{"id":190432,"date":"2022-07-22T09:21:00","date_gmt":"2022-07-22T12:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/eurasia-risco-de-ruptura-democratica-no-brasil-esta-sendo-exagerado-diz-diretor\/"},"modified":"2022-07-22T09:21:00","modified_gmt":"2022-07-22T12:21:00","slug":"eurasia-risco-de-ruptura-democratica-no-brasil-esta-sendo-exagerado-diz-diretor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/22\/eurasia-risco-de-ruptura-democratica-no-brasil-esta-sendo-exagerado-diz-diretor\/","title":{"rendered":"Eurasia: &#8216;Risco de ruptura democr\u00e1tica no Brasil est\u00e1 sendo exagerado&#8217;, diz diretor"},"content":{"rendered":"<p>O risco de ruptura democr\u00e1tica no Brasil est\u00e1 sendo exagerado, mas cresce a probabilidade de um evento como a invas\u00e3o do Capit\u00f3lio no pa\u00eds, avalia Christopher Garman, diretor executivo para as Am\u00e9ricas da Eurasia, uma das principais consultorias de avalia\u00e7\u00e3o de riscos pol\u00edticos do mundo.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o do Capit\u00f3lio aconteceu em 6 de janeiro de 2021, quando partid\u00e1rios do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entraram \u00e0 for\u00e7a no Congresso americano. Eles protestavam contra o resultado da elei\u00e7\u00e3o presidencial que deu a vit\u00f3ria ao democrata Joe Biden, a partir de falsas alega\u00e7\u00f5es de Trump de que teriam acontecido fraudes no processo de vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ul>\n<li>Bolsonaro inventou d\u00favidas sobre sistema eleitoral porque pode perder elei\u00e7\u00f5es, diz professor de Harvard<\/li>\n<\/ul>\n<p>Para o cientista pol\u00edtico da Eurasia, dois fatores tornam improv\u00e1vel uma ruptura da democracia no Brasil: a baixa centraliza\u00e7\u00e3o de poder pol\u00edtico nas m\u00e3os do Executivo e a reduzida propens\u00e3o dos militares a tomarem uma posi\u00e7\u00e3o que pode enfraquecer a institui\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Garman, por\u00e9m, observa com preocupa\u00e7\u00e3o o que considera uma dispers\u00e3o sem precedentes nas pesquisas eleitorais, com pesquisas como Datafolha mostrando Lula \u00e0 frente com 23 pontos de vantagem num eventual segundo turno, enquanto pesquisa Modalmais d\u00e1 apenas 7 pontos. <\/p>\n<p>Como \u00e9 esperado que Lula perca parte de sua vantagem com o in\u00edcio oficial da campanha eleitoral, o diretor da Eurasia avalia que isso pode resultar em algumas pesquisas mostrando Bolsonaro empatado ou at\u00e9 ligeiramente \u00e0 frente nas inten\u00e7\u00f5es de voto para o segundo turno. <\/p>\n<p>&#8220;A diferen\u00e7a entre algumas pesquisas e o resultado nas urnas pode validar a vis\u00e3o da base bolsonarista de que houve fraude. E ent\u00e3o pode haver eventos como greve de caminhoneiros, algo como o 6 de janeiro americano e manifesta\u00e7\u00f5es, mas que tendem a se dissipar&#8221;, afirma. <\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 um risco ao resultado das urnas, mas uma preocupa\u00e7\u00e3o ao longo do tempo, porque nunca \u00e9 saud\u00e1vel, em qualquer democracia, ter 25% da popula\u00e7\u00e3o achando que a elei\u00e7\u00e3o foi roubada. Estamos vendo isso nos Estados Unidos.&#8221; <\/p>\n<p>Garman destaca ainda que um eventual governo Lula deve ter &#8220;lua de mel&#8221; curta e baixas taxas de aprova\u00e7\u00e3o, a exemplo do que vem acontecendo em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, como Chile, Peru e Col\u00f4mbia.  <\/p>\n<p>&#8220;Veja o caso de Gabriel Boric, no Chile. Ele foi eleito recentemente e a taxa de aprova\u00e7\u00e3o dele est\u00e1 menor do que a do Bolsonaro agora&#8221;, observa Garman. <\/p>\n<p>Para o cientista pol\u00edtico, isso significa que a atual &#8220;onda rosa&#8221; da Am\u00e9rica do Sul, com uma guinada \u00e0 esquerda nos resultados de v\u00e1rias das elei\u00e7\u00f5es recentes, pode ter vida curta. <\/p>\n<p>&#8220;No fundo, essa guinada \u00e0 esquerda n\u00e3o \u00e9 um desejo da popula\u00e7\u00e3o a favor da esquerda. ?? desejo de mudan\u00e7a&#8221;, afirma. <\/p>\n<p>&#8220;A direita e a centro-direita estavam mais no poder nesse ciclo eleitoral. Agora, a esquerda chegando ao poder, vai sofrer com os mesmos fatores que levaram \u00e0 queda dos governos de direita e centro-direita. ?? um ambiente muito dif\u00edcil de governabilidade, isso \u00e9 estrutural.&#8221; <\/p>\n<p>Confira abaixo os principais trechos da entrevista.  <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Na sua an\u00e1lise mais recente sobre as elei\u00e7\u00f5es brasileiras, o senhor reduziu a chance de vit\u00f3ria do ex-presidente Lula de 70% para 65% e elevou as chances de Bolsonaro a 30%. Por que o senhor avalia que Bolsonaro chega mais forte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es? <\/b><\/p>\n<p><b>Cristopher Garman &#8211;<\/b> Foi um ac\u00famulo de fatores. Cada um deles, individualmente, n\u00f3s n\u00e3o ach\u00e1vamos que eram suficientes para mudar nossas probabilidades.  <\/p>\n<p>Por exemplo, a &#8220;PEC das Bondades&#8221; [pacote aprovado pelo Congresso que inclui aumento do Aux\u00edlio Brasil, do Aux\u00edlio G\u00e1s e um voucher para caminhoneiros, entre outras medidas], olhando o tempo que demora entre criar um novo benef\u00edcio e ele ter impacto na taxa de aprova\u00e7\u00e3o do presidente ??? o que demora uns 100 dias, olhando 2020 ou 2021 como refer\u00eancia ???, n\u00f3s ach\u00e1vamos que isso, por si s\u00f3, n\u00e3o mudava as probabilidades. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o ach\u00e1vamos que um cen\u00e1rio econ\u00f4mico que est\u00e1 sendo revisado para cima, para melhor, repetidamente ao longo dos \u00faltimos quatro meses era suficiente. Tampouco o respiro na infla\u00e7\u00e3o com a redu\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os da gasolina, por si s\u00f3, era suficiente. <\/p>\n<p>Mas chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que \u00e9 o ac\u00famulo desses tr\u00eas fatores: uma economia performando melhor, com retomada do mercado de trabalho; um al\u00edvio da infla\u00e7\u00e3o nesse pr\u00f3ximo m\u00eas com as medidas do governo; e tamb\u00e9m a PEC das Bondades. <\/p>\n<p>Isso tudo sugere que o presidente tende a entrar nessa disputa um pouco mais forte. J\u00e1 estamos vendo isso nas taxas de aprova\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, que est\u00e3o subindo um pouquinho olhando a m\u00e9dia de todas as pesquisas, com a taxa de aprova\u00e7\u00e3o chegando a 37%, 38%.  <\/p>\n<p>As inten\u00e7\u00f5es de voto n\u00e3o est\u00e3o mudando tanto, mas isso \u00e9 um indicador pr\u00e9vio de que ele entra mais forte na campanha. ?? um ajuste modesto, a estrutura da campanha n\u00e3o muda, ainda achamos que Bolsonaro tem um d\u00e9ficit no grande tema dessa elei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a economia. <\/p>\n<p>Mas devemos entrar num ciclo em que muitos analistas e tamb\u00e9m o mercado financeiro v\u00e3o superestimar as chances do Bolsonaro nessa disputa. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; A imprensa reportou nesta semana que alguns aliados de Bolsonaro viram a reuni\u00e3o dele com diplomatas para atacar o sistema eleitoral brasileiro como um &#8220;tiro no p\u00e9&#8221; no momento em que ele deveria colher os frutos da amplia\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios sociais. Esse epis\u00f3dio muda em algo sua percep\u00e7\u00e3o de que Bolsonaro chega \u00e0 corrida fortalecido? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211;<\/b> N\u00e3o muda nada, isso \u00e9 ru\u00eddo.  <\/p>\n<p>?? claro que essa reuni\u00e3o n\u00e3o ajuda em nada a imagem brasileira no exterior. E \u00e9 um sinal de que podemos ter um ru\u00eddo p\u00f3s elei\u00e7\u00e3o ou entre o primeiro e o segundo turno. Mas temos que lembrar que vivemos num ambiente de opini\u00e3o p\u00fablica de grande desconfian\u00e7a contra o chamado &#8220;sistema&#8221;.  <\/p>\n<p>A credibilidade do Judici\u00e1rio, do Congresso, das lideran\u00e7as pol\u00edticas, da m\u00eddia est\u00e1 em baixa. Pelas mensura\u00e7\u00f5es, o grau de confian\u00e7a \u00e9 baixo no Brasil. Ent\u00e3o, bater no voto eletr\u00f4nico, perante a opini\u00e3o p\u00fablica, n\u00e3o \u00e9 um tema que realmente gera um desagrado muito grande.  <\/p>\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o da massa de eleitores, que vai decidir a elei\u00e7\u00e3o, \u00e9 a economia. E se a economia est\u00e1 um pouco mais forte, isso acaba falando mais alto. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Chama a aten\u00e7\u00e3o que, no modelo de predi\u00e7\u00e3o de chances de reelei\u00e7\u00e3o da Ipsos, utilizado pela Eurasia, com uma aprova\u00e7\u00e3o de 35%, a chance de vit\u00f3ria do incumbente \u00e9 de 36%. Mas com uma aprova\u00e7\u00e3o de 40%, essa chance de vit\u00f3ria salta para 58%. Voc\u00ea v\u00ea chance de a aprova\u00e7\u00e3o de Bolsonaro furar o teto dos 40% e ter essa virada na probabilidade dele de vit\u00f3ria?  <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211;<\/b> A m\u00e9dia de aprova\u00e7\u00e3o de Bolsonaro est\u00e1 hoje em 37%, 38%. Ent\u00e3o, se voc\u00ea pegar esse modelo de chance de reelei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um banco de dados compilado pela Ipsos Public Affairs, de 30 anos e que leva em conta mais de 300 elei\u00e7\u00f5es mundo afora, o Bolsonaro deveria ter chances de se eleger um pouco acima de 40%. <\/p>\n<p>Eu acredito que essa aprova\u00e7\u00e3o dele vai subir mais nesse pr\u00f3ximo m\u00eas com as medidas adotadas pelo governo. <\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso fazer duas ressalvas importantes. A primeira \u00e9 que esse modelo pega a taxa de aprova\u00e7\u00e3o antes da campanha, n\u00e3o durante a campanha. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um modelo que, a cada aumento de aprova\u00e7\u00e3o do governo at\u00e9 o at\u00e9 o dia da elei\u00e7\u00e3o, a probabilidade [de reelei\u00e7\u00e3o] dele aumenta. Em tese, voc\u00ea deveria pegar a taxa de aprova\u00e7\u00e3o hoje e fechar a lojinha.  <\/p>\n<p>O ponto n\u00famero dois \u00e9 que n\u00e3o utilizamos esse modelo de forma isolada. Pegamos modelos de previs\u00e3o eleitorais distintos para chegar a uma probabilidade mais consolidada.  <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se esse modelo daria uma chance de o presidente se reeleger de 40 e poucos por cento, outro modelo diz que o candidato mais forte no principal tema da campanha ganha em 85% dos casos. O grande tema dessa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 economia e nos parece que o presidente est\u00e1 fraco nesse tema. <\/p>\n<p>Vou dar um exemplo: elei\u00e7\u00e3o americana. Donald Trump estava com uma taxa de aprova\u00e7\u00e3o de 42% e perdeu por 5 pontos percentuais contra Biden. Porque o grande tema da elei\u00e7\u00e3o era a covid-19 e Trump ia mal no principal tema. Ent\u00e3o \u00e9 preciso considerar a mescla dos dois modelos para chegar a um n\u00famero [de probabilidade de reelei\u00e7\u00e3o].  <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Quais s\u00e3o os desafios para as principais candidaturas? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211; <\/b>Acredito que o Planalto est\u00e1 agindo corretamente, est\u00e1 focando no tema da economia, quase exclusivamente. N\u00e3o est\u00e1 focando no tema da corrup\u00e7\u00e3o como um diferencial com Lula ??? embora seja claro que vai fazer isso ao longo da campanha, mas eles sabem que a preocupa\u00e7\u00e3o com corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 muito menor hoje do que era h\u00e1 quatro anos atr\u00e1s <\/p>\n<p>Ent\u00e3o o presidente est\u00e1 fazendo o que pode, mas nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 um buraco grande, dif\u00edcil de superar. At\u00e9 porque, se a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica deteriora ao longo dos \u00faltimos tr\u00eas anos, uma melhora na reta final da campanha dificilmente vira o jogo. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o o desafio do Bolsonaro \u00e9 fazer um marketing dessas melhoras e ter uma campanha negativa bem-sucedida contra o ex-presidente Lula. <\/p>\n<p>Ele deve tentar minar a credibilidade do Lula no tema econ\u00f4mico, usando a quest\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o. Tentar associar que os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o est\u00e3o ligados ao desastre econ\u00f4mico no Brasil e por isso n\u00e3o se pode confiar em Lula para manejar a economia num momento dif\u00edcil.  <\/p>\n<p>Ent\u00e3o a combina\u00e7\u00e3o de vender o peixe do que o governo entregou na economia de um lado, e tentar desmontar o Lula do outro, esse \u00e9 o desafio do Bolsonaro. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; E quanto ao desafio de Lula?  <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211;<\/b> O desafio do Lula ser\u00e1 explorar a vantagem que ele tem na economia. Eu brinco que quem vai copiar o Trump nessa elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o Bolsonaro, \u00e9 o Lula. A mensagem central da campanha \u00e9 &#8220;Make Brasil great again&#8221; [&#8220;Vamos tornar o Brasil grande de novo&#8221;, uma refer\u00eancia ao slogan da campanha de Trump em 2016, &#8220;Make America great again&#8221;].  <\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele vai dizer ao eleitor, &#8220;quando eu era presidente, voc\u00ea podia ir ao mercado comprar picanha, agora voc\u00ea s\u00f3 consegue comprar ovo&#8221;.  Vai lembrar que as condi\u00e7\u00f5es de vida eram melhores l\u00e1 atr\u00e1s.  <\/p>\n<p>O mote da campanha de Lula vai ser aprofundar essa mensagem e tentar reduzir os danos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, porque essa \u00e9 uma vulnerabilidade pela qual ele vai ser atacado. <\/p>\n<p>Por isso, a &#8220;gordura&#8221; que o Lula tem [nas inten\u00e7\u00f5es de voto], deve diminuir um pouco na campanha. A gente est\u00e1 esperando isso. Ent\u00e3o ele deve usar um discurso de &#8220;uni\u00e3o nacional&#8221; para tentar reduzir esse flanco e martelar no tema da economia. <\/p>\n<p>O Bolsonaro talvez tente deslocar o tema central da campanha da economia para a pauta de costumes, corrup\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a, que \u00e9 um territ\u00f3rio mais favor\u00e1vel para ele. Ent\u00e3o parte da campanha ser\u00e1 definir qual vai ser o debate central. Mas, olhando hoje, as vulnerabilidades do Bolsonaro s\u00e3o bem maiores do que as do Lula, na nossa vis\u00e3o. <\/p>\n<p>Se errarmos, \u00e9 porque estamos subestimando o ganho relativo econ\u00f4mico esse ano e as vulnerabilidades do Lula em termos da sua imagem eleitoral. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Para a terceira via, quais s\u00e3o os desafios e por que ela n\u00e3o conseguiu se consolidar? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211; <\/b>Sempre argumentamos que a grande maioria dos analistas estava colocando mal a pergunta sobre a terceira via. A terceira via n\u00e3o dependia da uni\u00e3o em torno de um nome ou de um nome espec\u00edfico. O que a terceira via n\u00e3o tinha \u00e9 espa\u00e7o. <\/p>\n<p>Constru\u00edmos um banco de dados de 226 elei\u00e7\u00f5es, com sistemas de dois turnos e onde o Executivo concorre \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. Consideramos elei\u00e7\u00f5es na Europa, Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica, \u00c1sia e tamb\u00e9m elei\u00e7\u00f5es estaduais e municipais no Brasil. E vimos que em s\u00f3 7% dos casos um governante concorrendo \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega no segundo turno. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vimos que, entre governantes que t\u00eam uma taxa de aprova\u00e7\u00e3o acima de 30%, \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o chegar. Quando tem um governante com taxa de aprova\u00e7\u00e3o \u00f3timo\/boa abaixo de 20%, a\u00ed corre grande risco. Em metade dos casos, esse governante n\u00e3o chega no segundo turno. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no fundo, a grande vari\u00e1vel para a terceira via n\u00e3o era o nome, era o grau de fragilidade do Bolsonaro. Na medida em que a aprova\u00e7\u00e3o do Bolsonaro foi subindo ao longo desse ano, fomos reduzindo a chance da terceira via chegar no segundo turno.  <\/p>\n<p>Iniciamos o ano com probabilidade de 20% de um candidato da terceira via chegar [ao segundo turno]. Mas essa probabilidade foi reduzida para 5%, \u00e0 medida que a aprova\u00e7\u00e3o do presidente foi subindo. <\/p>\n<p>Porque o Lula tem vaga quase garantida, dado os 30% de [eleitores que se dizem] petistas nessa elei\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a terceira via s\u00f3 teria chance se o Bolsonaro se enfraquecesse mais e o oposto ocorreu. Ent\u00e3o se \u00e9 [Simone] Tebet, Eduardo Leite, n\u00e3o importa.  <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Por que o senhor avalia que a chance de uma ruptura democr\u00e1tica no Brasil segue baixa, mesmo ap\u00f3s a reuni\u00e3o de Bolsonaro com os diplomatas e a escalada ret\u00f3rica dele em termos de amea\u00e7as \u00e0 democracia? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211; <\/b>Geralmente rupturas democr\u00e1ticas acontecem em dois contextos. Em sistemas pol\u00edticos que t\u00eam uma centraliza\u00e7\u00e3o de poderes na m\u00e3o do Executivo maior. E tamb\u00e9m em contextos em que o Executivo e a lideran\u00e7a est\u00e3o mais fortes. <\/p>\n<p>Creio que nenhuma dessas condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o dadas no Brasil. O pa\u00eds tem um sistema pol\u00edtico capilarizado, com m\u00faltiplos pontos de veto. Se voc\u00ea comparar com outros sistemas democr\u00e1ticos em mercados emergentes, \u00e9 um sistema pol\u00edtico que tem o poder do Executivo muito restrito. <\/p>\n<p>O Congresso \u00e9 independente e dif\u00edcil de construir maioria. O Judici\u00e1rio e o Minist\u00e9rio P\u00fablico s\u00e3o independentes. Tem uma m\u00eddia muito atuante, um sistema federativo muito descentralizado.  <\/p>\n<p>No fundo, todo esse ru\u00eddo \u00e9 porque o presidente tem grandes restri\u00e7\u00f5es para sua atua\u00e7\u00e3o. E ele foi eleito numa plataforma contra v\u00e1rios desses atores, devido ao grau de desconfian\u00e7a cr\u00f4nica que eles t\u00eam perante a opini\u00e3o p\u00fablica. O presidente atua nessa desconfian\u00e7a. Ent\u00e3o eu vejo o tensionamento atual at\u00e9 como um sinal de robustez institucional. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; E quanto a um eventual apoio dos militares? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211; <\/b>Olhando especificamente para os militares, acredito que existem sim generais, principalmente os palacianos, que compraram as dores do presidente, acreditando que os tribunais n\u00e3o est\u00e3o agindo de forma imparcial.  <\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o quer dizer que eles v\u00e3o querer desrespeitar o resultado das urnas, sem evid\u00eancia clara de fraude. Acredito que os militares v\u00e3o estar muito reticentes de tomar uma posi\u00e7\u00e3o que pode enfraquecer a institui\u00e7\u00e3o. O desejo de preserva\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o vai falar mais alto. E toda a classe pol\u00edtica tamb\u00e9m tende a dar apoio ao novo presidente que for eleito.  <\/p>\n<p>Acredito ser muito dif\u00edcil ter uma ruptura. Esse risco est\u00e1 sendo exagerado. O que nos preocupa \u00e9 um evento como o 6 de janeiro [data da invas\u00e3o do Capit\u00f3lio por seguidores de Donald Trump inconformados com a derrota do ex-presidente americano por Biden]. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; O senhor tamb\u00e9m tem expressado uma preocupa\u00e7\u00e3o com as pesquisas eleitorais recentes. Por qu\u00ea? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211; <\/b>Nos preocupa que as pesquisas de opini\u00e3o mostram um grau de dispers\u00e3o in\u00e9dito. O Datafolha, por exemplo, mostra Lula \u00e0 frente com 23 pontos de vantagem [no cen\u00e1rio de segundo turno], enquanto a Modalmais d\u00e1 apenas 7 pontos. <\/p>\n<p>Se hoje a m\u00e9dia das pesquisas d\u00e1 a Lula uma vantagem de 15 pontos sobre Bolsonaro no segundo turno, e isso mais \u00e0 frente cai a 7 ou 8 pontos, o que nos parece razo\u00e1vel, voc\u00ea pode ter pesquisas mostrando Bolsonaro empatado ou at\u00e9 ligeiramente \u00e0 frente.  <\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre algumas pesquisas e o resultado nas urnas pode validar a vis\u00e3o da base bolsonarista de que houve fraude. Ent\u00e3o pode haver eventos como greve de caminhoneiros, algo como o 6 de janeiro americano e manifesta\u00e7\u00f5es, mas que tendem a se dissipar. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um risco ao resultado das urnas, mas uma preocupa\u00e7\u00e3o ao longo do tempo, porque nunca \u00e9 saud\u00e1vel, em qualquer democracia, ter 25% da popula\u00e7\u00e3o achando que a elei\u00e7\u00e3o foi roubada. Estamos vendo isso nos Estados Unidos. Isso gera efeitos pol\u00edticos l\u00e1 na frente. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Quais s\u00e3o os efeitos de ter uma parcela da popula\u00e7\u00e3o descrente do resultado das elei\u00e7\u00f5es? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211;<\/b> Deixa a oposi\u00e7\u00e3o mais virulenta. E a polariza\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica tende a contaminar o Congresso. Vai ter alas bolsonaristas em v\u00e1rios partidos que n\u00e3o v\u00e3o querer trabalhar com um governo Lula, ent\u00e3o a capacidade de o Centr\u00e3o entregar votos \u00e9 menor.  <\/p>\n<p>N\u00e3o acho que a democracia est\u00e1 em risco, mas quando voc\u00ea tem atores mais distantes, tem menos capacidade de di\u00e1logo e condi\u00e7\u00f5es de governabilidade mais dif\u00edceis  <\/p>\n<p>Isso \u00e9 um fen\u00f4meno que estamos vendo na Am\u00e9rica Latina inteira. Essa desconfian\u00e7a cr\u00f4nica n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no Brasil, est\u00e1 no Chile, no Peru, na Col\u00f4mbia. ?? um ambiente de &#8220;lua de mel&#8221; curta e taxas de aprova\u00e7\u00e3o mais baixas. <\/p>\n<p>Veja o caso de Gabriel Boric, no Chile. Ele foi eleito recentemente e a taxa de aprova\u00e7\u00e3o dele est\u00e1 menor do que a do Bolsonaro agora. <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Isso pode significar que essa &#8220;onda rosa&#8221; da Am\u00e9rica do Sul, essa guinada \u00e0 esquerda em diversos pa\u00edses, pode ter vida curta? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211; <\/b>Sim. Acredito que estamos num ambiente onde a capacidade de um governante ir bem perante a opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 estruturalmente baixa. No fundo, essa guinada \u00e0 esquerda n\u00e3o \u00e9 um desejo da popula\u00e7\u00e3o a favor da esquerda. ?? desejo de mudan\u00e7a. <\/p>\n<p>A direita e a centro-direita estavam mais no poder nesse ciclo eleitoral. Agora, a esquerda chegando ao poder, vai sofrer com os mesmos fatores que levaram \u00e0 queda dos governos de direita e centro-direita. ?? um ambiente muito dif\u00edcil de governabilidade, isso \u00e9 estrutural. <\/p>\n<p>J\u00e1 v\u00edamos isso antes da pandemia. Taxas de aprova\u00e7\u00e3o menores, desejo de mudan\u00e7a, desconfian\u00e7a cr\u00f4nica. A pandemia, com o choque inflacion\u00e1rio, exacerbou essa revolta. <\/p>\n<p>Muitos analistas dizem que a elei\u00e7\u00e3o de 2018 foi at\u00edpica e que os eleitores est\u00e3o agora se voltando dos <i>outsiders<\/i> para candidatos com mais experi\u00eancia. Mas esse diagn\u00f3stico n\u00e3o podia estar mais errado. <\/p>\n<p>Todos os fatores de desconfian\u00e7a que levaram \u00e0 elei\u00e7\u00e3o do Bolsonaro foram aprofundados. O que n\u00f3s temos s\u00e3o duas candidaturas com credenciais contra o <i>establishment<\/i>. Bolsonaro de um lado, e Lula dizendo que foi colocado na pris\u00e3o por causa dos ricos e poderosos. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o veja que a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 <i>outsider <\/i>ou <i>insider<\/i>, mas candidaturas com credenciais contra o <i>establishment<\/i>. O desejo contra o <i>establishment<\/i> s\u00f3 se aprofundou, n\u00e3o amenizou. 2018 \u00e9 o novo normal, n\u00e3o \u00e9 um ponto fora da curva.  <\/p>\n<p><b>BBC News Brasil &#8211; Por fim, como o senhor v\u00ea as chances de um ataque violento contra Lula ou Bolsonaro e o que isso poderia representar para a corrida eleitoral? <\/b><\/p>\n<p><b>Garman &#8211;<\/b> ?? muito dif\u00edcil colocar probabilidades para isso, \u00e9 um tipo de evento de risco de cauda [com probabilidade muito baixa de acontecer]. Mas quase aconteceu com Bolsonaro quatro anos atr\u00e1s, ent\u00e3o eu diria que esse risco est\u00e1 presente. <\/p>\n<p>Se um desastre acontecer para qualquer um dos lados, a tend\u00eancia \u00e9 de refor\u00e7ar a candidatura que substituir qualquer um dos dois. Ent\u00e3o o jogo pode mudar mais se o Bolsonaro sofrer um atentado, porque ele est\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n<p><i>&#8211; Texto originalmente publicado em <\/i>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-62246930<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? 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