{"id":187464,"date":"2022-07-18T05:46:07","date_gmt":"2022-07-18T08:46:07","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/jovem-passa-por-tres-cirurgias-e-nao-pode-segurar-a-filha-depois-de-violencia-obstetrica\/"},"modified":"2022-07-18T05:46:07","modified_gmt":"2022-07-18T08:46:07","slug":"jovem-passa-por-tres-cirurgias-e-nao-pode-segurar-a-filha-depois-de-violencia-obstetrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/18\/jovem-passa-por-tres-cirurgias-e-nao-pode-segurar-a-filha-depois-de-violencia-obstetrica\/","title":{"rendered":"Jovem passa por tr\u00eas cirurgias e n\u00e3o pode segurar a filha depois de viol\u00eancia obst\u00e9trica"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Com 3,8 quilos e 51 cent\u00edmetros, Marina nasceu ao som dos gritos do m\u00e9dico e do sil\u00eancio da m\u00e3e cortada por bisturi. Munidos de revolta, os av\u00f3s dela denunciaram na delegacia\u00a0as condi\u00e7\u00f5es do parto. O dia do nascimento da beb\u00ea perdura ??? n\u00e3o pelas raz\u00f5es esperadas. Um ano e cinco meses depois, Kaila, a m\u00e3e dela, passou pela terceira cirurgia para reparar a viol\u00eancia marcada no corpo. N\u00e3o pode nem carregar a filha, com 12 quilos a mais.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No dia 4 de fevereiro de 2021, Kaila Concei\u00e7\u00e3o, 22 anos, foi obrigada a parir, em um\u00a0Hospital Municipal Edgar Santos, em Entre Rios. Para que a filha de Kaila nascesse,\u00a0o m\u00e9dico M\u00e1rio Ol\u00edmpio Pereira Neto cortou (sem autoriza\u00e7\u00e3o da gestante) o canal entre seu \u00e2nus e a vagina, subiu sobre sua barriga (manobra de Kristeller), gritou e cravou nela sequelas f\u00edsicas e ps\u00edquicas. O nome do horror vivido por Kaila \u00e9 viol\u00eancia obst\u00e9trica\u00a0e o caso rendeu den\u00fancia ao Minist\u00e9rio P\u00fablico da Bahia (MP).<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Eu tinha minha sa\u00fade \u00f3tima. Sai de casa para parir, algo t\u00e3o normal todo dia, e pegar um irrespons\u00e1vel desse, que quase me matou. Foi uma situa\u00e7\u00e3o muito pesada, nenhuma mulher merece???<\/strong>, conta Kaila.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">A viol\u00eancia cometida por M\u00e1rio Ol\u00edmpio, atualmente alvo de um processo \u00e9tico disciplina do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb), obrigou Kaila a retornar tr\u00eas vezes a um centro cir\u00fargico. Uma dessas cirurgias, a de colostomia, tem a mesma idade que a filha ??? um ano e cinco meses. ?? o procedimento mais marcante para a jovem m\u00e3e, pelo simbolismo das datas.<\/p>\n<p><strong>Leia mais: <\/strong>Saiba quais s\u00e3o os direitos das gestantes na hora do parto<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A colostomia consiste na exterioriza\u00e7\u00e3o de uma parte do intestino grosso, o c\u00f3lon, para elimina\u00e7\u00e3o de fezes\/gases. No parto, um buraco foi aberto entre a bexiga e vagina de Kaila e as fezes escapavam pelo canal vaginal dela, o que exigiu a bolsa de colostomia. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Depois, vieram a reconstru\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito intestinal e, h\u00e1 duas semanas, a repara\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon, em Salvador, a 132 Km\u00a0de casa. A configura\u00e7\u00e3o familiar, inclusive, foi tamb\u00e9m modificada pela viol\u00eancia obst\u00e9trica. Kaila deixou de trabalhar e a m\u00e3e dela passou a viver constantemente na casa da filha para auxiliar a ela, o genro e a neta.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"789\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/3\/8\/csm_cirurgia_e13f07647a.jpeg\" width=\"1000\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Kaila na cirurgia mais recente <\/strong>(Foto: Acervo Pessoal)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) explica que a viol\u00eancia obst\u00e9trica se configura quando h\u00e1 ao menos uma de sete viola\u00e7\u00f5es. S\u00e3o elas: abusos f\u00edsico, sexual ou verbal, estigma ou discrimina\u00e7\u00e3o, uso de pr\u00e1ticas obsoletas ou n\u00e3o recomendadas (como a episiotomia e a manobra de Kristeller, ambas aplicadas em Kaila), falha na comunica\u00e7\u00e3o e falta de\u00a0estrutura do hospital.<\/p>\n<p><strong>&#8216;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 erro m\u00e9dico&#8217;<\/strong><\/p>\n<p> Kaila\u00a0mora\u00a0em Subauma, distrito de Entre Rios. Como na localidade n\u00e3o h\u00e1 unidade de sa\u00fade, a gr\u00e1vida procurou o Hospital Municipal Edgar Santos, de onde esperava ser regulada para uma maternidade. &#8220;Chegando, fui atendida e disseram que\u00a0tinha que ser internada. Depois veio o m\u00e9dico que fez meu parto&#8221;. A gestante tinha dois cent\u00edmetros de dilata\u00e7\u00e3o quando, segundo ela, M\u00e1rio Ol\u00edmpio avisou: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 pronta para parir&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p> Mas, em partos naturais, o momento certo para nascer \u00e9 o beb\u00ea quem dita e os sinais se expressam na m\u00e3e. Isso costuma acontecer no\u00a0per\u00edodo expulsivo, quando a dilata\u00e7\u00e3o\u00a0do colo do \u00fatero da mulher chega a 10 cent\u00edmetros. A m\u00e3e, por instinto, far\u00e1 for\u00e7a para o rec\u00e9m-nascido sair. Se isso n\u00e3o acontecer, tem in\u00edcio o protocolo m\u00e9dica para in\u00edcio de uma\u00a0ces\u00e1rea.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Entre a fala do m\u00e9dico e o in\u00edcio do parto for\u00e7ado, foram quatro cent\u00edmetros de dilata\u00e7\u00e3o e cinco horas de dist\u00e2ncia &#8211; das 13h \u00e0s 18h. Dessa vez, Kaila lembra de uma enfermeira dizer que ela estava com 6 cm de dilata\u00e7\u00e3o, portanto n\u00e3o preparada para o parto natural.\u00a0A m\u00e3e dela, sua acompanhante na hora do parto, acompanhou toda a dor vivida em seguida.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;A\u00ed ele come\u00e7ou a me manipular, pedir que eu colocasse para fora. Ele come\u00e7ou a me cortar, fez toques muito dolorosos, n\u00e3o acho que aquilo era normal. Ele come\u00e7ou a subir na minha barriga&#8221;<\/strong>, recorda.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Desorientada, Kaila ainda lembra que uma enfermeira tentou ajudar, depois de questionar as atitudes do m\u00e9dico. Ela foi expulsa da sala pelo m\u00e9dico. Quando Marina nasceu, n\u00e3o chorou. Saiu arroxeada. &#8220;Fui tentar pegar ela, ele come\u00e7ou a gritar dizendo que era para eu n\u00e3o pegar&#8221;. Kaila n\u00e3o\u00a0p\u00f4de amamentar a filha, nem segur\u00e1-la. A crian\u00e7a toma manipulados desde o primeiro dia de vida.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para, momentaneamente, aliviar a dor, Kaila implorou por\u00a0anestesia.\u00a0&#8220;N\u00e3o aguentava mais&#8221;. Ent\u00e3o veio o escuro e, depois, as sequelas daquela tarde &#8211; ainda mais v\u00edvidas, por exemplo, quando Marina pede colo e a m\u00e3e n\u00e3o d\u00e1, por recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">De acordo com a pesquisa Nascer no Brasil, da Ensp-Fiocruz divulgada no ano passado, 45% das mulheres atendidas no Sistema ??nico de Sa\u00fade (SUS) foram v\u00edtimas de viol\u00eancia obst\u00e9trica entre 2011 e 2012. Na rede particular, o \u00edndice \u00e9 15% menor\u00a0para 30%, o que reafirma o peso da desigualdade social nas viol\u00eancias &#8211; entre elas, a obst\u00e9trica.\u00a0A Fiocruz realiza, atualmente, levantamento de dados sobre gestantes v\u00edtimas de abusos na hora do parto entre 2020 e 2022.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Minist\u00e9rio P\u00fablico da Bahia atuar\u00e1 no caso\u00a0<\/strong><\/p>\n<p> A den\u00fancia apresentada pelos av\u00f3s de Marina, quando a beb\u00ea tinha 13 dias de vida, est\u00e1 nas m\u00e3os do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Bahia (MP) depois de uma s\u00e9rie de insist\u00eancias. O delegado enquadrou o caso de Kaila como &#8220;les\u00e3o corporal&#8221; e abriu inqu\u00e9rito que se arrastou por mais de um ano at\u00e9 ser enviado para o MP, que pode apresentar uma a\u00e7\u00e3o penal contra M\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A Corregedoria da Pol\u00edcia Civil foi procurada, devido \u00e0 demora. &#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 somente erro m\u00e9dico, pura e simplesmente, \u00e9 uma grave viol\u00eancia obst\u00e9trica que resultou em graves consequ\u00eancias. O procedimento ficou parado, nem se transformou em a\u00e7\u00e3o penal&#8221;, conta a advogada de Kaila, M\u00f4nica Santana. &#8220;Ele destruiu ela e a fam\u00edlia de muitas formas&#8221;, completa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O Cremeb tamb\u00e9m foi acionado sobre o caso, mas n\u00e3o comenta processos individuais, como o contra M\u00e1rio. Entre 2018 e 2022, o \u00f3rg\u00e3o recebeu 4 den\u00fancias\u00a0sobre suposta viol\u00eancia obstetr\u00edcia. Delas, tr\u00eas resultaram em sindic\u00e2ncias para apura\u00e7\u00e3o de infra\u00e7\u00e3o \u00e9tica e uma foi arquivada.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Das sindic\u00e2ncias instauradas, uma foi arquivada e duas resultaram na instaura\u00e7\u00e3o \u00a0de Processo ??tico Profissional (PEP), ambos em fase de instru\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O m\u00e9dico que realizou o parto de Kaila n\u00e3o \u00e9 obstetra. A reportagem identificou que o cl\u00ednico geral \u00e9 formado em Medicina por uma universidade federal no Norte do Brasil e mora em Salvador, em um bairro de luxo.\u00a0Na Bahia, atuou n\u00e3o s\u00f3 em Entre Rios &#8211; h\u00e1 registros de atendimentos em Inhambupe.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O Hospital Municipal Edgar Santos demitiu o m\u00e9dico, mas afirmou que cabia \u00e0 Secretaria Municipal de Sa\u00fade de Entre Rios comentar o caso. Procurada, a secret\u00e1ria da pasta n\u00e3o atendeu. Sem defini\u00e7\u00f5es judiciais para as viol\u00eancias que sofreu, Kaila revive todos os dias o trauma marcado nela.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Conhe\u00e7a exemplos de viol\u00eancia obst\u00e9trica:<\/strong><\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>N\u00e3o \u00a0informar sobre os procedimentos adotados;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Raspagem dos pelos pubianos sem autoriza\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Realiza\u00e7\u00e3o de enemas (introdu\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e medicamentos l\u00edquidos no organismo por via retal) para esvaziamento do intestino;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Monitoramento \u00a0eletr\u00f4nico fetal de rotina e\/ou cont\u00ednuo;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Deixar a mulher em jejum;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Dizer \u00e0 mulher para prender a respira\u00e7\u00e3o e fazer for\u00e7a no \u00a0parto, em vez de deix\u00e1-la fazer o pr\u00f3prio caminho;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Episiotomia \u00a0a incis\u00e3o feita na regi\u00e3o do per\u00edneo [\u00e1rea muscular entre a vagina e o \u00e2nus] para ampliar o canal de parto como se fosse uma pr\u00e1tica de rotina; ass\u00e9dio e exames de toque invasivos e sucessivos;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Levar o beb\u00ea para longe de sua m\u00e3e ap\u00f3s o nascimento;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>For\u00e7ar a mulher a deitar-se de costas durante o trabalho de parto;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Realizar cesariana eletiva sem indica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Fazer amea\u00e7as, contar mentiras sobre mitos do parto, fazer piadas, humilhar e n\u00e3o respeitar os padr\u00f5es culturais da parturiente;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Impedir \u00a0o acesso \u00a0da gestante, parturiente ou pu\u00e9rpera aos servi\u00e7os de atendimento \u00e0 sa\u00fade que ela necessita em cada etapa da gesta\u00e7\u00e3o at\u00e9 o p\u00f3s-parto;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Impedira realiza\u00e7\u00e3o da amamenta\u00e7\u00e3o do beb\u00ea;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Fazer questionamentos, negar informa\u00e7\u00f5es e assist\u00eancia ou demora no atendimento \u00e0s mulheres em situa\u00e7\u00e3o de abortamento;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Cobran\u00e7a indevidas por planos e profissionais de sa\u00fade;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Impedir \u00a0a presen\u00e7a de acompanhante de livre escolha da gestante em todo o processo;<\/p>\n<p class=\"bodytext\">>>Manobra de Kristeller (press\u00e3o na parte de cima da barriga para for\u00e7ar beb\u00ea a sair)<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em>Fonte: cartilha da Defensoria P\u00fablica do Estado da Bahia<\/em><\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em>*Colaborou Laiz Menezes, com orienta\u00e7\u00e3o da subchefe de reportagem Monique L\u00f4bo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com 3,8 quilos e 51 cent\u00edmetros, Marina nasceu ao som dos gritos do m\u00e9dico e do sil\u00eancio da m\u00e3e cortada por bisturi. 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