{"id":196384,"date":"2022-08-01T06:30:44","date_gmt":"2022-08-01T09:30:44","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/sabores-guardados-na-memoria\/"},"modified":"2022-08-01T06:30:44","modified_gmt":"2022-08-01T09:30:44","slug":"sabores-guardados-na-memoria__trashed","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/01\/sabores-guardados-na-memoria__trashed\/","title":{"rendered":"Sabores guardados na mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Entre tantas frases interessantes que li nos murais dispostos nas paredes do Museu da L\u00edngua Portuguesa, em S\u00e3o Paulo, um depoimento me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Nele, Dorival Caymmi relembra a passagem das vendedoras de acaraj\u00e9 e abar\u00e1 pelas ruas de Salvador \u00e0 noite. Com seu canto que parece existir desde o princ\u00edpio do mundo, Caymmi sempre se inspirou no linguajar das pessoas simples que habitavam a cidade. Deve a elas muitas de suas can\u00e7\u00f5es, que evocam uma ancestralidade profunda.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ele conta: ???Eu era menino e j\u00e1 me impressionava o preg\u00e3o da negra vendedora de acaraj\u00e9. Quanto mais distante, mais me parecia um lamento. O preg\u00e3o era em nag\u00f4, na l\u00edngua geral dos negros, e enchia-me os ouvidos de m\u00fasica e de nostalgia: ????? acaraj\u00e9 ec\u00f3 olalai \u00f3???, e continuava em portugu\u00eas ???Vem benz\u00ea-\u00ea-em, t\u00e1 quentinho???, para logo marcar o abar\u00e1: ???l\u00ea abar\u00e1???. N\u00e3o havia noite que eu n\u00e3o ouvisse???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Caymmi prossegue: ???A negra era pontual com seu tabuleiro pela minha rua: pelas 10 horas da noite ela passava. E al\u00e9m do preg\u00e3o, ela, ao descansar o tabuleiro pra vender o acaraj\u00e9 apimentado e o abar\u00e1, costumava dizer aquilo que, anos depois, eu tomaria para a letra da m\u00fasica que fiz. Era quase um resmungo: ???Todo mundo gosta de acaraj\u00e9, mas o trabalho que d\u00e1 pra fazer \u00e9 que \u00e9.??????<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Meus pais chegaram a viver esse tempo em que vendedoras sa\u00edam tarde da noite oferecendo suas iguarias. Elas passavam pela rua principal da Soledade, onde eles moravam, entoando frases provavelmente muito semelhantes \u00e0s que Caymmi descreve. Salvador era ent\u00e3o uma cidade bastante provinciana, com presen\u00e7a maci\u00e7amente negra, ainda mais desigual do que hoje. Meu pai n\u00e3o esquecia o sabor do abar\u00e1 quentinho, servido sem recheio, apenas com camar\u00e3o seco na massa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Hoje, passado tanto tempo, ainda guardo na mem\u00f3ria n\u00e3o o sabor em si, que n\u00e3o alcancei, mas o desejo de saber como era esse sabor. Do mesmo modo, sonhava com o gosto j\u00e1 extinto do ensopado de camar\u00e3o com chuchu que minha m\u00e3e adorava comer quando crian\u00e7a, nas barraquinhas do porto de S\u00e3o Roque, na foz do rio Paragua\u00e7u. Ela vinha de Santa In\u00eas com a fam\u00edlia de trem, passando por cidades do Vale do Jequiri\u00e7\u00e1, at\u00e9 chegar ao porto, onde pegava o navio que a traria para a capital, numa \u00e9poca em que ainda n\u00e3o havia Ponte do Funil nem ferry boat. O pratinho de camar\u00e3o era a atra\u00e7\u00e3o mais apetitosa desse p\u00e9riplo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Garoto gordinho e glut\u00e3o, eu fui forjado na boa mesa. Nada de muito sofisticado, pelo contr\u00e1rio: pratos pesados, densos e deliciosos: feijoadas, dobradinhas, sarapat\u00e9is, moquecas de carne, caruru, vatap\u00e1 e seus coadjuvantes. Certa vez, eu e um primo roubamos os pratinhos com comida baiana destinados a S\u00e3o Cosme e S\u00e3o Dami\u00e3o. Bem, eu era um pequeno b\u00e1rbaro.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O prazer infantil de comer bem \u00e9 dessas coisas que o tempo leva e deixam um vazio na gente. Lugares que n\u00e3o existem mais, onde adorava ir com minha fam\u00edlia, e que mexem muito com minha mem\u00f3ria afetiva ??? olfativa e gustativa tamb\u00e9m. Como o Agd\u00e1, na Boca do Rio, que nos proporcionava um prazer sensorial inigual\u00e1vel. Com sua decora\u00e7\u00e3o escura e carregada, exalava um cheiro inebriante de moqueca. As panelas de barro fervendo, os camar\u00f5es imensos, o caldo amarelo do dend\u00ea. Meu pai costumava pedir o caruru de ef\u00f3, amargo e escuro, diferente do tradicional.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Havia tamb\u00e9m a Churrascaria Alex, em Pitua\u00e7u, outro pouso seguro, onde degust\u00e1vamos o melhor fil\u00e9 do mundo. Havia at\u00e9 mesmo uma lanchonete simples na Carlos Gomes, chamada Good Day, tocada por chineses, que servia esfihas e past\u00e9is inigual\u00e1veis. Ela ainda funciona, p\u00e1lida sombra de um apogeu distante, e passar por l\u00e1 me traz um desalento que s\u00f3 o regresso a lugares onde fomos muito felizes \u00e9 capaz de proporcionar.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Comida \u00e9 afeto, \u00e9 mem\u00f3ria e, em determinado momento da vida, \u00e9 saudade tamb\u00e9m. Como a saudade que sinto dos fil\u00e9s altos cheios de torresmo, das quiabadas e das moquecas de miolo que meu pai preparava tarde da noite, apenas pelo prazer de cozinhar, enquanto lia um jornal e tomava uma cerveja. Espant\u00e1vamos o sono s\u00f3 para terminar a noite de barriga cheia e alma lavada. Era uma prosaica tradi\u00e7\u00e3o familiar que, como muitas outras, virou apenas uma fotografia na parede. Mas como d\u00f3i!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre tantas frases interessantes que li nos murais dispostos nas paredes do Museu da L\u00edngua Portuguesa, em S\u00e3o Paulo, um depoimento me chamou a\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":196385,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-196384","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196384","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=196384"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196384\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=196384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=196384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=196384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}