{"id":187486,"date":"2022-07-18T06:46:46","date_gmt":"2022-07-18T09:46:46","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/o-estupro-nosso-de-cada-dia\/"},"modified":"2022-07-18T06:46:46","modified_gmt":"2022-07-18T09:46:46","slug":"o-estupro-nosso-de-cada-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/18\/o-estupro-nosso-de-cada-dia\/","title":{"rendered":"O estupro nosso de cada dia"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Quando o filme Irrevers\u00edvel (2002) estreou nos cinemas, s\u00f3 se falava numa cena de estupro que durava cerca de 10 minutos. Eu n\u00e3o conseguia entender a serventia de uma cena assim. Uma sugest\u00e3o de estupro de 10 segundos j\u00e1 \u00e9 inc\u00f4moda e desnecess\u00e1ria, quanto mais numa dura\u00e7\u00e3o dessas. Rapidamente, pensei que s\u00f3 algu\u00e9m muito s\u00e1dico ou masoquista, ou sadomas\u00f4, para gostar de ver uma cena assim.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ao ler detalhes, porque tamb\u00e9m n\u00e3o tive est\u00f4mago para sequer ver as fotos, do estupro cometido pelo m\u00e9dico contra uma parturiente, quase que de imediato lembrei do caso do jogador de futebol brasileiro, condenado por estupro na It\u00e1lia. Mulheres fora de seu estado normal de consci\u00eancia, sedadas, que foram abusadas com a\u00e7\u00f5es bem parecidas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Prontamente podem dizer que foi diferente, porque a gr\u00e1vida estava anestesiada e ia fazer um procedimento em confian\u00e7a, enquanto a outra mulher estava entre homens, alcoolizada. ?? uma maneira de repreender a mulher, por estar bebendo, entre homens, sabendo dos riscos, e jogar parte da culpa no colo dela. Afinal, homens b\u00eabados fazendo merda \u00e9 engra\u00e7ado, perdo\u00e1vel e compreens\u00edvel, mulheres b\u00eabadas s\u00e3o cachorras de conduta desviada. A \u00fanica a\u00e7\u00e3o digna que se pode ter, frente a uma pessoa fora de seu estado de consci\u00eancia, \u00e9 cuidar dela. Ou ao menos n\u00e3o se aproveitar dela. ?? estupro. E culpar a mulher, seja pela bebedeira, pela saia curta, ou por ter sido provocante, \u00e9 dar raz\u00e3o ao estuprador; torna-lhe c\u00famplice da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nossa forma\u00e7\u00e3o machista trata a mulher com viol\u00eancia e como objeto desde a inf\u00e2ncia. O menino, ainda de fraldas, que tenta agarrar a(s) menina(s) para beijar \u00e9 o macho, namorador, esse a\u00ed vai dar trabalho, vai ser um garanh\u00e3o. Claro que se uma menina, sem a t\u00edpica trucul\u00eancia masculina fizesse o mesmo, seria um caso preocupante, conselho de classe, conversas moralistas, psic\u00f3logo e tudo. Porque n\u00f3s homens podemos pegar todo mundo, porque somos os porretas, mas as mulheres n\u00e3o podem dar pra todo mundo, porque viram vagabundas. Inclusive, \u00e9 uma conta que n\u00e3o fecha. Se o homem tem que comer todo mundo, e as mulheres n\u00e3o t\u00eam que dar pra ningu\u00e9m, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 for\u00e7ar a mulher a dar, porque vai faltar gente na empreitada masculina.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Quando escrevi a pe\u00e7a Alugo minha l\u00edngua, fiz quest\u00e3o de colocar uma cena em que se discutia dois casos na inf\u00e2ncia. Num deles, um menino d\u00e1 um soco no outro. Normal. Coisa de meninos. Acontece. Esse a\u00ed \u00e9 porradeiro, n\u00e3o leva desaforo pra casa. No outro, um menino beija outro menino na boca. Esc\u00e2ndalo. Menino com problemas. Reuni\u00e3o de pais. Qual a li\u00e7\u00e3o? Agredir o outro, pode. Amar o outro, n\u00e3o. Ah, mas o homossexualismo (sic) \u00e9 uma doen\u00e7a, \u00e9 um desvio.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em qualquer roda de conversa de homens, quando o assunto \u00e9 mulher, \u00e9 praticamente certo que os coment\u00e1rios ser\u00e3o os mais escrotos, violentos, tratando-as como objetos e trof\u00e9us. E n\u00e3o s\u00e3o poucos os casos em que os homens contam orgulhosos que bateram assim, puxaram cabelo assado, botaram ela para fazer tal coisa de tal modo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A reprodu\u00e7\u00e3o, nos filmes, de cenas que envolvem bater, amarrar, puxar, rasgar, sempre me incomodaram. Claro que existe o fetiche, a fantasia. Mas sempre parecia me soar como limite t\u00eanue onde for\u00e7ar e agredir uma mulher pode ser algo aceito e prazeroso. E da\u00ed para ser estupro, \u00e9 um passo. Inclusive porque o constrangimento feminino, em muitos casos, faz com que mulheres menos conscientes aceitam fazer coisas desagrad\u00e1veis para agradar seu macho, se permitindo certas viol\u00eancias. E a culpa, neste caso, \u00e9 tamb\u00e9m nossa. Talvez por tudo isso, nossa classe de machos h\u00e9teros n\u00e3o entenda ou relativize certos casos de estupro, porque nos s\u00e3o dados certos ???direitos??? que parecem enquadrar certos estupros como aceit\u00e1veis.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Sim, n\u00f3s, machos h\u00e9teros, convivemos com a cultura do estupro. Desde a mais tenra inf\u00e2ncia, passando pelo agarrar for\u00e7ado no carnaval, e pelo embebedamento em festas para tentar comer algu\u00e9m. A linha \u00e9 t\u00eanue, e n\u00e3o fazemos nada para mudar isso.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Quando chamamos de monstro ou de doente o m\u00e9dico preso recentemente, estamos colocando-o uma categoria de exce\u00e7\u00e3o, mostrando com nosso discurso que n\u00e3o somos assim e que condenamos o ato.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">N\u00e3o. Enquanto vivermos ainda na cultura machista em que vivemos, o caso do m\u00e9dico, como o do jogador de futebol, ser\u00e1 mais um caso entre a gente, e n\u00e3o algo do qual n\u00e3o fazemos parte.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">?? preciso mudarmos muito para podermos, com tranquilidade, chamar de monstro e de exce\u00e7\u00e3o o que n\u00f3s alimentamos como o estupro nosso de cada dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o filme Irrevers\u00edvel (2002) estreou nos cinemas, s\u00f3 se falava numa cena de estupro que durava cerca de 10 minutos. 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