{"id":193796,"date":"2022-07-27T20:00:34","date_gmt":"2022-07-27T23:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/por-que-a-variola-dos-macacos-se-espalhou-agora\/"},"modified":"2022-07-27T20:00:34","modified_gmt":"2022-07-27T23:00:34","slug":"por-que-a-variola-dos-macacos-se-espalhou-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/27\/por-que-a-variola-dos-macacos-se-espalhou-agora\/","title":{"rendered":"Por que a var\u00edola dos macacos se espalhou agora?"},"content":{"rendered":"<p>Desde que extrapolou as fronteiras da \u00c1frica em maio, a var\u00edola dos macacos (monkeypox) j\u00e1 se espalhou por 65 pa\u00edses e infectou quase 10 mil pessoas, diz o relat\u00f3rio mais recente da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), da semana passada. No Brasil, j\u00e1 foram contabilizados 592 casos, a maioria em S\u00e3o Paulo &#8211; mas especialistas acreditam que o v\u00edrus esteja mais espalhado, em meio \u00e0s dificuldades de teste e diagn\u00f3stico.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A doen\u00e7a j\u00e1 foi identificada pela ci\u00eancia desde 1958, mas agora m\u00e9dicos e pesquisadores tentam entender as causas da velocidade do novo surto e debatem a melhor forma para conter essa amea\u00e7a sem aumentar o estigma sobre os grupos mais vulner\u00e1veis ao v\u00edrus. Entre as estrat\u00e9gias, eles defendem campanhas de orienta\u00e7\u00e3o focadas e vacinas.<\/p>\n<p>A OMS estima que 98% dos casos de var\u00edola dos macacos notificados em todo o mundo sejam entre &#8220;homens que se relacionam com homens&#8221; (HSH), o que engloba o grupo de gays e bissexuais, mas n\u00e3o se restringe a eles. No Brasil, m\u00e9dicos de S\u00e3o Paulo relatam percep\u00e7\u00e3o semelhante e o boletim mais recente do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade aponta que essa popula\u00e7\u00e3o corresponde a 100% dos pacientes que declararam a orienta\u00e7\u00e3o sexual na hora do diagn\u00f3stico. Ainda n\u00e3o se sabe o motivo de o cont\u00e1gio ser maior nesse grupo.<\/p>\n<p><strong>Origem<\/strong><\/p>\n<p>Antes, a doen\u00e7a estava mais restrita a \u00e1reas rurais da \u00c1frica central e continental. Ainda n\u00e3o h\u00e1 consenso sobre o motivo do cont\u00e1gio mais veloz &#8211; a transmiss\u00e3o sexual ainda \u00e9 investigada pelos pesquisadores. A teoria mais difundida entre cientistas \u00e9 de que isso ocorreu por causa de uma s\u00e9rie de muta\u00e7\u00f5es no v\u00edrus, que depois encontrou na popula\u00e7\u00e3o HSH um primeiro nicho de dissemina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar do nome, a var\u00edola dos macacos \u00e9 mais comum em roedores e se restringia majoritariamente a ca\u00e7adores africanos, onde \u00e9 considerada end\u00eamica. &#8220;Ela foi descrita assim pela primeira vez porque teve um surto em macacos, que adoeceram assim como n\u00f3s. N\u00e3o foram eles que transmitiram a doen\u00e7a para n\u00f3s&#8221;, explica Ana Gorini da Veiga, professora da Universidade Federal de Ci\u00eancias da Sa\u00fade de Porto Alegre (UFCSPA).<\/p>\n<p>&#8220;Ainda n\u00e3o sabemos por que esse surto est\u00e1 mais abrangente. Pode ser por uma maior transmissibilidade do v\u00edrus, porque hoje temos maior facilidade de transporte e locomo\u00e7\u00e3o de pessoas&#8230;&#8221;, aponta Ana. Os primeiros registros dessa nova variante vieram da Espanha e da B\u00e9lgica, mas rapidamente os sintomas pipocaram em pa\u00edses como Portugal, Reino Unido e nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Um dos principais empecilhos para dimensionar o alcance da monkeypox no Brasil e no mundo tem sido a variedade de manifesta\u00e7\u00f5es da doen\u00e7a e a subnotifica\u00e7\u00e3o. Com o per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o do v\u00edrus podendo variar de 5 a 21 dias, os primeiros sintomas geralmente incluem febre, dor de garganta, de cabe\u00e7a e no corpo (que em alguns casos leva a uma primeira suspeita de infec\u00e7\u00e3o por algum v\u00edrus respirat\u00f3rio), al\u00e9m de incha\u00e7o dos g\u00e2nglios. Alguns dias depois, surgem as les\u00f5es na pele, com pequenas erup\u00e7\u00f5es que podem se espalhar pelos dedos, m\u00e3os, bra\u00e7os, pesco\u00e7o, costas, peito e pernas.<\/p>\n<p>O surgimento dessas feridas nas regi\u00f5es genital e perineal (entre o \u00e2nus e o \u00f3rg\u00e3o genital) tem ajudado m\u00e9dicos a confundir a var\u00edola dos macacos com outras Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis (ISTs), como s\u00edfilis e herpes. Pacientes ouvidos pela reportagem relatam que foram medicados com antibi\u00f3ticos e anti-inflamat\u00f3rios, na primeira consulta ap\u00f3s os primeiros sinais da doen\u00e7a. Com a persist\u00eancia dos sintomas, a maioria deles s\u00f3 foi novamente testada ap\u00f3s insistir em um novo diagn\u00f3stico ou se dirigir a outro hospital.<\/p>\n<p><strong>Transmiss\u00e3o sexual?<\/strong><\/p>\n<p>O fato de a var\u00edola dos macacos causar erup\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas ao genital e se disseminar t\u00e3o rapidamente entre homens gays e bissexuais tem levantado a hip\u00f3tese de que essa forma da doen\u00e7a possa ser sexualmente transmiss\u00edvel. Estudos preliminares na It\u00e1lia e na Alemanha encontraram vest\u00edgios do v\u00edrus no s\u00eamen de pacientes, mas os dados ainda s\u00e3o poucos para afirmar se a quantidade de carga viral seria suficiente para uma infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O fato \u00e9 que temos uma doen\u00e7a transmitida de roedores para humanos e levada para a Europa, onde se disseminou de maneira muito intensa em encontros sexuais casuais, especialmente de homens. O v\u00edrus encontrou um nicho epidemiol\u00f3gico, que tem a possibilidade de transmiss\u00e3o adequada&#8221;, explica Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, infectologista e pesquisador epidemiologista da Universidade Estadual Paulista (Unesp).<\/p>\n<p>Por enquanto, m\u00e9dicos e cientistas dizem que \u00e9 poss\u00edvel afirmar com mais seguran\u00e7a que a principal forma de transmiss\u00e3o da monkeypox \u00e9 pelo contato direto com les\u00f5es ou saliva de pessoas infectadas, e n\u00e3o pela penetra\u00e7\u00e3o sexual, por exemplo. Nesse sentido, o uso de m\u00e1scara facial \u00e9 importante, assim como a higiene constante das m\u00e3os e manter dist\u00e2ncia de quem esteja com sintomas, principalmente os vis\u00edveis.<\/p>\n<p>&#8220;A transmiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pelo ato sexual, mas tem apresentado um comportamento que mimetiza essas caracter\u00edsticas. J\u00e1 temos casos, por exemplo, de algu\u00e9m que teve a doen\u00e7a sexualmente e transmitiu para uma segunda pessoa do mesmo domic\u00edlio de outra forma&#8221;, aponta Fortaleza. &#8220;Ao mesmo tempo, ignorar que ela tem se comportado como uma IST pode fazer com que a gente n\u00e3o d\u00ea as orienta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para determinado grupo priorit\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Sem erros do passado<\/strong><\/p>\n<p>Esse comportamento singular da monkeypox e sua associa\u00e7\u00e3o ao ato sexual t\u00eam impulsionado queixas de parte da comunidade LGBT+, que encara os alertas espec\u00edficos para &#8220;homens que se relacionam com homens&#8221; como uma forma de renovar o estigma criado h\u00e1 d\u00e9cadas sobre esse mesmo p\u00fablico desde o surgimento do HIV. Entre a comunidade m\u00e9dica e cient\u00edfica, essa mesma preocupa\u00e7\u00e3o de refor\u00e7ar estere\u00f3tipos est\u00e1 &#8220;no cerne da quest\u00e3o&#8221;, como aponta o epidemiologista F\u00e1bio Mesquita.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o queremos cometer os mesmos erros do HIV. Na \u00e9poca, nossa ignor\u00e2ncia era muito grande. Olhamos s\u00f3 para o n\u00famero de casos como se fosse necessariamente associado a uma comunidade&#8221;, observa ele, que j\u00e1 foi diretor do ent\u00e3o Departamento de Doen\u00e7as de Transmiss\u00e3o Sexual, AIDS e Hepatites Virais do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e hoje est\u00e1 baseado em Myanmar como membro do corpo t\u00e9cnico da OMS.<\/p>\n<p>E qual seria a forma correta de alertar a popula\u00e7\u00e3o de risco sem cair na estigmatiza\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 culpar a comunidade pelo espalhamento do v\u00edrus? &#8220;?? dizer que, nesse momento, a comunidade precisa ficar atenta, porque est\u00e1 disseminando de forma importante&#8221;, aponta Mesquita. &#8220;Mas tamb\u00e9m precisamos frisar que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia cient\u00edfica de que a monkeypox ficar\u00e1 restrita a ela (comunidade LGBT+).&#8221;<\/p>\n<p>Quem concorda com essa vis\u00e3o \u00e9 David Uip, infectologista e secret\u00e1rio de Ci\u00eancia, Pesquisa e Desenvolvimento em Sa\u00fade do Estado de S\u00e3o Paulo. Ao <strong>Estad\u00e3o<\/strong>, ele disse acreditar que &#8220;informa\u00e7\u00e3o clara, correta e cient\u00edfica&#8221; \u00e9 o melhor caminho para contornar o preconceito e criar a conscientiza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria tanto no grupo de risco como na popula\u00e7\u00e3o em geral, evitando o que categoriza como &#8220;a cat\u00e1strofe do ponto de vista m\u00e9dico, epidemiol\u00f3gico e social&#8221; vista no enfrentamento do HIV.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem de se prevenir com o que temos de informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, sem gerar p\u00e2nico&#8221;, aponta Uip, que esteve na linha de frente do combate ao HIV quando a doen\u00e7a explodiu no Brasil, em 1980, e foi inicialmente batizada de &#8220;peste gay&#8221;. &#8220;(A monkeypox) n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a letal, pelo menos no momento, mas as pessoas est\u00e3o muito sintom\u00e1ticas e sofrendo demais.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Vacinas<\/strong><\/p>\n<p>Outro paralelo que Uip estabelece entre a monkeypox e o HIV \u00e9 a falta de vacinas espec\u00edficas e duradouras para essas doen\u00e7as. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde a imuniza\u00e7\u00e3o contra a var\u00edola dos macacos j\u00e1 come\u00e7ou, s\u00e3o usadas doses inicialmente desenvolvidas para a var\u00edola humana (smallpox), distribu\u00eddas especificamente para a popula\u00e7\u00e3o HSH e com estoque bem aqu\u00e9m do necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Eu aproveitaria esse momento e encontraria mais informa\u00e7\u00f5es sobre a monkeypox. Passaram-se 40 anos e ainda n\u00e3o encontramos a vacina para o HIV. O paciente tratado tem outra vida. O que resta, por enquanto, s\u00e3o medicamento e informa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Por ora, a aquisi\u00e7\u00e3o de vacinas contra a var\u00edola dos macacos n\u00e3o \u00e9 uma realidade para o Brasil e nem para a maioria dos pa\u00edses em que a doen\u00e7a j\u00e1 foi encontrada. Questionado ao longo das \u00faltimas semanas, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade limitou-se a dizer que segue desde maio em tratativas com a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (Opas), a quem atribui a responsabilidade da distribui\u00e7\u00e3o de doses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que extrapolou as fronteiras da \u00c1frica em maio, a var\u00edola dos macacos (monkeypox) j\u00e1 se espalhou por 65 pa\u00edses e infectou quase 10\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":193797,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8135],"tags":[],"class_list":["post-193796","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-estilo-de-vida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/193796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=193796"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/193796\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=193796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=193796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=193796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}