>O Brasil conseguiu avan\u00e7ar e fez algumas reformas, como a trabalhista e a da Previd\u00eancia Social. Mesmo assim, o crescimento n\u00e3o decolou. Por qu\u00ea?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essas reformas mitigaram uma parte do que \u00e9 o custo Brasil. Mas a estrutura produtiva do pa\u00eds carece de uma m\u00e3o de obra qualificada. H\u00e1 uma defasagem muito grande em termos de educa\u00e7\u00e3o, que prejudica a produtividade da economia. Os custos relacionados aos investimentos em infraestrutura s\u00e3o elevados. Um arcabou\u00e7o consistente de crescimento ao longo do tempo ainda n\u00e3o est\u00e1 completo. Portanto, por mais que se fa\u00e7am reformas, o desenvolvimento que se v\u00ea no Brasil ainda \u00e9 focado em regi\u00f5es espec\u00edficas. N\u00e3o h\u00e1 um crescimento generalizado no pa\u00eds.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>E o que \u00e9 poss\u00edvel fazer, de mais curto prazo, para que o pa\u00eds consiga deslanchar? Uma reforma tribut\u00e1ria, por exemplo, para reduzir essas desigualdades regionais?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Creio que h\u00e1 necessidade de reformas do ponto de vista tribut\u00e1rio, do ponto de vista de agilidade de contratos, seja jur\u00eddico, seja administrativo, seja de redu\u00e7\u00e3o do tamanho do Estado na economia. Enfim, se formos olhar aqueles indicadores de competitividade que o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial faz, o Brasil n\u00e3o tem avan\u00e7ado como outros pa\u00edses emergentes para gerar um ambiente de investimento e desenvolvimento mais sustentado nos m\u00e9dio e longo prazos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Esperava-se que essas reformas ocorressem com mais velocidade em um governo dito liberal, como o que est\u00e1 no poder no Brasil. A agenda do ministro da Economia, Paulo Guedes, estava toda nessa linha. O que falhou?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O que se viu, apesar de avan\u00e7os, como marco regulat\u00f3rio do saneamento b\u00e1sico, foi que tivemos a pandemia da covid. Isso eliminou uma boa parte do que poderia ter sido investimentos no pa\u00eds nos \u00faltimos dois anos. Al\u00e9m de tudo, o Brasil foi apanhado por um custo de investimento muito alto pelos pr\u00f3ximos dois anos, pelo menos, quando se olha para o movimento de alta mundial das taxas de juros. Ou seja, a rela\u00e7\u00e3o custo-benef\u00edcio encestou o Brasil e qualquer outro pa\u00eds emergente que esteja exposto a um contraciclo global. Mais: o impacto de uma reforma n\u00e3o \u00e9 imediato. Demora alguns anos para se refletir em produtividade da economia. Faz-se a reforma de um lado, mas h\u00e1 o sucateamento da economia em outros aspectos. A deteriora\u00e7\u00e3o fiscal \u00e9 um ind\u00edcio de que n\u00e3o adianta fazer somente uma reforma se, de uma forma global, n\u00e3o s\u00e3o abordadas as inefici\u00eancias do Estado brasileiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Dentro dessas inefici\u00eancias est\u00e1 a educa\u00e7\u00e3o, cuja qualidade no Brasil \u00e9 baixa, basta ver a posi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds nos rankings mundiais que medem o conhecimento dos estudantes. ?? poss\u00edvel ver avan\u00e7o nesse sentido?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em todos os pa\u00edses da \u00c1sia houve um avan\u00e7o muito grande da educa\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos. No caso brasileiro, realmente, n\u00e3o houve melhoras. H\u00e1 alguns pontos isolados, como o aumento do n\u00famero de horas em que as crian\u00e7as ficam nas escolas, mas isso, para se refletir em aumento da produtividade da economia, n\u00e3o \u00e9 de um dia para o outro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>A senhora v\u00ea a educa\u00e7\u00e3o como prioridade no Brasil?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em qualquer pa\u00eds, se n\u00e3o houver aumento do n\u00famero de anos estudados, n\u00e3o h\u00e1 crescimento sustentado da economia. Todas as pesquisas mostram que, a cada ano adicional de estudo, h\u00e1 um incremento de renda familiar, especialmente no caso da educa\u00e7\u00e3o feminina. Ent\u00e3o, h\u00e1 a necessidade de o Brasil abordar, cientificamente, de olhar todos os casos no mundo em que houve investimento em educa\u00e7\u00e3o, reter os estudantes no ensino fundamental e m\u00e9dio e melhorar o acesso ao ensino superior.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Esse \u00e9 o caminho para reduzir as desigualdades sociais, com crescimento, certo?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Exato. O que vemos, muitas vezes, e, agora, com o baixo crescimento da economia do Brasil: muitas empresas da Europa est\u00e3o contratando jovens brasileiros que n\u00e3o t\u00eam boas perspectivas em seu pa\u00eds. O Brasil est\u00e1 exportando capital humano, sua melhor m\u00e3o de obra. Vejo muitos professores universit\u00e1rios, jovens rec\u00e9m-formados, vindo trabalhar em Portugal, abrindo pequenas empresas, atuando no setor de tecnologia. H\u00e1 uma fuga da classe m\u00e9dia do Brasil, que cada vez menos v\u00ea perspectivas de crescimento econ\u00f4mico, se depara com qualidade de vida que n\u00e3o avan\u00e7a. Por isso, prefere arriscar uma vida em outros pa\u00edses, mesmo que mais modesta.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>O presidente do Banco Central disse, recentemente, que o pior da infla\u00e7\u00e3o no Brasil j\u00e1 passou, at\u00e9 porque o pa\u00eds fez um movimento antecipado de aumento de juros. Como v\u00ea isso?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O consumo das fam\u00edlias perder\u00e1 for\u00e7a no segundo semestre, quando os juros mais altos come\u00e7ar\u00e3o, efetivamente, a fazer efeito na economia. Normalmente, o aperto monet\u00e1rio se propaga na economia ao longo de seis, nove meses. Ent\u00e3o, at\u00e9 o fim deste ano, vamos ver, principalmente, o cr\u00e9dito ao consumo ser mais modesto, o cr\u00e9dito \u00e0s empresas ser mais seletivo por parte dos bancos. Isso tira press\u00e3o sobre a infla\u00e7\u00e3o. ?? importante lembrar que esse ciclo de infla\u00e7\u00e3o que vivemos no mundo, neste momento, \u00e9 de oferta. Existe press\u00e3o por parte do consumo, porque o desconfinamento trouxe a demanda para os n\u00edveis pr\u00e9-pandemia. Nos \u00faltimos dois anos, tivemos uma deprecia\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva. Ou seja, voltamos aos n\u00edveis pr\u00e9-pandemia no consumo, mas n\u00e3o temos a mesma infraestrutura produtiva, pois as empresas deixaram de investir, e o que existia, depreciou. Globalmente, o consumidor \u00e9 confrontado com uma cadeia de suprimentos apertada. As empresas n\u00e3o conseguem fazer face aos n\u00edveis de consumo pr\u00e9-pandemia. At\u00e9 que ocorra o ajuste entre demanda e produ\u00e7\u00e3o, demora. Ent\u00e3o, o que est\u00e3o fazendo os bancos centrais? Aumentam os juros para que o consumo seja mais modesto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>Al\u00e9m da pandemia, que ainda n\u00e3o acabou, h\u00e1 a guerra entre a Ucr\u00e2nia e a R\u00fassia, que pega a quest\u00e3o alimentar e de energia. Como lidar com isso?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pensar que R\u00fassia e Ucr\u00e2nia respondem por um quinto da produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os do mundo, \u00e9 muita coisa, principalmente para na\u00e7\u00f5es que dependem da importa\u00e7\u00e3o de alimentos. H\u00e1 v\u00e1rios pa\u00edses africanos que n\u00e3o cumprir\u00e3o \u00e0s san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas \u00e0 R\u00fassia e v\u00e3o comprar alimentos de l\u00e1, porque precisam suprir a popula\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>J\u00e1 se fala em uma crise humanit\u00e1ria sem precedentes. O Brasil, por exemplo, voltou ao mapa da fome&#8230;<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu espero que n\u00e3o enfrentemos essa crise humanit\u00e1ria. Globalmente, o mundo tem estoques reguladores. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos faz um levantamento bastante amplo dos estoques globais de gr\u00e3os e, para os pr\u00f3ximos seis a 12 meses, o mundo consegue aguentar essa guerra. Agora, se esse conflito se prolonga por mais um ou dois anos, sim, vamos ter uma situa\u00e7\u00e3o bastante dram\u00e1tica do ponto de vista de fome no mundo.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, Portugal\u00a0??? 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