{"id":192091,"date":"2022-07-25T08:43:25","date_gmt":"2022-07-25T11:43:25","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/eleicoes-2022-o-que-mudou-na-cabeca-do-eleitor-brasileiro-desde-2018\/"},"modified":"2022-07-25T08:43:25","modified_gmt":"2022-07-25T11:43:25","slug":"eleicoes-2022-o-que-mudou-na-cabeca-do-eleitor-brasileiro-desde-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/25\/eleicoes-2022-o-que-mudou-na-cabeca-do-eleitor-brasileiro-desde-2018\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es 2022: o que mudou na cabe\u00e7a do eleitor brasileiro desde 2018"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p>Viol\u00eancia, pobreza, corrup\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os prec\u00e1rios de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o: todos s\u00e3o problemas graves que afetam a vida de grande parte dos brasileiros, mas qual deles est\u00e1 mais presente na cabe\u00e7a do eleitor quando ele entra na cabine de vota\u00e7\u00e3o pode ser determinante para os rumos da elei\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>Pesquisas da ci\u00eancia pol\u00edtica indicam que na maioria das vezes \u00e9 o bolso que tem maior peso na decis\u00e3o de voto, explica \u00e0 BBC News Brasil Daniela Campello, professor da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) e pesquisadora do Wilson Center em Washington, think tank sediado nos Estados Unidos. <\/p>\n<p>Foi essa realidade que levou o estrategista pol\u00edtico americano James Carville a cunhar a m\u00e1xima &#8220;\u00e9 a economia, est\u00fapido!&#8221; para explicar a esperada derrota ??? que se confirmou ??? do ent\u00e3o presidente dos Estados Unidos, o republicano George H. W. Bush, na sua tentativa de reelei\u00e7\u00e3o em 1992. Naquele momento, o pa\u00eds passava por uma crise econ\u00f4mica e quem acabou eleito foi o democrata Bill Clinton. <\/p>\n<p>Levantamentos realizados na campanha brasileira de 2018, por\u00e9m, mostram que aquela foi uma elei\u00e7\u00e3o diferente. <\/p>\n<p>H\u00e1 quatro anos, eleitores entrevistados por institutos de pesquisa respondiam que a corrup\u00e7\u00e3o era o maior problema do Brasil. Naquele momento, os partidos pol\u00edticos tradicionais estavam fragilizados pelo impacto da Lava Jato, mega opera\u00e7\u00e3o que revelou grandes desvios de recursos na Petrobras durante o governo da petista Dilma Rousseff (2011-2016).<\/p>\n<p>Segundo Ant\u00f4nio Lavareda, presidente do conselho cient\u00edfico do Instituto de Pesquisas Sociais, Pol\u00edticas e Econ\u00f4micas (Ipespe), aquela foi, no jarg\u00e3o da ci\u00eancia pol\u00edtica, uma &#8220;elei\u00e7\u00e3o cr\u00edtica&#8221;, ou seja, fora da curva, o que abriu espa\u00e7o para um candidato radical, Jair Bolsonaro, romper a antiga polariza\u00e7\u00e3o entre PT e PSDB. <\/p>\n<p>&#8220;Havia crise econ\u00f4mica, polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e um fato super importante: a Lava Jato. A opera\u00e7\u00e3o decidiu o <i>mood<\/i> (o humor) daquela elei\u00e7\u00e3o. Abriu as portas para a chegada do <i>outsider<\/i>. Isso ocorreu na vit\u00f3ria de Jair Bolsonaro, mas tamb\u00e9m na elei\u00e7\u00e3o do Congresso, em que o PSL (partido at\u00e9 ent\u00e3o nanico pelo qual Bolsonaro se elegeu) fez uma enorme bancada&#8221;, lembra Lavareda. <\/p>\n<p>Quatro anos depois, as pesquisas mostram o retorno do &#8220;voto econ\u00f4mico&#8221;. <\/p>\n<p>Problemas relacionados ao bem-estar financeiro, como infla\u00e7\u00e3o, mis\u00e9ria e desemprego, voltaram ao topo das preocupa\u00e7\u00f5es do eleitor. ?? um cen\u00e1rio que tem dificultado a tentativa de reelei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro (hoje no PL) e impulsionado a candidatura do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT), reconhecido por ter alcan\u00e7ado bons resultados econ\u00f4micos no seu governo. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, Bolsonaro tem adotado uma s\u00e9rie de medidas para tentar minimizar a dificuldade econ\u00f4mica da popula\u00e7\u00e3o, como baixar impostos e elevar benef\u00edcios sociais. A primeira medida j\u00e1 permitiu reduzir o pre\u00e7o da gasolina. J\u00e1 Aux\u00edlio Brasil maior (de R$ 400 para R$ 600), a amplia\u00e7\u00e3o do vale g\u00e1s para fam\u00edlias pobres e o novo aux\u00edlio de R$ 1 mil para caminhoneiros aut\u00f4nomos devem come\u00e7ar a ser pagos em agosto.  <\/p>\n<h3>O que dizem os n\u00fameros?<\/h3>\n<p>Pesquisa do Ipespe realizada em maio deste ano perguntou aos entrevistados qual tema consideravam mais importante para ser tratado pelo pr\u00f3ximo presidente no in\u00edcio do governo. Infla\u00e7\u00e3o ficou no topo com 26% de men\u00e7\u00f5es. Somando todos os temas econ\u00f4micos (al\u00e9m de infla\u00e7\u00e3o, desemprego, fome\/mis\u00e9ria e sal\u00e1rio), essa \u00e1rea aparece como maior preocupa\u00e7\u00e3o de 49% dos eleitores ouvidos. <\/p>\n<p>J\u00e1 corrup\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia aparecem como o sexto e s\u00e9timo temas principais para o eleitor, com 6% e 3% de men\u00e7\u00f5es, respectivamente, ficando atr\u00e1s tamb\u00e9m de educa\u00e7\u00e3o (24%) e sa\u00fade (15%). <\/p>\n<p>O resultado \u00e9 bem diferente do coletado pelo Ipespe em maio de 2018, quando esses quatro temas juntos (infla\u00e7\u00e3o, desemprego, fome\/mis\u00e9ria e sal\u00e1rio) eram apontados como o principal problema a ser solucionado pelo pr\u00f3ximo presidente por apenas 18% dos entrevistados. Naquela elei\u00e7\u00e3o, a pesquisa mostrou corrup\u00e7\u00e3o no topo das preocupa\u00e7\u00f5es (28%), seguida de sa\u00fade (22%), educa\u00e7\u00e3o (16%) e viol\u00eancia (13%). Apenas em quinto lugar, vinha o desemprego (11%), como quest\u00e3o econ\u00f4mica mais citada.  <\/p>\n<p>Um exemplo que ilustra bem o impacto dessa mudan\u00e7a, nota a professora Daniela Campello, \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do voto evang\u00e9lico. Em 2018, esse segmento optou em peso por Bolsonaro. Pesquisa do Instituto Datafolha da v\u00e9spera do segundo turno mostrou que 59% dos evang\u00e9licos pretendiam votar no ent\u00e3o candidato do PSL, contra apenas 26% em Fernando Haddad, o candidato do PT.<\/p>\n<p>J\u00e1 neste ano, a pesquisa Datafolha mais recente, do final de junho, mostra um cen\u00e1rio mais apertado, com Bolsonaro marcando 40% de inten\u00e7\u00e3o de voto entre os evang\u00e9licos, e Lula com 35%. <\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 um certo consenso de que os evang\u00e9licos votaram em peso em Bolsonaro em 2018 por toda uma agenda de costumes. Acho que muitos votaram contra Haddad tamb\u00e9m porque vinham de uma crise econ\u00f4mica do per\u00edodo da Dilma (Rousseff). ?? muito dif\u00edcil diferenciar se as pessoas estavam votando contra o PT da Dilma ou a favor da agenda de costumes&#8221;, analisa Campello. <\/p>\n<p>&#8220;Hoje, Bolsonaro n\u00e3o tem a mesma vantagem no voto evang\u00e9lico. A gente percebe que, mesmo aqueles que compartilham do discurso do Bolsonaro n\u00e3o v\u00e3o votar nele porque precisam se alimentar, precisam ter emprego, precisam conseguir comprar, e n\u00e3o est\u00e3o conseguindo&#8221;, acrescenta. <\/p>\n<h3>&#8220;Crise alimentou indigna\u00e7\u00e3o com Lava Jato&#8221;<\/h3>\n<p>Voltando \u00e0 an\u00e1lise mais macro do voto em 2018, a professora da FGV considera que a quest\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o estava completamente ausente da decis\u00e3o do eleitor naquele ano. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, foi a fraqueza da economia que criou as condi\u00e7\u00f5es para que as revela\u00e7\u00f5es da Lava Jato gerassem tanta revolta na popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Campello compara o cen\u00e1rio de 2018 com a elei\u00e7\u00e3o de 2006, quando outro esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o, o do Mensal\u00e3o (acusa\u00e7\u00e3o de compra de votos no Congresso pelo governo Lula),  era um tema importante da campanha eleitoral, mas n\u00e3o impediu a reelei\u00e7\u00e3o do petista. <\/p>\n<p>Naquele ano, o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e servi\u00e7os) cresceu 4%, e o bom desempenho da economia se refletia na boa avalia\u00e7\u00e3o do governo. <\/p>\n<p>&#8220;Em 2006, falava-se muito sobre Mensal\u00e3o, mas essa conversa n\u00e3o colou na cabe\u00e7a do eleitor e ele votou novamente no Lula. H\u00e1 pesquisas na ci\u00eancia pol\u00edtica que mostram que esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o ou outros esc\u00e2ndalos de governo tendem a ter um efeito mais forte na cabe\u00e7a do eleitor em situa\u00e7\u00e3o de crise&#8221;, explica a professora. <\/p>\n<p>J\u00e1 em 2018 o PIB brasileiro crescia num ritmo lento pelo segundo ano seguido, ap\u00f3s forte retra\u00e7\u00e3o no final do governo Dilma Rousseff (PT) ??? a economia encolheu mais de 3% em 2015 e 2016.  <\/p>\n<p>&#8220;Havia crise econ\u00f4mica, as pessoas estavam extremamente insatisfeitas, e a\u00ed vem o esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o. Isso fica na cabe\u00e7a do eleitor e ele responde corrup\u00e7\u00e3o (como maior problema do pa\u00eds). Mas eu acho que o pano de fundo dessa frustra\u00e7\u00e3o com a corrup\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era o fato de que havia uma crise econ\u00f4mica muito forte&#8221;, analisa a professora. <\/p>\n<p>De 2018 para c\u00e1, a Lava Jato sofreu forte desgaste depois que a s\u00e9rie de reportagens Vaza Jato, do site Intercept Brasil, revelou poss\u00edveis abusos da opera\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s isso, uma s\u00e9rie de condena\u00e7\u00f5es acabaram revertidas nos tribunais superiores, inclusive condena\u00e7\u00f5es contra Lula, o que permitiu que o petista recuperasse seus direitos pol\u00edticos. <\/p>\n<p>Se por um lado o discurso anticorrup\u00e7\u00e3o acabou enfraquecido, de outro a crise econ\u00f4mica se agravou ap\u00f3s a pandemia de covid-19, provocando forte aumento da mis\u00e9ria e fome no pa\u00eds. Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional, h\u00e1 33,1 milh\u00f5es de brasileiros passando fome, 14 milh\u00f5es a mais do que em 2020. <\/p>\n<p>&#8220;Em geral, economia tente a ser o grande tema de qualquer elei\u00e7\u00e3o, porque a economia \u00e9 o bem estar das pessoas, \u00e9 o emprego, a capacidade de comprar. Mesmo que outros fatores afetem a economia, como a pandemia, o eleitor sempre associa o resultado econ\u00f4mico \u00e0 imagem do presidente&#8221;, afirma Campello. <\/p>\n<p>&#8220;A elei\u00e7\u00e3o de 2018 tamb\u00e9m foi diferente porque o presidente (Michel Temer) n\u00e3o tentou a reelei\u00e7\u00e3o e candidato do seu governo (Henrique Meirelles) era muito desconhecido. Eu acho que 2022 \u00e9 uma elei\u00e7\u00e3o tradicional: tem uma crise econ\u00f4mica e tem um governo que vai responder pelos resultados do que fez nos \u00faltimos quatro anos. Se houvesse um per\u00edodo muito bom economicamente, seria uma resposta positiva a Bolsonaro&#8221;, ressalta.<\/p>\n<h3>Lula \u00e9 visto como mais preparado na economia<\/h3>\n<p>O cen\u00e1rio apontado pela pesquisa Ipespe \u00e9 confirmado por outras pesquisas. No levantamento eleitoral da Quaest de julho deste ano, economia \u00e9 apontada como principal problema do pa\u00eds por 44% dos eleitores, bem acima dos outros temas. Em segundo lugar est\u00e1 &#8220;quest\u00f5es sociais&#8221; (17%), seguido de sa\u00fade\/pandemia (12%), corrup\u00e7\u00e3o (9%) e viol\u00eancia (4%).<\/p>\n<p>A pesquisa n\u00e3o foi realizada em 2018, mas \u00e9 poss\u00edvel perceber o aumento da preocupa\u00e7\u00e3o com a economia analisando outros levantamentos da Quaest no \u00faltimo ano. Em julho de 2021, por exemplo, a quest\u00e3o econ\u00f4mica era o principal problema para 28% dos entrevistados, perdendo para sa\u00fade\/pandemia (41%). Naquele momento, o pa\u00eds ainda passava por um per\u00edodo mais severo de mortes causadas pelo coronav\u00edrus. <\/p>\n<p>Outra pesquisa Quaest, de outubro, ajuda a entender porque Lula tem sido beneficiado pelo aumento da preocupa\u00e7\u00e3o com a economia. Na ocasi\u00e3o, 44% dos entrevistados apontaram o petista como o mais apto para controlar a economia, contra 18% de Bolsonaro. <\/p>\n<p>Lula tamb\u00e9m foi apontado como o melhor candidato para tratar de outros temas, como sa\u00fade e pandemia (37%) e combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o (28), mas \u00e9 nos desafios econ\u00f4micos ??? justamente a \u00e1rea percebida como mais problem\u00e1tica ??? que ele registra o maior \u00edndice de confian\u00e7a do eleitor.  <\/p>\n<p>Esse tipo de percep\u00e7\u00e3o pode limitar o impacto das a\u00e7\u00f5es recentes adotadas por Bolsonaro para amenizar os problemas econ\u00f4micos. Al\u00e9m disso, analistas pol\u00edticos t\u00eam apontado o risco de essas medidas, implementadas a poucos meses do pleito, serem vistas como eleitoreiras.  <\/p>\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o apenas no per\u00edodo eleitoral \u00e9 chave para a associa\u00e7\u00e3o com a compra de voto. Assim, ao limitar a dura\u00e7\u00e3o do aumento s\u00f3 at\u00e9 dezembro, acabando depois das elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 quase imposs\u00edvel desfazer a associa\u00e7\u00e3o do aumento entre os beneficiados com a compra de votos.<\/p>\n<p>??? Mariana Borges (@Mari_BorgesMS) July 18, 2022<\/p>\n<p>Para a cientista pol\u00edtica Mariana Borges, pesquisadora da Universidade de Oxford, na Inglaterra, o fato dos novos benef\u00edcios sociais criados pelo governo terem previs\u00e3o de durar apenas at\u00e9 dezembro tamb\u00e9m deve dificultar a atra\u00e7\u00e3o de votos para o presidente. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, esse prazo curto pode levar o eleitor a associar a medida a uma tentativa de &#8220;compra de voto&#8221;. <\/p>\n<p>&#8220;Ao contr\u00e1rio do que tradicionalmente se pressup\u00f5e, eleitores de baixa renda percebem muito negativamente a compra de voto, exatamente porque tomam como certo que candidatos que compram voto abandonam os eleitores ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es&#8221;, disse Borges em sua conta no Twitter.<\/p>\n<p>&#8220;Com o aumento com hora marcada pra morrer, Bolsonaro est\u00e1 assim, sem querer, colando sua imagem com os chamados &#8216;pol\u00edticos de copa de mundo&#8217;, os que &#8216;s\u00f3 ajudam de quatro em quatro anos&#8217; (durante as elei\u00e7\u00f5es). Dificilmente, portanto, vai conseguir ser visto como pais dos pobres com essa aumento com hora marcada pra acabar&#8230;&#8221;, escreveu ainda na rede social. <\/p>\n<p><i>&#8211; Texto originalmente publicado em <\/i>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-62270734<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? 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