{"id":191685,"date":"2022-07-24T12:43:19","date_gmt":"2022-07-24T15:43:19","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/150-milhoes-de-anos-em-risco-exploracao-predatoria-ameaca-pedra-do-calice\/"},"modified":"2022-07-24T12:43:19","modified_gmt":"2022-07-24T15:43:19","slug":"150-milhoes-de-anos-em-risco-exploracao-predatoria-ameaca-pedra-do-calice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/24\/150-milhoes-de-anos-em-risco-exploracao-predatoria-ameaca-pedra-do-calice\/","title":{"rendered":"150 milh\u00f5es de anos em risco: explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria amea\u00e7a Pedra do C\u00e1lice"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Pains ??? Erguida sobre uma das maiores reservas de calc\u00e1rio do pa\u00eds, a cidade de Pains, no Centro-Oeste de Minas, fica em uma regi\u00e3o que abriga outra riqueza, essa ainda bastante desconhecida e, ao contr\u00e1rio da outra, pouco explorada: um enorme patrim\u00f4nio espeleol\u00f3gico e arqueol\u00f3gico. Mas, sob a n\u00e9voa da extra\u00e7\u00e3o mineral e circundada por dezenas de empresas que retiram e tratam a subst\u00e2ncia de uso polivalente na ind\u00fastria, muitas delas operando sem as devidas licen\u00e7as ou fiscaliza\u00e7\u00e3o, a regi\u00e3o convive com o risco de destrui\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00f5es rochosas de milh\u00f5es de anos, que re\u00fanem inestim\u00e1vel potencial cient\u00edfico, hist\u00f3rico e tur\u00edstico. O s\u00edmbolo maior dessa amea\u00e7a \u00e9 a chamada Pedra do C\u00e1lice, monumento natural do estado e cart\u00e3o-postal da cidade, que sofre o impacto da atividade de uma s\u00e9rie de empresas, especialmente as de menor porte, com pr\u00e1ticas predat\u00f3rias de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o rochosa que foi sendo esculpida pela a\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de anos fica em \u00e1rea cercada pela extra\u00e7\u00e3o mineral, e as explos\u00f5es frequentes alimentam o temor de que a estrutura n\u00e3o suporte os impactos e desmorone. Seria uma perda inestim\u00e1vel para uma cidade que tem na geologia suas maiores riquezas: n\u00e3o s\u00f3 o calc\u00e1rio, que lhe faz ostentar o t\u00edtulo de capital mundial do produto, mas tamb\u00e9m forma\u00e7\u00f5es como as cavernas, que lhe valem o posto de segunda cidade do pa\u00eds com maior n\u00famero dessas cavidades naturais cadastradas. S\u00e3o mais de 400.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Leandro de Faria \u00e9 dono da fazenda que fica logo abaixo da Pedra do C\u00e1lice. A casa da fam\u00edlia, onde o produtor rural nasceu e cresceu, tem nas rachaduras testemunhos do impacto das explos\u00f5es realizadas sem os cuidados necess\u00e1rios para a extra\u00e7\u00e3o do calc\u00e1rio de pared\u00f5es da cidade. Os riscos, \u00e9 claro, n\u00e3o s\u00e3o restritos \u00e0 estrutura da moradia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>???A casa tem v\u00e1rias trincas. Tem uns anos que eles est\u00e3o detonando mais forte, com mais impacto. Eles n\u00e3o t\u00eam hor\u00e1rio para detonar e n\u00e3o avisam de maneira nenhuma. Eu fiz um boletim de ocorr\u00eancia h\u00e1 uns seis anos para averiguar rachaduras na Pedra do C\u00e1lice. A Pol\u00edcia Ambiental de Arcos veio, (os militares) constataram que realmente tem rachaduras novas, mas n\u00e3o fizeram nada. Essa pedra vai cair???, alerta.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Leandro conta que o terreno da fam\u00edlia est\u00e1 na mira de empresas da regi\u00e3o. A propriedade fica na rodovia MG-439, onde basta circular por alguns minutos para contar mineradoras \u00e0s dezenas. ???V\u00e1rias j\u00e1 tentaram comprar o terreno. N\u00e3o sei se querem para minerar ou como forma de compensa\u00e7\u00e3o???, afirma, completando que n\u00e3o descarta vender, embora n\u00e3o tenha se interessado ainda pelas ofertas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em laudo de tombamento da Pedra do C\u00e1lice, produzido a pedido da Prefeitura de Pains em 2015, uma equipe t\u00e9cnica avaliou que as explos\u00f5es nas proximidades do monumento podem ser uma forma de acelerar seu processo de deteriora\u00e7\u00e3o, que acontece naturalmente ao longo de milhares de anos. O documento sugere que as empresas da regi\u00e3o fa\u00e7am um acompanhamento peri\u00f3dico na estrutura, o que, segundo fontes ouvidas pelo Estado de Minas, n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>???Outra fonte s\u00edsmica s\u00e3o os desmontes de rocha com uso de explosivos. Tal procedimento \u00e9 comum em mineradoras que distam poucos quil\u00f4metros do local. Sugere-se que tais mineradoras apresentem os dados de controle e monitoramento desse efeito na \u00e1rea de entorno de seus empreendimentos e que tamb\u00e9m realizem campanhas di\u00e1rias de monitoramento ??? com Anota\u00e7\u00e3o de Responsabilidade T\u00e9cnica ??? para um acompanhamento de tal efeito. Sugere-se um acompanhamento di\u00e1rio de, pelo menos, seis meses de atividades, mesclando tempo seco e chuvoso???, aponta o laudo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h1>Grutas sofrem at\u00e9 com visita\u00e7\u00e3o sem controle<\/h1>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A Pedra do C\u00e1lice est\u00e1 longe de ser a \u00fanica estrutura com potencial tur\u00edstico e valor hist\u00f3rico e cultural que vem sendo deixada em segundo plano em Pains. De acordo com o advogado e t\u00e9cnico ambiental M\u00e1rio da Silva Oliveira, secret\u00e1rio de Meio Ambiente da cidade entre 2009 e 2016, os recursos geol\u00f3gicos da cidade j\u00e1 est\u00e3o quase todos vendidos a empresas, nem todas atuando com os cuidados, a fiscaliza\u00e7\u00e3o ou as licen\u00e7as necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>???Quase todos os afloramentos aqui s\u00e3o poligonais que pertencem a alguma mineradora. N\u00e3o tem mais nada livre por a\u00ed, n\u00e3o. As estruturas todas t\u00eam marcas maiores ou menores de impactos da minera\u00e7\u00e3o, tanto estrutural como de dilata\u00e7\u00e3o, porque treme. A gente visita (as grutas), mas nenhuma \u00e9 regularizada. Uma pena, porque s\u00e3o de uma beleza incomum???, aponta.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Uma dessas atra\u00e7\u00f5es naturais \u00e9 a Gruta do Brega, cavidade com tr\u00eas sal\u00f5es amplos e conhecida por uma forma\u00e7\u00e3o rochosa em formato que lembra um dinossauro, resultado de processo naturais de milhares de anos. O local fica em ponto onde j\u00e1 h\u00e1 requerimento de lavra ativo junto \u00e0 Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o (ANM).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Assim como as demais cavidades de Pains, a Gruta do Brega n\u00e3o tem um sistema regular de visita\u00e7\u00e3o. O local fica dentro de uma fazenda, pr\u00f3ximo ao limite entre Pains e Pimenta. A equipe do EM esteve na cavidade e constatou problemas que poderiam ser evitados caso existisse organiza\u00e7\u00e3o do turismo e uma forma de controlar a entrada de visitantes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Dentro dos amplos sal\u00f5es e mesmo a partir da entrada da gruta, \u00e9 poss\u00edvel perceber picha\u00e7\u00f5es, peda\u00e7os de forma\u00e7\u00f5es rochosas quebradas e at\u00e9 mesmo rastros de pneu de moto dentro da cavidade. Al\u00e9m da riqueza espeleol\u00f3gica, o local \u00e9 h\u00e1bitat de uma fauna espec\u00edfica, e as pr\u00f3prias caracter\u00edsticas da cavidade natural requerem cuidados especiais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luminosidade e ao barulho.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mais pr\u00f3xima do Centro de Pains, a Gruta do ??den \u00e9 outra pot\u00eancia tur\u00edstica n\u00e3o aproveitada na cidade. A poucos metros da entrada da cavidade, fechada, funciona a Minera\u00e7\u00e3o Saldanha. Em Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assinado pela empresa junto \u00e0 Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad), est\u00e1 prevista\u00a0 uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es de controle de impactos nas grutas e recursos h\u00eddricos da \u00e1rea. A reportagem procurou a empresa e a Prefeitura de Pains para questionar sobre o cumprimento das normas, mas n\u00e3o obteve resposta.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Pains ??? 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