{"id":184568,"date":"2022-07-13T04:55:42","date_gmt":"2022-07-13T07:55:42","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/pandemia-invisivel-estudo-revela-como-covid-afetou-familias-mais-carentes\/"},"modified":"2022-07-13T04:55:42","modified_gmt":"2022-07-13T07:55:42","slug":"pandemia-invisivel-estudo-revela-como-covid-afetou-familias-mais-carentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/13\/pandemia-invisivel-estudo-revela-como-covid-afetou-familias-mais-carentes\/","title":{"rendered":"Pandemia invis\u00edvel: estudo revela como COVID afetou fam\u00edlias mais carentes"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fam\u00edlias isoladas, em um contexto de vulnerabilidade social, falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a alimentar, press\u00e3o psicol\u00f3gica e tend\u00eancia ao aumento da viol\u00eancia. Pesquisa sobre o impacto da pandemia entre n\u00facleos familiares de comunidades de Belo Horizonte mostrou que o distanciamento social cobrou um duro pre\u00e7o em comunidades que sofreram tamb\u00e9m com pouca visibilidade durante os per\u00edodos mais restritivos da crise sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O levantamento foi feito com moradores das comunidades Vila Maria, na Regi\u00e3o Nordeste, Taquaril, na Leste, e Fazendinha, na Regi\u00e3o Centro-Sul de Belo Horizonte, entre julho e outubro de 2021. Foram 307 estudos sociais de fam\u00edlias e oito n\u00facleos familiares entrevistados, entre o p\u00fablico atendido pelo Projeto Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Idealizadora da pesquisa, a professora da PUC Minas Fernanda Flaviana de Souza Martins afirma que o objetivo foi dar voz e visibilidade para as comunidades. Segundo ela, a inseguran\u00e7a alimentar representou um desafio para todos os entrevistados. ???A quest\u00e3o da fome bateu forte nas fam\u00edlias, desencadeando v\u00e1rios fatores como ansiedade, depress\u00e3o e dificuldade de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Onde n\u00e3o se tem o que comer, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter tecnologia, nem acesso a educa\u00e7\u00e3o. As crian\u00e7as n\u00e3o tinham escola, onde faziam as refei\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o tinham os projetos sociais.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Para a professora, a pesquisa mostra a urg\u00eancia de se pensar no p\u00fablico mais vulner\u00e1vel. ???H\u00e1 necessidade de pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar efetivas. Muitas vezes a fam\u00edlia n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de buscar o alimento. ??s vezes at\u00e9 tinha o alimento, mas n\u00e3o tinha como fazer, porque n\u00e3o tinha g\u00e1s.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>EVAS??O <\/b>O estudo mostrou que a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as nessas comunidades foi ainda mais prejudicada do que no restante da cidade. ???Houve evas\u00e3o escolar decorrente do contexto de pandemia. A maioria n\u00e3o tinha acesso a computador, nem celular. Quando tinha, era em hor\u00e1rios fora da aula. Tinha que dividir um celular com a fam\u00edlia toda.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>???Al\u00e9m da fome e da vulnerabilidade, as crian\u00e7as tiveram violado o direito de se desenvolver em plenitude. Ficaram vulner\u00e1veis tamb\u00e9m ao tr\u00e1fico. H\u00e1 relatos de muitas fam\u00edlias de que o tr\u00e1fico estava presente nesse contexto de pandemia.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Segundo a professora, a maioria das fam\u00edlias \u00e9 formada por mulheres negras, m\u00e3es solo e com tr\u00eas a quatro filhos. ???Elas contam do seu desespero, falam da tristeza de n\u00e3o ter o alimento, que \u00e9 uma necessidade b\u00e1sica. Dizem se sentir presas, sem conseguir se mover. Educar os filhos sozinhas foi um desafio muito grande para todas elas.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A pesquisadora conta que o choro foi marcante em praticamente todas as entrevistas, e que as pr\u00f3prias chefes de fam\u00edlia estavam negligenciadas. ???Elas tamb\u00e9m precisavam ser olhadas e cuidadas. Fiquei muito emocionada. S\u00f3 quem \u00e9 m\u00e3e sabe o que \u00e9 ter uma fam\u00edlia com fome e n\u00e3o ter o que fazer, para onde correr. Elas se apegaram ao que elas tinham, aos filhos, amor, esperan\u00e7a.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3>ANSIEDADE E MEDO DE FALTAR O QUE COMER<\/h3>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A auxiliar de servi\u00e7os gerais Eliana Silva, de 40 anos, sabe bem o desafio que foi esse per\u00edodo. M\u00e3e de dois filhos, de 13 e 10 anos, ela est\u00e1 desempregada h\u00e1 quase tr\u00eas anos. ???A gente vai vendo as contas chegarem e nada de dinheiro. Se n\u00e3o fizer uns bicos, umas faxinas&#8230; ?? dif\u00edcil???, desabafa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O marido, Pedro Ferreira dos Reis, de 68, faz bicos para completar o sal\u00e1rio m\u00ednimo que vem da aposentadoria. ???Hoje as coisas est\u00e3o muito caras, um litro de leite custa quase R$ 10. Temos que pagar \u00e1gua, luz e economizar para comprar um g\u00e1s.??? O casal recebe cesta b\u00e1sica do projeto social, mas mesmo assim enfrenta a inseguran\u00e7a alimentar. ???Se n\u00e3o fosse o projeto, a situa\u00e7\u00e3o estaria mais dif\u00edcil. Vamos vivendo cada dia, correndo atr\u00e1s???, diz Eliana.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ela conta que durante o per\u00edodo mais rigoroso do isolamento foi dif\u00edcil manter as crian\u00e7as em casa. ???Pessoas pr\u00f3ximas perderam a vida por causa da COVID-19 e eu dizia para eles que a gente n\u00e3o podia se arriscar. Gra\u00e7as a Deus, ningu\u00e9m aqui em casa pegou. Nossas vacinas est\u00e3o em dia e as das crian\u00e7as, tamb\u00e9m.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o saiu ilesa. Segundo Eliana, o filho mais novo tem dificuldade de ler e escrever, apesar de estar na quarta s\u00e9rie. ???Eles recebiam apostilas, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que em uma sala de aula, com um professor para tirar d\u00favidas. A pandemia atrasou muito o ensino, agora eles est\u00e3o tendo refor\u00e7o na escola.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O sofrimento tamb\u00e9m trouxe problemas para a sa\u00fade mental da dona de casa. ???Comecei a ficar ansiosa, sem saber como lidar com a situa\u00e7\u00e3o. Procurei o posto de sa\u00fade em busca de ajuda, para enfrentar o problema sem me deixar abalar. ?? muita coisa junta, tem os meninos, as coisas come\u00e7am a faltar dentro de casa&#8230;??? Eliana passou a tomar rem\u00e9dios para controlar a ansiedade e para dormir.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>???Voc\u00ea se sente impotente. Essa pandemia teve um impacto muito negativo e acho que vai demorar a melhorar, porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a COVID. Os nossos governantes, por exemplo, enquanto a gente recebe um sal\u00e1rio m\u00ednimo, eles ganham muito, t\u00eam v\u00e1rios aux\u00edlios.??? Ela diz que se sente desamparada pelo poder p\u00fablico. ???Eles n\u00e3o olham para a comunidade. Infelizmente, a maioria s\u00f3 pensa no bolso deles.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h1><b>Viol\u00eancia agravada durante o isolamento<\/b><\/h1>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A professora Fernanda Flaviana de Souza Martins destaca que a viol\u00eancia foi outro desafio para as fam\u00edlias das comunidades estudadas em sua pesquisa. ???Mulheres e crian\u00e7as ficaram ainda mais vulner\u00e1veis na pandemia. Al\u00e9m da viol\u00eancia f\u00edsica e sexual, vem acompanhada a viol\u00eancia psicol\u00f3gica, que muitas vezes, traz imobilidade. As consequ\u00eancias da pandemia nas vilas e favelas foi muito maior. Muitas mulheres relataram que pensaram em tirar a pr\u00f3pria vida.???<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A pesquisa mostrou que dados do Juizado da Inf\u00e2ncia e Juventude, do Conselho Municipal dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente e do Projeto Polos de Belo Horizonte revelam o crescimento de mais de 30% dos casos de viol\u00eancia contra a crian\u00e7a e o adolescente na pandemia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Den\u00fancias relativas a esse p\u00fablico atingiram o maior patamar desde 2013, em rela\u00e7\u00e3o direta com a pandemia. Neste ano, o Disque 100 registrou mais de 95 mil den\u00fancias e em 67% dos casos elas se referiam a viol\u00eancia dom\u00e9stica contra crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Minas est\u00e1 entre os estados que mais utilizaram o Disque 100 para relatar esse tipo de viola\u00e7\u00e3o. Com 12.040 den\u00fancias, ficou atr\u00e1s de S\u00e3o Paulo, com 23.870, e acima do Rio de Janeiro, com 11.470. Esses estados concentram metade das situa\u00e7\u00f5es denunciadas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Grande parte dessas situa\u00e7\u00f5es tem como v\u00edtimas crian\u00e7as de 5 a 9 anos, e o principal agressor \u00e9 o pai ou a m\u00e3e (59% dos casos), seguido por padrasto ou madrasta (6%), av\u00f4 ou av\u00f3 (3%), e tio (3%).\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Fam\u00edlias isoladas, em um contexto de vulnerabilidade social, falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a alimentar, press\u00e3o psicol\u00f3gica e tend\u00eancia ao aumento da viol\u00eancia.\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":184569,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8648],"tags":[],"class_list":["post-184568","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/184568","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=184568"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/184568\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=184568"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=184568"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=184568"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}