{"id":195397,"date":"2022-07-30T06:28:52","date_gmt":"2022-07-30T09:28:52","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/os-dois-pedacos-de-guilherme-mae-luta-na-justica-pelo-direito-de-enterrar-o-filho\/"},"modified":"2022-07-30T06:28:52","modified_gmt":"2022-07-30T09:28:52","slug":"os-dois-pedacos-de-guilherme-mae-luta-na-justica-pelo-direito-de-enterrar-o-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/30\/os-dois-pedacos-de-guilherme-mae-luta-na-justica-pelo-direito-de-enterrar-o-filho\/","title":{"rendered":"Os dois peda\u00e7os de Guilherme: m\u00e3e luta na justi\u00e7a pelo direito de enterrar o filho"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Um adeus est\u00e1 engasgado na garganta\u00a0de Franciane de Souza, 45 anos, h\u00e1 um ano e oito meses. Duas vezes por m\u00eas, ela conversa sobre isso com um psic\u00f3logo. &#8220;?? o lugar onde voc\u00ea fala\u00a0o que mais d\u00f3i???, explica. Nela, o que mais d\u00f3i \u00e9 uma hist\u00f3ria que come\u00e7a de madrugada, na Rua Ibitiba, passa por uma sala de onde saiu com restos mortais do filho em um saco e continua no Cemit\u00e9rio Municipal de Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es, onde ele foi enterrado em dois caix\u00f5es sem ela saber. \u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">As duas gavetas em que Guilherme foi sepultado, aos 21 anos, est\u00e3o a 200 metros de dist\u00e2ncia. Na primeira, na ala de adultos, est\u00e1 o que Franciane acreditou se tratar de todo o corpo do filho, de quem achava ter se despedido em setembro de 2020. Na segunda, na ala das crian\u00e7as, \u00e9 onde o Estado diz ter colocado outra parte do cad\u00e1ver, sem aviso \u00e0 fam\u00edlia, que desconhecia esse peda\u00e7o at\u00e9 o Instituto M\u00e9dico Legal (IML) de Barreiras entreg\u00e1-lo para a m\u00e3e.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A m\u00e3e luta judicialmente desde abril do ano passado para enterrar o corpo do filho em uma s\u00f3 l\u00e1pide, para que agentes p\u00fablicos sejam responsabilizados e cobra R$ 1 milh\u00e3o de indeniza\u00e7\u00e3o ao Estado. Franciane j\u00e1 conhecia a brutalidade humana, mas nunca pensou que choraria por um filho morto a pedradas e pauladas e depois carbonizado, v\u00edtima de homofobia, e que ainda haveria mais a ser enfrentado. Em dois anos, at\u00e9 leite jorrou nos seios dela.\u00a0<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"622\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/e\/7\/csm_franciane2_631e72e9b0.jpeg\" width=\"1000\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>No centro, uma das gavetas em que Guilherme foi enterrado<\/strong> (Foto: CORREIO)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">A aspereza da vida aparece at\u00e9 nos n\u00fameros de uma l\u00e1pide. A um andar de dist\u00e2ncia, um dos assassinos confessos de Guilherme, Kauan, foi enterrado. O primeiro (em parte) na gaveta 18. O segundo, 33.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A brutalidade usada para matar, os erros institucionais que colocaram nas m\u00e3os de uma m\u00e3e o peda\u00e7o do corpo de um filho e o cotidiano da fam\u00edlia Souza evidenciam o desrespeito aos direitos humanos que n\u00e3o cessa com a morte para popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+. Para ter uma vida funcional, Franciane, designer de sobrancelhas, toma ansiol\u00edticos e antidepressivos.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">As supostas irregularidades do IML de Barreiras s\u00e3o investigadas pela Corregedoria do \u00f3rg\u00e3o desde o fim de 2020, ainda sem conclus\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O \u00f3dio n\u00e3o permite concess\u00f5es. H\u00e1 crimes contra gays, l\u00e9sbicas, bissexuais, travestis e transexuais deixados para esquecimento ou demora. O caso de Guilherme virou a\u00e7\u00e3o penal apresentada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico da Bahia no fim de junho deste ano &#8211; quando um dos assassinos j\u00e1 tinha morrido.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na cidade onde Guilherme morreu, ao menos quatro crimes contra homens gays e uma mulher travesti ocorridos desde o in\u00edcio dos anos 2000 n\u00e3o foram solucionados.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Voc\u00ea acha que nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho do IML, da delegacia, vai haver interesse por uma travesti encontrada sem nome? Voc\u00ea acha que para o gay pobre, o poder p\u00fablico vai investigar????<\/strong>, questiona Jos\u00e9 Marcelo de Oliveira, doutor em Ci\u00eancias Sociais que pesquisa homofobia e transfobia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Na semana em que a morte de Guilherme completou dois anos, Mateus, outro jovem gay, foi assassinado a pedradas, em Campo Formoso, no centro-norte baiano. Em 2022, s\u00e3o 146 pessoas LGBTQIA+ assassinadas ??? 14 delas na Bahia ???, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB). A \u00fanica coisa que restou de Guilherme, onde morava, \u00e9 um bon\u00e9 branco e rosa e sua certid\u00e3o de \u00f3bito.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>O peda\u00e7o esquecido: da morte \u00e0 entrega<\/strong><br \/> Faz sol em Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es e Franciane, acompanhada da irm\u00e3 Viviane, vai ao Cemit\u00e9rio Municipal pela segunda vez desde a morte do filho, no in\u00edcio de julho. A \u00faltima visita tinha acontecido em janeiro de 2021, depois que, em uma troca de e-mails com o IML de Barreiras,\u00a0ela e a advogada descobriram que o outro peda\u00e7o do corpo de Guilherme havia sido enterrado dois meses antes.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Desta vez, Franciane escolheu a blusa que sempre veste ao sair &#8211; uma estampada com o rosto de Guilherme. No cemit\u00e9rio, visitou as duas gavetas do filho, conversou com ele e lamentou, mais uma vez, a situa\u00e7\u00e3o sem desfecho e o fato de um dos assassinos estar enterrado ao lado.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;As pessoas me olham e dizem: queria ser assim forte. Mas n\u00e3o sou forte. Se eu me largar, \u00e9 capaz de eu morrer&#8221;<\/strong>, diz Franciane.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">No Centro de Refer\u00eancia da Assist\u00eancia Social (CRAS), uma assistente social sugeriu a forma\u00e7\u00e3o dela em curso para designer de sobrancelhas oferecido pelo espa\u00e7o. Hoje, ela atende clientes no sal\u00e3o de beleza da irm\u00e3. &#8220;Nem sempre ela vem, tem crise de ansiedade &#8220;, conta Viviane.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Franciane mora com os filhos mais novos, Wesley, 7, e Maria Eduarda, 12,\u00a0\u00e0s vezes proibidos\u00a0de sa\u00edrem por medo da m\u00e3e. Ela pr\u00f3pria passa at\u00e9 semanas sem pisar fora de casa. &#8220;A morte ficou&#8221;, completa a irm\u00e3 Viviane.\u00a0<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"622\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/1\/f\/csm_franciane7_328d6b3a42.jpeg\" width=\"1000\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Franciane e os filhos: &#8216;A morte ficou&#8217;<\/strong> (Foto: CORREIO)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">As duas s\u00e3o vizinhas de bairro, a seis quil\u00f4metros do Cemit\u00e9rio Municipal. Foi l\u00e1 que Franciane, acompanhada do cunhado, desembarcou \u00e0s 16h do dia 17 de novembro de 2020, com um saco preto. Dentro dele, estava um peda\u00e7o do filho morto quatro meses antes.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Uma semana antes, Franciane recebeu a liga\u00e7\u00e3o que a levou at\u00e9 onde o filho, h\u00e1 dois meses, tinha sido enterrado. Do outro lado da linha, uma funcion\u00e1ria do IML de Barreiras, segundo Franciane, disse: ???O f\u00eamur do seu filho est\u00e1 aqui para libera\u00e7\u00e3o???. Para ela, ???f\u00eamur??? era um documento, por isso demorou de ir ao munic\u00edpio vizinho, a 90 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na recep\u00e7\u00e3o, descobriu que ???f\u00eamur??? era uma parte do corpo do filho, retido para o DNA, o que engatilhou um surto em Franciane.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em posse de um peda\u00e7o de Guilherme, Franciane imaginou que poderia enterr\u00e1-lo junto ao restante do corpo. O Cemit\u00e9rio se negou. Se fizesse isso, cometeria o crime de viola\u00e7\u00e3o cadav\u00e9rica. O momento era um dos mais graves da pandemia da covid-19, com restri\u00e7\u00f5es de viagens e vel\u00f3rios.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A negativa do cemit\u00e9rio a levou at\u00e9 a delegacia. Os policiais recolheram o f\u00eamur, no dia 17 de novembro, com a promessa de que o devolveria ao IML. O \u00f3rg\u00e3o, ent\u00e3o, sepultou \u00a0o material biol\u00f3gico (osso) em uma gaveta infantil passadas 48 horas. Franciane esperou mais dois meses para saber disso. ???Com que direito enterraram? Nem soube do enterro do meu pr\u00f3prio filho???, reclama. O \u00f3rg\u00e3o afirma que teve respaldo judicial.\u00a0<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"622\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/a\/6\/csm_franciane5_a0e5104a29.jpeg\" width=\"1000\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Franciane rev\u00ea fotos do filho assassinado<\/strong> (Foto: CORREIO)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Em uma troca de e-mails anexado ao processo movido por Franciane, o diretor do IML, em Salvador, escreveu que o dilema quanto ao destino de partes tiradas do corpo humano s\u00e3o ???um problema enfrentado por hospitais e IMLs???.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A Bahia possui 30 IMLs para 417 munic\u00edpios, mas s\u00f3 um laborat\u00f3rio de gen\u00e9tica, o de Salvador. Um m\u00e9dico legista que pediu anonimato explica que, quando um cad\u00e1ver est\u00e1 extremamente comprometido (como em casos de carboniza\u00e7\u00e3o), a sa\u00edda pode ser extrair material gen\u00e9tico da polpa dent\u00e1ria ou do f\u00eamur. Ambos s\u00e3o ricos em c\u00e9lulas.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;Mas o resultado pode demorar muito, meses at\u00e9. Depende da quantidade de trabalho e da expertise do perito&#8221;<\/strong>, explica.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">No Brasil, n\u00e3o existe legisla\u00e7\u00e3o sobre a destina\u00e7\u00e3o de peda\u00e7os retirados para o DNA. No IML da capital baiana, eles podem ser incinerados em ton\u00e9is especiais. Se essa pe\u00e7a for entregue, a fam\u00edlia precisa de ordem judicial para juntar os restos mortais. H\u00e1 tr\u00eas anos, em Cravinhos, interior paulista, Itaberli Lozano, homem gay, foi assassinado pela m\u00e3e e o padrasto. O IML demorou sete meses para liberar o corpo para o enterro.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O Supremo Tribunal Federal (STF) entende como abuso de direito a indevida reten\u00e7\u00e3o de restos mortais. O que baseia essa compreens\u00e3o \u00e9 que a in\u00e9rcia na libera\u00e7\u00e3o de um corpo fere a dignidade da pessoa humana, embora n\u00e3o haja prazo legal para a conclus\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Franciane preferia n\u00e3o saber que uma parte do seu filho aguardava no IML. &#8220;Se fosse para descartar, n\u00e3o me contassem&#8221;. Em nota, a Coordena\u00e7\u00e3o de Administra\u00e7\u00e3o Funer\u00e1ria e Atendimento \u00e0 Fam\u00edlia Enlutada de Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es explicou que cumpriu os procedimentos legais vigentes e continua atenta ao &#8220;desenrolar dos fatos jur\u00eddicos pertinentes ao caso???.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O Departamento de Pol\u00edcia T\u00e9cnica (DPT) da Bahia, que coordena as atividades dos IMLs,\u00a0n\u00e3o respondeu \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es feitas pela reportagem. A primeira delas foi enviada h\u00e1 um m\u00eas.\u00a0<\/p>\n<p><strong>&#8216;Achamos um corpo e disseram que morava aqui&#8217;<\/strong><br \/> Passava das 9h do dia 13 de julho de 2020 quando dois policiais bateram \u00e0 porta de Franciane. Como n\u00e3o gosta de visitas surpresas, ela ignorou. Mas as batidas seguiram e um aviso veio: ????? da pol\u00edcia???. Nervosa, levantou da cama e atendeu. Ela lembra detalhes da conversa, pois ningu\u00e9m esqueceria um dia como aquele.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">&#8211; ???Achamos um corpo ali e disseram que ele morava aqui???<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na noite passada, Guilherme avisou que dormiria na casa da tia Viviane, ent\u00e3o deveria haver algum erro. Mas n\u00e3o havia. Um policial sentou no sof\u00e1, outro em uma cadeira. Pediram documentos, Franciane os entregou. Ela insistia que o morto n\u00e3o era seu.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A contragosto dela, um dos agentes mostrou um<em> frame<\/em> de um v\u00eddeo da cena do crime. Nas imagens, o que restou de um corpo. A \u00fanica parte n\u00e3o carbonizada era a canela e o p\u00e9 esquerdo, cal\u00e7ado por uma sand\u00e1lia que Franciane reconheceu ??? foi um presente dela. A limpeza dos dedos tamb\u00e9m dissipou d\u00favidas ??? Guilherme era aficionado por higiene. Era ele o jovem assassinado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A libera\u00e7\u00e3o do corpo, necropsiado no IML de Barreiras, aconteceu dois meses depois, devido \u00e0 demora para a conclus\u00e3o do exame de DNA, em Salvador. Para que o cad\u00e1ver fosse enterrado antes da entrega do osso retido, Franciane tamb\u00e9m precisou de decis\u00e3o judicial. Para bancar o aux\u00edlio jur\u00eddico, ela teve ajuda de familiares e amigos.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Guilherme foi assassinado por dois adolescentes &#8211; um de 16, outro de 14 &#8211; que o agrediram a pedradas e pauladas em frente a uma bodega e queimaram o corpo morto. Havia gente no estabelecimento, mas ningu\u00e9m deu socorro. A Pol\u00edcia Civil apontou a homofobia como motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Um dos assassinos foi levado a uma unidade de interna\u00e7\u00e3o, mas morreu baleado na mesma Rua Ibitiba onde matou, no m\u00eas seguinte. ?? Kauan,\u00a0enterrado ao lado de Guilherme. Antes de morrer, ele dep\u00f4s: &#8220;[Matei por] n\u00e3o gostar de homossexuais&#8221;. O outro assassino est\u00e1 foragido.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No Brasil, a homofobia \u00e9 equiparada ao crime de racismo desde 13 de junho de 2019. Por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 um crime de \u00f3dio cometido contra uma pessoa homossexual e a pena prevista \u00e9 de at\u00e9 cinco anos. Desde o assassinato de Guilherme, ao menos 28 pessoas gays foram assassinadas na Bahia, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), que produz relat\u00f3rios\u00a0sobre crimes contra LGBTQIA+.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Todas as vezes em que a viol\u00eancia contra uma pessoa gay apresenta crueldade, Jos\u00e9 Marcelo\u00a0de Oliveira, desconfia de homofobia. Doutor em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o professor e graduado em Direito estuda os tra\u00e7os da viol\u00eancia na homofobia.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Pedradas, queimar, arrancar o p\u00eanis ou outra parte do corpo. Por exemplo, arrancar a l\u00edngua de uma pessoa \u00e9 simb\u00f3lico ??? porque a l\u00edngua fala. Cortar os dedos ??? ligados ao toque. O criminoso mostra que n\u00e3o faz quest\u00e3o daquela vida???<\/strong>, explica.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Das pessoas gays assassinadas desde 2020 na Bahia, nove foram mortas por m\u00faltiplos disparos, seis a facadas, uma a pauladas\/pedradas (Guilherme) e duas esquartejadas. Para Marcelo, onde e como os crimes s\u00e3o cometidos mostra que \u00e9 preciso discutir a vulnerabilidade social das v\u00edtimas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">&#8220;A viol\u00eancia tem m\u00faltiplas causas. Se a gente discutir o problema para al\u00e9m da homofobia em si, podemos reduzir mortes diretamente&#8221;. Um exemplo disso \u00e9 o desemprego, que atinge 40% das pessoas LGBTQIA+, calcula a Alian\u00e7a Nacional LGBTQIA+. Era o caso de Guilherme.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Sem respostas para os crimes<\/strong><br \/> Todos os dias, desde 2017, Jos\u00e9 Marcelo de Oliveira pesquisa 18 palavras chaves no Google para mapear mortes por homofobia ou transfobia. As reportagens s\u00e3o arquivadas online ??? agrupadas, originam o levantamento anual do GGB, assinado por Oliveira. \u00a0A realidade da homofobia \u00e9 sombreada pela falta de estat\u00edsticas, amenizada pelo esfor\u00e7o de organiza\u00e7\u00f5es independentes.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No Brasil, a homofobia \u00e9 equiparada ao tipo penal do racismo desde junho de 2019 e, como tal, \u00e9 tida como um crime de \u00f3dio contra uma pessoa homossexual. Nos tribunais de execu\u00e7\u00e3o penal, h\u00e1 desconhecimento quanto aos casos de homofobia tipificados como racismo, que pode incorrer em uma pena de cinco anos.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O Estado n\u00e3o tem capacidade t\u00e9cnica para responder quantas e quem s\u00e3o os assassinados pelo \u00f3dio. O Processo Judicial Eletr\u00f4nico, por exemplo, n\u00e3o possui campos que permitam verificar a quantidade de pessoas gays mortas ??? a regra vale para pessoas transexuais e travestis ??? nem quantos criminosos s\u00e3o investigados.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em 2021, aconteceram na Bahia 1342 tribunais do J\u00fari, que tratam de casos de homic\u00eddio e tentativa de homic\u00eddio. Quantos foram contra pessoas LGBTQIA+, ningu\u00e9m parece saber &#8211; ou informar. A dificuldade de acesso a informa\u00e7\u00f5es fidedignas sobre as v\u00edtimas da homofobia come\u00e7a nos registros policiais.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Os t\u00e9cnicos precisam ser preparados para registrar. Se voc\u00ea pegar os boletins do DPT, policiais, h\u00e1 muitos itens sem identifica\u00e7\u00e3o. Isso pode gerar confus\u00e3o ou impossibilidade na hora de julgar???<\/strong>, afirma Marcelo.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\"> No ano passado, a Pol\u00edcia Civil solicitou que no Programa Policial Eletr\u00f4nico (PPE) constasse o termo ???homofobia??? na aba de poss\u00edveis motiva\u00e7\u00f5es de um crime de racismo. Entre janeiro de 2019 e dezembro de 2021, foram 558 casos de viol\u00eancia contra popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ registrados pela PC &#8211; nenhum deles, no entanto, cita ???racismo???, mas ???inj\u00faria???, ???amea\u00e7a???, ???importuna\u00e7\u00e3o??? e ???les\u00e3o corporal???.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A reportagem tentou contato com o delegado de Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es, mas uma servidora informou que ele est\u00e1 de f\u00e9rias. O substituto n\u00e3o atendeu \u00e0s chamadas.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u00a0???Tudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ foge do senso comum. Sempre h\u00e1 retic\u00eancias. E acredito que n\u00e3o haver\u00e1 mudan\u00e7a t\u00e3o cedo, o legislativo nunca legisla a favor???<\/strong>, comenta o juiz Mario Caymmi, presidente da Comiss\u00e3o LGBTQIA+ do Tribunal de Justi\u00e7a baiano. O grupo foca em a\u00e7\u00f5es para a institui\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">As dificuldades e poss\u00edveis erros no enterro comprometem e prolongam o luto, compreendido como os processos de elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica sobre a perda.\u00a0&#8220;?? um desligamento de v\u00ednculo e esse desligamento vem de formar gradual&#8221;, explica a Mestre em Psicologia M\u00f4nica Ven\u00e2ncio, coordenadora t\u00e9cnica do ambulat\u00f3rio do Luto do Hospital das Cl\u00ednicas, em Salvador.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"622\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/2\/b\/csm_franciane4_01a48e8f27.jpeg\" width=\"1000\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Franciane no Cemit\u00e9rio Municipal<\/strong> (Foto: CORREIO)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Mortes violentas e inesperadas, por exemplo, podem gerar um luto ainda mais traum\u00e1tico e engatilhar transtornos de ansiedade, depress\u00e3o, ins\u00f4nia e implica\u00e7\u00f5es na vida social.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A perda costuma ser acompanhada do sentimento de d\u00favida e culpa. &#8220;O que vejo nesta situa\u00e7\u00e3o [de Franciane e Guilherme] \u00e9 que v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es servir\u00e3o como agravantes dessa d\u00favida. Psiquicamente, ela n\u00e3o p\u00f4de fazer o funeral. A\u00ed surge a outra quest\u00e3o, ser\u00e1 que enterraram mesmo? O luto \u00e9 gradual, mas nesse caso h\u00e1 v\u00e1rios empecilhos. ?? como se ela n\u00e3o conseguisse elaborar e sempre ficasse nesse momento inicial&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Marcado para morrer<\/strong><br \/> Franciane desembarcou em Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es aos 12 anos, vinda de uma \u00e1rea rural de Xique-Xique, tamb\u00e9m no oeste baiano. Ela deixou a ro\u00e7a e os av\u00f3s em 1992 para viver com a m\u00e3e, contratada como empregada dom\u00e9stica na ent\u00e3o Mimoso do Oeste. Mudou-se para estudar, mas abandonou o col\u00e9gio aos 14, para trabalhar em uma propriedade agr\u00edcola.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es era um distrito\u00a0e os empregos estavam nas fazendas ou nas casas de fam\u00edlias. Em junho de 1990, pouco antes de Franciane desembarcar por l\u00e1, capangas de pol\u00edticos impediram, aos tapas e chicotadas, pessoas gays de realizarem o que seria uma parada do Orgulho LGBTQIA+. Eles invadiram a festa montados a\u00a0cavalos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A regi\u00e3o ganhava ares de fronteira agr\u00edcola, onde a presen\u00e7a de caminhoneiros \u00e9 constante. Depois de pedir demiss\u00e3o, Franciane recorreu \u00e0s rodovias onde esses motoristas pernoitavam para trabalhar. Aos 16 anos, se faltava comida, vendia o pr\u00f3prio corpo. Aos 19, a barriga espichou. Era o primeiro filho. O pai, &#8220;um namoradinho caminhoneiro&#8221;\u00a0que n\u00e3o constava no registro civil do menino.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na cidade, 429 crian\u00e7as foram registradas sem o nome do pai desde 2016, quando a Associa\u00e7\u00e3o de Registradores de Pessoas Naturais (Arpen) passou a quantificar os \u00a0&#8220;pais ausentes&#8221;. Na Bahia, foram 64.826. \u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Guilherme nasceu no dia 14 de dezembro de 1998. A m\u00e3e\u00a0pariu sozinha no Hospital Eurico Dutra, em Barreiras. Como n\u00e3o teve acesso ao pr\u00e9-natal, descobriu que o filho, quando nasceu, contraiu s\u00edfilis dela. Segundo o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef), 30% das gr\u00e1vidas brasileiras n\u00e3o s\u00e3o acompanhadas, o que prejudica o diagn\u00f3stico precoce de doen\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A m\u00e3e e o beb\u00ea foram imediatamente separados. Guilherme teve alta com um ano de idade, per\u00edodo em que Franciane dependeu de caronas para visit\u00e1-lo em Barreiras. Uma vez, foi agredida por um caminhoneiro. Outra, expulsa pelo motorista do \u00f4nibus, por n\u00e3o ter dinheiro para a condu\u00e7\u00e3o. Nessa \u00e9poca, repetia a trajet\u00f3ria da m\u00e3e como trabalhadora dom\u00e9stica.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Guilherme era um menino que, n\u00e3o sei, acho que era marcado para morrer. Nasceu com uma sina de sofrimento???<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">De alta, Guilherme\u00a0ia ao m\u00e9dico com frequ\u00eancia. Abandonou a escola no sexto ano, um a menos que Franciane. Na vida, eram ele, a m\u00e3e e a av\u00f3 Dora, falecida h\u00e1 tr\u00eas anos. Quando completou 5 anos, Guilherme se despediu da m\u00e3e, que foi a Bras\u00edlia trabalhar como empregada dom\u00e9stica, mas voltou para busc\u00e1-lo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os anos no centro-oeste brasileiro foram de viol\u00eancia. O novo companheiro agredia a ela e o filho. ???Era um homem bom, mas as drogas destru\u00edram ele???. Com ele, Franciane teve mais dois filhos, Erick e M\u00e1rcio. Este faleceu h\u00e1 cinco meses. V\u00edtima de um acidente de tr\u00e2nsito na capital federal, esperou tr\u00eas horas por socorro\u00a0e um dia inteiro por uma vaga hospitalar.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Depois de dez anos em Bras\u00edlia, ela voltou para LEM com os garotos, mas retornou \u00e0 antiga casa para buscar os pertences. Nesse intervalo, o ex-marido veio \u00e0 Bahia no rastro deles e levou os dois filhos consigo. Quando Franciane voltou, era tarde. Por anos, n\u00e3o conseguiu localiz\u00e1-los.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Guilherme j\u00e1 estava crescido, mas n\u00e3o encontrou emprego. Fazia bicos como diarista ou passava horas faxinando a resid\u00eancia. Quando a m\u00e3e lhe deu mais dois irm\u00e3os, passou a cuidar deles com o zelo de um pai que n\u00e3o conheceu ??? no futuro, o irm\u00e3o Wesley choraria pela aus\u00eancia dele.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nos fins de tarde, o jovem enchia um copo de caf\u00e9 e ficava na cal\u00e7ada com vizinhos. Idosos o adoravam &#8211; viam nele algu\u00e9m disposto a ouvir.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Em Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es, &#8216;Parada Gay&#8217; foi impedida com agress\u00e3o<\/strong><br \/> Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es fica \u00e0 margem direita do Rio S\u00e3o Francisco e faz fronteira com\u00a0Tocantins e Goi\u00e1s. At\u00e9 os anos 80, era um territ\u00f3rio esquecido. A composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica do solo\u00a0aniquilava as planta\u00e7\u00f5es. A hist\u00f3ria da cidade come\u00e7ou a ser tra\u00e7ada nos anos 70, depois de uma pesquisa realizada em Bras\u00edlia. O estudo mostrou que as terras do Cerrado, na verdade, eram boas, \u00a0bastava neutraliz\u00e1-las com calc\u00e1rio dolom\u00edtico, encontrado nas proximidades.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Produtores agr\u00edcolas em busca de terras dispon\u00edveis viram em Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es uma oportunidade. Na d\u00e9cada seguinte, protagonizaram a ???corrida para o Oeste??? &#8211; entre os novos residentes, a maioria ga\u00facha que tinha participado da pesquisa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A regi\u00e3o ganhou o nome de Mimoso do Oeste, microssomo do que se tornaria o munic\u00edpio reconhecido em 2000, que cresceria ancorada no agroneg\u00f3cio. Hoje, \u00e9 a sexta cidade mais rica da Bahia, com 87,5 mil habitantes, estima o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Todo o contexto social local \u00e9 ligado ao trabalho agr\u00edcola, ao agroneg\u00f3cio. Quem foi para l\u00e1 foi buscar a grande oportunidade???<\/strong>, explica Ignez Garcia, historiadora.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">O Oeste da Bahia \u00e9 um dos &#8220;territ\u00f3rios priorit\u00e1rios de atua\u00e7\u00e3o&#8221; para a coordenadoria LGBTQIA+ da Secretaria de Justi\u00e7a, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia. &#8220;Temos dificuldade de entrar e fortalecer essa rede. Os locais s\u00e3o escolhidos a partir dos relat\u00f3rios de atendimento e vemos que 70% dos nossos atendimentos s\u00e3o na Regi\u00e3o Metropolitana de Salvador&#8221;, afirma o coordenador Kaio Macedo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Desde de 2018, foram atendidas 5570 pessoas LGBTQIA+ pelo Centro de Promo\u00e7\u00e3o e Defesa dos direitos da Popula\u00e7\u00e3o LGBT &#8211; s\u00f3 tr\u00eas do oeste baiano.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;A palavra \u00e9 aus\u00eancia. Nesse processo de inexist\u00eancia de seguridade da popula\u00e7\u00e3o, as pessoas que poderiam nos representar ou est\u00e1 nessas trincheiras s\u00e3o acuadas&#8221;<\/strong>, opina Hudson Alves, 33, produtor cultural e coordenador municipal, em Barreiras, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Gays, L\u00e9sbicas e Transexuais.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Hudson \u00e9 amigo de um homem gay assassinado nos anos 90. O crime nunca foi solucionado. Ainda viu serem assassinados um banc\u00e1rio (que teve o corpo carbonizado), Sabrina (travesti assassinada a facadas) e, por \u00faltimo, Guilherme. &#8220;O grande problema \u00e9 [as institui\u00e7\u00f5es] irem atr\u00e1s de respostas. H\u00e1 fam\u00edlias que escondem, sentem vergonha&#8221;. \u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em 2008,\u00a0Hudson teve mais provas do acovardamento resultante do medo. Coordenador territorial da primeira Confer\u00eancia Nacional LGBT, buscou quem pudessem participar de debates. &#8220;As pessoas n\u00e3o queriam, para que n\u00e3o soubessem que elas eram gays&#8221;. Desde ent\u00e3o, ele n\u00e3o v\u00ea mudan\u00e7as. O Grupo Gay do Oeste da Bahia, por exemplo, desativou sua atua\u00e7\u00e3o por l\u00e1.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Embora os estudos relacionados \u00e0s viv\u00eancias da diversidade sexual e de g\u00eanero ainda sejam escassos, o pesquisador Elder Luan mostra poss\u00edveis interpreta\u00e7\u00f5es para as correla\u00e7\u00f5es entre a homofobia e transfobia em contextos predominantemente agr\u00edcolas &#8211; cada espa\u00e7o, claro, ter\u00e1 sua pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;De forma geral, d\u00e1 para a gente falar que h\u00e1 um padr\u00e3o de masculinidade ainda mais r\u00edgido nesses espa\u00e7os, uma repress\u00e3o vinda de comportamentos conservadores e os padr\u00f5es rurais, sem estereotip\u00e1-los, costumam ser mais conservadores<\/strong>&#8220;, explica o historiador e doutorando em Estudos de G\u00eanero pela Universidade Federal da Bahia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018, das 33,5 mil pessoas que votaram no segundo turno em Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es, 62% escolheram o presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato de extrema direita alinhado a pautas\u00a0conservadoras.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;?? mais f\u00e1cil que pessoas sejam silenciadas em lugares onde n\u00e3o h\u00e1 rede de apoio. Nas capitais, essa prolifera\u00e7\u00e3o de identidades \u00e9 mais potente, h\u00e1 espa\u00e7os que questionam quest\u00f5es de g\u00eanero&#8221;<\/strong>, completa Elder.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\"> Guilherme tamb\u00e9m n\u00e3o se sentia confort\u00e1vel para ser ??? o entorno for\u00e7ava o sil\u00eancio. ???Ele sempre se calou. Eu insistia, falava. Ali era meu confidente???, recorda Franciane, entre a saudade e a revolta.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">H\u00e1 duas semanas, Viviane, a tia de Guilherme, encomendou pe\u00e7as de m\u00e1rmore para as gavetas onde est\u00e3o enterrados\u00a0a m\u00e3e e do sobrinho. Quer dar um nome a eles. A mensagem na l\u00e1pide de Guilherme ser\u00e1 a \u00faltima postagem dele em uma rede social: &#8220;Ame os seus inimigos, fa\u00e7a o bem \u00e0queles que te odeiam, aben\u00e7oe aqueles que te amaldi\u00e7oam, reze por quem te maltrata. Se algu\u00e9m te bater no rosto, ofere\u00e7a a outra face&#8221;.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um adeus est\u00e1 engasgado na garganta\u00a0de Franciane de Souza, 45 anos, h\u00e1 um ano e oito meses. 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