{"id":195949,"date":"2022-07-31T07:42:55","date_gmt":"2022-07-31T10:42:55","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/07\/pec-kamikase-deixa-uma-legiao-de-sem-auxilio\/"},"modified":"2022-07-31T07:42:55","modified_gmt":"2022-07-31T10:42:55","slug":"pec-kamikase-deixa-uma-legiao-de-sem-auxilio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/07\/31\/pec-kamikase-deixa-uma-legiao-de-sem-auxilio\/","title":{"rendered":"PEC Kamikase deixa uma legi\u00e3o de sem-aux\u00edlio"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Pele queimada de sol, corpo suado, trabalho duro di\u00e1rio e m\u00e3os calejadas. O dia come\u00e7a \u00e0s 4h para Washington Almeida, de 31 anos, que trabalha como chapa ??? empregado bra\u00e7al que presta servi\u00e7os de carga e descarga de caminh\u00f5es ??? na Central de Abastecimento de Minas Gerais (Ceasa Minas), em Contagem, na Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte. Todos os dias, ele faz um verdadeiro plant\u00e3o por l\u00e1 e negocia os pre\u00e7os direto com os motoristas para tentar levar o sustento de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Sempre \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros que precisam de m\u00e3o de obra, os chapas n\u00e3o entraram na PEC de Benef\u00edcios, que concede aux\u00edlio de R$ 1 mil por m\u00eas aos motoristas de cargas pesadas a partir de agosto. Aprovada recentemente, a proposta, tamb\u00e9m apelidada de PEC Kamikaze, tem gerado grande debate e sido descrita como ???eleitoreira???, uma vez que amplia programas sociais do governo de Jair Bolsonaro (PL) em pleno ano de elei\u00e7\u00f5es.<\/p><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Aproveitando uma pausa do trabalho pesado, Washington descansava, na manh\u00e3 da \u00faltima quarta-feira, sentado em seu carrinho, que serviu de cama na noite anterior. ???T\u00f4 aqui desde ontem. Cheguei era 4h, trabalhei na parte da manh\u00e3 e \u00e0 tarde. S\u00f3 fui parar por volta da meia-noite. Coloquei meu colch\u00e3o em cima do carrinho e dormi. Quando foi 5h da manh\u00e3 j\u00e1 estava trabalhando de novo???, conta.<\/p>\n<p>Na profiss\u00e3o h\u00e1 11 anos, ele diz que j\u00e1 tem seus macetes para garantir o sustento da fam\u00edlia. ???Sempre que preciso j\u00e1 durmo por aqui. Se fosse voltar pra casa, nem ia dormir e j\u00e1 teria que vir pra c\u00e1 de novo. J\u00e1 tenho um local onde eu guardo o colch\u00e3o e as minhas coisas???, relata. Segundo ele, al\u00e9m da incerteza do servi\u00e7o, sua renda foi duramente impactada desde o in\u00edcio da pandemia de COVID-19 no Brasil. ???O mercado enfraqueceu muito. Muita gente deixou de comprar. Se a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o compra, n\u00e3o tem transporte. Nosso servi\u00e7o aut\u00f4nomo caiu 50% do que era antes da pandemia???, revela.<\/p><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Como Washington, dezenas de homens madrugam na Ceasa, todos na expectativa de um bom neg\u00f3cio. ???Tem que ser r\u00e1pido, porque \u00e9 um servi\u00e7o muito pesado. Para ganhar dinheiro tem que levantar cedo???, diz. Todo esse esfor\u00e7o para garantir pouco mais de um sal\u00e1rio m\u00ednimo no fim do m\u00eas. Ele conta que tentou pegar o aux\u00edlio emergencial no in\u00edcio da pandemia de COVID-19, mas lhe foi negado.<\/p>\n<p>Para ele, que \u00e9 o \u00fanico respons\u00e1vel pelas despesas da fam\u00edlia, ser inclu\u00eddo na PEC de Benef\u00edcios traria um grande al\u00edvio para o bolso. ???Somos s\u00f3 eu e a minha esposa, mas as contas ainda ficam muito puxadas. Hoje, uma compra para n\u00f3s dois fica na faixa dos R$ 400, sem contar \u00e1gua, luz, \u00e9 muita coisa. O aux\u00edlio pagaria quase uma presta\u00e7\u00e3o da minha casa, ia me ajudar muito???, revela ele, que conseguiu comprar o im\u00f3vel pelo programa de habita\u00e7\u00e3o social Casa Verde Amarela, antigo ???Minha Casa, Minha Vida???.<\/p><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Willy Nelson de Oliveira Lobo, de 33 anos, \u00e9 chapa fichado em uma das empresas da Ceasa. ???Fui pegando bico at\u00e9 aparecer essa oportunidade. ?? um dos servi\u00e7os mais pesados, porque aqui a gente carrega ra\u00e7\u00e3o para cachorro, cavalo. Mas as condi\u00e7\u00f5es de trabalho s\u00e3o melhores, porque tem o sindicato n\u00e9???, aponta.<\/p>\n<p>Ele pega servi\u00e7o \u00e0s 7h, mas, muitas vezes, n\u00e3o tem hora para parar. ???A situa\u00e7\u00e3o aqui todo dia \u00e9 essa. N\u00e3o tem hora de ir embora???, conta. At\u00e9 o in\u00edcio desse m\u00eas, ele tamb\u00e9m era o \u00fanico respons\u00e1vel pelo or\u00e7amento familiar.<\/p>\n<p>???Minha esposa estava desempregada, mas conseguiu um emprego agora???, conta. Ainda assim, ele diz que qualquer valor de aux\u00edlio do governo j\u00e1 ajudaria nas despesas de casa. ???A compra que eu fazia de R$ 500 no m\u00eas agora \u00e9 R$ 700, e olha que somos s\u00f3 eu, minha esposa e nossa filha. O aumento do sal\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 repassado de acordo com aumento das despesas no nosso dia a dia???, avalia.<\/p><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<b style=\"color: #111111; font-family: roboto, sans-serif; font-size: 27px;\">PAGANDO PARA TRABALHAR&nbsp;<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>Dirigindo 12 horas di\u00e1rias, sem folgar nem um dia da semana, nem mesmo aos domingos ou feriados, o motorista por aplicativo Anderson Ferreira, de 40, diz que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho est\u00e3o cada vez mais prec\u00e1rias. ???Come\u00e7o por volta das 5h30. Tem hora que a gente fica muito tempo parado, e quando chama \u00e9 uma viagem ruim. Estamos praticamente pagando para trabalhar. Imagina voc\u00ea rodar tr\u00eas quil\u00f4metros e receber s\u00f3 R$ ? Isso sem contar que ainda tem o deslocamento at\u00e9 o passageiro para depois seguir viagem at\u00e9 o destino dele???, pontua.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 seis anos, ele se tornou um dos 600 mil motoristas do Uber do Brasil. Ele conta que as muitas horas em frente ao volante causam dores nos ombros e nas costas ao fim de mais um longo dia de trabalho. ???Esse momento est\u00e1 sendo um dos piores. D\u00e1 pra levar, d\u00e1 para pagar as contas, mas falar que estamos ganhando rios de dinheiro, n\u00e3o. Estamos apenas pagando as contas???, lamenta.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Anderson e outros motoristas e entregadores por meio de aplicativos tamb\u00e9m ficaram de fora da proposta do governo federal, que, por outro lado, concedeu benef\u00edcios mensais aos taxistas cadastrados nas prefeituras. Est\u00e3o previstas seis parcelas de R$ 1 mil, que come\u00e7am a ser pagas em 16 de agosto, quando v\u00e3o receber R$ 2 mil. O aux\u00edlio ocorre somente at\u00e9 dezembro, assim como o Aux\u00edlio Brasil de R$ 600. Anderson avalia que a categoria \u00e9 invis\u00edvel aos olhos do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>???Eu acho que tinha que ser igual. O mesmo direito que eles t\u00eam seria bom pra gente tamb\u00e9m. Estamos nas ruas da mesma forma que os taxistas???, reivindica. Ele lembra, ainda, que o pre\u00e7o do combust\u00edvel est\u00e1 inviabilizando a profiss\u00e3o. ???Com a gasolina oscilando de pre\u00e7o o tempo todo est\u00e1 muito dif\u00edcil rodar. No m\u00eas de f\u00e9rias, ent\u00e3o, o movimento vai l\u00e1 embaixo e as corridas n\u00e3o est\u00e3o com valores atrativos???, comenta.<\/p><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Trabalhar mais e ganhar cada vez menos se tornou uma realidade para diversos motoboys e entregadores por aplicativos. ???N\u00f3s fomos muito solicitados no in\u00edcio da pandemia, mas depois deu uma reduzida dr\u00e1stica. Tenho trabalhado muito mais horas por dia, mas isso n\u00e3o reflete em mais dinheiro no bolso???, aponta o motoboy Jean Marcel Lana Fortini, de 42 anos.<\/p>\n<p>Ele ainda ressalta os gastos com manuten\u00e7\u00e3o veicular e registros s\u00f3 para conseguir trabalhar. ???Tem um monte de coisa que a gente corre atr\u00e1s, renovar carteira, placa vermelho, manuten\u00e7\u00e3o da moto, que desgasta bastante com o uso di\u00e1rio???, afirma. Para ele, o aux\u00edlio do governo deveria ser estendido a todas as categorias de trabalhadores informais. ???N\u00f3s tamb\u00e9m somos aut\u00f4nomos, igual o taxista e o caminhoneiro. Entendemos que eles realmente merecem, mas n\u00f3s tamb\u00e9m. N\u00e3o tem por que ficarmos de fora dessa???, reclama o motoboy.<\/p><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o entregador que usa bicicleta, por sua vez, depende essencialmente da for\u00e7a f\u00edsica para trabalhar. Em uma cidade como Belo Horizonte, cheia de morros e sem muitas op\u00e7\u00f5es seguras de travessia, isso \u00e9 um desafio e tanto.<\/p>\n<p>Ciclistas ouvidos pela reportagem do<b> Estado de Minas <\/b>relatam fazer jornadas de mais de 12 horas di\u00e1rias, muitas vezes sem folgas. ???A gente \u00e9 novo, mas tamb\u00e9m temos que ajudar em casa???, conta o entregador de bicicleta Carlos Eduardo Soares, de 18. Trabalhando h\u00e1 seis meses com entregas, ele costuma pedalar cerca de 60 quil\u00f4metros por dia, o que equivale a tr\u00eas vezes a dist\u00e2ncia entre Belo Horizonte e Contagem. ???Moro com meus pais, ajudo a pagar as necessidades b\u00e1sicas, conta de luz, \u00e1gua. Ter o aux\u00edlio iria ajudar muito???, comenta.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<b><\/b><b>DESPESAS EM ALTA&nbsp;<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A rotina dos motoristas de \u00f4nibus em Belo Horizonte tamb\u00e9m \u00e9 de cansa\u00e7o, estresse e muitas horas de trabalho. Esses profissionais t\u00eam suas necessidades invis\u00edveis para a sociedade. No tr\u00e2nsito, s\u00e3o encarados como vil\u00f5es. Se o \u00f4nibus atrasa ou quebra no meio do caminho, \u00e9 muitas vezes sobre eles que os passageiros descontam sua raiva. ???Hor\u00e1rio para pegar tem, hora pra parar, n\u00e3o. ??, em m\u00e9dia, oito horas por dia, mas pode ser mais. Depende do percurso, do tr\u00e2nsito???, conta Ivaldo Dantas, de 41, que trabalha h\u00e1 quinze anos como motorista de \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Com uma express\u00e3o cansada, ele diz se sentir muito desvalorizado, at\u00e9 mesmo pelos passageiros que faltam com educa\u00e7\u00e3o e respeito nas viagens. ???N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil???, afirma. As condi\u00e7\u00f5es financeiras da profiss\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o as melhores. ???Seria bom ter aux\u00edlio. Mesmo que a gente esteja fichado, as despesas de casa est\u00e3o muito caras. N\u00f3s temos conta, aluguel, condom\u00ednio. Qualquer valor ajuda???, complementa Wantuil Machado Martins, de 39, tamb\u00e9m na profiss\u00e3o h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pele queimada de sol, corpo suado, trabalho duro di\u00e1rio e m\u00e3os calejadas. 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