{"id":193622,"date":"2022-07-27T15:56:33","date_gmt":"2022-07-27T18:56:33","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/tributo-em-pauta-contribuicao-a-terceiros-e-sopa-de-letrinhas-amarga-para-as-empresas\/"},"modified":"2022-07-27T15:56:33","modified_gmt":"2022-07-27T18:56:33","slug":"tributo-em-pauta-contribuicao-a-terceiros-e-sopa-de-letrinhas-amarga-para-as-empresas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/27\/tributo-em-pauta-contribuicao-a-terceiros-e-sopa-de-letrinhas-amarga-para-as-empresas\/","title":{"rendered":"Tributo em Pauta: Contribui\u00e7\u00e3o a terceiros \u00e9 sopa de letrinhas amarga para as empresas"},"content":{"rendered":"<p> \u00a0<\/p>\n<p>Voc\u00ea, empres\u00e1ria(o), que n\u00e3o \u00e9 optante pelo regime tribut\u00e1rio do Simples Nacional, muito provavelmente, j\u00e1 deve ter se indignado por ter de pagar 5,8% (essa al\u00edquota pode ser maior ou menor, dependendo do ramo de atividade da empresa), sobre o total da sua folha de sal\u00e1rios a t\u00edtulo de &#8220;Contribui\u00e7\u00f5es a Terceiros&#8221;. Pois \u00e9. Na pr\u00e1tica, a cada R$1.000,00 pagos aos empregados, a empresa (tributada pelo lucro real ou pelo lucro presumido) deve R$58,00 de Contribui\u00e7\u00f5es a Terceiros, tamb\u00e9m conhecidas como &#8220;Contribui\u00e7\u00f5es Parafiscais arrecadadas por conta de terceiros&#8221;, que s\u00e3o destinadas ao INCRA, ao FNDE (sal\u00e1rio-educa\u00e7\u00e3o) e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es conhecidas como &#8220;Sistema S&#8221; (SEBRAE, SENAI, SESI, SENAC, SESC, SENAR, SEST, SENAT e SESCOOP).\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Parece pouco, mas, para empresas que t\u00eam muitos empregados ou pagam altos sal\u00e1rios, o resultado desse c\u00e1lculo pode ser pesad\u00edssimo. O que alguns talvez n\u00e3o saibam \u00e9 que, embora a cobran\u00e7a se d\u00ea sobre o total das remunera\u00e7\u00f5es pagas aos empregados, \u00e9 poss\u00edvel defender a limita\u00e7\u00e3o das bases de c\u00e1lculo das contribui\u00e7\u00f5es destinadas a terceiros em 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos. Explicarei!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As contribui\u00e7\u00f5es em foco possuem fundamento de validade no artigo 149, \u00a7 2\u00ba e no artigo 195, ambos da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, s\u00e3o de compet\u00eancia da Uni\u00e3o, sendo certo que devem ser institu\u00eddas por meio de lei e cobradas em observ\u00e2ncia aos dispositivos previstos na Constitui\u00e7\u00e3o Federal.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Embora as leis que as institu\u00edram n\u00e3o tenham estabelecido &#8220;teto&#8221; m\u00e1ximo ao valor da folha de sal\u00e1rios\/rendimentos para fins de composi\u00e7\u00e3o das bases de c\u00e1lculo das referidas contribui\u00e7\u00f5es, a Lei n\u00ba 6.332\/76 fixou o limite em Cr$10.400,00, que, posteriormente, foi alterado para 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos pelo artigo 4\u00ba e par\u00e1grafo \u00fanico da Lei n\u00ba 6.950\/81, nestes termos:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Art 4\u00ba O limite m\u00e1ximo do sal\u00e1rio-de-contribui\u00e7\u00e3o, previsto no art. 5\u00ba da Lei n\u00ba 6.332, de 18 de maio de 1976, \u00e9 fixado em valor correspondente a 20 (vinte) vezes o maior sal\u00e1rio-m\u00ednimo vigente no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Par\u00e1grafo \u00fanico &#8211; O limite a que se refere o presente artigo aplica-se \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es parafiscais arrecadadas por conta de terceiros.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas, apesar disso, o fisco federal tem se valido de um Decreto-Lei de 1986 para afastar esse limite de 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos e garantir uma arrecada\u00e7\u00e3o rechonchuda sobre o total da folha de sal\u00e1rios das empresas. S\u00f3 tem esperto! A Receita Federal alega que o Decreto-Lei n\u00ba 2.318\/86 revogou a Lei n\u00ba 6.950\/81 e, desde ent\u00e3o, exige as contribui\u00e7\u00f5es sem qualquer limite de base de c\u00e1lculo. Vejamos o que diz o decreto-lei:\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Art 3\u00ba Para efeito do c\u00e1lculo da contribui\u00e7\u00e3o da empresa para a previd\u00eancia social, o sal\u00e1rio de contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 sujeito ao limite de vinte vezes o sal\u00e1rio-m\u00ednimo, imposto pelo art. 4\u00ba da Lei n\u00ba 6.950, de 4 de novembro de 1981.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Acontece que a desconsidera\u00e7\u00e3o do limite de 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos, trazida pelo Decreto-Lei n\u00ba 2.318\/86, refere-se apenas \u00e0 base contributiva para c\u00e1lculo da contribui\u00e7\u00e3o patronal propriamente dita da Previd\u00eancia Social (Contribui\u00e7\u00e3o Previdenci\u00e1ria), sendo, portanto, perfeitamente poss\u00edvel sustentar que n\u00e3o se aplica \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es destinadas a terceiros (Contribui\u00e7\u00f5es Parafiscais).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em outras palavras, o Decreto-Lei n\u00ba 2.318\/86 n\u00e3o vedou a aplica\u00e7\u00e3o do limite de 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos para as contribui\u00e7\u00f5es de terceiros, j\u00e1 que n\u00e3o disp\u00f4s sobre a revoga\u00e7\u00e3o do par\u00e1grafo \u00fanico do artigo 4\u00ba da Lei n\u00ba 6.950\/81. E, neste contexto, relembrando as aulas de Teoria Geral do Direito, uma lei \u00e9 v\u00e1lida, vigente e eficaz at\u00e9 que seja revogada ou modificada por outra, o que, definitivamente, n\u00e3o ocorreu aqui!\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 quem entenda diferente e defenda que o par\u00e1grafo \u00fanico \u00e9 acess\u00f3rio, secund\u00e1rio e subordinado ao artigo e, assim, revogado o caput do artigo 4\u00ba da lei 6.950\/81 pelo artigo 3\u00b0, do Decreto-Lei 2.318\/86, n\u00e3o seria juridicamente poss\u00edvel sobreviver sozinho o dispositivo legal suplementar (o par\u00e1grafo \u00fanico do artigo 4\u00ba). Mas, felizmente, n\u00e3o \u00e9 assim que vem entendendo a maior parte dos ju\u00edzes e desembargadores dos Tribunais Regionais Federais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova, mas voltou \u00e0 tona em 2020, quando a Primeira Turma do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ), citando precedente de 2008, da pr\u00f3pria Turma, confirmou que &#8220;a base de c\u00e1lculo das contribui\u00e7\u00f5es parafiscais recolhidas por conta de terceiros fica restrita ao limite m\u00e1ximo de 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos, nos termos do par\u00e1grafo \u00fanico do art. 4\u00ba da Lei 6.950\/1981, o qual n\u00e3o foi revogado pelo artigo 3\u00ba do Decreto-Lei 2.318\/1986, que, como dito, disciplina as contribui\u00e7\u00f5es sociais devidas pelo empregador diretamente \u00e0 Previd\u00eancia Social&#8221; (AgInt no REsp 1570980, julgado em 17\/02\/2020).\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, em 18\/12\/2020, o STJ recepcionou os Recursos Especiais 1898532\/CE e 1905870\/PR, que versam sobre a mat\u00e9ria, decidindo que ser\u00e3o julgados pela sistem\u00e1tica de recurso repetitivo, ou seja, a Corte Superior definir\u00e1 uma tese que dever\u00e1 ser aplicada aos processos em que se discuta a mesma quest\u00e3o de direito (Tema Repetitivo 1079).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, aguarda-se com muita expectativa o julgamento do tema e, diante do cen\u00e1rio ainda indefinido, recomenda-se que as empresas busquem autoriza\u00e7\u00e3o judicial para apurar e recolher as Contribui\u00e7\u00f5es a Terceiros considerando a base de c\u00e1lculo limitada a 20 sal\u00e1rios-m\u00ednimos, pleiteando, ainda, a restitui\u00e7\u00e3o dos valores pagos indevidamente nos \u00faltimos 5 anos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Diante da atual crise econ\u00f4mica instalada em nosso pa\u00eds, \u00e9 mais do que leg\u00edtimo e recomend\u00e1vel que busquemos alternativas l\u00edcitas para a redu\u00e7\u00e3o da carga tribut\u00e1ria e, sem d\u00favida, limitar a base de c\u00e1lculo das contribui\u00e7\u00f5es para terceiros pode render uma boa economia para a sua empresa, diminuindo o amargor da sopa de letrinhas aqui apresentada.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Uma empresa que, por exemplo, possua uma folha de sal\u00e1rios na ordem de R$500.000,00, recolhe R$29.000,00 a t\u00edtulo de Contribui\u00e7\u00f5es a Terceiros, por m\u00eas. Caso consiga um provimento judicial para recolher as Contribui\u00e7\u00f5es a Terceiros com a base de c\u00e1lculo limitada a 20 vezes o maior sal\u00e1rio-m\u00ednimo vigente no Pa\u00eds, considerando, neste nosso exemplo, o sal\u00e1rio-m\u00ednimo de R$ 1.212,00, sua base de c\u00e1lculo passar\u00e1 a ser R$24.240,00 e o seu recolhimento limitado em R$1.405,92. Um respiro consider\u00e1vel para um momento de agonia, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>De qualquer sorte, apesar de todos os indicativos apontarem para um julgamento favor\u00e1vel aos contribuintes, havendo disponibilidade financeira, \u00e9 sempre recomend\u00e1vel que as empresas efetuem o dep\u00f3sito judicial dos valores em discuss\u00e3o, resguardando-se, assim, de eventual improced\u00eancia do pedido.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*Ana Tereza Landgraf \u00e9 advogada e professora, especialista em Direito Tribut\u00e1rio,\u00a0MBA em Planejamento Tribut\u00e1rio e em Gest\u00e3o e Administra\u00e7\u00e3o de Neg\u00f3cios, e membro da Comiss\u00e3o de Direito Tribut\u00e1rio da OAB\/BA e da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Direito Tribut\u00e1rio &#8211; ABRADT.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Voc\u00ea, empres\u00e1ria(o), que n\u00e3o \u00e9 optante pelo regime tribut\u00e1rio do Simples Nacional, muito provavelmente, j\u00e1 deve ter se indignado por ter de pagar\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":193623,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[116],"tags":[],"class_list":["post-193622","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-judiciario"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/193622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=193622"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/193622\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=193622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=193622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=193622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}