{"id":191461,"date":"2022-07-23T21:47:36","date_gmt":"2022-07-24T00:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/como-onda-de-saques-por-fome-deu-origem-a-milicia-em-municipio-do-rj\/"},"modified":"2022-07-23T21:47:36","modified_gmt":"2022-07-24T00:47:36","slug":"como-onda-de-saques-por-fome-deu-origem-a-milicia-em-municipio-do-rj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/23\/como-onda-de-saques-por-fome-deu-origem-a-milicia-em-municipio-do-rj\/","title":{"rendered":"Como onda de saques por fome deu origem \u00e0 mil\u00edcia em munic\u00edpio do RJ"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 200 anos, o Brasil se tornava independente. H\u00e1 100, assistia \u00e0 Semana de Arte Moderna. Mas um outro acontecimento hist\u00f3rico, menos conhecido, completa 60 anos em 2022.<\/p>\n<p>Trata-se da maior onda de saques da hist\u00f3ria do pa\u00eds, que teve in\u00edcio em Duque de Caxias e se espalhou por toda a Baixada Fluminense.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, \u00e0 fome e a uma greve geral, o quebra-quebra aos gritos de &#8220;Queremos comer&#8221; e &#8220;Saque&#8221; deixou ao menos 42 mortos, 700 feridos e mais de 2 mil estabelecimentos atingidos, muitos dos quais nunca se recuperaram.<\/p>\n<ul>\n<li>&#8216;At\u00e9 o feij\u00e3o nos esqueceu&#8217;: o livro de 1960 que poderia ter sido escrito nas favelas de 2021<\/li>\n<\/ul>\n<p>&#8220;A respeito dos dist\u00farbios, o ent\u00e3o prefeito Adolfo David declararia ao Jornal do Brasil que tinha assistido a uma verdadeira batalha, onde mulheres, homens e crian\u00e7as gritavam que preferiam morrer lutando, a morrer de fome&#8221;, relatam Rog\u00e9rio Torres e Newton Menezes, no livro <i>Sonega\u00e7\u00e3o, Fome, Saque<\/i> (1987), que relata os acontecimentos de 5 de julho de 1962.<\/p>\n<p>Em resposta ao epis\u00f3dio, comerciantes da Baixada Fluminense passaram a patrocinar grupos armados para proteger suas lojas. Segundo pesquisadores, os grupos conhecidos como Brigada de Defesa da Fam\u00edlia Caxiense e Turma do Esculacho marcam a origem das mil\u00edcias na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2019, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro estimava que as mil\u00edcias atuavam em 14 cidades do Estado do Rio e em 26 bairros da capital, com mais de 2 milh\u00f5es de pessoas vivendo sob o jugo de paramilitares.<\/p>\n<h2>O que estava acontecendo no Brasil em 1962 <\/h2>\n<p>Em agosto de 1961, com apenas sete meses de mandato, J\u00e2nio Quadros renunciou \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica em meio a uma crise pol\u00edtica, numa tentativa de voltar nos bra\u00e7os do povo, com mais poderes. O tiro saiu pela culatra, e a ren\u00fancia foi prontamente aceita pelo Congresso. <\/p>\n<ul>\n<li>J\u00e2nio Quadros: como foi a ren\u00fancia do presidente do Brasil h\u00e1 60 anos<\/li>\n<\/ul>\n<p>O vice-presidente Jo\u00e3o Goulart estava na China, numa miss\u00e3o oficial armada por J\u00e2nio, e militares tentaram impedir a posse dele como presidente. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, liderou o movimento pela legalidade, conseguindo impedir o golpe.  <\/p>\n<p>Mas o Congresso apenas permitiu a posse de Jango, em setembro daquele ano, sob um regime parlamentarista, tendo Tancredo Neves como primeiro-ministro. Foi uma forma de limitar os poderes do pol\u00edtico percebido pelos militares e setores da sociedade civil como &#8220;subversivo&#8221; e &#8220;comunista&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Jo\u00e3o Goulart assume, mas a estrutura social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica do pa\u00eds estava numa crise profunda. O pr\u00f3prio Jango expressava todo um movimento cr\u00edtico a essa realidade. Ele pregava grandes mudan\u00e7as, com uma base pol\u00edtica vinda do trabalhismo e com apoio de movimentos sociais e sindicais, que cresciam muito nessa \u00e9poca&#8221;, lembra Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ) e autor do livro <i>Dos bar\u00f5es ao exterm\u00ednio: Uma hist\u00f3ria de viol\u00eancia na Baixada Fluminense<\/i> (2020), em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Naquele in\u00edcio dos anos 1960, uma s\u00e9rie de fatores contribu\u00edam para uma crise econ\u00f4mica profunda. Entre eles: um endividamento externo crescente, herdado das pol\u00edticas desenvolvimentistas do governo Juscelino Kubitschek (1956-61); elevados d\u00e9ficits comerciais e redu\u00e7\u00e3o da capacidade de importa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds; e um aumento da infla\u00e7\u00e3o que se agravava desde o final dos anos 1950.<\/p>\n<p>Em 1960, a infla\u00e7\u00e3o acumulada foi de 25,4%; no ano seguinte, de 34,7%. Em 1962, o ano do grande saque, a alta de pre\u00e7os chegaria a 50,1% e a 78,4% em 1963.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma infla\u00e7\u00e3o galopante, um aumento acelerado de pre\u00e7os das mercadorias da cesta b\u00e1sica&#8221;, afirma Marl\u00facia Santos de Souza, coordenadora geral no Centro de Refer\u00eancia Patrimonial e Hist\u00f3rico de Duque de Caxias (CRPH\/DC).<\/p>\n<p>&#8220;Come\u00e7a ent\u00e3o uma press\u00e3o dos movimentos feministas no Brasil inteiro, incluindo S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. Os movimentos de mulheres &#8216;Panela Vazia&#8217;, contra o custo de vida, contra a carestia v\u00e3o pressionar o governo no sentido de controlar os pre\u00e7os dos alimentos.&#8221;<\/p>\n<p>Com pre\u00e7os tabelados pela Cofap (Comiss\u00e3o Federal de Abastecimento e Pre\u00e7os), comerciantes retiravam mercadoria das prateleiras, para vend\u00ea-las a pre\u00e7os mais altos no mercado paralelo.<\/p>\n<p>&#8220;Faltava arroz, p\u00e3o, feij\u00e3o, enfim, raro foi o dia em que um ou mais produtos n\u00e3o entraram no &#8216;index&#8217; dos sonegadores. Parecia que o pa\u00eds vivia em clima de racionamento de guerra. Como sempre, mais uma vez o governo Jango era responsabilizado pela carestia e pela falta de g\u00eaneros&#8221;, escrevem Torres e Menezes.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 press\u00e3o crescente da sociedade civil, o primeiro-ministro Tancredo Neves renuncia e Jo\u00e3o Goulart indica San Tiago Dantas para substitu\u00ed-lo. Dantas tinha o apoio da esquerda do Congresso e do movimento sindical, mas sua indica\u00e7\u00e3o foi vetada pelos setores conservadores.<\/p>\n<p>Em resposta ao veto e \u00e0 indica\u00e7\u00e3o para o cargo do conservador Auro de Moura Andrade, o movimento sindical convocou uma greve geral para o dia 5 de julho.<\/p>\n<h2>5 de julho de 1962: da greve ao saque <\/h2>\n<p>&#8220;Frente \u00e0 fome e \u00e0 crise econ\u00f4mica que se abatia sobre a Baixada e temerosos de perderem seus empregos, os trabalhadores sa\u00edam de madrugada dos bairros mais distantes de Duque de Caxias e se aglomeravam pr\u00f3ximos \u00e0 Pra\u00e7a do Pacificador, no centro do munic\u00edpio&#8221;, escreve Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves, em seu livro, baseado em tese de doutorado defendida no Departamento de Sociologia da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo). <\/p>\n<p>Frustradas pela impossibilidade de chegar ao trabalho, cerca de 20 mil pessoas se concentravam nos arredores da pra\u00e7a por volta das 4h30 da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Foi quando correu a not\u00edcia de que, em uma casa comercial pr\u00f3xima, havia feij\u00e3o, produto que naquele momento tinha praticamente sumido da mesa das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>&#8220;Imediatamente ap\u00f3s o saque da Casa da Banha, localizada na antiga estrada Rio-Petr\u00f3polis, quase ao lado da Galeria Baltazar, foi a vez dos demais estabelecimentos que estavam pr\u00f3ximos: Armaz\u00e9m Drag\u00e3o, Supermercado S\u00e3o Vicente, Mercadinho Nacional&#8221;, relatam Torres e Menezes.<\/p>\n<p>&#8220;A popula\u00e7\u00e3o carregava tudo que encontrava e, dos armaz\u00e9ns, passou aos a\u00e7ougues e padarias. Pelas ruas, homens, mulheres, crian\u00e7as e velhos transportavam da maneira que podiam os mais diversos artigos: latas de biscoitos, sacos de arroz, feij\u00e3o, mantas de carne-seca e at\u00e9 mesmo pe\u00e7as inteiras de carne&#8221;, completam os autores.<\/p>\n<p>Do centro de Caxias, a revolta se espalha por outros munic\u00edpios da Baixada, como S\u00e3o Jo\u00e3o do Meriti e Nova Igua\u00e7u. Ao meio-dia, praticamente todo o com\u00e9rcio de alimentos j\u00e1 havia sido saqueado, sendo poupados apenas estabelecimentos que estenderam na fachada a bandeira do Brasil, com faixas de apoio &#8220;\u00e0 legalidade democr\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n<h2>Saqueadores saqueados, linchamentos e mortes <\/h2>\n<p>Numa padaria na Av. Presidente Vargas, dezenas de pessoas que sa\u00edam com produtos saqueados foram atacadas por outras que esperavam do lado de fora.<\/p>\n<p>O dono de uma loja de materiais de constru\u00e7\u00e3o que, armado, tentou defender uma padaria vizinha, foi morto com um paralelep\u00edpedo. Um comerciante portugu\u00eas atingiu um menor de idade ao atirar contra a multid\u00e3o, sendo posteriormente linchado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um jovem de 14 anos ser ferido durante tiroteio, o dono de uma boate foi atacado a pedradas e todos os m\u00f3veis do estabelecimento empilhados na rua e incendiados.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s ouvimos a quantidade de pessoas que vinham na frente, gritando &#8216;Quebra! Quebra!&#8217;, e os outros que vinham atr\u00e1s j\u00e1 saqueando tudo, quebrando todas as portas&#8221;, recordou a aposentada Maria Concebida, em entrevista sobre suas mem\u00f3rias daquele 5 de julho, ao document\u00e1rio<i> 1962: O Ano do Saque<\/i> (2014), de Rodrigo Dutra e Victor Ferreira.<\/p>\n<p>&#8220;Onde tivesse uma porta fechada que fosse de com\u00e9rcio, quebrava. E carregava de tudo. Ent\u00e3o meu marido [falou]: &#8216;Eu vou entrar, porque n\u00f3s vamos passar fome'&#8221;, contou Concebida.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s levamos arroz, feij\u00e3o e farinha. Era a \u00fanica coisa mais f\u00e1cil para carregar. N\u00e3o roubava as coisas de dentro das casas, n\u00e3o. Era s\u00f3 alimento. No fim, os bebuns come\u00e7aram a carregar as outras coisas: cacha\u00e7a, bebida, tudo.&#8221;<\/p>\n<p>A greve geral e a onda de saques sem precedentes estamparam as capas e p\u00e1ginas internas de todos os jornais na sexta-feira, 6 de julho de 1962.<\/p>\n<p>Sob a manchete &#8220;Explos\u00e3o popular no Estado do Rio: 700 v\u00edtimas e dano de 1 bilh\u00e3o&#8221;, o Jornal do Brasil reportava: &#8220;O Pal\u00e1cio do Ing\u00e1 [ent\u00e3o sede do Governo Fluminense] informou ontem \u00e0 noite que 42 pessoas morreram, e 700 foram feridas em quatro Munic\u00edpios do Estado do Rio, onde a popula\u00e7\u00e3o se revoltou e, ganhando as ruas, invadiu um a um todos os armaz\u00e9ns, emp\u00f3rios e mercadinhos, num saque sistem\u00e1tico que causou preju\u00edzos de Cr$ 1 bilh\u00e3o [1 bilh\u00e3o de cruzeiros]. (&#8230;) A manifesta\u00e7\u00e3o foi a maior dessa esp\u00e9cie j\u00e1 verificada no Pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>As consequ\u00eancias da revolta popular <\/h2>\n<p>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio, da UFFRJ, conta que muitos estabelecimentos comerciais da Baixada nunca se recuperaram desse epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Num relat\u00f3rio interno, a Associa\u00e7\u00e3o Comercial e Industrial de Duque de Caxias concluiu que 30% dos comerciantes saqueados n\u00e3o se restabeleceram, 50% voltaram em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e apenas 20% retornaram em condi\u00e7\u00f5es normais, cita o professor, em seu livro.<\/p>\n<p>&#8220;Os processos de indeniza\u00e7\u00e3o eram complexos, pois eram necess\u00e1rias regulariza\u00e7\u00f5es e documenta\u00e7\u00f5es para acessar. Ent\u00e3o os comerciantes mais din\u00e2micos, mais organizados, mais poderosos conseguiram obter recursos volumosos e reestruturam seus mercados. ?? quando surgem supermercados como Sendas e Casa da Banha&#8221;, diz Marl\u00facia, do CRPH\/DC, sobre o processo de concentra\u00e7\u00e3o do varejo em grandes redes, ap\u00f3s a onda de depreda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra consequ\u00eancia do levante popular de 5 de julho foi um refor\u00e7o na seguran\u00e7a por parte dos comerciantes atrav\u00e9s de grupos armados.<\/p>\n<p>&#8220;O delegado convocou volunt\u00e1rios para o policiamento da cidade. Estes, em grupo de 12, formariam a Brigada de Defesa da Fam\u00edlia Caxiense. Surgia assim uma for\u00e7a paramilitar da qual faziam parte muitos jovens que pertenciam a fam\u00edlias abastadas da cidade&#8221;, escreve Jos\u00e9 Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p>Eronides Batista, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Comercial, assim justificou a cria\u00e7\u00e3o da mil\u00edcia, em reportagem da revista Fatos &#038; Fotos, de 21 de julho de 1962:<\/p>\n<p>&#8220;Mil\u00edcia \u00e9 forma de express\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 comando militar. Eles apenas procuram evitar novos saques e perturba\u00e7\u00f5es; e at\u00e9 hoje n\u00e3o houve incidentes entre eles e o povo. N\u00f3s n\u00e3o somos favor\u00e1veis, \u00e9 evidente, \u00e0 fome. Mas n\u00e3o somos respons\u00e1veis por ela&#8221;, defendeu Batista.<\/p>\n<p>O professor da UFFRJ avalia que essa mil\u00edcia nascente \u00e9 diferente por exemplo, do grupo de Ten\u00f3rio Cavalcanti, pol\u00edtico de Caxias conhecido como o &#8220;Homem da Capa Preta&#8221;, vestimenta que usava para esconder a submetralhadora que sempre carregava, chamada Lurdinha.<\/p>\n<p>&#8220;Cavalcanti tinha um grupo de capangas, mas de \u00e2mbito privado, pessoal. O que acontece em 1962, que \u00e9 a indica\u00e7\u00e3o de algo diferenciado, \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de grupos de vigilantes, homens que v\u00e3o pegar em armas para proteger o com\u00e9rcio, muitos deles ligados \u00e0 classe m\u00e9dia, como a Turma do Esculacho&#8221;, cita Jos\u00e9 Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p>Ele destaca que muitos desses &#8220;playboys armados&#8221; se projetam politicamente a partir de sua a\u00e7\u00e3o nas mil\u00edcias, caso, por exemplo de Hydekel de Freitas, genro de Ten\u00f3rio Cavalcanti, que depois se tornaria prefeito de Duque de Caxias e deputado federal.<\/p>\n<p>&#8220;Surge da\u00ed a ideia da forma\u00e7\u00e3o de uma estrutura de seguran\u00e7a contra uma amea\u00e7a que s\u00e3o os pr\u00f3prios populares da cidade, ao passarem necessidade e fome. ?? o embri\u00e3o de uma estrutura apoiada pelo Estado, financiada pelos comerciantes e tendo por tr\u00e1s um apoio pol\u00edtico que a mant\u00e9m&#8221;, diz o pesquisador, sobre os paralelos com a mil\u00edcia atual.<\/p>\n<p>Mas os resultados da greve geral n\u00e3o foram apenas negativos. Foi dessa mobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora que nasceram conquistas como o 13\u00ba sal\u00e1rio.<\/p>\n<h2>De 1962 a 2022 <\/h2>\n<p>Para Jos\u00e9 Claudio, passados 60 anos, as desigualdades sociais do pa\u00eds se intensificaram, com um fator in\u00e9dito: a pandemia, que penalizou mais as camadas vulner\u00e1veis. Ele cita ainda a volta da infla\u00e7\u00e3o e da fome, como elementos que permitem um paralelo entre agora e ent\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, naquela \u00e9poca, havia um movimento popular e grupos sindicais muito fortes, que queriam modifica\u00e7\u00f5es na sociedade. Esses grupos estavam se organizando e se movimentando. Hoje, n\u00e3o h\u00e1 um movimento forte por parte das camadas populares para sanar as desigualdades sociais e uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desses grupos dentro do campo da esquerda&#8221;, avalia o soci\u00f3logo.<\/p>\n<p>&#8220;Ao contr\u00e1rio, h\u00e1 um crescimento de grupos de extrema direita. Movimentos que querem manter essa popula\u00e7\u00e3o controlada a partir de discursos conservadores, moralistas e que apoiam o exterm\u00ednio, como &#8216;bandido bom \u00e9 bandido morto&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>O pesquisador observa que as mil\u00edcias e os grupos de exterm\u00ednio se mantiveram ao longo da ditadura militar, aprofundando suas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e territoriais.<\/p>\n<p>&#8220;Eles come\u00e7am a se eleger nos anos 1990, como vereadores, prefeitos e deputados estaduais nessa regi\u00e3o da Baixada. At\u00e9 que, a partir de meados dos anos 1990, as mil\u00edcias v\u00e3o se configurar como s\u00e3o hoje, uma estrutura mais ampla, com v\u00e1rios mercados de bens e servi\u00e7os que eles v\u00e3o monopolizar nas \u00e1reas que controlam&#8221;, diz o professor.<\/p>\n<p>&#8220;O poder desses grupos hoje \u00e9 muito mais expressivo do que aquele grupo da Turma do Esculacho, que pegava em armas. Hoje j\u00e1 superamos isso em muito: s\u00e3o mais de 2 milh\u00f5es de habitantes atingidos pela mil\u00edcia somente no Rio de Janeiro, 14 munic\u00edpios com presen\u00e7a maci\u00e7a de milicianos, um territ\u00f3rio de 348 km quadrados onde eles est\u00e3o atuando e, na cidade do Rio, 57% do territ\u00f3rio ocupado por grupos criminais est\u00e1 na m\u00e3o de mil\u00edcias. Ent\u00e3o isso mudou muito e, a meu ver, piorou muito, daquele momento para o atual.&#8221;<\/p>\n<p><i>&#8211; Texto originalmente publicado em:  <\/i>https:\/\/bbc.in\/3J82yY3<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? Inscreva-se no nosso canal! <\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 200 anos, o Brasil se tornava independente. H\u00e1 100, assistia \u00e0 Semana de Arte Moderna. 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