{"id":185445,"date":"2022-07-14T08:58:12","date_gmt":"2022-07-14T11:58:12","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/minha-filha-nasceu-desnutrida-10-milhoes-de-criancas-sobrevivem-em-familias-com-r-300-por-mes\/"},"modified":"2022-07-14T08:58:12","modified_gmt":"2022-07-14T11:58:12","slug":"minha-filha-nasceu-desnutrida-10-milhoes-de-criancas-sobrevivem-em-familias-com-r-300-por-mes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/14\/minha-filha-nasceu-desnutrida-10-milhoes-de-criancas-sobrevivem-em-familias-com-r-300-por-mes\/","title":{"rendered":"&#8216;Minha filha nasceu desnutrida&#8217;: 10 milh\u00f5es de crian\u00e7as sobrevivem em fam\u00edlias com R$ 300 por m\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>Com a geladeira praticamente vazia, Vit\u00f3ria Raquel Pe\u00e7anha Guimar\u00e3es Abreu, de 18 anos, ouve a filha, que j\u00e1 nasceu com fome, pedir comida. Sem dinheiro para se alimentar, a jovem mal conseguia comer durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Na gravidez da minha filha, eu passei fome e ela j\u00e1 nasceu desnutrida. N\u00e3o sabia que o pai dela usava drogas. Depois, descobri que ele gastava o dinheiro com o v\u00edcio e deixava a gente com fome&#8221;, conta Vit\u00f3ria em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Durante a gesta\u00e7\u00e3o, Vit\u00f3ria passava o dia em busca de reciclagem para vender e comprar comida. A alimenta\u00e7\u00e3o dela sempre foi baseada principalmente em embutidos, como salsicha e lingui\u00e7a, al\u00e9m de refrigerante, salgados e iogurte. Hoje, a rotina \u00e9 quase a mesma e frutas e legumes s\u00e3o raridade na casa da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Os alimentos mais saud\u00e1veis s\u00e3o consumidos na casa apenas quando Vit\u00f3ria consegue comprar mais barato ou ganha na xepa da feira livre.<\/p>\n<p>Dados compilados pela Funda\u00e7\u00e3o Abrinq revelaram que, nos \u00faltimos cinco anos, aumentou em mais de 2 milh\u00f5es o n\u00famero de crian\u00e7as que t\u00eam renda familiar de at\u00e9 um quarto do sal\u00e1rio m\u00ednimo no Brasil. Isso significa que, assim como a filha de Vit\u00f3ria, 10,5 milh\u00f5es de pessoas com menos de 14 anos t\u00eam menos de R$ 303 para se alimentar, comprar roupas, medicamentos e gastar com momentos de lazer por m\u00eas.<\/p>\n<p>Esses dados foram extra\u00eddos da \u00faltima Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua (Pnad Cont\u00ednua), do IBGE, e revelam, na vis\u00e3o dos especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, um problema social grave, com impacto econ\u00f4mico, educacional, de seguran\u00e7a e sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Isso ocorre porque uma crian\u00e7a inserida em uma fam\u00edlia que se encontra nessas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o consegue ter acesso a uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel. <\/p>\n<p>Sem comida de qualidade, ela n\u00e3o se concentra nos estudos e precisa come\u00e7ar a trabalhar mais cedo para complementar a renda da casa. <\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 que esse ciclo de fome, desnutri\u00e7\u00e3o e baixa renda leve \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o da pobreza desta crian\u00e7a e da fam\u00edlia dela.<\/p>\n<p>Hoje, Vit\u00f3ria se separou do homem que era viciado em drogas e mora com a filha e o atual marido em uma casa alugada. Somando o Aux\u00edlio Brasil e o sal\u00e1rio dele, a fam\u00edlia tem uma renda mensal de R$ 1400.<\/p>\n<p>&#8220;No m\u00eas passado, fiquei sem nada dentro de casa. Aqui tem um bar que a gente pega fiado para depois pagar, mas \u00e9 caro. Esses dias eu fiz at\u00e9 pouca comida. Minha m\u00e3e me deu uma cesta b\u00e1sica para ajudar porque \u00e9 muito dif\u00edcil&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Mas essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova na fam\u00edlia dela.<\/p>\n<p>&#8220;(Na minha inf\u00e2ncia), meu padrasto estava preso e minha m\u00e3e ficava com sete filhos em casa. Ela fazia de tudo para criar a gente&#8221;, lembra.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, nenhum dos irm\u00e3os trabalhava. Hoje, a irm\u00e3 dela tamb\u00e9m passa por uma situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade financeira ap\u00f3s ser abandonada pelo marido.<\/p>\n<h3>Base do desenvolvimento<\/h3>\n<p>A diretora-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Maria Cecilia Souto Vidigal, Mariana Luz, defendeu que a primeira inf\u00e2ncia (at\u00e9 os 6 anos) deve ser tratada como prioridade entre as pol\u00edticas nacionais de governo.<\/p>\n<p>&#8220;?? nessa fase que voc\u00ea forma todas as bases do desenvolvimento. Nessa fase, o c\u00e9rebro faz 1 milh\u00e3o de conex\u00f5es por segundo e forma 90% dele. ?? o que a gente chama de desenvolvimento integral, composto por tr\u00eas dimens\u00f5es: f\u00edsica e motora, cognitiva e a s\u00f3cio-emocional&#8221;, diz Luz.<\/p>\n<p>Ela explica que, para desenvolver essas conex\u00f5es de maneira plena, a crian\u00e7a precisa receber est\u00edmulos e ter uma base s\u00f3lida de crescimento.<\/p>\n<p>&#8220;Tem que olhar a educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e assist\u00eancia social. ?? necess\u00e1rio que essas pastas do governo trabalhem juntas para que a crian\u00e7a n\u00e3o passe fome, tenha acolhimento e amparo social adequado, tratamento de sa\u00fade e vacina. A m\u00e3e precisa compreender o que acontece com a crian\u00e7a e acompanhar a educa\u00e7\u00e3o dela. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que ela frequente a creche e a pr\u00e9-escola para que os pais trabalhem e tenham renda&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Segundo Mariana Luz, h\u00e1 20 milh\u00f5es de crian\u00e7as no Brasil e uma em cada tr\u00eas vive na extrema pobreza. Para ela, esse problema s\u00f3 vai ser combatido efetivamente quando for tratado de maneira sist\u00eamica.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o adianta ter a\u00e7\u00f5es pontuais e n\u00e3o endere\u00e7\u00e1-las de uma forma mais completa. ?? algo complexo, mas vi\u00e1vel. Cidades no Brasil t\u00eam compreendido essa abordagem, como S\u00e3o Paulo e Boa Vista. Ao mesmo tempo em que estamos no topo da produ\u00e7\u00e3o de alimentos do mundo, a gente desperdi\u00e7a at\u00e9 oito vezes o que poderia alimentar essa popula\u00e7\u00e3o que passa fome&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Hoje, a filha de Vit\u00f3ria, que mora em S\u00e3o Miguel Paulista, no extremo leste de S\u00e3o Paulo, recebe atendimento do Centro de Recupera\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Nutricional (Cren) e ganhou peso nos \u00faltimos meses. No local, ela recebe atendimento m\u00e9dico, nutricional, recebe dicas de alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e ainda \u00e9 auxiliada para se inscrever em programas do governo.<\/p>\n<p>Nas pr\u00f3ximas semanas, a fam\u00edlia deve deixar a casa onde vive hoje por n\u00e3o conseguir arcar com o valor do aluguel.<\/p>\n<p>O marido dela pediu R$ 2 mil emprestado para o patr\u00e3o dele, usou o dinheiro para comprar madeiras e est\u00e1 construindo um barraco para a fam\u00edlia numa ocupa\u00e7\u00e3o a poucos metros da casa dela. O local foi atingido por um inc\u00eandio no \u00faltimo m\u00eas, mas Vit\u00f3ria diz que essa \u00e9 a \u00fanica sa\u00edda, pois n\u00e3o consegue mais pagar o aluguel.<\/p>\n<p>Ela agora planeja deixar a filha na creche e aos cuidados da m\u00e3e dela para conseguir voltar a trabalhar.<\/p>\n<p>Pediatra e nutr\u00f3loga do Cren, Maria Paula de Albuquerque integrou o Grupo de Trabalho de Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o da Agenda 227, que produziu 148 propostas de pol\u00edticas p\u00fablicas a serem implementadas no pr\u00f3ximo governo. Ela afirma que a pobreza carrega consigo diversos fatores que afetam diretamente toda a vida daquela crian\u00e7a e a sociedade onde ela vive.<\/p>\n<p>&#8220;Junto com uma renda inferior, existe a quest\u00e3o da escolaridade e o comprometimento ao acesso a alimentos de qualidade. O problema \u00e9 muito complexo. Num contexto urbano como o de S\u00e3o Paulo, as fam\u00edlias consomem mais alimentos ultraprocessados, de p\u00e9ssima qualidade, mas de consumo r\u00e1pido e f\u00e1cil preparo. Essas fam\u00edlias vivem nas periferias, com vazios assistenciais e gastam quatro horas no transporte&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Ela define esse cen\u00e1rio como &#8220;devastador para a primeira inf\u00e2ncia&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Isso perpetua a pobreza e impacta at\u00e9 tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. Tornar esse pa\u00eds menos desigual pede solu\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas, que n\u00e3o podem ser determinadas pelo acesso. Fam\u00edlias recebem transfer\u00eancia de renda, mas se eu n\u00e3o qualifico esse processo e as trago para o centro da discuss\u00e3o, vai ficar somente o acesso pelo acesso&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Albuquerque assinala que a pandemia da covid-19 e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ampliaram a desigualdade social e, consequentemente, a inseguran\u00e7a alimentar entre os mais pobres. Ela diz que esse cen\u00e1rio pode acelerar o surgimento de uma cadeia de problemas.<\/p>\n<p>&#8220;Sem dinheiro na gesta\u00e7\u00e3o, a m\u00e3e troca uma carne por uma salsicha ou uma fruta por suco em p\u00f3. Isso aumenta a chance de doen\u00e7as cr\u00f4nicas para ela e restringe o crescimento intra\u00fatero do bebe. Se ela passa fome, isso reduz o tecido nervoso do beb\u00ea, dificulta a forma\u00e7\u00e3o dos rins e ele j\u00e1 nasce desnutrido&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica afirma que esse fator  aumenta as chances de as crian\u00e7as desenvolverem um quadro de ansiedade e depress\u00e3o, al\u00e9m de infec\u00e7\u00f5es. Uma crian\u00e7a desnutrida, conta ela, tem 16 vezes mais chance de morrer de pneumonia quando comparada a uma com o peso normal. Ela ter\u00e1 problemas de aprendizado por conta de dificuldades cognitivas e neurol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>&#8220;O organismo dela vai se programar para a falta de alimento e, por conta desse fen\u00f3tipo poupador, quando entrar na vida adulta, ela ter\u00e1 grande chance de desenvolver obesidade. Isso ocorre porque o corpo dela foi feito para poupar energia. Ela acumula gordura no f\u00edgado e no abd\u00f4men. Isso eleva o risco de diabetes e hipertens\u00e3o. A crian\u00e7a vai sendo programada para ser um adulto doente&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica, que tamb\u00e9m faz parte de um grupo de estudos da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) diz que isso gera &#8220;um \u00f4nus enorme&#8221; para o indiv\u00edduo e para a sociedade. Albuquerque defende que o governo deveria subsidiar a produ\u00e7\u00e3o de alimentos mais saud\u00e1veis e pequenos produtores, em vez de grandes ind\u00fastrias de alimentos industrializados.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o faz sentido um refrigerante ser subsidiado pelo Estado. ?? um absurdo os ultraprocessados serem mais acess\u00edveis. Mas isso acontece porque h\u00e1 uma l\u00f3gica de mercado. A agricultura faz uma monocultura e aumenta o custo. Isso favorece o grande produtor e a monocultura&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p><i>&#8211; Este texto foi originalmente publicado em <\/i>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-62068448<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? Inscreva-se no nosso canal! <\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a geladeira praticamente vazia, Vit\u00f3ria Raquel Pe\u00e7anha Guimar\u00e3es Abreu, de 18 anos, ouve a filha, que j\u00e1 nasceu com fome, pedir comida. Sem\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":185446,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2799],"tags":[],"class_list":["post-185445","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=185445"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185445\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=185445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=185445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=185445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}